PDV: por que empresas oferecem dinheiro para funcionários saírem do trabalho

Carteira de trabalho
Divulgação/Governo de São Paulo
Receber uma indenização maior, manter benefícios por mais tempo e sair da empresa por escolha própria. Essa é a lógica dos programas de demissão voluntária (PDV), mecanismo cada vez mais usado por empresas que precisam reduzir equipes ou reorganizar suas operações.
Nos últimos meses, organizações de diferentes setores voltaram a adotar com frequência esse tipo de estratégia. O Banco da Inglaterra, por exemplo, ofereceu pacotes de desligamento que chamou atenção no mundo todo: £ 150 mil (cerca de R$ 900 mil) para funcionários que aceitaram sair voluntariamente da instituição.
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Segundo reportagem da Bloomberg, cerca de 446 funcionários devem deixar o banco britânico e um em cada seis participantes do programa recebeu o valor máximo da indenização.
O agência também informou que os pagamentos foram calculados com base no salário final e no tempo de serviço de cada funcionário — o equivalente a um décimo do salário anual multiplicado pelos anos trabalhados.
Em média, os funcionários receberam cerca de £ 81 mil (R$ 560 mil), o que levou a um custo total estimado em £ 36 milhões (R$ 251 milhões).
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Gigantes da tecnologia também têm recorrido a estratégias semelhantes. No início de 2026, o Google passou a oferecer pacotes de saída voluntária para parte dos funcionários da sua organização global de negócios, conhecida como GBO, que reúne áreas como vendas, soluções e desenvolvimento corporativo.
A iniciativa foi comunicada em um e-mail enviado pelo diretor de negócios da empresa, Philipp Schindler. O executivo afirmou que a companhia entra em 2026 “em posição forte”, mas que o cenário continua dinâmico e exige adaptação constante — especialmente diante da expansão da inteligência artificial.
De acordo com o Business Insider, o programa foi direcionado apenas a determinadas funções nos Estados Unidos. Equipes que atuam diretamente no atendimento a clientes ficaram de fora da iniciativa para evitar impactos na relação com os consumidores.
Esses exemplos ilustram uma estratégia cada vez mais comum no mundo corporativo: usar programas de demissão voluntária para ajustar o tamanho das equipes ou o perfil dos funcionários sem recorrer diretamente a cortes obrigatórios.
🔍 O programa de demissão voluntária é um mecanismo pelo qual a empresa oferece incentivos financeiros ou benefícios adicionais para que o próprio funcionário opte por encerrar o vínculo de trabalho.
Na prática, ele funciona como uma alternativa às demissões obrigatórias. Segundo Daniel Consani, CEO do Grupo Top RH, esse tipo de programa costuma aparecer em momentos de transformação organizacional.
“Normalmente ele surge em contextos de reestruturação, queda de receita, fusões ou mudanças estratégicas que exigem reorganização da força de trabalho”, afirma.
Embora a redução de custos seja um fator importante, Consani explica que o PDV geralmente faz parte de mudanças mais amplas dentro das empresas.
“Muitas organizações utilizam o programa para redesenhar estruturas, reduzir funções sobrepostas ou adaptar a equipe a novas prioridades estratégicas”, diz.
Em setores que passam por mudanças tecnológicas rápidas, por exemplo, o mecanismo pode facilitar a transição para novos modelos de negócio.
Ou seja, nem sempre o PDV é aberto a todos os funcionários. Em muitos casos, a empresa direciona o programa para áreas ou cargos específicos. Segundo Consani, isso acontece porque o instrumento normalmente está ligado a um reposicionamento estratégico da organização.
“Empresas tendem a oferecer pacotes voluntários em departamentos que serão reduzidos, automatizados ou substituídos por novas competências.”
O caso do Google ilustra essa lógica. A empresa direcionou o programa para determinadas funções dentro da sua organização global de negócios, enquanto manteve outras equipes fora da iniciativa.
Segundo o Business Insider, cargos ligados diretamente ao atendimento de clientes não foram incluídos no programa justamente para evitar impactos na relação com os consumidores.
Esse tipo de segmentação permite que a empresa ajuste sua estrutura sem comprometer áreas consideradas críticas para o futuro.
No Brasil, a implementação desse tipo de iniciativa segue regras específicas. Para que o PDV seja oferecido, o plano deve estar previsto em acordo ou convenção coletiva firmados entre a empresa e o sindicato da categoria.
O programa também precisa ser formalizado por escrito. Além disso, a adesão deve partir do próprio trabalhador — ou seja, cabe ao funcionário manifestar interesse em participar.
Essa característica reforça o objetivo do mecanismo: transformar um momento delicado em uma negociação estruturada entre empresa e trabalhador.
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Vantagens e desvantagens
Uma das principais vantagens do programa de demissão voluntária é reduzir o impacto social e organizacional das demissões. Quando o desligamento ocorre por adesão voluntária, o processo tende a gerar menos conflitos trabalhistas e menos desgaste na relação entre empresa e colaboradores.
Outro benefício importante é a previsibilidade financeira. Ao oferecer incentivos previamente definidos, a empresa consegue estimar melhor o custo das saídas e planejar com mais clareza a reorganização das equipes.
Além disso, programas desse tipo costumam reduzir o risco de disputas judiciais ligadas aos desligamentos.
Para que isso funcione, porém, a forma como o processo é conduzido faz diferença. Segundo Consani, o papel do RH é fundamental para garantir que o programa seja transparente.
“O colaborador precisa entender exatamente o que está sendo oferecido e não pode se sentir pressionado a aderir. Também é importante que exista suporte ao funcionário durante o processo.”
Essa abordagem também ajuda a evitar interpretações equivocadas sobre a iniciativa. “Quando o processo é conduzido de forma humanizada, fica claro que não se trata de uma decisão em que apenas a empresa sai ganhando”, afirma.
Apesar disso, programas de demissão voluntária também apresentam riscos.
Um dos principais é a perda inesperada de profissionais estratégicos. Em muitos casos, trabalhadores mais qualificados ou com maior empregabilidade são justamente os que têm mais facilidade para aderir ao programa e encontrar novas oportunidades.
“Existe o risco de saída de talentos importantes e de perda de conhecimento estratégico”, afirma Consani. Isso pode gerar impactos na continuidade operacional da empresa e dificultar a transferência de conhecimento entre equipes.
Outro problema possível é a perda da chamada memória organizacional — o conjunto de experiências acumuladas pelos profissionais ao longo dos anos. Esse fator pode ser especialmente crítico em empresas com processos técnicos ou regulatórios complexos, explica Consani.
Programas de demissão voluntária também podem influenciar o ambiente de trabalho. “Quando existe transparência e comunicação clara sobre os motivos da decisão, o efeito tende a ser mais controlado.”
Por outro lado, quando o programa é percebido apenas como uma tentativa de reduzir custos, ele pode gerar insegurança entre os funcionários que permanecem na empresa. Isso acontece porque o PDV frequentemente sinaliza um período de mudanças e incertezas dentro da empresa.
Quando o PDV pode não fazer sentido
O programa também não é uma solução universal. Em empresas que enfrentam problemas estruturais de gestão ou produtividade, um PDV pode apenas reduzir custos no curto prazo sem resolver as causas reais da ineficiência.
Em empresas que enfrentam problemas estruturais de gestão ou produtividade, um PDV pode apenas reduzir custos no curto prazo sem resolver as causas reais da ineficiência.
Além disso, o instrumento pode ser inadequado em setores que já enfrentam escassez de mão de obra qualificada.
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) indicam que áreas como tecnologia, engenharia e saúde convivem com déficit de profissionais. Nesses casos, estimular saídas voluntárias pode gerar mais dificuldade para repor talentos do que economia efetiva.
O que avaliar antes de aceitar?
Para os trabalhadores, a decisão de aderir a um programa de demissão voluntária exige análise cuidadosa. Segundo Consani, o ideal é avaliar o pacote com uma visão estratégica de carreira — e não apenas financeira.
“Muitas pessoas olham primeiro para o valor da indenização. Mas é fundamental considerar quanto tempo pode levar para se recolocar no mercado.”
Ainda de acordo com o CEO do Grupo Top, o trabalhador deve considerar fatores como plano de saúde, previdência complementar e estabilidade financeira da família.
“Um pacote que parece vantajoso no curto prazo pode não ser suficiente se o profissional não tiver um plano claro de transição de carreira”, afirma.
Por outro lado, há grupos que tendem a ser mais beneficiados por esse tipo de programa. Profissionais próximos da aposentadoria, por exemplo, costumam avaliar o programa como uma oportunidade de antecipar a saída do mercado de trabalho com segurança financeira.
O pacote também pode ser interessante para trabalhadores que já planejavam mudar de carreira ou abrir um negócio próprio. Em muitos casos, profissionais utilizam os recursos da rescisão como capital inicial para iniciar um novo projeto profissional.
Ainda assim, especialistas recomendam planejamento antes de tomar a decisão.
Consani afirma que o erro mais comum é tomar a decisão de forma precipitada. Muitos se concentram apenas no valor imediato da indenização e deixam de avaliar fatores importantes, como planejamento financeiro, custo de vida e chances de recolocação.
“Em momentos de transição profissional, decisões impulsivas podem gerar impactos duradouros na trajetória de carreira”, afirma Consani.

Haddad deixa o Ministério da Fazenda nesta semana; veja os principais marcos da gestão

O presidente Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em Brasília.
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Três anos e dois meses após assumir o Ministério da Fazenda, Fernando Haddad deixará o governo Lula para concorrer ao governo de São Paulo pelo PT nas eleições deste ano, em outubro.
À frente da equipe econômica, Haddad teve como principais marcas da gestão a reforma tributária sobre o consumo — aprovada após três décadas de discussões no Congresso Nacional — e a criação do arcabouço fiscal, na tentativa de reorganizar e equilibrar as contas públicas.
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Paralelamente, os principais indicadores da economia registraram melhora: o PIB cresceu acima do esperado, o desemprego recuou a níveis recordes e a renda avançou, em um cenário de juros elevados e inflação controlada.
Mas o ministro teve dificuldade para consolidar sua credibilidade. Inicialmente visto com receio pelo mercado financeiro, ele conquistou confiança, mas enfrentou resistências dentro do próprio governo que limitaram o alcance de sua agenda.
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Medidas de corte de gastos foram neutralizadas por prioridades do presidente Lula, como a regra de reajuste real do salário mínimo. Assim, a estratégia de Haddad passou a se apoiar mais no aumento da arrecadação e de impostos do que na redução de despesas.
Mesmo com o aumento das receitas, o país não atingiu o objetivo de zerar o déficit público — quando os ganhos superam os gastos. Além disso, agentes do mercado não conseguem projetar um momento próximo em que o endividamento começará a cair.
Esse cenário enfraqueceu sua imagem e levou economistas e investidores a vê-lo, em determinados momentos, como uma voz isolada na condução do ajuste das contas públicas.
Não à toa, especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que Haddad deixa o cargo com demonstrações de capacidade técnica e habilidade política, mas com atuação marcada pelas limitações impostas pelo Palácio do Planalto.
O ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC) Henrique Meirelles resume a avaliação: para ele, a gestão de Haddad ficou aquém do que o país precisa no controle das contas públicas, mas teve papel importante para evitar uma deterioração maior da dívida.
“Comparado ao que era necessário e ao que ainda precisará ser feito a partir de 2027, a avaliação não é positiva. Por outro lado, considerando todas as pressões que sofreu, fez o melhor possível e conteve ao máximo o aumento de gastos”, afirma Meirelles.
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, faz avaliação semelhante.
“Mesmo em um contexto muito adverso, Haddad conseguiu segurar as rédeas. Ele não alcançou a política fiscal ideal, mas também não deixou que o país caminhasse para a insolvência ou para um cenário mais arriscado”, analisa.
Veja abaixo esses e outros detalhes da trajetória de Haddad à frente do Ministério da Fazenda.
Desconfiança do mercado
Ex-ministro da Educação (2005–2012) e ex-prefeito de São Paulo (2013–2016) pelo PT, além de aliado próximo de Lula, Haddad assumiu a equipe econômica em janeiro de 2023, em meio à forte polarização política e a incertezas sobre os rumos da economia brasileira.
Sua nomeação ocorreu ainda durante a transição de governo, período em que o Congresso aprovou a PEC da Transição. Na prática, a medida abriu espaço bilionário nas contas públicas, fora da regra do teto de gastos, e permitiu alterar um orçamento insuficiente deixado pela gestão anterior.
🔎 Por um lado, o governo pôde avançar em promessas de campanha, como a ampliação do valor pago aos beneficiários do Bolsa Família. Por outro, aumentaram os receios de agentes do mercado quanto ao compromisso com os gastos da nova administração.
“Haddad partiu de um diagnóstico complicado. Ele precisava dar uma sinalização inicial de contenção de despesas e mudança de regras, mas demorou muito para reconhecer isso”, afirma a economista Zeina Latif, em entrevista ao g1.
Os gastos públicos federais, ampliados durante a pandemia de Covid-19, também estavam no centro das preocupações, enquanto economistas apontavam a necessidade de reformas estruturais para conter o avanço da dívida pública.
Latif lembra que o ministro herdou problemas relevantes da gestão anterior. Um deles foi o impasse dos precatórios, que são dívidas da União reconhecidas pela Justiça, mas cujo pagamento havia sido adiado durante o governo de Jair Bolsonaro.
Na prática, isso empurrou para os anos seguintes uma fila bilionária de valores a serem pagos pelos governos seguintes. Em novembro de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou o governo federal a usar um modelo alternativo até 2026 para quitar precatórios atrasados por meio de créditos extraordinários.
Outro ponto foi a compensação aos estados pela Lei Kandir, legislação dos anos 1990 que isentou exportações de ICMS. A regra prevê que a União ressarça as perdas de arrecadação. Após anos de disputas, um acordo firmado em 2020 definiu pagamentos ao longo do tempo, com impacto duradouro nas contas públicas.
Tamanho da dívida do governo em relação à economia do país.
Arte/g1
As marcas da gestão
À frente da Fazenda, Haddad liderou a reforma tributária sobre o consumo, promulgada em dezembro de 2023. A proposta unifica tributos e busca simplificar a cobrança de impostos no país, com a promessa de tornar o sistema mais transparente e eficiente, sem alterar a carga tributária total.
A aprovação do texto — após mais de 30 anos de discussões em diferentes governos — é considerada uma das principais conquistas do ministro, que articulou apoio político no Congresso para viabilizar o avanço da proposta.
“O Brasil amadureceu e entrou em compasso com o que há de mais moderno no mundo”, afirmou Haddad após a aprovação.
Para André Galhardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica, a aprovação do texto evidencia a capacidade de articulação do ministro, especialmente diante de um Congresso que nem sempre está alinhado às pautas do governo.
“Fazer o volume de reformas que Haddad fez à frente do Ministério da Fazenda é algo elogiável. Ele é um político muito habilidoso. Não por acaso, em diversos momentos de estresse, foi ele quem conectou o Poder Executivo ao Legislativo”, diz.
Meses antes, em março de 2023, o ministro havia apresentado e aprovado o arcabouço fiscal, regra que substituiu o teto de gastos com o objetivo de reequilibrar as contas públicas.
🔎 O arcabouço passou a permitir crescimento real das despesas dentro de limites atrelados ao avanço da arrecadação. Já o teto de gastos, aprovado no governo Michel Temer em 2016, restringia a expansão das despesas à inflação do ano anterior.
Inicialmente, o arcabouço foi bem recebido pelo mercado por sinalizar preocupação do governo com as contas públicas. Com o tempo, porém, perdeu credibilidade à medida que determinados gastos passaram a ser excluídos da regra.
“O problema maior é que muitas despesas começaram a ser feitas, mas retiradas do arcabouço. Elas deixaram de contar para a regra”, afirma Henrique Meirelles. Ele acrescenta que esse movimento, somado às revisões das metas fiscais, acabou frustrando agentes do mercado financeiro.
O ex-ministro, criador do teto de gastos, avalia que o novo modelo é menos eficaz que o anterior também por permitir aumento das despesas acima da inflação. O arcabouço permite elevar as despesas em até 70% do crescimento da receita, mas também determina que o avanço real do gasto fique entre 0,6% e 2,5% ao ano.
Crescimento acima do esperado
Enquanto isso, indicadores econômicos e sociais estiveram entre os pontos positivos da gestão Haddad.
A redução do desemprego, o aumento do rendimento médio da população e a ampliação de programas sociais, como o Bolsa Família, ajudaram o país a registrar os menores níveis de pobreza e desigualdade em três décadas.
Felipe Salto, da Warren, lembra que o crescimento do PIB, especialmente nos dois primeiros anos, foi elevado para os padrões brasileiros. “Inclusive, se discutiu se o potencial de expansão era maior do que muitos economistas estimavam. De fato, o crescimento surpreendeu.”
Evolução da atividade econômica brasileira (PIB).
Arte/g1
“A inflação também permaneceu controlada — é preciso lembrar que a meta de 3% é exigente. Ainda assim, as expectativas vêm convergindo para níveis mais baixos, e não houve descontrole inflacionário nem sinal de abandono do compromisso com seu controle”, acrescenta Salto.
A viabilização de promessas de campanha do presidente Lula, como a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, também é apontada como uma vitória da gestão no campo social.
Válida a partir de 2026, a medida prevê que salários abaixo dessa faixa — cerca de 10 milhões de contribuintes — não paguem mais Imposto de Renda. Os descontos também serão menores para quem ganha até R$ 7,5 mil.
Foi um ganho imediato de renda em um cenário em que a taxa média de desemprego encerrou 2025 em 5,6%, o menor nível da série histórica.
Dados de desemprego e renda.
Arte/g1
Taxação da alta renda
Desde o início do mandato, Haddad defendeu medidas para aumentar a tributação da alta renda e rever regras que, na avaliação do governo, favorecem os mais ricos.
Entre as medidas aprovadas estão a taxação de fundos exclusivos — utilizados principalmente por investidores de maior renda — e a cobrança periódica sobre rendimentos no exterior (offshores).
O ministro também propôs alterações nas regras de Juros sobre Capital Próprio (JCP), mecanismo amplamente usado por grandes empresas para reduzir a carga tributária. O texto, porém, foi modificado durante a tramitação no Congresso.
Outra iniciativa foi a proposta de tributação de lucros e dividendos, que ainda enfrenta resistência no Legislativo.
Ao levar o tema ao G20, em fevereiro de 2024, Haddad sustentou que a tributação da alta renda exige respostas coordenadas no plano internacional. Para o ministro, apenas uma ação conjunta entre os países permitiria garantir que essa parcela da população contribua de forma mais justa.
Galhardo, da Análise Econômica, afirma que uma das principais prioridades do ministro foi tornar o sistema tributário mais progressivo — ou seja, cobrar mais de quem ganha mais.
“A ideia nunca pareceu ser tirar dinheiro do empresário ou desestimular investimentos — como parte do mercado sugeriu —, mas trazer mais equilíbrio a um sistema tributário que é muito ruim e oneroso para quem tem pouca renda”, diz.
Crise de confiança
A confiança na condução das contas públicas, por outro lado, foi abalada após a revisão das metas fiscais pelo governo e por declarações recorrentes que colocaram em dúvida seu cumprimento — apesar das regras anuais previstas no arcabouço fiscal.
A economista Zeina Latif afirma que os receios começaram logo no início da gestão Haddad, quando o ministro sinalizou que a meta fiscal para 2023 não seria cumprida, em meio à aprovação da PEC da Transição.
“A meta de 2023 já nasceu abandonada. Desde o início ficou claro que não era um compromisso crível, apesar das sinalizações ao mercado. Prometer uma meta que já se sabia, de largada, que não seria cumprida cobra um preço. Isso gera desgaste.”
O tão aguardado anúncio do pacote de corte de gastos de Haddad, após a implementação do arcabouço fiscal, parecia ser a resposta para conter o temor de agentes do mercado financeiro. A medida, no entanto, foi recebida com frustração e aprofundou a crise de confiança.
Embora o pacote previsse cortes de R$ 70 bilhões em dois anos, o anúncio veio acompanhado da promessa de campanha de Lula de isentar do Imposto de Renda trabalhadores que recebem até R$ 5 mil por mês.
À época, especialistas ouvidos pelo g1 avaliaram que a economia projetada seria insuficiente para atender às necessidades do ajuste e, consequentemente, para reduzir a dívida bruta em relação ao PIB. Também houve frustração com o anúncio de uma renúncia de arrecadação junto com uma medida de corte.
O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles afirma que o episódio é um exemplo de que o titular da área econômica exerce influência, mas não tem o poder decisório final — que, nesse caso, cabe ao presidente da República e ao Congresso Nacional.
“Ele pode debater a viabilidade dos projetos. Mas, se o presidente e outros ministros avaliam que a medida é fundamental do ponto de vista político, ele pode até discordar, mas não tem poder para impedir”, diz.
Meirelles, que também foi presidente do Banco Central, lembra que os cargos possuem dinâmicas diferentes. “No BC, uma decisão do Copom independe do que o presidente pensa. Ele pode reclamar, mas não pode intervir.”
“No caso da política fiscal, é o presidente quem decide com o que quer ou não gastar”, acrescenta. Ele pondera que o Congresso também passou a exercer papel mais relevante no Orçamento com o aumento das emendas parlamentares.
Além desse episódio, Haddad enfrentou outros momentos de desgaste público. Um deles foi o aumento do IOF anunciado no ano passado. A medida enfrentou forte reação no Congresso, que tentou barrar parte das mudanças, levando a disputa ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A tributação de compras de até US$ 50 em plataformas internacionais de comércio eletrônico — apelidada de “taxa das blusinhas” — também rendeu ao ministro o apelido de “Taxad”, junção de “taxa” com Haddad, nas redes sociais.
Os dados da carga tributária só estão disponíveis até 2024, mas houve aumento em relação ao ano anterior.
Peso dos impostos na economia.
Arte/g1
Passagem de bastão — e o que esperar à frente
A economista Zeina Latif afirma que Haddad já deu sinais de que não será o ministro da Fazenda em um eventual governo Lula 4. “Acredito que esse movimento já indique uma transição para um próximo nome”, afirma.
O secretário-executivo da pasta, Dario Durigan, surgiu como sucessor natural. “Nesse período de transição, é natural que, dentro do acordo de saída de Haddad, haja uma espécie de blindagem ao ministro interino”, diz Felipe Salto, da Warren.
“Ele é da mesma escola de Haddad, foi treinado por ele, tem experiência e já trabalhou ao seu lado na Prefeitura de São Paulo. É um quadro bastante experiente.”
Salto, que é especialista em contas públicas, acrescenta que, independentemente de quem vencer as eleições presidenciais, a agenda de revisão de gastos ficou inevitavelmente para 2027.
Henrique Meirelles concorda e faz um alerta: “A dívida pública está aumentando e, a partir de 2027, vamos ter um acerto de contas. Ou se controla essa expansão a partir desse momento ou o país poderá enfrentar, mais adiante, uma crise fiscal.”