Tarifaço dos EUA: taxa adicional de 25% passa a valer nesta quarta; veja perguntas e respostas

Ana Flor: Pacote de apoio contra tarifaço terá cobrança por emprego
A tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros exportados ao país entra em vigor nesta quarta-feira (22).
A medida foi anunciada após uma investigação do governo Donald Trump concluir que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os EUA. Entre os exemplos citados estão o sistema de pagamentos PIX e a regulação de plataformas digitais.
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As justificativas foram amplamente contestadas pelo governo brasileiro, que considera a medida uma tentativa de interferência em temas internos e considerados inegociáveis. A avaliação em Brasília é de que a tarifa tem motivação política. (leia mais abaixo)
A nova taxa deixa de fora uma extensa lista de produtos, incluindo petróleo, café e carne bovina. Por outro lado, setores como os de etanol, máquinas agrícolas e papel serão afetados pela medida.
Veja abaixo perguntas e respostas sobre a nova tarifa.
O que muda com o tarifaço e quando ele entra em vigor?
Quais são os principais produtos atingidos?
Qual são os impactos para o Brasil?
Como o governo dos EUA justifica a medida?
O que diz o governo brasileiro?
Brasil vai usar a Lei da Reciprocidade Econômica?
Quais podem ser as respostas do Brasil?
Quais medidas o governo brasileiro anunciou até agora?
Tarifas podem aumentar ainda mais?
Imagem de drone do Porto de Santos (SP)
Reuters
O que muda com o tarifaço e quando ele entra em vigor?
Confirmada na noite da última quarta-feira (15) pelo governo Trump, a tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros exportados aos EUA passa a valer nesta quarta-feira (22).
A sobretaxa alcança cerca de 3 mil itens e será cobrada dos importadores americanos no momento em que os produtos brasileiros entrarem nos EUA.
🔎 Na prática, isso aumenta o custo de levar esses produtos ao país e pode desestimular as compras de produtos brasileiros por empresas americanas.
Enquanto isso, outros mais de 2 mil produtos ficaram de fora da medida. Muitos deles foram excluídos por serem considerados estratégicos para a economia americana, seja pelo risco de encarecer produtos essenciais, seja porque o país não produz quantidade suficiente desses itens.
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Quais são os principais produtos atingidos?
Entre os 50 principais produtos brasileiros exportados aos EUA em 2025, ficaram de fora da nova tarifa itens como petróleo bruto, café em grão, aeronaves, carne bovina, celulose, sucos de laranja, ferro-gusa e ferro-nióbio.
Por outro lado, produtos como máquinas industriais, pneus, açúcar, etanol, tabaco, madeira, calçados e alguns itens de alumínio passam a estar sujeitos à tarifa adicional.
VEJA AQUI COMO FICOU CADA ITEM:
Tarifaço de Trump: veja a lista de produtos isentos e impactados
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Qual são os impactos para o Brasil?
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, afirmou que o novo tarifaço atingirá 18% das exportações brasileiras para os EUA.
Segundo ele, o percentual tem como referência as exportações de 2024, ano anterior aos primeiros tarifaços anunciados por Trump. O valor corresponde a US$ 7,4 bilhões (R$ 37,6 bilhões).
Se a base for 2025, a participação dos setores afetados cai para 15%, o equivalente a US$ 5,8 bilhões (R$ 29,4 bilhões). O ministro acrescentou que, com a nova medida, 57% dos produtos exportados pelo Brasil aos EUA permanecerão sem tarifa.
No agronegócio, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que o tarifaço afetará R$ 4,6 bilhões por ano em exportações, o equivalente a 36,5% das vendas do setor aos EUA.
Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, apesar dos segmentos atingidos, a medida não terá impacto sobre “a economia do país como um todo”. Especialistas também avaliam que os efeitos serão restritos, entre outros fatores, pela extensa lista de exceções.
LEIA MAIS:
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Como o governo dos EUA justifica a medida?
A decisão é resultado de uma investigação comercial do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
O mecanismo permite ao governo americano investigar práticas de outros países que considera prejudiciais ao comércio dos EUA.
No relatório final, o USTR afirmou que algumas políticas brasileiras seriam “irracionais” ou “restritivas” e que poderiam “onerar ou restringir” o comércio com os EUA. Entre os temas analisados estão:
PIX e serviços de pagamento: o USTR afirmou que o sistema brasileiro favorece o PIX em detrimento de empresas americanas.
Regulação de plataformas digitais: o órgão questionou decisões judiciais brasileiras envolvendo redes sociais e empresas de tecnologia dos EUA.
Acordos comerciais: os americanos criticaram tarifas preferenciais concedidas pelo Brasil a parceiros como México e Índia.
Desmatamento ilegal: o relatório apontou falhas na fiscalização ambiental.
Mercado de etanol: os EUA alegaram falta de reciprocidade no acesso ao mercado brasileiro.
Propriedade intelectual: o documento citou problemas no combate à pirataria e demora na análise de patentes.
Combate à corrupção: o USTR criticou medidas adotadas pelo Brasil e cita decisões relacionadas à Operação Lava Jato.
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O que diz o governo brasileiro?
O governo classificou o tarifaço como um “marco lastimável” na relação entre os dois países e afirmou que a medida tem motivação política por envolver temas considerados internos e inegociáveis, como o PIX.
Segundo o blog do Valdo Cruz, o presidente Lula (PT) orientou aliados a evitar radicalismos na reação ao tarifaço. Enquanto isso, o vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a medida como “injusta e descabida” e afirmou que o Brasil “não saiu da mesa de negociação”.
Para o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ainda “não cabe falar em retaliação” aos EUA.
“Nós seguiremos protegendo a nossa soberania geológica sem ‘viralatice’ e seguiremos protegendo a nossa democracia contra a interferência internacional indevida”, afirmou.
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Brasil vai usar a Lei da Reciprocidade Econômica?
Na madrugada da última quinta (16), logo após a gestão de Donald Trump confirmar a taxa, o Palácio do Planalto divulgou uma nota em que afirmou que iniciaria os trâmites para acionar a Lei da Reciprocidade Econômica.
🔎 A lei, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada por Lula em 2025, permite que o governo brasileiro adote medidas de retaliação contra países ou blocos econômicos que imponham barreiras comerciais, legais ou políticas ao Brasil.
Até o momento, porém, o governo ainda não anunciou respostas concretas com base na legislação.
Para especialistas ouvidos pelo g1, a reação do governo brasileiro não deve, de fato, vir tão cedo. A avaliação é que a gestão Lula deve manter um tom político duro, mas preservar o diálogo técnico e adotar cautela nas ações práticas — inclusive em um eventual uso da Lei da Reciprocidade.
Uma das preocupações é com uma eventual escalada nas tensões com a gestão de Donald Trump — que pode se irritar com a reação brasileira e responder com novas tarifas.
➡️ Foi o que ocorreu na disputa entre China e EUA, quando a guerra comercial levou as tarifas a níveis superiores a 100% e praticamente paralisou o comércio entre os dois países.
Há, também, o fator eleitoral. Na avaliação de assessores presidenciais, uma retaliação ao governo americano, como a aplicação da reciprocidade, é justamente o que Trump e o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro desejam. Assim, poderiam argumentar que Lula coloca seus planos eleitorais acima dos interesses das empresas brasileiras.
Além disso, os próprios setores afetados pelo tarifaço se posicionaram contra medidas de reciprocidade. Em reuniões com o governo nesta terça-feira (21), empresários do segmento de máquinas defenderam que a resposta seja feita pela via diplomática e empresarial.
Flávio Bolsonaro, Donald Trump e Lula
Montagem – Arte/g1
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Quais podem ser as respostas do Brasil?
Para especialistas, a via diplomática ou o uso cauteloso da Lei da Reciprocidade Econômica, sem uma escalada das tensões, seguem como os principais caminhos para o governo.
Thiago de Aragão, CEO da Arko Internacional, aponta três caminhos possíveis para o Brasil lidar com o tarifaço, diante das acusações feitas por Washington contra o país.
Negociação técnica, item por item. Segundo ele, o etanol está entre os temas com espaço para acordo, enquanto o PIX, considerado inegociável pelo governo, não deve consumir esforço de negociação. “Focar e separar o que é negociável do que não é já é meio caminho.”
Usar a reciprocidade como instrumento de pressão, mantendo a estratégia viva e ativa, mas sem uma data definida. “Ela existe para dar peso ao primeiro caminho. Não para substituí-lo.”
A terceira seria atuar na chamada “segunda mesa”: pressionar, nos EUA, quem pode influenciar a decisão, como empresas americanas, o Congresso e governos locais. “A tarifa é uma decisão do Executivo, mas o impacto é distribuído — e quem sente a dor pressiona seus representantes.”
Enquanto isso, Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, avalia que a Lei da Reciprocidade, se aplicada na medida certa, também pode funcionar como instrumento de pressão nas negociações com os EUA.
“As negociações serão longas. O Brasil tem que procurar fazer outros acordos internacionais, diversificar exportações e, ao mesmo tempo, continuar negociando com os EUA. Se for o caso, aplicar a Lei da Reciprocidade para criar uma pressão”, diz.
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Quais medidas o governo brasileiro anunciou até agora?
O governo federal deve fechar nos próximos dias uma série de ações para conter os efeitos econômicos do novo tarifaço e da alta dos preços dos fertilizantes, insumos essenciais para o agronegócio e afetados pela guerra no Oriente Médio.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou ao blog da Ana Flor que as iniciativas nas duas frentes buscam reduzir os impactos no Brasil de medidas externas.
Uma delas prevê a abertura de uma linha de crédito para empresas misturadoras, responsáveis pela combinação de insumos que resulta nos fertilizantes.
A outra envolve investimentos como complemento ao Plano Brasil Soberano, ainda sem detalhes definidos.
Nesse caso, o governo avalia oferecer crédito a empresas atingidas pelo tarifaço, com exigência de manutenção de postos de trabalho.
🔎 O Plano Brasil Soberano é um programa do governo que oferece linhas de crédito e outras formas de apoio a empresas afetadas por crises externas, como o tarifaço. Criado no ano passado por meio de medida provisória, o programa tem três eixos: fortalecimento do setor produtivo, proteção aos trabalhadores e diplomacia comercial.
Paralelamente, a ApexBrasil, autarquia ligada ao governo federal, prepara um programa de diversificação de mercados para apoiar setores afetados pelas novas tarifas e aproveitar oportunidades do acordo entre Mercosul e União Europeia.
O plano, previsto para o início de agosto, terá investimento de R$ 130 milhões e será desenvolvido em parceria com o setor privado.
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Tarifas podem aumentar ainda mais?
Há essa possibilidade. O governo brasileiro reconhece que os EUA devem aplicar uma sobretaxa adicional de 12,5% por supostas falhas na fiscalização de importações produzidas com trabalho forçado.
A principal dúvida é se essa nova tarifa será acumulada aos 25% que entram em vigor nesta quarta-feira (22). Caso seja cumulativa, os produtos brasileiros poderiam enfrentar uma sobretaxa total de 37,5%.
A possível nova tarifa também é resultado de uma investigação do USTR, com base na Seção 301 da Lei de Comércio, que concluiu que a União Europeia e outros 59 países, incluindo o Brasil, falharam em proibir e fiscalizar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
A confirmação da nova tarifa pode sair na sexta-feira (24). Em entrevista à CNBC, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou nesta terça-feira que as medidas serão anunciadas “em breve”.
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Tarifaço: por que o Brasil evita uma retaliação imediata — e como pode responder aos EUA

Ordem de Lula é evitar reação que dê munição a Trump e Flávio Bolsonaro na crise das tarifas
A tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros exportados ao país entra em vigor nesta quarta-feira (22) sem que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha, até agora, adotado uma retaliação prática à medida.
Após a gestão de Donald Trump confirmar a taxa, o Palácio do Planalto chegou a divulgar uma nota em que classificou a decisão americana como um “marco lastimável” e afirmou que iniciaria os trâmites para acionar a Lei da Reciprocidade Econômica.
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🔎 A lei, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada por Lula em 2025, permite que o governo brasileiro adote medidas de retaliação contra países ou blocos econômicos que imponham barreiras comerciais, legais ou políticas ao Brasil. (leia mais abaixo)
Até o momento, porém, o governo ainda não anunciou respostas concretas com base na legislação. Em entrevista coletiva na semana passada, o vice-presidente Geraldo Alckmin adotou um tom de defesa da soberania, mas se limitou a dizer que a lei será aplicada “no momento adequado”.
A falta de uma reação mais enérgica, ao menos até agora, segue uma orientação do próprio presidente Lula. Conforme mostrou o blog do Valdo Cruz, a estratégia é tentar ampliar a lista de produtos brasileiros isentos da nova tarifa e manter as negociações sem radicalismo.
➡️ A nova tarifa deixa de fora uma extensa lista de produtos, incluindo petróleo, café e carne bovina. Por outro lado, setores como os de etanol, máquinas agrícolas e papel serão afetados pela medida. (veja a lista completa)
Na avaliação de assessores presidenciais, uma retaliação ao governo americano, como a aplicação da reciprocidade, é justamente o que Trump e o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro desejam. Assim, poderiam argumentar que Lula coloca seus planos eleitorais acima dos interesses das empresas brasileiras.
Além disso, os próprios setores afetados pelo tarifaço se posicionaram contra medidas de reciprocidade. Em reuniões com o governo nesta terça-feira (21), empresários do segmento de máquinas defenderam que a resposta seja buscada pela via diplomática e empresarial.
Processo longo
Para especialistas ouvidos pelo g1, a reação do governo brasileiro não deve, de fato, vir tão cedo. A avaliação é que a gestão Lula deve manter um tom político duro, mas preservar o diálogo técnico e adotar cautela nas ações práticas — inclusive em um eventual uso da Lei da Reciprocidade.
Isso porque uma reação precipitada pode trazer riscos que vão além do fator político. O eventual uso da lei, além de exigir amplas análises sobre os impactos para o mercado brasileiro, passa por um processo longo, que inclui uma série de novas discussões.
“A lei prevê várias fases. Primeiro, o caso passa pela Câmara de Comércio Exterior. Depois, por consulta pública. Envolve ainda consultas com o próprio governo dos EUA. Então, não é algo imediato”, explica Welber Barral, ex-secretário do Comércio Exterior.
Exportações brasileiras para os EUA desabam com o tarifaço, mas vendas para outros países compensam
Jornal Nacional/ Reprodução
Quais são os riscos do uso da Lei da Reciprocidade?
Um dos principais receios é o impacto sobre os preços para os consumidores brasileiros. A lógica é simples: caso o governo opte por sobretaxar produtos americanos, o Brasil também encareceria parte de suas importações.
Esse aumento de custos tende a ser repassado aos consumidores finais, criando um efeito duplo negativo para o país, explica o especialista em comércio exterior Jackson Campos.
“O Brasil perderia duas vezes. Primeiro, com as taxas já aplicadas sobre as exportações para os EUA. Depois, quando um eventual imposto de importação é repassado ao consumidor brasileiro”, afirma.
Por isso, o governo trata qualquer reação com cautela. Além da aplicação de tarifas, a Lei da Reciprocidade prevê outros instrumentos de resposta aos EUA — e que seguem em análise.
Especialistas ouvidos pelo g1 apontam os principais:
Patentes: o Brasil poderia suspender parte das regras internacionais de propriedade intelectual, afetando a proteção de patentes de empresas do país alvo da medida.
Serviços: poderia impor tarifas, sobretaxas ou outras restrições sobre serviços prestados por empresas do país alvo.
Investimentos: poderia suspender benefícios, incentivos ou facilidades concedidos a investimentos de empresas do país alvo.
Acordos comerciais: poderia suspender benefícios e concessões previstos em acordos comerciais firmados com o país alvo.
“A lei exige que as medidas tenham contrapartidas e sejam, dentro do possível, proporcionais ao dano sofrido por quem causou esse dano. Além disso, é preciso tentar minimizar os efeitos sobre a economia brasileira”, afirma Jackson Campos.
Enquanto isso, há outro ponto de cuidado no radar do governo brasileiro: a preocupação com uma eventual escalada nas tensões com a gestão de Donald Trump — que pode se irritar com a reação brasileira e responder com novas tarifas.
➡️ Foi o que ocorreu na disputa entre China e EUA, quando a guerra comercial levou as tarifas a níveis superiores a 100% e praticamente paralisou o comércio entre os dois países.
“O próprio documento final emitido pelo governo americano afirma que, se o Brasil aumentar as tarifas em retaliação, Washington pode entender que os 25% não são suficientes e elevar ainda mais a taxa”, lembra Campos.
Quais são, então, as saídas para o Brasil?
Thiago de Aragão, CEO da Arko Internacional, acredita que o principal risco de uma resposta aos EUA é “o Brasil retaliar e se machucar sozinho”.
Ele lembra que a “munição” brasileira é limitada, já que boa parte do que o país importa dos americanos são insumos, máquinas e peças que entram na cadeia produtiva nacional.
“Se você taxa esses produtos, quem paga não é o americano, é o produtor rural de Mato Grosso que precisa da peça do trator. Uma retaliação mal calibrada seria um gol contra com narração épica”, diz.
🔎 Na investigação comercial que resultou na aplicação da tarifa de 25%, o governo Trump afirma que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os EUA, citando temas como o sistema de pagamentos PIX, o acesso ao mercado de etanol, o desmatamento ilegal e a pirataria.
🔎 As justificativas foram fortemente contestadas pelo governo brasileiro, que vê na medida uma tentativa de interferência em políticas internas do país, ao incluir temas considerados inegociáveis, como o PIX. A avaliação em Brasília é de que a tarifa tem motivação política, e não apenas comercial.
Nesse cenário, Aragão aponta três caminhos possíveis para o Brasil lidar com o tarifaço, diante das acusações feitas por Washington contra o país.
Negociação técnica, item por item. Segundo ele, o etanol está entre os temas com espaço para acordo, enquanto o PIX, considerado inegociável pelo governo, não deve consumir esforço de negociação. “Focar e separar o que é negociável do que não é já é meio caminho.”
Usar a reciprocidade como instrumento de pressão, mantendo a estratégia viva e ativa, mas sem uma data definida. “Ela existe para dar peso ao primeiro caminho. Não para substituí-lo.”
A terceira seria atuar na chamada “segunda mesa”: pressionar, nos EUA, quem pode influenciar a decisão, como empresas americanas, o Congresso e governos locais. “A tarifa é uma decisão do Executivo, mas o impacto é distribuído — e quem sente a dor pressiona seus representantes.”
Enquanto isso, Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, avalia que a Lei da Reciprocidade, se aplicada na medida certa, também pode funcionar como instrumento de pressão nas negociações com os EUA.
“As negociações serão longas. O Brasil tem que procurar fazer outros acordos internacionais, diversificar exportações e, ao mesmo tempo, continuar negociando com os EUA. Se for o caso, aplicar a Lei da Reciprocidade para criar uma pressão”, diz.
🔎 A ApexBrasil, autarquia ligada ao governo federal, já prepara um programa de diversificação de mercados para apoiar setores afetados pelas novas tarifas e aproveitar oportunidades do acordo entre Mercosul e União Europeia. O plano, previsto para o início de agosto, terá investimento de R$ 130 milhões e será desenvolvido em parceria com o setor privado.
O governo também informou ao blog da Ana Flor que prepara linhas de crédito para empresas afetadas, condicionadas à manutenção de empregos, além de ações para apoiar a abertura de novos mercados.
Lula e Trump
Adriano Machado/Reuters; Evelyn Hockstein/Reuters
Fator eleições
A proximidade das eleições no Brasil e nos EUA também influencia a movimentação dos dois governos. Por aqui, brasileiros vão às urnas para escolher o novo presidente, governadores, deputados e senadores. Por lá, as eleições de meio de mandato vão renovar a Câmara e parte do Senado.
Com isso, a avaliação dos especialistas é de que as negociações devem se prolongar, sem uma resposta concreta no curto prazo. Também pesa nessa avaliação o fato de que, embora negativas, as tarifas atingem setores específicos e não ameaçam a estabilidade econômica do Brasil.
“O governo brasileiro deve deixar isso um pouco de molho. Sabendo dos riscos de impacto nos preços, aplicar a Lei da Reciprocidade pode ser um tiro no pé a três meses da eleição”, avalia Jackson Campos.
“Acredito que o discurso será de defesa da soberania, mas sem uma ação efetiva.”
Enquanto isso, o grupo político do presidente Lula acompanha os possíveis impactos eleitorais do tarifaço sobre Flávio Bolsonaro, em meio ao envolvimento do pré-candidato do PL nas discussões sobre a medida.
Pesquisa Quaest divulgada na última semana mostrou que a maioria dos brasileiros atribui a Flávio a responsabilidade da decisão dos EUA. Conforme informou o blog do Valdo Cruz, aliados do senador admitem prejuízos para a campanha após a medida do governo Trump.
Thiago de Aragão, CEO da Arko Internacional, ressalta que, diante do cenário, os avanços não vão depender necessariamente de vontade política, mas de calendário. A avaliação é que, de olho nas eleições, haverá uma escalada nos discursos, mas com cautela na prática.
“Muito barulho, nota forte, discurso e, ao mesmo tempo, técnico conversando com técnico às sete da manhã sobre lista de exceções. E as exceções, por sinal, são o termômetro. Se começarem a pipocar isenções setoriais, é sinal de que a coisa está sendo resolvida por baixo, mesmo com o barulho por cima”, diz.
“A janela real de acordo eu vejo depois de outubro. Antes disso, o que dá para fazer é evitar dano permanente e manter os canais vivos — o que é, convenhamos, bem menos empolgante do que uma guerra comercial, mas bem mais útil”, conclui.

Tarifaço de Trump: governo ainda estuda como reagir à taxação que começa nesta quarta

O governo federal ainda avalia quais medidas adotará em resposta às novas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, que começam a valer nesta quarta-feira (22). A decisão foi confirmada pelo governo americano na semana passada.
➡️ A tarifa de 25% sobre produtos brasileiros é resultado de uma investigação comercial do Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês), órgão responsável por formular a política comercial norte-americana. A apuração levou um ano, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que permite ao governo americano apurar e combater possíveis barreiras comerciais em outros países.
Ao longo do processo, representantes do governo brasileiro e de setores da economia participaram de reuniões e audiências com membros do governo norte-americano e apresentaram argumentos contra a adoção das sobretaxas.
A investigação analisou temas como o sistema de pagamentos PIX, regras para plataformas digitais e outras políticas brasileiras apontadas pelos Estados Unidos como possíveis restrições ao comércio (veja mais abaixo).
Governo se reúne com setores para avaliar impacto da nova tarifa dos EUA
Logo após as tarifas serem anunciadas, o governo brasileiro divulgou uma nota em que chamou a decisão de “marco lastimável” na relação entre Brasil e Estados Unidos e afirmou que iniciará os trâmites para acionar a Lei de Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional, junto à Organização Mundial do Comércio (OMC).
🔎A Lei de Reciprocidade é um mecanismo que permite a um país aplicar a outra nação as mesmas medidas, restrições ou tarifas que sofreu por parte dela. Na prática, se um governo estrangeiro impõe sanções ou barreiras unilaterais “injustas”, o Brasil usa a norma para reagir na mesma moeda, adotando restrições equivalentes para reequilibrar as relações e proteger a economia.
A medida é defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desde que os Estados Unidos anunciaram as primeiras tarifas, ainda no ano passado.
Na semana passada, um dia após os Estados Unidos confirmarem a tarifa, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, afirmou que o governo brasileiro avalia usar a Lei da Reciprocidade e que “no momento adequado, saberá como implementá-la”.
“Destacar que nós temos uma lei que é a Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional e que o governo no momento adequado, saberá como implementá-la”, afirmou. “A lei não é retaliatória. Não há retaliação. O que existe uma lei que defendendo o interesse nacional, o interesse dos brasileiros, da economia brasileira”, complementou o vice.
Além disso, o vice-presidente adiantou que o governo terá um programa para ajudar empresas prejudicadas com a nova taxa. No entanto, nenhuma medida ainda foi anunciada oficialmente.
O governo brasileiro tem realizado reuniões com os setores afetados pela nova tarifa para identificar as principais demandas de cada segmento e definir medidas de apoio.
Após os encontros, no entanto, alguns setores afirmaram ser contra a reciprocidade e defenderam a ampliação do plano Brasil Soberano, programa de crédito para as empresas afetadas pelo tarifaço.
Em agosto de 2025, o Amazonas registrou movimentação de US$ 1,41 bilhão na Corrente de Comércio. Do total, as exportações somaram US$ 86,3 milhões e as importações US$ 1,32 bilhão.
Bruno Leão/Sedecti
Negociações
Ao confirmarem o novo tarifaço, os Estados Unidos afirmaram que o governo do presidente Donald Trump tentou negociar com o Brasil ao longo do último ano, mas não obteve sucesso em derrubar as práticas que considera injustas.
Segundo um levantamento da diplomacia brasileira, foram realizados mais de 30 contatos desde o anúncio do tarifaço original. As conversas ocorreram por telefone, videoconferência e reuniões presenciais, em níveis presidencial, ministerial e técnico.
Além disso, representantes do governo conversaram com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e com o representante de Comércio americano, Jamieson Greer, em pelo menos 11 ocasiões.
Integrantes do governo brasileiro afirmam que três temas concentraram os principais impasses nas tratativas: o PIX, a ampliação do acesso do etanol americano ao mercado brasileiro e uma proposta de moratória de quatro anos para isentar plataformas digitais do pagamento de tributos e multas.
Interlocutores do governo Lula afirmaram que esses pontos apresentados pelos americanos são considerados inegociáveis pelo Brasil. A avaliação de membros do governo também é de que a aplicação da nova tarifa se trata de uma decisão política.
As autoridades americanas, por sua vez, negam que a represália esteja sendo usada com esse objetivo. O governo americano diz que busca apenas reverter práticas comerciais que prejudicam a competitividade dos EUA.
O governo afirma que, em todos os casos, a iniciativa para abrir o diálogo partiu do lado brasileiro, em uma tentativa de negociar uma saída para o impasse comercial.
A informação é apresentada como resposta às críticas de que o Brasil teria deixado de buscar uma negociação com o governo dos Estados Unidos antes da adoção das medidas tarifárias.
A percepção é que o cenário se mostrava favorável às negociações após o encontro entre Lula e Trump na Malásia e ainda melhor após o encontro entre os dois em Washington.
No entanto, o cenário mudou depois da visita do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) aos EUA.
➡️ Marco Rubio mantém relações com a família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A aproximação começou em 2018 e, no mês passado, Rubio recebeu os filhos de Bolsonaro nos EUA.
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Argumentos para nova tarifa
Segundo o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, sigla em inglês), o tarifaço é resultado de uma investigação que concluiu que “várias práticas do Brasil são consideradas injustificáveis e discriminatórias, restringindo a competitividade de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores americanos”.
Entre os fatores usados pelos Estados Unidos estão o PIX, ações do Supremo Tribunal Federal (STF) contra big techs, desmatamento e corrupção.
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Após a confirmação da tarifa, o governo brasileiro divulgou uma nota contestando os argumentos do governo Trump para aplicar o novo tarifaço de 25% contra o Brasil.

Trabalho em feriados: veja quais comércios podem abrir sem acordo, mesmo com nova regra do governo

Agora no g1
Nem todo comércio precisará negociar com sindicatos para abrir durante os feriados.
Embora as novas regras, anunciadas nesta terça-feira (21) pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) , passem a exigir convenção coletiva para o funcionamento de parte do comércio nessas datas, algumas atividades continuarão autorizadas a operar sem acordo entre empregadores e trabalhadores.
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
É o caso de farmácias, postos de combustíveis, restaurantes, bares e hotéis, que estão entre os setores com autorização permanente para funcionar em feriados.
➡️ Para os demais estabelecimentos, a regra determina que o trabalho nessas datas deverá estar previsto em convenção coletiva firmada entre o sindicato patronal e o sindicato que representa os trabalhadores da categoria.
Na prática, a decisão unilateral do empregador deixa de ser suficiente para autorizar a abertura do comércio em feriados.
A exigência, porém, não se aplica às seguintes atividades:
venda de pão e biscoitos;
varejistas de produtos farmacêuticos, incluindo farmácias de manipulação;
flores e coroas;
barbearias e salões de beleza;
entrepostos de combustíveis, lubrificantes e acessórios para automóveis (postos de combustíveis);
comércio varejista de gás liquefeito de petróleo (GLP);
locadores de bicicletas e similares;
hotéis, restaurantes, bares e similares;
casas de diversões, inclusive estabelecimentos esportivos com cobrança de ingresso;
feiras livres;
porteiros e cabineiros de edifícios residenciais;
agências de turismo, locadoras de veículos e embarcações;
comércio em feiras e exposições;
lavanderias e lavanderias hospitalares;
estabelecimentos de prestação de serviços funerários.
Trabalho em feriados no comércio: veja o que muda e os setores afetados
Reprodução/EPTV
Segundo o MTE, a portaria restabelece uma exigência prevista na Lei nº 10.101, que trata do trabalho em datas comemorativas no comércio.
Com a mudança, questões como escalas de trabalho, folgas compensatórias, pagamento de adicionais e outras contrapartidas poderão ser negociadas entre representantes dos trabalhadores e dos empregadores.
A medida também deixa claro que as novas regras se aplicam apenas aos feriados.
⚠️ O trabalho aos domingos continua autorizado pelas normas já previstas na legislação e não sofreu alterações.
Durante reunião realizada nesta terça-feira (21) com representantes de trabalhadores e empregadores, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou esperar que as negociações ocorram de forma equilibrada entre as partes.
“O que nós esperamos é que tenha maturidade das lideranças sindicais, dos trabalhadores e dos empregadores em torno de uma mesa (…) para que vocês possam encontrar soluções, muitas vezes, para problemas que pareciam não ter solução. E, quanto mais se conversa, pode-se ir aproximando dessa possibilidade”, afirmou o Ministro do Trabalho, Luiz Marinho.
Representante do setor empresarial, Ivo Dall’Acqua Júnior, presidente da Fecomércio São Paulo e diretor da Confederação Nacional de Bens, Serviços e Turismo (CNC), afirmou que o acordo encerra uma etapa da negociação, mas que o debate deve continuar.
“A discussão não para por aqui. Temos absoluta consciência disso, até porque novas formas, novos mecanismos e novas ferramentas vêm sendo incorporados ao mundo do trabalho. Então, creio que hoje estamos celebrando um acordo muito bem discutido, mas a discussão não para por aqui. O nosso diálogo tem que ser permanente”.
Funcionamento do comércio em feriados dependerá de autorização prevista em Convenção Coletiva
g1/ Júlia Christine

O que é abandono de trabalho? Entenda regras que podem levar Eduardo Bolsonaro à demissão da PF

PF conclui processo e recomenda demissão de Eduardo Bolsonaro por abandono de cargo; decisão cabe ao ministro da Justiça
A recomendação de demissão de Eduardo Bolsonaro do cargo de escrivão da Polícia Federal colocou em evidência um conceito comum em processos trabalhistas e administrativos, mas nem sempre bem compreendido: o abandono de trabalho.
A corporação concluiu um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) e encaminhou ao Ministério da Justiça, nesta terça-feira (21), o pedido para que o ex-deputado seja desligado dos quadros da PF.
A investigação apontou que ele não retornou às atividades após perder o mandato na Câmara dos Deputados. Agora, caberá ao ministro da Justiça decidir se aplica ou não a penalidade.
Embora a expressão “abandono de trabalho” seja relativamente conhecida, muita gente ainda tem dúvidas sobre o que ela significa na prática.
🤔 Afinal, faltar 30 dias consecutivos leva automaticamente à demissão? Existe um prazo definido em lei? E o que muda quando o trabalhador atua no setor público em vez da iniciativa privada?
As respostas variam de acordo com o regime de contratação. Enquanto trabalhadores com carteira assinada são regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e pela jurisprudência da Justiça do Trabalho, servidores públicos estão submetidos a estatutos próprios e a procedimentos administrativos específicos.
Ou seja, as regras para apurar a conduta e as consequências para o trabalhador são diferentes.
Veja as principais diferenças na tabela abaixo.

Apesar das diferenças entre os regimes, um ponto costuma gerar confusão: a ideia de que existe um prazo que transforma automaticamente uma ausência em abandono de trabalho. Na prática, não é tão simples.
Quando vira abandono?
A CLT prevê o abandono de emprego como hipótese de justa causa, mas não estabelece quantos dias de ausência são necessários para caracterizá-lo.
Ao longo dos anos, os tribunais passaram a adotar o período de 30 dias como referência para analisar os casos, mas não como uma regra automática, explica Gustavo Fonseca Monteiro, advogado trabalhista empresarial e sócio da Tahech Advogados.
Segundo ele, a Justiça costuma exigir dois elementos: ausência prolongada e injustificada e intenção do empregado de não retornar ao trabalho.
“Faltar ao trabalho por um período e abandonar o emprego não são a mesma coisa (…) para que exista abandono, as circunstâncias devem demonstrar que o empregado não pretende retornar e decidiu, ainda que sem uma comunicação formal, romper o vínculo” .
🔎 Essa intenção é conhecida no meio jurídico como “animus abandonandi”. Em outras palavras, não basta que o trabalhador esteja ausente. É preciso haver indícios de que ele decidiu, de fato, encerrar a relação de emprego.
Felipe Mazza, coordenador da área de Direito Trabalhista do Efcan Advogados, explica que os 30 dias funcionam apenas como um parâmetro.
“A empresa deve avaliar as circunstâncias concretas e buscar demonstrar que o empregado decidiu romper, por sua conduta, a continuidade da relação de trabalho”.
Por isso, uma pessoa pode ficar mais de um mês sem trabalhar e, ainda assim, não ter abandonado o emprego. Uma internação, uma doença grave, problemas relacionados a benefícios previdenciários ou dificuldades relevantes de comunicação podem afastar essa conclusão.
Para que a justa causa seja aplicada, é necessário demonstrar algo além da ausência: a intenção de não retornar ao trabalho.
Esse cuidado existe porque situações excepcionais são comuns, pontua Taunai Moreira, sócio do escritório Bruno Boris Advogados.
Um trabalhador pode não conseguir avisar a empresa imediatamente porque está hospitalizado, enfrenta uma doença grave ou outro impedimento relevante, exemplifica.
O que a empresa precisa fazer antes de demitir?
Se a intenção do trabalhador é um dos elementos centrais da análise, cabe à empresa reunir provas antes de aplicar a demissão por justa causa.
O procedimento normalmente começa pela verificação de eventuais justificativas para as faltas, como:
Atestados médicos;
Afastamentos previdenciários;
Internações ou licenças devem ser consideradas antes de qualquer decisão.
Na sequência, recomenda-se tentar contato pelos meios habituais, como telefone, e-mail e aplicativos de mensagens, registrando todas as tentativas realizadas.
Caso o trabalhador permaneça sem responder, a empresa deve formalizar uma convocação para que retorne ao trabalho ou apresente justificativas.
Monteiro explica que o documento deve informar o período de ausência, convocar o trabalhador a retornar ou apresentar justificativa em prazo razoável e advertir expressamente que a falta de manifestação poderá caracterizar abandono de emprego e resultar em demissão por justa causa.
“A convocação deve ser enviada por meio que permita comprovar tanto o seu conteúdo quanto a entrega, como por exemplo carta registrada com aviso de recebimento ou, conforme o caso, notificação extrajudicial. E-mail e mensagens também podem reforçar a prova, desde que seja possível demonstrar o envio e o recebimento”.
Embora a legislação não determine um número mínimo de notificações, os especialistas recomendam que todas as tentativas sejam documentadas. Isso pode fazer diferença caso a situação seja discutida posteriormente na Justiça do Trabalho.
“Sem isso, a justa causa não se sustenta”, afirma Taunai, lembrando que o ônus da prova recai sobre o empregador.
O que o trabalhador perde se houver abandono?
Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro
Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Quando a demissão por abandono é confirmada, os efeitos são os mesmos de uma dispensa por justa causa.
Nesse caso, o empregado deixa de receber:
aviso-prévio;
multa de 40% sobre o FGTS;
saque imediato do FGTS em razão da rescisão;
seguro-desemprego;
13º salário proporcional;
férias proporcionais acrescidas de um terço.
Por outro lado, alguns direitos permanecem preservados. A empresa continua obrigada a pagar o saldo de salário referente aos dias efetivamente trabalhados e as férias já adquiridas, mas ainda não usufruídas.
Outra dúvida comum envolve o FGTS. O dinheiro depositado na conta vinculada não é perdido e continua pertencendo ao trabalhador, embora ele não possa sacá-lo imediatamente em razão daquela demissão.
E serviço público? Como funciona?
Se, nas empresas privadas, a caracterização do abandono costuma ser discutida posteriormente na Justiça do Trabalho, na administração pública a apuração precisa ocorrer antes de qualquer punição.
Para os servidores federais submetidos à Lei nº 8.112, o abandono de cargo é definido como ausência intencional por mais de 30 dias consecutivos.
🔎 No caso dos policiais federais, uma legislação específica prevê a demissão por 30 dias consecutivos de faltas injustificadas ou 60 dias alternados em um período de 12 meses.
Mesmo quando a legislação estabelece critérios objetivos, porém, a punição não é automática.
“A Administração não pode aplicar a demissão imediatamente: deve instaurar um Processo Administrativo Disciplinar”, explica Felipe Mazza.
Segundo Monteiro, o PAD é indispensável para que a administração pública identifique o período de ausência, avalie possíveis justificativas e assegure ao servidor o direito de apresentar provas e se defender.
“A perda do cargo é uma sanção grave e está sujeita ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa”, afirma.
Por isso, a conclusão de uma comissão disciplinar não significa necessariamente o encerramento do caso. Em situações como a de Eduardo Bolsonaro, a comissão apenas recomenda a penalidade, e a decisão final cabe à autoridade competente.
O que aconteceu no caso de Eduardo Bolsonaro?
Eduardo Bolsonaro mora nos Estados Unidos desde o início de 2025. Na época, afirmou que deixou o Brasil por se considerar alvo de perseguição política.
Em dezembro daquele ano, a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados decretou a perda do mandato por excesso de faltas. Com isso, ele deixou de ter o afastamento que permitia exercer a atividade parlamentar sem atuar na Polícia Federal.
A PF, então, determinou que ele retornasse ao cargo de escrivão. Segundo a corporação, porém, Eduardo Bolsonaro não se reapresentou.
Diante da ausência, a Corregedoria da Polícia Federal abriu, em janeiro de 2026, um Processo Administrativo Disciplinar para apurar um possível abandono de cargo. Após concluir a investigação, a PF recomendou a demissão do ex-deputado e encaminhou o processo ao Ministério da Justiça.
Como a corporação é subordinada ao ministério, caberá ao ministro Wellington Lima e Silva decidir se aplica ou não a penalidade.