Por que crise desencadeada pela guerra no Irã pode se tornar 'maior choque petrolífero da história'

Por que crise desencadeada pela guerra no Irã pode se tornar ‘maior choque petrolífero da história’.
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Quando, em 1973, os países árabes produtores de petróleo responderam com um embargo petrolífero ao apoio dos Estados Unidos a Israel na guerra do Yom Kippur, os preços do petróleo quadruplicaram, abalando a economia mundial.
Mais de meio século depois, a relação entre conflitos no Oriente Médio e o preço do petróleo continua sacudindo a economia global.
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Desde que Donald Trump e Benjamin Netanyahu ordenaram ataques contra o Irã, em 28 de fevereiro, e Teerã respondeu ampliando o conflito na região e fechando o Estreito de Ormuz, os preços do barril de petróleo dispararam de US$ 60 para quase US$ 120 na segunda-feira (9/3) — a maior alta já registrada em um único dia. Em seguida, voltaram a cair, estabilizando-se em torno de US$ 90.
Nesta semana, o mundo assistiu ao dia mais volátil da história do mercado de petróleo, provocando pânico nos mercados e — diante da improvisada intervenção do próprio Trump, que afirmou que a guerra está “praticamente concluída” — também nos gabinetes.
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Em uma aparente tentativa de acalmar os ânimos, o presidente americano telefonou para jornalistas. Mas, como explica o correspondente da BBC nos Estados Unidos, Anthony Zurcher, suas explicações estavam longe de ser claras.
“Tenho um plano para tudo, certo?”, disse a um repórter do New York Post quando foi questionado sobre a alta do petróleo. “Tenho um plano para tudo. Você ficará muito feliz.”
À emissora CBS, ele afirmou que a guerra “está praticamente terminada”. Mas, quando perguntado se a operação poderia acabar em breve, respondeu: “Não sei, depende. A conclusão está na minha mente, na de mais ninguém”.
Trump também disse coisas como “já vencemos em muitos aspectos, mas ainda não vencemos o suficiente” e afirmou que seu governo estava “longe” de tomar uma decisão sobre enviar tropas americanas ao Irã.
Seu frenesi de telefonemas, somado a uma reunião de ministros das Finanças do G7 (grupo composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), na qual surgiu o rumor de que poderiam liberar 300 milhões de barris de reservas de emergência, ajudou a acalmar os mercados e conter a escalada dos preços.
Mas, como o próprio Trump admitiu, ninguém sabe exatamente o que se passa em sua mente. Por isso, a situação, como observa o editor de economia da BBC, Faisal Islam, “tem potencial para se tornar o maior choque petrolífero da história”.
Por enquanto, a guerra não terminou, e tampouco o grande gargalo que fez esta crise saltar das bombas para os mercados: o bloqueio do Estreito de Ormuz.
Dezenas de navios permanecem atracados no porto por causa do fechamento do estreito de Ormuz, como estes em Mascate, Omã.
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Embora o petróleo tenha hoje menos peso na produção e no consumo mundiais do que tinha na década de 1970, ele continua sendo um dos principais motores da economia global. E as consequências da interrupção no fornecimento — a maior da história — já começam a ser sentidas no bolso de milhões de pessoas.
Setores como transporte e petroquímica são particularmente sensíveis às altas do petróleo, que também afetam a indústria pesada e o setor agroalimentar. Uma interrupção prolongada pode ter consequências graves para economias dependentes do petróleo do Golfo Pérsico, especialmente na Ásia.
Se a inflação subir, as repercussões políticas da guerra — inclusive para o próprio Trump, que enfrentará eleições legislativas em novembro — também podem aparecer nas urnas.
O mundo “atravessa a crise energética mais grave em décadas e, potencialmente, a mais séria desde os grandes choques petrolíferos dos anos 1970”, afirma Rafael Pampillón, professor de economia da IE Business School.
Aquelas crises — especialmente a provocada pelo embargo petrolífero árabe de 1973 e pela revolução iraniana de 1979 — combinaram interrupções físicas no fornecimento, fortes aumentos de preços e um contexto geopolítico extremamente instável, explica o professor à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
A situação atual reúne vários desses elementos.
Imagem ilustra produção de petróleo com bandeira do Irã ao fundo.
Reuters via BBC
O fechamento do Estreito de Ormuz, chave da crise
“O Estreito de Ormuz é o maior gargalo energético do planeta”, explica Rafael Pampillón à BBC Mundo.
Por ali, passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo e 25% do que é transportado por via marítima. Também transitam por suas águas cerca de 30% do gás natural liquefeito (GNL). A guerra interrompeu esse fluxo.
Até 27 de fevereiro, cerca de 37 petroleiros atravessavam diariamente Ormuz. Poucos dias depois do início do conflito, esse número caiu praticamente a zero.
A instabilidade e a incerteza já influenciam os preços do petróleo, mas o bloqueio desse corredor estratégico — que pode obrigar países produtores a interromper a extração porque os navios carregados não conseguem sair e os estoques se esgotam — afeta “diretamente os preços globais da energia”, afirma Pampillón.
E por que fechar temporariamente os poços não é uma boa opção? Porque, ao contrário do que ocorre com uma torneira de água, os poços de petróleo não são fáceis de fechar e, sobretudo, de reabrir. Além das dificuldades técnicas, eles podem perder pressão e nunca recuperar o nível original de produção.
A Guarda Revolucionária Islâmica afirmou que não permitirá a passagem de “nem um único litro” por essa rota marítima enquanto Israel e os Estados Unidos continuarem seus ataques. Trump, por sua vez, prometeu que “morte, fogo e fúria” cairão sobre o Irã caso o fluxo de petróleo seja interrompido.
Diversos países já adotaram medidas emergenciais diante da “maior crise” já enfrentada pela indústria energética da região, nas palavras do diretor da Saudi Aramco, a petrolífera estatal da Arábia Saudita e maior exportadora de petróleo do mundo.
Segundo Amin Nasser, haverá “consequências catastróficas” para o mercado global de petróleo se o conflito continuar interrompendo o tráfego marítimo no estreito de Ormuz.
O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que navios militares de seu país poderiam escoltar petroleiros e embarcações comerciais pelo estreito de Ormuz quando a intensidade dos ataques diminuir.
Getty Images via BBC
O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que irá enviar uma dezena de navios de guerra para a região, com o objetivo de escoltar navios comerciais pelo Estreito de Ormuz, “assim que a fase mais intensa do conflito terminar”, declarou ele no Chipre na segunda-feira.
Foi o que os Estados Unidos e outras potências tiveram de fazer nos anos 1980 durante a guerra entre Irã e Iraque, quando vários navios mercantes e petroleiros foram atacados no Golfo Pérsico.
Mesmo assim, lembra Pampillón, o estreito nunca deixou de funcionar completamente.
Uma guerra assimétrica
“O Irã parece estar explorando uma forma clássica de coerção assimétrica: como não consegue igualar os EUA e Israel em capacidade militar convencional, tenta transformar o sistema energético regional em um multiplicador de custos”, explica à BBC News Mundo Omar Rachedi, economista e senior fellow da EsadeGeo, o centro de economia global e geopolítica dessa universidade espanhola.
Embora pareça incapaz de vencer no campo militar, Teerã está demonstrando que tem capacidade de afetar o sistema energético mundial, elevando o custo econômico e político de qualquer conflito que o ameace.
Em termos de teoria estratégica, afirma o economista, o Irã “está tentando transformar uma inferioridade militar relativa em poder de negociação por meio de um gargalo global”.
Ao atacar instalações, terminais, refinarias e o tráfego marítimo, o país encarece a guerra para Washington, seus aliados do Golfo e os grandes consumidores de energia na Ásia e na Europa, buscando pressioná-los por um cessar-fogo ou por uma contenção da escalada.
Mas esse não é o único objetivo, segundo especialistas. “Também se trata de enviar uma mensagem de dissuasão regional”, afirma Pampillón.
Com esses ataques, Teerã sinaliza aos seus vizinhos do Golfo que qualquer envolvimento direto no conflito poderá trazer consequências econômicas graves — e também demonstra que eles não podem ser totalmente protegidos.
Essa aposta, no entanto, pode acabar se voltando contra o próprio Irã. “Atacar a infraestrutura energética de seus vizinhos pode reforçar — e não enfraquecer — o alinhamento do Golfo com Washington. É uma estratégia racional dentro da lógica da coerção, mas extremamente arriscada em seus efeitos indiretos”, avalia Rachedi.
Quem são os principais prejudicados
O impacto desta crise energética, cujo alcance ainda é impossível prever, se espalha em cascata por toda a economia mundial. Alguns setores e regiões, porém, são especialmente vulneráveis.
Em primeiro lugar, os setores “intensivos em combustíveis líquidos e aqueles que dependem do Golfo como corredor físico”, explica o economista da EsadeGeo.
O transporte, especialmente a aviação, é talvez o exemplo mais evidente: o combustível para aviões disparou 72% em Singapura, atingindo um recorde, e desde o fim de fevereiro cerca de 37 mil voos foram cancelados, lembra Rachedi.
Quando o preço do petróleo sobe, esses setores veem seus custos operacionais aumentarem imediatamente, o que costuma se traduzir em passagens mais caras e tarifas logísticas mais elevadas.
A indústria petroquímica também é diretamente afetada, já que muitas matérias-primas industriais, como plásticos, fertilizantes, produtos químicos e fibras sintéticas, derivam do petróleo ou do gás natural, lembra Pampillón.
O mesmo ocorre com a indústria pesada: aço, cimento e alumínio são altamente intensivos em energia.
O diretor da maior petrolífera do mundo, a Saudi Aramco, alertou para “consequências catastróficas” para o mercado global de petróleo se o fechamento do estreito de Ormuz se prolongar.
Reuters via BBC
Já há sinais disso em diferentes setores. Segundo Rachedi, começam a surgir tensões no mercado de fertilizantes na Índia, além de cortes de produção ou paralisações em refinarias e complexos petroquímicos na Ásia.
“Em outras palavras: o choque começa na energia e na logística, mas acaba se espalhando para a indústria, os alimentos e os preços ao consumidor”, resume o economista.
E quais economias ficarão mais expostas a essa crise?
Para começar, as economias produtoras de petróleo do Golfo, com o Iraque como seu caso mais extremo: sua produção caiu cerca de 70%, de cerca de 4,3 para 1,3 milhão de barris por dia em um país em que mais de 90% das receitas públicas dependem do petróleo.
Outros países, como a Arábia Saudita, começaram a reduzir a produção e a redirecioná-la por um oleoduto que leva o petróleo até o porto de Yanbu, no mar Vermelho, evitando assim os riscos do estreito de Ormuz.
Essa rota alternativa, porém, não tem capacidade para absorver toda a produção do reino — o que ajuda a explicar o tom alarmista das declarações do diretor da Aramco.
Os grandes importadores asiáticos também estão entre os mais vulneráveis.
China, Índia, Japão e Coreia do Sul estão entre os maiores importadores de petróleo do mundo — e uma parcela significativa desse petróleo chega da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, do Kuwait e do Iraque, passando justamente pelo estreito de Ormuz.
Pequim comprou em 2025 mais de 80% do petróleo iraniano, apesar das sanções internacionais. Ao mesmo tempo, nos últimos anos desenvolveu algumas vantagens estratégicas que podem amortecer o impacto de uma crise energética global: diversificou fornecedores, acumulou grandes reservas estratégicas e possui um vasto setor de refino, explica Pampillón.
No curto prazo, dizem especialistas, a China está relativamente protegida. Mas, se a crise se prolongar, seu impacto poderá atingir também a economia chinesa.
A Europa, cada vez mais dependente do gás natural liquefeito (GNL), especialmente desde o início da guerra na Ucrânia, também pode sentir os efeitos, assim como economias emergentes dependentes da importação de combustíveis e com moedas mais frágeis.
Os Estados Unidos, que sofreram duramente com o embargo petrolífero dos países árabes nos anos 1970, hoje dispõem, segundo Rachedi, de mais instrumentos para amortecer o impacto, embora não para neutralizá-lo completamente.
O país é atualmente o maior produtor mundial de petróleo e gás, o que reduz sua dependência de importações.
Além disso, possui um dos maiores estoques emergenciais de petróleo do mundo: a Reserva Estratégica de Petróleo, que pode ser utilizada para estabilizar o mercado ou compensar interrupções temporárias no fornecimento.
Mesmo assim, o mercado de petróleo é global. “Se o preço internacional do petróleo subir de forma significativa, os consumidores americanos também sentirão o impacto no preço da gasolina e do diesel”, afirma Pampillón.
Efeitos políticos
Nos Estados Unidos, o preço dos combustíveis é um dos indicadores econômicos mais visíveis para os eleitores, pois afeta diretamente o orçamento cotidiano das famílias.
Para muitos americanos, o preço da gasolina resume o custo de vida: quando sobe, aumenta o preço do transporte, dos alimentos e de muitos bens de consumo, reduzindo o poder de compra.
Se a crise energética se prolongar, poderá trazer consequências graves para Donald Trump nas eleições legislativas de meio de mandato que os Estados Unidos realizarão em novembro.
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No caso de Trump, que enfrenta eleições em novembro e estabeleceu como prioridade reduzir a inflação e baixar as taxas de juros, a alta do petróleo ameaça diretamente sua narrativa econômica.
Estudos comparativos sobre choques petrolíferos anteriores mostram, lembra Rachedi, que aumentos no preço do petróleo reduzem sistematicamente as chances de candidatos que buscam a reeleição.
Se a crise continuar durante o verão e o outono no Hemisfério Norte, “o impacto eleitoral para os republicanos em novembro provavelmente será negativo e nada desprezível”.
O efeito na América Latina
Na América Latina, o impacto de uma crise energética depende muito do perfil energético de cada país.
Segundo especialistas, os principais beneficiados tendem a ser exportadores líquidos de petróleo, como Brasil, Guiana, Argentina e, com algumas ressalvas, Colômbia.
Especialistas acreditam que os principais beneficiados serão os exportadores de petróleo bruto, como o Brasil, a Guiana, a Argentina e, com algumas nuances, a Colômbia.
A Argentina ganha “porque Vaca Muerta continua melhorando seu saldo energético externo”, em referência à região produtora de petróleo do país. Já na Colômbia, “preços mais altos podem aumentar o caixa e a capacidade de investimento da Ecopetrol”, afirma Rachedi.
No caso do México, embora o país continue sendo produtor de petróleo, “sua produção caiu nas últimas décadas e ele importa grandes volumes de gasolina e outros combustíveis refinados, o que torna o efeito líquido de preços altos mais complexo”, acrescenta Pampillón.
Os mais prejudicados, segundo os economistas, tendem a ser os importadores de combustíveis do Caribe e de parte da América Central, além de países como Chile e Peru.
Também entram nessa lista países como a Bolívia, que mantêm subsídios aos combustíveis, o que se torna particularmente pesado para as contas públicas quando o preço do petróleo sobe.

'Caso ela diga não': como redes sociais expõem usuários a 'níveis chocantes de misoginia', segundo pesquisa global

Trend ‘Caso ela diga não’ estimula violência contra as mulheres e vira caso de polícia
A Polícia Federal (PF) abriu um inquérito para investigar a divulgação nas redes sociais da trend “Caso ela diga não”, que incita a violência contra mulheres.
Os vídeos, que viralizaram no TikTok, mostram jovens ensinando como responder uma mulher diante de uma rejeição, como a recusa de um pedido de namoro, por exemplo. Eles aparecem dando socos e chutes em manequins que representariam mulheres.
Segundo a PF, a remoção dos conteúdos já foi solicitada à plataforma. O TikTok afirmou que os conteúdos violam as regras da plataforma e que foram removidos após serem identificados.
As publicações vieram à tona dias depois de um outro caso gerar revolta no país: uma adolescente de 17 anos denunciou ter sido vítima de um estupro coletivo no Rio de Janeiro.
De acordo com a denúncia, o ataque ocorreu em 31 de janeiro, em um apartamento em Copacabana, e foi classificado pela polícia como “emboscada planejada”.
Segundo as investigações, a adolescente foi convidada por mensagem pelo ex-namorado para ir à casa de um amigo. Ao chegarem ao prédio, ele teria insinuado que fariam “algo diferente”, proposta recusada por ela.
De acordo com a adolescente, enquanto mantinham uma relação sexual consensual, outros quatro rapazes entraram no quarto, cometendo violências sexuais e físicas contra ela.
Imagens exibidas pelo Fantástico, da TV Globo, mostraram os cinco jovens acusados de envolvimento no estupro comemorando o acontecido e debochando da vítima.
Nas imagens, eles aparecem rindo e conversando no elevador, após deixar o apartamento. “A mãe de alguém teve que chorar hoje, porque as nossas mães…”
Vídeo no elevador expõe deboche após estupro coletivo em Copacabana
A Justiça decretou a prisão preventiva de quatro jovens. Um menor foi apreendido. Os réus negam o crime.
Ao se apresentar na delegacia na última semana, um dos investigados por participar do estupro, Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, usava uma camisa com a frase em inglês “regret nothing” (“não me arrependo de nada”, na tradução para o português).
A expressão é frequentemente associada a grupos da chamada “machosfera”, comunidades online que propagam misoginia e subjulgação das mulheres.
‘Regret nothing’: frase de réu por estupro coletivo expõe cultura misógina
Nos últimos anos, essas comunidades ganharam visibilidade ao promover narrativas que culpabilizam mulheres por relações afetivas frustradas, defendem hierarquias de gênero e, em alguns casos, incentivam comportamentos violentos.
Esse fenômeno preocupa pesquisadores, que identificam uma reversão nas atitudes dos homens mais jovens em relação às mulheres — e apontam as redes sociais como motor dessa mudança.
Segundo um estudo global realizado pela empresa de pesquisas Ipsos e pelo King’s College de Londres, os homens da geração Z — nascidos entre 1996 e 2012 — têm mais propensão do que os baby boomers — nascidos entre 1945 e 1965 — a acreditar que as esposas devem “obedecer” seus maridos.
O estudo envolveu 23 mil pessoas de 29 países e demonstrou que até 31% dos homens adolescentes e na casa dos 20 anos de idade acreditam que “a esposa deve sempre obedecer seu marido”, enquanto 13% dos homens mais velhos, com 60 anos ou mais, concordam com esta mesma afirmação.
Em entrevista à BBC News, a professora Heejung Chung, que dirige o Instituto Global para a Liderança das Mulheres do King’s College de Londres, disse não há dúvidas que as redes sociais desempenham “enorme papel” na mudança de opinião.
Isso ocorre, segundo ela, porque os influenciadores e políticos “exploram as reclamações das pessoas” e “tentam recapturar parte do sentimento de serem enfraquecidos pela geração mais jovem”.
Eles fazem isso sugerindo que os homens precisam reafirmar sua dominância e seu papel de protetores e provedores, explica Chung, que é uma das autoras do estudo.
“As pessoas estão imitando o que veem nas redes sociais sem realmente compreender o que aquilo significa.”
Penny East, executiva-chefe da Sociedade Fawcett — uma organização de defesa dos direitos das mulheres com sede no Reino Unido — concorda. Para ela, os “níveis chocantes de misoginia, online e offline”, a que os meninos são expostos contribuem para essas atitudes.
“É quase surpreendente que os meninos possam não assumir esse comportamento misógino, considerando o conteúdo oferecido a eles diariamente em termos do que eles consomem na internet”, afirmou.
‘Tudo indo na direção errada’
O número de mulheres mais jovens que acreditam que as esposas devem obedecer aos seus maridos foi menor que o de homens na pesquisa, mas esta proporção ainda era mais alta que a dos homens da geração baby boomer.
Questionada sobre qual poderia ser o motivo, East aponta novamente as redes sociais.
“Da mesma forma que os homens jovens são ensinados que o caminho para a felicidade é o dinheiro, carros, garotas e força física, existem mulheres sendo ensinadas que o caminho para a felicidade é a ideia tradicional de feminilidade”, explica ela.
“Parte disso é o conteúdo esteticamente agradável que mostra a ‘esposa tradicional’, que fica na cozinha. Mas existe um lado mais sombrio, que se refere à subserviência… Se o homem é o provedor, ele, por isso, manda na casa?”, pergunta ela, retoricamente.
“Parece simplesmente que tudo está indo na direção errada”, lamenta East. “E está afetando os jovens, homens e mulheres.”
Montagem mostra exemplos de vídeos da trend “treinando caso ela diga não”, em que criadores simulam reações violentas após rejeição a pedidos de namoro ou casamento
Reprodução/TikTok
Outras indicações da pesquisa demonstram que, globalmente, 44% das pessoas concordam que “fomos longe demais ao promover a igualdade das mulheres e passamos a discriminar os homens”.
Segundo o organismo de defesa dos direitos das mulheres das Nações Unidas, nenhum país atingiu plena igualdade legal para mulheres e meninas.
As mulheres detêm globalmente 64% dos direitos legais dos homens, “o que as expõem à discriminação, violência e exclusão em todas as fases da vida”, declarou a UN Women.
Penny East afirma que existe um “fenômeno crescente na percepção do público, de que a igualdade das mulheres já fez o necessário”.
Mas esta postura, segundo ela, “ignora as estatísticas nacionais que demonstram, infelizmente, que as mulheres ainda sofrem abusos nas suas próprias casas, continuam sendo importunadas sexualmente nas ruas e ainda ganham menos, em comparação com os homens”.
Projetos de lei contra misoginia no Congresso
Em meio ao debate sobre misoginia e violência contra mulheres nas redes sociais, parlamentares têm apresentado propostas no Congresso Nacional para ampliar os instrumentos legais de enfrentamento a esse tipo de conteúdo.
Na Câmara dos Deputados, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) é autora de um projeto de lei que propõe a criminalização da misoginia e da disseminação de conteúdos associados à chamada cultura “red pill” na internet.
A iniciativa busca responsabilizar publicações digitais que promovam ódio, violência, humilhação ou inferiorização das mulheres, sobretudo em redes sociais, fóruns e comunidades online que difundem ideologias misóginas.
No exterior, vídeos com pessoas simulando golpes em resposta a uma rejeição feminina também viralizaram.
Reprodução/TikTok
No Senado, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) deve analisar nos próximos dias um projeto que inclui a misoginia na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989) e tipifica a prática como crime de discriminação.
A proposta, apresentada pela senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), define misoginia como atos que manifestem ódio ou aversão às mulheres com base na ideia de supremacia masculina.
Se aprovado, o texto prevê que a Lei do Racismo passe a punir também crimes praticados em razão de misoginia, ampliando o alcance da legislação atualmente aplicada a casos de discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
* Com a colaboração de Iara Diniz

Porsche anuncia desconto de R$ 660 mil no 911 Turbo S na Argentina após corte de impostos; entenda

Porsche 911 Turbo S tem desconto de R$ 667 mil na Argentina após corte de impostos
Divulgação / Porsche
Na Argentina, a Porsche anunciou um desconto de US$ 128 mil (R$ 667 mil, em conversão direta) no preço do 911 Turbo S. Como mostrou o g1 nesta terça-feira, a explicação está no fim de parte do imposto interno aplicado a veículos, embarcações, aviões e outros itens de maior valor no país vizinho.
Apelidado de “imposto do luxo”, essa alíquota de 18% atingia carros que ultrapassavam 79 milhões de pesos argentinos (R$ 290 mil). Na prática, porém, a taxa chegava a 21,95% por causa da incidência conjunta com outros tributos.
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O imposto era aplicado sobre o valor do carro ao chegar à loja, e não sobre o preço final ao cliente. Após a inclusão das margens da concessionária, ele acabava incidindo, na prática, sobre veículos vendidos por mais de 105 milhões de pesos (R$ 385 mil).
A iniciativa foi aprovada no Senado argentino junto com uma polêmica reforma trabalhista no fim de fevereiro. Outras marcas também anunciaram descontos.
A Audi reduziu em US$ 37 mil (R$ 192 mil, em conversão direta) o preço do RS Q8, que agora custa US$ 250 mil (R$ 1,3 milhão).
A Ford passou a vender o Mustang GT por US$ 65 mil (R$ 338 mil). Antes, o preço de tabela no mercado argentino era de US$ 90 mil (R$ 470 mil), uma diferença de US$ 25 mil (R$ 132 mil).
Já o Mustang Dark Horse, mesma versão vendida no Brasil, custa US$ 75 mil (R$ 390 mil). Antes, essa configuração saía por US$ 97 mil (R$ 505 mil) na Argentina.
Carros da Toyota, Lexus e Mercedes também têm descontos consideráveis, em média de 15%.
Audi RS Q8 na Argentina tem desconto de US$ 37 mil (R$ 192 mil)
Divulgação / Audi
Em fevereiro de 2025, um decreto do presidente Javier Milei já havia reduzido impostos internos sobre carros do segmento médio.
“Esse imposto foi usado como ferramenta de política monetária quando havia uma diferença muito grande entre a cotação do dólar oficial e a do dólar paralelo”, explica Sebastián M. Domínguez, contador especializado em tributação da SDC Assessores, na Argentina.
Segundo Domínguez, durante o governo da presidente Cristina Kirchner as alíquotas subiram com a justificativa de proteger o mercado. Em alguns casos, a taxa de 35% podia chegar a 50% devido à diferença entre as cotações, afirma.
“Havia receio de fuga de dólares, mas hoje já não existe essa diferença tão grande”, diz Domínguez.
Preços caindo e vendas estagnadas
O mercado argentino de automóveis enfrenta baixas vendas desde o fim de 2025. Isso até afetou a produção de carros no Brasil, que viu a Argentina diminuir a demanda por carros brasileiros.
Parte da explicação para esse cenário é o reajuste dos impostos internos promovido por Milei. Há expectativa de ajuste nos preços em cadeia por causa dos grandes descontos, além de mudanças no mercado de usados.
A isenção do imposto, segundo a legislação argentina, passa a valer em 1º de abril. Mesmo assim, várias marcas já anunciam seu portfólio com novos preços e entregas a partir do mês seguinte.
“Aconteceu uma mescla de iniciativas. Algumas marcas já anunciaram descontos ainda maiores, pois se beneficiam também de acordos recentes da Argentina com os Estados Unidos”, explica o tributarista.
Foi o caso dos modelos importados da Ford. Até o fechamento desta reportagem, Alfa Romeo, BMW, Land Rover e Volvo ainda não haviam divulgado novos preços para o mercado argentino.
Sobre uma eventual queda na arrecadação, Domínguez argumenta que o aquecimento da economia pode compensar. “A ideia é que esse corte nos preços estimule as vendas e, com isso, a economia como um todo ganhe”, explica.
A associação de fabricantes de automóveis da Argentina (Adefa) informou em nota que a eliminação definitiva do imposto interno representa um avanço para o setor. Segundo a entidade, a medida corrige distorções acumuladas na formação de preços, ajuda a reorganizar o sistema tributário e devolve previsibilidade às montadoras e a toda a cadeia produtiva.
Renault lança Koleos no Brasil e quer clientes de SUVs chineses