SK Hynix: fabricante de chips para IA estreia na Nasdaq e consolida a maior oferta estrangeira nos EUA

Como a inteligência artificial está mudando a forma de nos relacionarmos
A fabricante sul-coreana de chips SK Hynix estreou nesta sexta-feira (10) na Nasdaq como uma das maiores ofertas já realizadas nos Estados Unidos por uma empresa estrangeira. A operação movimentou US$ 26,5 bilhões (R$ 135,6 bilhões) e ficou atrás apenas da oferta de recorde da SpaceX, que levantou US$ 86 bilhões (R$ 440,1 bilhões) no mês passado.
A SK Hynix já era negociada na bolsa de Seul há anos. O que ocorreu nesta sexta-feira foi a estreia dos papéis da companhia nos EUA por meio dos chamados American Depositary Receipts (ADRs), recibos que representam ações de empresas estrangeiras e permitem sua negociação no mercado americano.
🔎 Ou seja, a empresa não realizou uma abertura de capital nos EUA. Ela apenas passou a oferecer uma nova forma para investidores americanos acessarem suas ações.
Os papéis negociados nos EUA abriram com valorização de 14%, a US$ 170 (R$ 870,40) por ação, acima do preço definido na oferta, de US$ 149 (R$ 762,88).
A operação colocou a companhia entre as maiores empresas estrangeiras a acessar diretamente investidores americanos e reforça o interesse do mercado por empresas ligadas ao avanço da inteligência artificial (IA).
A oferta deve ajudar a SK Hynix a ampliar seus investimentos, incluindo a construção de novas fábricas, além de dar à companhia acesso direto a uma das maiores bases de investidores do mundo.
🔎 Coreia do Sul e China têm ampliado seus investimentos para fortalecer suas indústrias de chips e reduzir a dependência de tecnologia estrangeira. Enquanto a Coreia do Sul busca consolidar sua liderança em semicondutores, com grandes aportes de empresas como SK Hynix e Samsung, a China também acelera seus planos para desenvolver uma cadeia própria de inteligência artificial e chips avançados.
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China e Coreia do Sul querem aumentar investimento em IA
O que faz a SK Hynix?
A SK Hynix é uma das principais fabricantes mundiais de chips de memória, componentes responsáveis por armazenar e processar grandes volumes de dados.
A companhia, sediada em Icheon, na Coreia do Sul, é a maior fabricante mundial de chips de memória de alta largura de banda (HBM, na sigla em inglês), tecnologia essencial para o processamento de grandes volumes de dados em sistemas de inteligência artificial.
Esses componentes são usados em equipamentos de computação avançada, incluindo unidades de processamento gráfico (GPUs) desenvolvidas por empresas como Nvidia e AMD para alimentar modelos de IA cada vez mais sofisticados.
Nos últimos anos, a corrida pela IA fez empresas de tecnologia investirem centenas de bilhões de dólares na construção de infraestrutura para suportar essa nova geração de sistemas.
Segundo uma análise do Bank of America Securities divulgada nesta semana, os investimentos globais em infraestrutura de nuvem e inteligência artificial podem se aproximar de US$ 1,5 trilhão (R$ 7,68 trilhões) até 2027, com crescimento anual entre 40% e 50%.
Esse movimento elevou a demanda por chips mais avançados e transformou fabricantes de componentes, como a SK Hynix, em algumas das empresas mais acompanhadas pelo mercado.
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Inteligência Artificial
Demanda supera em sete vezes a quantidade oferecida
A entrada na Nasdaq permite que a SK Hynix amplie sua exposição entre investidores internacionais, especialmente nos EUA, onde estão algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo.
A oferta recebeu uma procura mais de sete vezes superior ao número de ações disponíveis, segundo uma fonte ouvida pela Reuters.
Para Giuseppe Sette, cofundador da plataforma de análise de investimentos Reflexivity, a listagem americana representa uma forma de aproveitar o interesse dos investidores pelo setor de inteligência artificial e reduzir a diferença de avaliação em relação a concorrentes americanas.
Apesar da forte demanda, analistas avaliam que empresas que tentarem seguir o mesmo caminho podem encontrar um mercado mais seletivo, especialmente diante das preocupações com os preços elevados das ações de tecnologia e com a possibilidade de desaceleração dos investimentos em IA.
Logo da Micron em ilustração. A empresa superou Meta e Tesla em valor de mercado impulsionada pela demanda por chips para inteligência artificial.
Dado Ruvic/Reuters
Disputa com a Micron e o futuro dos chips de IA
A demanda por chips HBM aumentou nos últimos anos porque empresas que desenvolvem computadores e servidores voltados para inteligência artificial precisam desses componentes para ampliar a capacidade de processamento.
A alta procura transformou esses semicondutores em produtos disputados e beneficiou fabricantes que atuam nesse segmento.
A concorrente americana Micron também teve forte valorização no último ano, com alta de 711% em 12 meses. A SK Hynix registrou alta de 630% no mesmo período.
Antes da estreia nos EUA, porém, as ações da SK Hynix haviam recuado cerca de 25% desde o recorde atingido duas semanas antes, acompanhando uma perda de ritmo recente dos papéis ligados a semicondutores.
Mesmo sendo líder no segmento de memória para IA, a SK Hynix negocia atualmente por cerca de 5,8 vezes o lucro esperado para os próximos anos, enquanto a Micron está avaliada em aproximadamente sete vezes esse indicador, segundo dados da LSEG.
* Com informações da Reuters

Apple processa OpenAI e acusa rival de roubar informações secretas para criar novos produtos

Quem é o funcionário mais antigo da Apple que ganhou ações, hoje avaliadas em milhões
A Apple entrou com uma ação judicial nesta sexta-feira (10) contra a OpenAI e dois ex-funcionários, acusando a empresa responsável pelo ChatGPT de se beneficiar de informações confidenciais da fabricante do iPhone para avançar em sua entrada no mercado de dispositivos eletrônicos.
O processo, apresentado no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte da Califórnia, alega que houve uma ação coordenada para obter segredos comerciais da Apple, incluindo informações sobre projetos de produtos, processos de fabricação e estratégias da cadeia de fornecedores.
A ação envolve a OpenAI Foundation, a OpenAI Group PBC e a io Products, além de dois ex-funcionários da Apple: Chang Liu, que atuava como engenheiro sênior de sistemas elétricos, e Tang Yew Tan, ex-vice-presidente de design de produtos do iPhone e do Apple Watch.
O que aconteceu?
Segundo a Apple, Liu teria deixado de devolver um notebook corporativo fornecido pela empresa e, posteriormente, teria explorado uma falha no sistema de autenticação para acessar a rede interna da companhia.
A fabricante afirma que ele baixou “dezenas de arquivos confidenciais relacionados a hardware” antes de deixar a empresa e ingressar na OpenAI.
A Apple também acusa Tan de ter usado informações internas da companhia em benefício da OpenAI. De acordo com a ação, o ex-executivo teria enviado para si próprio dados sobre fornecedores da Apple e análises internas do setor antes de sua saída da empresa.
Segundo a big tech, Tan incentivou funcionários da companhia a levarem componentes da Apple para entrevistas de emprego na OpenAI, em sessões de “mostrar e contar” (“show and tell”).
No processo, a empresa cita um episódio em que um candidato a uma vaga na OpenAI teria dito que “nem sabia que podíamos pegar essas coisas do escritório”.
Mais de 400 ex-funcionários da Apple agora trabalham na OpenAI, segundo a empresa no processo, afirmando que “não é surpreendente” que alguns deles tenham conhecimento de informações confidenciais.
A companhia afirma ainda que a OpenAI teria feito perguntas altamente específicas a fornecedores sobre processos de fabricação e componentes usados pela Apple – informações que, segundo a empresa, só poderiam ser obtidas por alguém com conhecimento interno.
A Apple também alega que a OpenAI teria convencido um de seus parceiros comerciais a realizar técnicas de acabamento em metal desenvolvidas pela fabricante do iPhone para projetos de hardware da empresa de inteligência artificial, apesar de limitações contratuais.
“Só porque a OpenAI agora emprega pessoas que antes eram responsáveis pelos segredos comerciais da Apple, isso não dá à empresa o direito de usar essas informações para acelerar seus esforços em hardware”, escreveu a fabricante do iPhone na ação.
Modelos da linha iPhone 17 em loja da Apple nos EUA, em foto de 19 de setembro de 2025
Reuters/Shannon Stapleton
Uma rivalidade bilionária
O processo aumenta significativamente a tensão entre Apple e OpenAI, uma relação que já vinha sendo pressionada nos últimos meses pela disputa por talentos e tecnologias estratégicas no setor de inteligência artificial.
A OpenAI não respondeu imediatamente a um pedido de comentário da Reuters.
A rivalidade entre as duas empresas ocorre em meio à corrida para desenvolver novos produtos baseados em inteligência artificial. Em 2024, a Apple anunciou a integração da sua plataforma “Apple Intelligence” em aplicativos como a Siri e também incorporou o ChatGPT aos seus dispositivos.
A parceria permite que usuários do iPhone acessem respostas do ChatGPT por meio da Siri e também assinem planos pagos da OpenAI diretamente pelas configurações do sistema iOS.
A OpenAI ampliou sua atuação além dos softwares ao comprar, no ano passado, a startup de hardware io Products, fundada pelo ex-designer da Apple Jony Ive, em um negócio avaliado em US$ 6,5 bilhões.
O acordo reforçou a estratégia da empresa de criar produtos físicos voltados ao consumidor. Ive, porém, não é citado como réu no processo.
No mês passado, a Apple lançou uma atualização da Siri que estava atrasada há meses. A empresa havia prometido grandes melhorias para a assistente virtual há dois anos, mas os recursos foram adiados repetidamente.
*Com informações da Reuters

Governo publica portaria que define alertas de publicidade de bets: 'apostar pode causar dependência'

O Ministério da Fazenda publicou nesta sexta-feira (10) uma portaria que estabelece novas regras para publicidade de apostas online — conhecidas como bets —, e estabelece que toda publicidade de bet será acompanhada de uma advertência, semelhante com o que acontece com propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas.
O texto define que as publicidades devem alertar sobre os riscos associados de dependência e de transtornos do jogo patológico, com uma das seguintes frases de advertência obrigatória:
“Ministério da Fazenda adverte: Apostar pode causar dependência”;
“Ministério da Fazenda adverte: Apostar faz você perder dinheiro”; ou
“Ministério da Fazenda adverte: Aposta não é investimento”.
Agora no g1
Além disso, a advertência deverá estar na horizontal, serem claras, legíveis e proporcionais ao restante da ação de comunicação e de publicidade, e ter um mínimo de 10% do comprimento ou tamanho do anúncio.
As novas regras entram em vigor no dia 17 de julho.
Além disso, também foi publicada uma portaria em conjunto com o Ministério da Justiça que estabelece regras sobre o conteúdo das publicidades de apostas.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira (9) que veículos de comunicação estão proibidos de veicular empresas não autorizadas a operar no mercado.
“A gente faz restrições à publicidade de bets no país. Eu não preciso dizer, porque é chover no molhado, a nossa tolerância zero com as ilegais. Então, bet ilegal, em nenhuma medida está autorizada, e nem os publicitários, os veículos de comunicação estão autorizados a veicular qualquer publicidade envolvendo empresa não autorizada a operar no mercado”, afirmou o ministro da Fazenda.
Jogo caça-níquel Fortune Tiger, conhecido como jogo do tigrinho
Matheus Moreira
Com as portarias, informou Durigan, empresas ficam proibidas de criar senso de urgência, apresentar apostas como investimento ou solução financeira, mostrar ganhos ou histórico de premiações como incentivo e induzir o consumidor a erro.
Vedações a comentaristas
A portaria também proíbe que as ações de publicidade emitam estratégias, opiniões técnicas ou análises que possam “induzir ou influenciar a realização de apostas de quota fixa em determinado evento ou mercado de apostas”.
“[Não é lícito misturar] um comentário de alguém que é especialista, comentarista, especializado em um determinado jogo, determinado assunto. Ele dizendo que a melhor aposta é uma, ou que o caminho a ser adotado é aquele, portanto induzindo o consumidor a adotar uma certa prática com um verniz de respaldo técnico. Então, isso não deve ser feito”, disse Dario Durigan.
O texto também proíbe propagandas que:
sugiram a obtenção de ganho fácil ou apresentem a aposta como sinal de virtude, de êxito pessoal, social ou financeiro, como prioridade na vida ou como conduta socialmente atraente, inclusive por meio de afirmações de personalidades conhecidas ou de celebridades;
apresentem a aposta como fonte de renda, forma de investimento, alternativa ao emprego, solução para problemas pessoais, sociais ou financeiros ou meio de recuperação de valores perdidos em apostas anteriores ou de outras perdas financeiras;
encorajem práticas excessivas de aposta ou contenham chamadas para ação, inclusive com mecânicas promocionais, que sugiram ato imediato por parte do apostador;
contenham informação falsa ou enganosa, inclusive quanto às probabilidades de ganhar ou quanto à possibilidade de a habilidade, a destreza ou a experiência do apostador influenciar o resultado da aposta;
vinculem apostas a atitudes ou comportamentos ilegais ou discriminatórios, utilizem mensagens de cunho sexual ou de objetificação de atributos físicos ou ofendam crenças culturais ou tradições do País; e
sejam dirigidas, direta ou indiretamente, a crianças e adolescentes.
Com a publicação da portaria, essas regras já passam a valer.
Penalidades
Segundo Durigan, em caso de descumprimento das regras, as penalidades previstas são multas, que podem chegar a 20% do faturamento da empresa que opera a bet. E, também, a suspensão por 180 dias.
Em caso de reincidência grave, pode haver a cassação da autorização para atuação no mercado de apostas online.
O secretário Nacional do Consumidor, Ricardo Morishita, disse que pode ser aplicado o teto da multa, cerca de R$ 14 milhões, a quem veicular publicidade irregular de bet.
O governo também informou que a empresa vai ser punida caso o influenciador contratado faça uma publicidade irregular, infringindo as novas regras, e o conteúdo também pode ser derrubado.

Em meio à discussão sobre limitação a penduricalhos, presidente do TCU diz que aprovou gratificação com 'muito orgulho' e 'muita vontade'

Presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo
Divulgação TCU
O presidente do Tribunal de Contas da União, ministro Vital do Rêgo, disse em entrevista ao g1 que assinou a portaria que criou em junho uma gratificação aos servidores da Casa que ocupam funções de direção, chefia e assessoramento com “muito orgulho” e com “muita vontade”.
💸O adicional poderá aumentar em até 15% a remuneração desses servidores e será direcionado a quem desempenha atividades classificadas como de alta complexidade técnica, de fiscalização e de gestão institucional.
➡️A novidade se caracteriza como um “penduricalho” do Tribunal. O termo usado é para definir verbas indenizatórias, gratificações e auxílios extras que são somadas aos salários dos servidores públicos. Como não entram no cálculo do teto constitucional (atualmente em R$ 46,3 mil), esses pagamentos na prática elevam os contracheques acima do limite legal.
“O que eu justifico é que, quando meu servidor atinge o teto, eu vou convocá-lo para ele assumir uma função de direção de uma Secretaria, de uma Unidade, de ser secretário-geral. Sabe quantos querem vir? Nenhum, porque vão entrar em uma Secretaria especializada e não receber nada em troca. Rapaz, eu assinei a portaria com muito orgulho. Estou beneficiando quem economiza R$ 65 bilhões ao Brasil. A cada R$ 1 que está no meu orçamento, o TCU devolve R$ 28”, disse Vital do Rêgo.
🔎Responsável, entre outras funções, por fiscalizar o uso de recursos públicos federais, aplicar sanções e determinar correções na administração pública, o TCU também poderá ser acionado para investigar os chamados “penduricalhos” na administração pública, tendo por base regras definidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
“A gratificação que eu dei, mantendo uma decisão do Supremo. Supremo deu, todos os órgãos da justiça federal deram, mas esperando que saia a legislação do Congresso Nacional. Mas eu fiz com muita vontade porque eu conheço o trabalho do meu servidor, eu sei a importância que ele tem para o país, sei que eu posso contar com ele”, acrescentou o presidente do TCU.
Vital do Rêgo argumentou que os salários dos servidores do TCU estão defasados, pelo fato de o comando constitucional de correção pela inflação não ter sido obedecido, o que elevaria o teto para R$ 72,8 mil ao mês.
“Quanto você acha que ganha um CEO da iniciativa privada? R$ 1 milhão? Quando você acha que ganha um médico especializado em cirurgia torácica? Ganha bem. Porque faz um serviço especializado. O meu auditor que entra aqui, ele fez o concurso mais difícil da nação”, justificou.
➡️De acordo com estudo do Banco Mundial, o Estado brasileiro gastou cerca de 10% do PIB com o pagamento de salários e vencimentos de servidores públicos em 2018. “Estima-se que os servidores públicos federais tinham em 2017 salários 96% maiores que trabalhadores do setor privado formal e servidores públicos estaduais, 16%, em média”, diz o documento.
➡️Servidores públicos concursados que já adquiriram estabilidade também têm proteção contra demissão sem justa causa, podendo perder o cargo apenas nas hipóteses previstas em lei.
STF forma maioria para liberar parte dos penduricalhos
Vital do Rêgo avaliou, porém, que em alguns casos, não no caso do TCU, houve” generosidades excessivas, não apenas da união, mas replicando nos estados” na concessão dos penduricalhos. “A justiça estadual passou do limite nesses chamados penduricalhos”, declarou Vital do Rêgo.
Progressão de carreira no serviço público
O presidente do TCU avaliou que a gratificação aos servidores da Casa que ocupam funções de direção, chefia e assessoramento é necessária, no Tribunal, pelo fato de que os servidores atingem o teto de carreira em até seis anos, ou seja, o salário máximo. Com isso, segundo ele, não há incentivo em assumir cargos de chefia.
O Ministério da Gestão informou que está ampliando, nos acordos assinados com servidores nos últimos anos, de 13 para 20 níveis os degraus de progressão de carreira. Segundo a ministra Esther Dweck, na prática, muito servidores do Executivo chegavam ao topo da carreira com 13 anos. Em entrevista ao jornal Valor Econômico em 2024, ela defendeu que isso aconteça somente com 20 anos de serviço.
De acordo com o estudo de 2019, “A Reforma do RH do governo federal”, coordenado pela economista Ana Carla Abrão, sócia da Oliver Wyman, documento que serviu de base em discussões sobre a reforma administrativa nos últimos anos, o modelo brasileiro, que concede progressão de carreira aos servidores com base em tempo de serviço, não é comum.
Em países desenvolvidos, esse levantamento mostra que a progressão na carreira, bem como alavancagem de oportunidades internas de crescimento, “são amparadas fundamentalmente no desempenho individual”.
Esse modelo foi progressão com base somente no tempo de serviço foi considerada uma “distorção a ser eliminada” na proposta de reforma administrativa do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, conduzida pelo então ministro da Economia, Paulo Guedes. O texto não foi aprovado pelo Congresso Nacional.
Decisões do STF sobre penduricalhos
Em março, o STF estabeleceu os critérios para o pagamento das verbas indenizatórias — chamadas de “penduricalhos” — para os magistrados e os integrantes do Ministério Público. Na ocasião, foi informado que a decisão levaria a uma economia de R$ 7,3 bilhões ao ano.
💵 Foram autorizados, naquele momento, alguns pagamentos indenizatórios, até o limite de 35% do valor do teto constitucional, correspondente ao valor da remuneração dos ministros do Supremo – atualmente em R$ 46.366,19. Isso significa que os penduricalhos podem chegar a até R$ 16.228,16.
Também em março, o STF liberou ainda o benefício por tempo de carreira, também limitado a 35% do teto constitucional. Na prática, somando os dois tipos de verbas, foi permitido o pagamento de até R$ 32.456,32 mais o salário mensal, podendo chegar a R$ 78.822,32.
Em junho, porém, o STF decidiu liberar parte dos “penduricalhos”. Com a decisão, o limite ainda precisa ser respeitado, mas deixam de valer restrições que haviam sido impostas a algumas verbas indenizatórias pelo próprio STF. Passou a ser permitido, por exemplo, o pagamento em dinheiro de férias, licenças-prêmio e plantões acumulados antes do julgamento.

Financiamento ou armadilha? Saiba diferenciar uma dívida boa de uma dívida ruim

Dívida boa e dívida ruim: qual é a diferença e por que isso importa?
Nem toda dívida é ruim. A diferença entre “dívida boa” e “dívida ruim” é econômica, não moral — e saber identificar isso é essencial. A boa é aquela que pode aumentar a renda ou ajudar a construir patrimônio, desde que o retorno compense o custo dos juros.
Já a dívida ruim é a usada para antecipar consumo e tende a crescer mais rápido que a renda, pressionando o orçamento. Nesse contexto, o endividamento caro e mal planejado preocupa no Brasil atualmente. Como resultado, o consumo pode perder força e a economia pode deixar de crescer.
Neste vídeo, você vai entender por que o problema não é ter dívida — mas, sim, dever mal. Toda semana, o g1 Explica simplifica a economia, o mercado financeiro e a educação financeira, mostrando como tudo isso afeta o seu bolso.

O país em que trabalhadores mais tiram licença médica agora quer endurecer as regras

Na Alemanha, empregados tiram, em média, quase 20 dias de licença médica por ano.
Sergey Mironov/Zoonar/IMAGO
O chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, anunciou semana passada uma ofensiva para combater o elevado número de dias de afastamento do trabalho por motivos de doença no país.
A medida ocorre após uma pesquisa publicada em janeiro pelo IGES Institut, com sede em Berlim, mostrar que os trabalhadores alemães tiram, em média, 19,5 dias úteis de licença médica por ano. O número representa um aumento significativo em relação aos cerca de 13 dias registrados em 2018.
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Como parte das propostas de Merz, a partir de janeiro do próximo ano os trabalhadores não poderão mais obter um atestado médico por telefone. Será necessário consultar um médico presencialmente já no primeiro dia de doença.
A medida, na prática, torna mais difícil tirar licença por motivos de saúde. Segundo Merz, o elevado número de ausências está prejudicando a economia alemã. “Não podemos mais arcar com essa desvantagem competitiva causada por longos períodos de afastamento do trabalho”, afirmou.
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O chanceler apresentou a iniciativa como uma forma de restaurar o que chamou de “justiça e funcionalidade” no mercado de trabalho, permitindo que empregadores e seguradoras de saúde reajam de forma mais rigorosa a faltas recorrentes.
A mudança faz parte de um pacote mais amplo de reformas e cortes orçamentários em programas de saúde e seguridade social acordado pela coalizão governista, formada pelo bloco conservador de Merz – integrado pelos partidos União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU) – e pelo Partido Social-Democrata (SPD).
Como funciona a licença médica na Alemanha?
A Alemanha possui um dos sistemas de licença médica mais generosos do mundo. Os trabalhadores têm direito a receber 100% do salário por até seis semanas de afastamento, pago pelo empregador. Normalmente, é necessário apresentar um atestado médico após três dias de ausência.
Após seis semanas, o seguro público de saúde assume o pagamento, cobrindo cerca de 70% do salário bruto, com limite máximo, por até 78 semanas ao longo de três anos, desde que se trate da mesma doença.
Além de proteger os trabalhadores contra perda de renda, o sistema incentiva a recuperação adequada e reduz o risco de transmissão de doenças no ambiente de trabalho.
O modelo alemão contrasta com o de muitos outros países.
Nos Estados Unidos, não existe exigência federal de uma licença médica remunerada. Muitos trabalhadores não recebem esse benefício ou contam com apenas alguns dias, dependendo do empregador.
Na Índia, a licença médica remunerada costuma ser limitada a poucos dias por ano, e muitas ausências curtas não são pagas. As regras variam amplamente entre empresas, setores e estados.
No Brasil, a licença médica é remunerada pelo empregador nos primeiros 15 dias de afastamento. Para afastamento mais prolongado, a partir do 16º dia, o funcionário precisa solicitar o auxílio-doença no INSS, que assume o pagamento do benefício.
Dentro da própria Alemanha, políticos e líderes empresariais frequentemente criticam o sistema, argumentando que ele estimula o absenteísmo e prejudica a produtividade e a competitividade.
A economia alemã enfrenta dificuldades devido à concorrência crescente da China, tensões geopolíticas e custos elevados de energia, entre outros problemas. O governo procura formas de estimular o crescimento econômico.
Críticos das reformas de Merz, contudo, afirmam que as medidas podem estigmatizar doenças legítimas e transferir para os trabalhadores – especialmente uma população cada vez mais envelhecida – a culpa pelos problemas econômicos do país.
Por que a Alemanha se tornou o “doente da Europa”?
Segundo o IGES Institut, uma das principais razões para o aumento dos afastamentos é a melhoria dos registros.
Isso ocorreu graças ao novo sistema eletrônico de atestados médicos (eAU), que entrou plenamente em vigor em 2023. Agora, os médicos enviam os atestados diretamente às seguradoras de saúde, e os empregadores podem acessá-los digitalmente, tornando o acompanhamento mais preciso.
Mudança da regra prevê que empregados tenham que obter atestado pessoalmente, e não mais por telefone.
Jochen Tack/imageBROKER/picture alliance
O IGES argumenta que muitas ausências curtas que antes não eram registradas em papel passaram a aparecer nas estatísticas.
Outro fator é a mudança de comportamento observada durante e após a pandemia de covid-19. Os trabalhadores se tornaram mais conscientes sobre a transmissão de vírus e, hoje, tendem a ficar em casa quando estão resfriados ou gripados.
Embora isso seja positivo para a saúde pública, aumenta o número de dias de afastamento registrados.
Problemas de saúde mental também cresceram como causa de ausências. Já os distúrbios musculoesqueléticos, como dores nas costas, continuam entre os principais motivos para licenças médicas.
A pesquisa do IGES, realizada para a seguradora DAK-Gesundheit, mostra que os profissionais da saúde apresentam as maiores taxas de afastamento, enquanto trabalhadores das áreas de tecnologia da informação e processamento de dados estão entre os que menos faltam.
Como a Alemanha se compara a outros países?
A forma mais simples de comparação utiliza dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
No entanto, a OCDE calcula as licenças médicas considerando semanas de sete dias, e não apenas dias úteis, o que dificulta uma comparação direta com os números do IGES.
Segundo a OCDE, a Alemanha registrou no ano passado uma média de 3,5 semanas de afastamento, equivalente a cerca de 24,5 dias.
Ainda assim, o país não lidera o ranking. Noruega, Espanha e Eslovênia superam cinco semanas anuais de afastamento.
Finlândia (4,8 semanas), França (4,1), Portugal (4,0) e Bélgica (3,9) também apresentam índices superiores aos da Alemanha.
Por outro lado, vários países do Leste e do Sul da Europa registram taxas muito menores. Bulgária, Romênia, Turquia, Grécia e Hungria têm média de uma semana ou menos por ano, enquanto os trabalhadores poloneses tiram cerca de 1,8 semana (entre oito e nove dias).
Os dados da OCDE, que abrangem 32 dos 38 países-membros da organização, indicam que os trabalhadores dos Estados Unidos tiraram em média 1,1 semana de licença médica em 2024, o ano mais recente disponível.

A economista que tenta entender a insatisfação dos brasileiros sob Lula: 'Redes sociais criam desejos de consumo para além do crescimento da renda'

‘Debate tem que avançar no próximo período para alguma forma de taxação de riqueza’, defende professora Laura Carvalho, da FEA-USP e membro do ‘Conselhão’ de Lula
Arquivo pessoal via BBC
O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vive um paradoxo.
O desemprego está nas mínimas históricas (em 5,6% em maio deste ano, menor patamar para o mês desde o início da série histórica), a economia cresce acima das expectativas — 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025 — e 17,5 milhões de brasileiros saíram da pobreza entre 2022 e 2024.
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Ainda assim, 44% dos entrevistados na pesquisa Genial/Quaest de junho afirmam que a economia do país piorou nos últimos 12 meses, enquanto apenas 20% dizem que melhorou.
A economista Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o “Conselhão” de Lula, tem se dedicado a entender esse descolamento.
Agora no g1
Como parte desse esforço, ela lançou recentemente o artigo “Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia”, em coautoria com seu marido e também economista Guilherme Klein Martins, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Para a dupla de economistas, quatro fatores principais estariam por trás desse descompasso: a inflação e seus efeitos persistentes sobre o bem-estar; a comparação com o ciclo de mobilidade social dos anos 2000, durante os dois primeiros governos Lula; a mudança nos desejos de consumo da população, impulsionada em grande medida pelas redes sociais; e a frustração de uma geração escolarizada que não encontra empregos compatíveis com a sua formação.
“Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil”, observa Carvalho, em entrevista à BBC News Brasil.
“Você não só está vendo o que consome uma pessoa no seu bairro, na sua família, você está vendo o que consome uma pessoa da classe média europeia ou um rico no seu país. E então os desejos, as aspirações, vão se homogeneizando e se globalizando de uma forma muito rápida e única na história, com uma sensação de insatisfação saindo daí”, afirma.
Para a professora da USP, esse é um dos fatores que talvez expliquem a diferença entre o sentimento da população nos anos 2000, durante os governos Lula 1 e 2, e no atual governo.
“Ali nos anos 2000, a distribuição de renda na base da pirâmide e o crescimento econômico expressivo incluíram uma parte da população no mercado consumidor que estava totalmente excluída desse mercado. Que passou a ter acesso a geladeira, a viagem de avião. Surgiu uma nova classe média, que hoje já não é mais satisfeita com esse mesmo padrão de consumo”, diz Carvalho.
Também diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society Foundation, Laura Carvalho lançou em 2018 o livro Valsa Brasileira, em que analisou os motivos que levaram a economia do país da prosperidade (2006-2010) a uma das piores recessões de sua história (2014-2017).
Na entrevista à BBC News Brasil, a economista analisa por que a desigualdade no Brasil segue sendo uma das maiores do mundo, mesmo diante do elevado gasto do governo com políticas sociais nos últimos anos. E propõe uma agenda para devolver o país a um novo ciclo de prosperidade.
Segundo ela, isso passa por uma expansão dos serviços públicos e diversificação da economia para gerar empregos qualificados para absorver a crescente população escolarizada. Mas também pelo avanço da agenda de tributação, iniciada com a reforma do Imposto de Renda.
“O debate tem que avançar no próximo período para alguma forma de taxação de riqueza”, defende.
“A concentração de riqueza é mais elevada do que a da renda, o que faz com que a desigualdade se perpetue — e ela se perpetua também no sistema político. Porque a influência daqueles que estão nesse topo [de renda] é muito desproporcional e, com isso, atua para preservar a estrutura atual.”
Carvalho destaca ainda o papel da dívida pública na perpetuação desse topo de riqueza. “O Estado brasileiro, por meio da dívida pública elevada, que paga juros muito altos, acaba transferindo renda para os mais ricos e atuando para perpetuar essa desigualdade elevada”, afirma.
“Hoje, muitos dos detentores da dívida são pessoas de alto patrimônio e que, sem muito risco envolvido, obtêm esses rendimentos elevados. Isso significa, sim, que o governo transfere renda para os mais ricos. Inclusive, me parece que o custo distributivo da dívida é algo que a gente não fala muito”, problematiza.
Confira os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil – O World Inequality Report 2026, divulgado no fim do ano passado pelo grupo de economistas ligados ao [economista francês Thomas] Piketty, mostrou que a desigualdade no Brasil segue entre as mais altas do mundo, e inclusive cresceu entre 2014 e 2024. Na sua visão, o que explica essa persistência da desigualdade no país, mesmo diante do elevado gasto do governo com políticas sociais nos últimos anos?
Laura Carvalho – Esse é o padrão da desigualdade brasileira, aliás, da América Latina. É uma das regiões mais desiguais do mundo e essa desigualdade é caracterizada por uma concentração muito alta da renda no topo da pirâmide — da renda e do patrimônio.
Já a desigualdade entre o meio e a base da pirâmide é relativamente pequena no Brasil. Conseguimos, inclusive, reduzir muito a desigualdade entre o meio e a base, com os programas sociais, com a valorização do salário mínimo, com o próprio dinamismo do mercado de trabalho, que vem acompanhado de crescimento do emprego, sobretudo para trabalhadores menos escolarizados.
Então, toda a redistribuição que a gente teve nos anos 2000 se deu entre esse meio e a base, onde a desigualdade já não era tão alta. Mas a desigualdade entre o topo e o meio não foi reduzida, ela se manteve elevada ao longo das últimas décadas.
A primeira vez que começamos a atacar essa característica, na verdade, foi agora, nesse terceiro mandato do presidente Lula. Quando ele, já desde a campanha, fala que é sobre “colocar o pobre no Orçamento, e o rico no Imposto de Renda”.
Isso se refletiu na reforma do Imposto de Renda, não só pelo fato de se atribuir uma alíquota mínima para esse topo, mas a própria isenção para quem ganha até R$ 5 mil, com progressão até quem ganha R$ 7,5 mil, porque você está dando um benefício fiscal para quem está nesse meio.
Mas claro, isso é apenas uma medida. Ainda há muito o que avançar, porque, mesmo com a alíquota mínima de 10%, continuamos com esse topo pagando menos do que quem vem logo abaixo dele.
E não é só sobre taxação da renda, o debate tem que avançar no próximo período para alguma forma de taxação de riqueza, porque taxar a renda pode até frear a concentração, mas não corrige o que historicamente acumulou.
A concentração de riqueza é mais elevada do que a da renda, o que faz com que essa desigualdade se perpetue, e ela se perpetua também no sistema político. Porque a influência daqueles que estão nesse topo é muito desproporcional e, com isso, atua para preservar a estrutura atual.
BBC News Brasil – Numa fala pública no fim do ano passado, o Luis Stuhlberger, gestor do Fundo Verde [fundo de investimento conhecido por seu histórico de alto retorno aos investidores], falou que o governo Lula age como “pai dos pobres e mãe dos ricos”, por conta do elevado gasto social, combinado a juros altos. Você concorda com essa avaliação?
Carvalho – Não que os juros sejam gerados pelo gasto social. Não acho que temos uma taxa de juros tão alta porque o governo está gastando muito, porque está gastando com benefícios sociais. Isso não tem evidência.
O nosso alto patamar de taxa de juros depende também do contexto internacional e de como os fluxos de capitais estão entrando ou saindo dos países em desenvolvimento. Hoje há um cenário de juros altos no mundo inteiro, com o Brasil sendo, claro, sempre um caso um pouco fora da curva. [Nota da redação: em junho, o Brasil ocupava o topo do ranking das economias com maior juro real do mundo, mesmo após o corte de 0,25 ponto percentual da Selic, para 14,25% ao ano. No período recente, países com juros historicamente baixos ou zero elevaram suas taxas, em meio ao avanço global da inflação.]
Mas também temos uma meta de inflação muito mais baixa do que outros países emergentes [atualmente, a meta de inflação é de 3% ao ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos].
Então, o que acho que é válido nessa comparação é que, de fato, o Estado brasileiro, por meio da dívida pública elevada, que paga juros muito altos, acaba sim, transferindo renda para os mais ricos e atuando para perpetuar essa desigualdade elevada. Isso sim é verdade.
Hoje, muitos dos detentores da dívida são pessoas de alto patrimônio e que, sem muito risco envolvido, obtêm esses rendimentos elevados. Isso significa, sim, que o governo transfere renda para os mais ricos. Inclusive, me parece que o custo distributivo da dívida é algo que a gente não fala muito.
BBC News Brasil – Essa persistência da desigualdade se reflete, de alguma forma, no sentimento de mal-estar com relação à economia da população brasileira?
Carvalho – Temos visto no mundo todo, não só no Brasil, uma desconexão entre indicadores macroeconômicos e percepção das pessoas sobre economia. Inclusive durante o governo [Joe] Biden, nos Estados Unidos, se cunhou o termo vibesession, que é uma espécie de recessão de sentimento.
Então não é só aqui no Brasil, isso vem sendo observado ao redor do mundo, e o principal fator que tem sido trazido para explicar é a própria inflação. Vivemos um período no mundo inteiro de sucessivos choques inflacionários desde a pandemia, depois a guerra na Ucrânia, e agora um terceiro com a guerra no Irã.
Então uma sequência de choques econômicos de natureza distinta, mas que levaram a efeitos similares, de uma crise com inflação. O que torna mais difícil para os governos lidar, porque, em crises de outro tipo, como a de 2008, o governo faz o quê? Baixa a taxa de juros.
Hoje, nesses choques inflacionários, os governos atuam a partir do aumento de taxas de juros pelos bancos centrais e, com isso, têm menos espaço fiscal para ajudar a saída dessas crises.
Isso tem a ver com desigualdade, sim, no sentido de que a população que mais foi afetada, sobretudo em 2024, pelo choque de preços de alimentos, foram os 50% mais pobres que têm nesses produtos essenciais uma parte maior da sua cesta de consumo. E, de fato, a gente observa que, nas pesquisas eleitorais, esse ciclo de deterioração de percepção econômica coincide com um ciclo de queda na aprovação do governo.
BBC News Brasil – Mas a inflação é suficiente para explicar essa insatisfação?
Carvalho – A inflação não é suficiente para explicar, porque há um segundo ciclo de deterioração dessa percepção sobre a economia, que vem entre 2025 e 2026. Ela se dá na classe média, entre os mais ricos. Há o crescimento da renda, ela supera a inflação, então não é que as pessoas estão perdendo poder de compra. As pessoas estão ganhando poder de compra e a inflação tampouco foi expressiva para esse grupo dos mais ricos, considerando a cesta de consumo deles.
Então, a gente se debruça sobre outros fatores. E o principal, me parece, é que esse crescimento da renda se dá sobre níveis de renda muito deprimidos. A gente veio de um período de uma década com pouquíssimo crescimento da renda per capita, então só em 2024 as pessoas recuperam a renda que elas tinham lá em 2014.
Então o crescimento não é tão robusto quanto foi o dos anos 2000 e ele se dá sobre uma memória de que você já foi mais próspero. E também o que se deseja mudou. A sociedade vai mudando e querendo acesso a outras coisas.
BBC News Brasil – Você tem falado nessa questão do “consumo aspiracional” e isso, inclusive, entrou no radar da equipe econômica do governo. Por que isso virou uma preocupação?
Carvalho – Isso é um fenômeno novo que tem sido estudado. Em particular, o efeito das redes sociais sobre o consumo aspiracional.
Porque consumo aspiracional sempre fez parte da teoria econômica. Há muito tempo, o economista James Duesenberry olhava para essa questão. Como, na verdade, as pessoas não consomem só baseadas na própria renda. É claro, sempre que a renda delas cresce, elas consomem mais. Mas elas também acabam consumindo emulando o consumo de outros, sobretudo daquelas classes que elas aspiram ser.
E elas então se comportam e têm os seus desejos de consumo pautados por aquilo, mesmo se a renda delas é insuficiente, o que, claro, está por trás de dinâmicas frequentes de endividamento. Porque quando há algum descompasso entre aquilo que você ganha e aquilo que você deseja consumir, o que cobre o resto acaba sendo o crédito. Isso sempre foi verdade, isso não é novo.
Mas, claro, as redes sociais mudam muito essa dinâmica. Esse “efeito demonstração” de consumo ocorre de uma forma muito diferente com a presença das redes. As pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil.
Você não só está vendo o que consome uma pessoa no seu bairro, na sua família, você está vendo o que consome uma pessoa da classe média europeia ou um rico no seu país. E então os desejos, as aspirações, vão se homogeneizando e se globalizando de uma forma muito rápida e única na história, com uma sensação de insatisfação saindo daí.
Muitos estudos mostram que as pessoas se frustram também pelo fato de estarem vendo essa ostentação, que não é só a ostentação de bens de luxo, mas também do que as pessoas fazem com seu tempo livre, a viagem, o lazer. Consumo não é só coisas, é um padrão de vida.
Acho que isso talvez traga um dos elementos da diferença entre o que foram os anos 2000 para o governo Lula 1, Lula 2, e o que vem sendo esse governo.
Porque, ali nos anos 2000, a distribuição de renda na base da pirâmide e o crescimento econômico expressivo incluíram uma parte da população no mercado consumidor que estava totalmente excluída desse mercado. Que passou a ter acesso a geladeira, a viagem de avião. Surgiu uma nova classe média, que hoje já não é mais satisfeita com esse mesmo padrão de consumo.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Ricardo Stuckert/PR
BBC News Brasil – E como mudar esse quadro de insatisfação e gerar um novo ciclo de prosperidade?
Carvalho – Pelo fato de a renda ter ficado estagnada durante tanto tempo, vai levar tempo. Precisamos chegar num ponto em que as pessoas se sintam satisfeitas, que o salário no fim do mês seja suficiente para dar vazão àquilo que elas entendem como um padrão de vida confortável.
Primeiro, a economia tem que crescer muito mais e o nível de renda tem que subir. O PIB [Produto Interno Bruto, soma de todos os bens e serviços produzidos no país] continua importando e muito.
E a renda tem que ser redistribuída. Quanto mais desigualdade, mais difícil é a gente chegar nesse ponto em que a maior parte da sociedade brasileira consiga se beneficiar desse crescimento.
E terceiro, tem toda uma agenda de serviços públicos, porque nem toda inclusão se dá com renda direta para as pessoas. Elas também podem gastar menos da sua renda com serviços privados, porque têm acesso a serviços públicos de maior qualidade. Um plano de saúde que deixa de ser necessário porque o SUS atende, ou uma educação privada que deixa de ser necessária porque o sistema de educação atende. Isso já libera muita margem para que as pessoas deem vazão às suas ambições e aspirações.
E um tempo menor no transporte público. Isso é uma mudança de qualidade de vida que também contribui para deixar as pessoas mais próximas de um padrão de vida que elas desejam.
BBC News Brasil – Você cita a expansão dos serviços públicos como um dos itens dessa receita, como fazer isso num quadro de restrição fiscal, sem aumentar ainda mais os juros que alimentam a desigualdade?
Carvalho – A gente defende que seja dado sequência à agenda de tributação. E aí não é só sobre cobrar mais impostos progressivos, mas também sobre subsídios. Os gastos tributários, que hoje representam 6% do PIB, também contribuem para a desigualdade. São deduções que não estão perseguindo nenhuma agenda específica, que foram sendo expandidas por influência dos setores beneficiados.
BBC News Brasil – Mas é possível abrir espaço fiscal só via tributos? Ou reformas estruturais também podem ser necessárias, como uma reforma administrativa?
Carvalho – Temos que continuar avançando em eficiência no gasto, nos serviços. Essa é uma agenda que temos visto nesse governo, com digitalização dos serviços. Para que um mesmo real gasto no sistema de saúde, no sistema de educação, atinja uma qualidade maior, atinja mais gente.
Agora, não me parece que a gente vai conseguir chegar num objetivo de serviço público de maior qualidade, achando que o grande inimigo do Orçamento são as pessoas que estão trabalhando na prestação desses serviços.
Tampouco acho que cortar benefício social [seja a solução], apesar de, claro, poder haver uma discussão sobre integração, sobre racionalização dos benefícios, que de fato são muitos, e são sobrepostos muitas vezes. Acho que isso é válido.
BBC News Brasil – Você também tem citado como um dos fatores dessa frustração dos brasileiros, as gerações escolarizadas que não encontram empregos compatíveis. Por que isso está acontecendo? E como você vê o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho brasileiro nos próximos anos, isso pode agravar esse quadro?
Carvalho – O Brasil, nos primeiros ciclos de governos do PT, expandiu muito o nível educacional, deu acesso a [educação de] nível superior para filhos de famílias que nunca tiveram. Isso tanto pelo Fies, quanto pelo Prouni, quanto pela própria expansão das universidades federais.
Passamos a ter uma geração inteira de pessoas com diploma universitário que hoje procuram empregos num nível de qualificação maior do que os seus pais tinham. E os empregos que estamos gerando são de um salário mínimo e em setores de serviços de baixa qualificação.
Então, há um certo descompasso entre os empregos gerados e aqueles que as pessoas querem e têm qualificação para ter. Isso já vem sendo observado há algum tempo. Na última década, aumentou muito o percentual de pessoas que estão em empregos que requerem um nível educacional menor do que o que elas têm.
BBC News Brasil – E como endereçar esse problema?
Carvalho – Isso vem sendo debatido ao redor do mundo e demanda um tipo de política que olhe para a estrutura produtiva, e [defina] quais são os setores onde nós vamos entrar e onde o Brasil tem competitividade.
Isso tem a ver com a agenda de desenvolvimento do país. É preciso olhar pela ótica do emprego, de maneira combinada a transição climática, soberania e vários outros objetivos que tem uma política industrial.
Também tem que olhar pelo lado da própria educação. Porque, às vezes, os diplomas que estão sendo dados não são compatíveis com a estrutura produtiva.
Então, [é preciso pensar] como você integra mais o Sistema S, as universidades, os institutos federais a essa estratégia. Para que as pessoas se eduquem também onde há oportunidades.
A questão da IA, claro, afeta isso tudo. Mas eu acho que ela não é o principal.
BBC News Brasil – A professora Rosana Pinheiro Machado tem escrito sobre como a direita radical tem mobilizado essa nova classe trabalhadora plataformizada por meio das redes digitais, com discurso particularmente direcionado para os microempreendedores e trabalhadores informais. Na sua visão, é possível reconquistar esses trabalhadores para o campo democrático através de medidas econômicas?
Carvalho – Em alguns casos, esses são indivíduos que estão nesses trabalhos porque não têm outro, mas em muitos casos são pessoas que hoje valorizam algum grau de autonomia sobre o seu tempo. Até porque a sua alternativa seria estar numa escala 6×1, onde esse tempo não existe.
Então a própria escala 6×1 é uma agenda que ajuda. O outro lado é, claro, proteção. Então, como essas pessoas vão ter acesso a proteção social caso elas percam empregos. Acho que tem toda uma agenda de regulação do setor que faz sentido.
Mas, uma terceira parte, que eu acho que é pouco falada, é que esse setor depende muito de uma macroeconomia que vai bem. Quando a economia vai mal, os primeiros a sofrerem são esses trabalhadores que ou são precarizados, pois estão em empregos informais, ou são plataformizados.
É um setor muito dependente de PIB e de desemprego baixo. Então a forma de entregar uma melhora substantiva para esses trabalhadores é ter uma economia que cresce. Essa é a principal.
A gente precisa ter um ciclo de crescimento mais longo, mais robusto, com redistribuição de renda, para conseguir ver indicadores melhores de percepção das pessoas sobre a economia.
BBC News Brasil – Você sempre esteve próxima dos governos petistas, mas nunca assumiu um cargo no Executivo. Tem esse desejo num eventual governo Lula 4?
Carvalho – Eu sou uma professora universitária, fico muito confortável na posição de analista da política econômica brasileira.
Estando fora, a gente contribui para essa compreensão, essa análise dos fenômenos, com diálogo permanente com aqueles que estão [dentro do governo] fazendo. Então, eu sempre fiquei muito confortável nessa posição.
Nesse momento, estou mais pensando em escrever um novo livro, como foi o Valsa Brasileira, que analise esse novo ciclo necessário de prosperidade econômica no país. Qual é essa agenda de prosperidade econômica que possa nos ajudar a superar esses desafios novos, com os limites todos. Como abrir as frestas necessárias para conseguir implementar e adotar essas agendas.
Então, isso é o que está mais na minha cabeça no momento.

'Se nunca curte nada, manda embora': vídeo viral sobre cobrar curtidas de funcionários gera debate; veja limites

Vídeo viral sobre cobrar curtidas de funcionários gera debate; veja limites
“Se você tem um funcionário que nunca curte nada do que você posta, nunca compartilha nada da empresa e nunca comenta nada, manda embora”.
Foi com essa frase que a influenciadora e especialista em harmonização facial Ariana Almeida provocou uma onda de reações nas redes sociais nos últimos dias.
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No vídeo, ela defende que empresas devem valorizar profissionais que apoiem o negócio para além das tarefas do dia a dia e afirma que a falta de interação com as publicações da empresa pode indicar ausência de compromisso com a cultura organizacional.
“Funcionário bom não é só quem executa tarefa. Funcionário bom é quem compra a ideia, é quem entende que quando a empresa cresce, todo mundo cresce”, diz ela na gravação.
A fala rapidamente abriu uma discussão maior: o avanço das empresas sobre espaços que antes eram vistos como exclusivamente pessoais.
💭 Se o perfil é do trabalhador, a empresa pode esperar que ele seja usado para divulgar a marca? Curtir, comentar ou compartilhar publicações do empregador pode ser tratado como demonstração de comprometimento ? E o que acontece quando esse engajamento deixa de ser espontâneo e passa a ser esperado?
Fala da influenciadora Dra. Ariana Almeida sobre demitir funcionários que não interagem com posts da empresa reacendeu discussão sobre trabalho e redes sociais
TikTok/ Reprodução
Dias depois da repercussão, Ariana publicou um novo vídeo afirmando que sua fala havia sido retirada de contexto. “Ninguém é obrigado por lei a curtir os meus posts, os posts da empresa, compartilhar, mas a empresa, ela também não é obrigada a manter quem não tem fit cultural (…) A relação de trabalho não é só bater ponto e vai embora”, afirmou.
A controvérsia, no entanto, acabou trazendo à tona em que momento termina o poder de direção da empresa e onde começam os direitos do trabalhador à privacidade e à vida pessoal?
Para a advogada trabalhista Elisa Alonso, sócia do RCA Advogados, a legislação trabalhista não impõe ao empregado o dever de divulgar publicações da empresa e, embora o empregador tenha o direito de organizare fiscalizar a prestação dos serviços, esse poder encontra limites nos direitos fundamentais garantidos ao trabalhador.
“Expressões como ‘vestir a camisa’ ou ‘defender a marca’ não autorizam a empresa a exigir comportamentos que não decorrem do contrato de trabalho, nem fundamentar punições ou tratamentos desiguais entre os empregados”, diz a advogada.
Abaixo, saiba ainda:
Curtir publicações pode estar no contrato?
A empresa pode monitorar as redes sociais dos funcionários?
Quando a cobrança pode virar um problema?
O trabalhador pode ser advertido?
E se houver demissão?
Como provar?
Curtir publicações pode estar no contrato?
Elisa explica que, para a maioria dos trabalhadores, utilizar perfis pessoais para divulgar a empresa simplesmente não integra as atividades para as quais foram contratados.
“O empregado é contratado para prestar os serviços inerentes à sua função, e não para demonstrar, em seus perfis pessoais, alinhamento ao propósito da empresa.”
⚠️ Isso não significa que empresas estejam proibidas de estimular esse comportamento. Segundo Elisa, é legítimo incentivar funcionários a participar de campanhas, compartilhar conquistas da organização ou contribuir espontaneamente para fortalecer a marca.
A diferença está entre convite e obrigação. “Transformar esse comportamento em uma obrigação ou utilizá-lo como critério de punição ou ameaças pode gerar questionamentos na Justiça.”
Mas há exceções! Em algumas profissões, o uso de redes sociais pode fazer parte da própria atividade contratada. É o caso de profissionais de comunicação, marketing, publicidade, criação de conteúdo e gestão de redes sociais.
“A depender da função exercida e dos termos da contratação, o uso das redes sociais pessoais pode integrar suas atribuições.”
A empresa pode monitorar as redes sociais dos funcionários?
Se um trabalhador publica conteúdos em um perfil aberto ao público, a empresa pode visualizar esse material da mesma forma que qualquer outro usuário da internet, explica a advogada. Isso não significa, porém, que exista autorização para monitoramento irrestrito.
“A empresa não pode exigir acesso a perfis privados, solicitar senhas ou invadir a vida pessoal do empregado.”
Segundo Elisa, também não é recomendável usar redes sociais como ferramenta permanente de vigilância sobre comportamentos que não tenham ligação com as atividades profissionais.
“O direito de fiscalização existe, mas deve ser exercido com respeito à privacidade e aos direitos da personalidade do trabalhador.”
Quando a cobrança pode virar um problema?
Na avaliação da especialista, o sinal de alerta aparece quando a empresa começa a associar engajamento digital à permanência no emprego, à possibilidade de promoção ou à avaliação de desempenho.
“O problema surge quando a empresa passa a constranger, ameaçar, adotar como critério para promoção ou prejudicar o empregado porque ele não curtiu, comentou ou compartilhou uma publicação.”
Dependendo da intensidade e da frequência dessas cobranças, a conduta pode ser interpretada como abuso do poder diretivo e, dependendo das circunstâncias do caso concreto, até assédio moral.
A especialista ressalta que o mesmo vale para situações em que a empresa tenta associar curtidas ou compartilhamentos a noções de propósito, lealdade ou pertencimento.
“Vincular o comprometimento do empregado ao fato de ele interagir com as redes sociais da empresa, tratando esse comportamento como demonstração de ‘propósito’, de que ‘veste a camisa’ ou de que é um ‘defensor da marca’, pode extrapolar os limites do poder diretivo.”
O trabalhador pode ser advertido?
Uma advertência baseada exclusivamente na recusa do empregado em utilizar suas redes pessoais para promover a empresa pode ser questionada judicialmente, explica a advogada.
“Se ficar comprovado que a advertência, a avaliação negativa ou qualquer outro prejuízo profissional decorreu da recusa do trabalhador em utilizar suas redes sociais pessoais para promover a empresa, a medida poderá ser questionada na Justiça.”
Dependendo das circunstâncias, o trabalhador pode pedir a anulação da punição e, se houver constrangimento ou prejuízo, até uma indenização por danos morais.
E se houver demissão?
A situação é mais delicada. A legislação brasileira permite que empresas realizem demissões sem justa causa, sem necessidade de apresentar um motivo específico para o desligamento.
Isso significa que uma empresa pode demitir um funcionário mesmo sem explicar formalmente por quê. Ainda assim, a motivação por trás da dispensa pode ser analisada pela Justiça.
“Se ficar demonstrado que a demissão foi utilizada como forma de represália pela recusa do empregado em promover a empresa nas redes sociais, a depender da análise caso a caso, também poderá haver discussão sobre eventual reparação por danos morais.”
Nesses casos, porém, o debate normalmente não gira em torno da reintegração ao emprego. A principal discussão costuma ser a possibilidade de indenização, afirma Elisa.
Como provar?
Segundo a advogada, essa costuma ser a parte mais difícil do processo. Raramente um empregador registra oficialmente que a dispensa ocorreu porque determinado trabalhador não participava do engajamento digital da empresa.
A prova normalmente surge por meio de mensagens, conversas internas, e-mails, grupos corporativos e testemunhas.
“Normalmente vai ter algum comentário interno ou, por exemplo, grupo que não participa daquilo pode ter sido demitido por aquele motivo.”
Por isso, Elisa recomenda que o trabalhador peça esclarecimentos sobre os motivos do desligamento. “A prova é muito difícil, mas ela pode ser feita até, por exemplo, da pessoa questionar o chefe por que estaria sendo demitida e eventualmente registrar aquilo por mensagem.”
Sem documentos, colegas que tenham presenciado cobranças ou comentários também podem servir como testemunhas.