Casca enrugada do ovo pode ser sinal de estresse nas galinhas; veja por que isso acontece

Casca enrugada do ovo pode ser sinal de estresse nas galinhas; veja por que isso acontece
Um ovo com a casca enrugada chamou a atenção de um produtor rurl de Vacaria (RS). Ao encontrar o alimento no galinheiro, ele ficou em dúvida sobre o que poderia ter causado a deformação.
Segundo o zootecnista Marconi Ítalo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP), esse tipo de alteração costuma estar relacionado a algum fator de estresse sofrido pela galinha durante a formação da casca.
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A produção de um ovo leva, em média, 25 horas. O processo começa com a liberação da gema pelo ovário. Em seguida, ela percorre o oviduto, onde é formada a clara, até chegar ao útero, onde permanece por cerca de 18 horas para a formação da casca de cálcio.
É justamente nessa etapa final que o problema pode ocorrer.
“Quando há um fator de estresse, como uma chuva forte em galpões com telhado metálico, por exemplo, o útero da galinha se contrai. A casca acaba ficando enrugada e assume o formato dessas contrações”, explica Marconi Ítalo.
Além de barulhos intensos, outros fatores também podem provocar esse tipo de alteração, como:
temperaturas elevadas, acima de 25 °C;
deficiência de cálcio e fósforo na alimentação;
excesso de aves no mesmo espaço;
idade avançada ou problemas de saúde da galinha.
Se os ovos deformados começarem a aparecer com frequência, a recomendação é procurar um médico-veterinário para avaliar a saúde das aves e identificar a causa do problema.
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Como reduzir o estresse das galinhas
Pequenas mudanças no ambiente podem ajudar a manter as aves mais tranquilas e estimular comportamentos naturais.
Uma alternativa simples é pendurar CDs antigos no galinheiro. O reflexo da luz chama a atenção das galinhas, que passam mais tempo interagindo com o objeto.
Outra recomendação é instalar poleiros, já que as aves têm o hábito natural de descansar em locais elevados.
“Elas gostam de se empoleirar porque conseguem observar melhor o ambiente ao redor, o que aumenta a sensação de segurança”, explica o especialista.
Também é possível usar redes de frutas, como as de laranja, recheadas com feno ou capim seco. As galinhas costumam bicar o material por bastante tempo, o que ajuda a reduzir o estresse e o tédio.
É seguro consumir um ovo enrugado?
Sim. Segundo o especialista, o ovo com a casca enrugada pode ser consumido normalmente, desde que a casca esteja íntegra, sem rachaduras, e o alimento tenha sido armazenado adequadamente. O problema é apenas estético e, em geral, não compromete a qualidade interna do ovo.
Gato-mourisco
Reprodução/Globo Rural
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Por que a Ucrânia tem atacado a 'Amazon russa'

Um dos quatro centros de distribuição da Wildberries atingidos nos ataques. A unidade de Nevinnomyssk foi atacada na madrugada de quarta-feira (22/7)
REUTERS
Em poucos dias, drones ucranianos atingiram vários centros de distribuição da Wildberries, a maior varejista online da Rússia, causando prejuízos a um grande número de pequenas e médias empresas.
Depois de meses atacando depósitos e refinarias de petróleo, a Ucrânia afirma que agora passou a mirar centros logísticos usados para comprar equipamentos militares, numa tentativa de interromper o abastecimento do Exército russo.
Mas a ofensiva também afetou centenas de vendedores russos que dependem de mercados virtuais (como a Amazon ou o Mercado Livre) para vender e sobreviver, fazendo a guerra chegar mais perto da rotina de muitos deles pela primeira vez em quase quatro anos e meio.
“Sou mãe de uma criança com deficiência e construí esse negócio sozinha”, escreveu uma mulher em uma publicação repleta de palavrões nas redes sociais que acabou viralizando.
“Perdi 1 milhão de rublos [cerca de R$ 65 mil]… Como se já não estivéssemos sendo ferrados de todos os lados.”
No primeiro ataque da Ucrânia contra a Wildberries, no fim de semana, dois centros de distribuição foram atingidos: um deles em Elektrostal, a leste de Moscou, e outro em Kotovsk, na região de Tambov, a cerca de 400 km da fronteira com a Ucrânia.
Sete funcionários que trabalhavam no turno da noite morreram em Kotovsk, e outro morreu em Elektrostal. Dezenas de pessoas ficaram feridas, e o prejuízo com mercadorias destruídas foi avaliado em cerca de R$ 5,1 bilhões.
Estima-se que entre 85% e 90% da população economicamente ativa da Rússia use a Wildberries ou sua concorrente, a Ozon. Em muitas regiões remotas, onde há poucas lojas físicas, essas plataformas são o principal meio de compras para produtos que vão de roupas a eletrodomésticos.
A Ucrânia afirmou ter atingido “importantes centros logísticos” usados para “fornecer componentes sujeitos a sanções destinados à produção de drones e equipamentos de navegação”.
Outros centros logísticos foram atacados na madrugada de segunda-feira (20), entre eles mais um centro de distribuição da Wildberries em Koledino, ao sul de Moscou. Novos ataques, entre a noite de terça-feira (21) e a madrugada de quarta-feira (22), atingiram centros logísticos da empresa em Krasnodar e Nevinnomyssk, na região de Stavropol.
Ataques registrados entre 18 e 22 de julho
BBC
A proprietária da empresa, Tatiana Kim, informou que houve esses ataque deixaram mais vítimas.
“Estamos, com toda razão, levando a guerra de volta para dentro da Rússia”, afirmou o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.
Desde o início da invasão em larga escala, em fevereiro de 2022, a Rússia vem atacando cidades ucranianas com drones e mísseis. Nos últimos meses, ofensivas russas também atingiram armazéns e terminais de carga na Ucrânia.
Centros de triagem da Nova Poshta, a maior empresa privada de entregas da Ucrânia, foram alvo de ataques, assim como depósitos da rede varejista ATB e do grupo de confeitaria Roshen.
Com a linha de frente praticamente estagnada, a Ucrânia intensificou a sua campanha de ataques com drones de longo alcance contra rotas de abastecimento e instalações de energia. Na prática, a ofensiva isolou a Crimeia, anexada pela Rússia, e provocou escassez de combustível em diferentes regiões do país.
As empresas já vinham sofrendo os efeitos da guerra antes dos ataques aos centros de distribuição, mas algumas perderam grande parte de seus estoques de um dia para o outro.
A Rússia nega que plataformas de comércio eletrônico sejam usadas para abastecer o Exército. Ainda assim, nelas são vendidos diversos produtos de uso militar, como coletes balísticos, além de itens que podem ser usados tanto para fins civis quanto na fabricação de drones.
Blogueiros pró-guerra da Rússia afirmam que voluntários recorrem regularmente a essas plataformas para comprar equipamentos que depois são enviados às tropas na linha de frente.
Mas não há confirmação independente de que os centros de distribuição atingidos nos ataques armazenassem esse tipo de material.
Diferentemente da gigante americana Amazon, que vende produtos diretamente aos consumidores além de operar um marketplace (mercado virtual em que operam outros comerciantes), a Wildberries e a Ozon funcionam quase exclusivamente como plataformas que conectam vendedores independentes a compradores em toda a Rússia. Elas armazenam, entregam as mercadorias e processam os pagamentos.
Por isso, boa parte dos prejuízos provocados pelos ataques acabou recaindo sobre comerciantes.
Para uma vendedora de artigos de papelaria, a Wildberries é o único canal de vendas. Um dia depois de enviar sua mercadoria ao centro de distribuição de Elektrostal, nos arredores de Moscou, na sexta-feira passada (17), ela recebeu a notícia de que todo o estoque havia sido destruído pelo incêndio.
Imagem de satélite mostra a dimensão do incêndio que atingiu o centro de distribuição da Wildberries em Elektrostal, a leste de Moscou
Gallo Images/Orbital Horizon/Copernicus Sentinel Data 2026
Ela ainda tem outros produtos armazenados, mas esta é uma época importante para o negócio, quando pais e estudantes fazem as compras para o início do novo ano letivo no hemisfério norte.
Outra comerciante que atua na Wildberries, vendendo roupas para adolescentes, contou à BBC ter perdido um estoque avaliado em cerca de 1,4 milhão de rublos (aproximadamente R$ 91 mil). Ela decidiu suspender o envio de novos produtos por algumas semanas.
“As perspectivas de continuar trabalhando com a Wildberries são muito incertas”, afirmou. “No momento, ainda tenho uma reserva financeira suficiente para absorver essas perdas. Mas se houver novos ataques, provavelmente não vou conseguir.”
Nenhuma das duas espera receber indenização. No início deste mês, menos de duas semanas antes dos ataques, a Wildberries incluiu nos contratos uma cláusula que passou a considerar ataques com drones como casos de força maior, isentando a empresa de qualquer responsabilidade.
A proprietária da Wildberries, Tatiana Kim, prometeu “não abandonar” os vendedores. Algumas pequenas empresas já receberam compensações, e a companhia também concedeu descontos temporários e isenção das taxas de envio. No entanto, as medidas fizeram pouco para reduzir o receio de novos ataques.
Apoiar pequenas e médias empresas tem sido uma das prioridades declaradas de Vladimir Putin, presidente da Rússia, mesmo em tempos de guerra. O governo russo apresenta esse setor como um dos pilares da resistência do país às sanções impostas pelo Ocidente.
Mas, na prática, o Estado não conseguiu proteger essas empresas dos efeitos do conflito, e o setor vem enfrentando uma série de dificuldades desde o início do ano.
Em janeiro, o Imposto sobre Valor Agregado, o IVA, subiu de 20% para 22%, para ajudar a financiar os gastos com Defesa, e benefícios fiscais concedidos a parte das empresas foram extintos.
Segundo a plataforma de inteligência de negócios Kontur.Fokus, 209 mil pequenas e médias empresas encerraram suas atividades no primeiro trimestre de 2026. O número é 9% maior que o registrado no mesmo período de 2025.
Apagões frequentes na internet e a repressão a aplicativos de mensagens populares agravaram ainda mais a situação. Segundo algumas estimativas, empresas de Moscou perderam dezenas de milhões de dólares em apenas uma semana de março.
Depois veio a crise de combustíveis, desencadeada pelos ataques ucranianos a depósitos de petróleo, refinarias e rotas de abastecimento.
“Já há muitos pregos, e continuam martelando outros mais. [O ataque aos centros de distribuição da Wildberries] é mais um prego no caixão? Sim, sem dúvida”, disse Ruben Enikolopov, professor da Universidade Pompeu Fabra, na Espanha, em entrevista à BBC.
As pequenas empresas russas já demonstraram capacidade de resistir a crises no passado. Mas a inflação continua elevada, o déficit orçamentário aumenta, e as receitas com petróleo e gás estão 23% abaixo das registradas nos seis primeiros meses do ano passado.
A Rússia ainda dispõe de grandes reservas financeiras acumuladas em tempos de paz. No entanto, a guerra na Ucrânia consome cada vez mais recursos, reduzindo a capacidade de crescimento da economia civil.
Reportagem adicional de Olga Shamina

Brasil proíbe foie gras após classificar técnica como maus-tratos

Técnica gavage para produção de foie gras
Jerry ツ on Visualhunt
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta sexta-feira (24) um projeto de lei que proíbe a produção e a venda de produtos obtidos por meio da alimentação forçada de animais. Entre eles, está o foie gras, prato da culinária francesa feito com fígado gordo de pato ou ganso.
A norma, publicada no Diário Oficial da União, especifica que a proibição inclui a produção e a comercialização de foie gras, tanto in natura como enlatado.
Quem descumprir a regra poderá ser punido com prisão de três meses a um ano, além de multa, conforme prevê a Lei de Crimes Ambientais para casos de maus-tratos a animais.
➡️ A técnica usada para produzir o foie gras é conhecida como gavage. Ela consiste em forçar o animal a comer mais do que consumiria naturalmente para aumentar o tamanho do fígado. Para isso, um tubo metálico é inserido pela garganta da ave até o esôfago, por onde a ração é fornecida.
Vídeos em alta no g1
O procedimento costuma ser realizado duas vezes por dia nas duas a quatro semanas que antecedem o abate. “Isso gera uma série de lesões na garganta, no esôfago ou até na face e no bico do animal”, explica George Sturaro, diretor de políticas públicas da ONG Mercy For Animals.
Segundo Sturaro, o fígado pode crescer até dez vezes além do tamanho normal, o que pode causar dor, alterações no metabolismo e estresse térmico nas aves.
Além disso, há outro agravante: muitas vezes o processo não é feito corretamente, o que provoca ainda mais ferimentos nos animais.
“Você vê que as aves já até fogem quando chega o funcionário, porque já vira um manejo violento, não toma cuidado na hora de fazer a sondagem”, afirma Patrycia Sato, presidente e diretora técnica da Alianima.
Gavage, técnica de alimentação forçada
Mercy for Animals / divulgação
Segundo o relator do projeto, o deputado Fred Costa (PRD-MG), a técnica pode aumentar em até 25 vezes a taxa de mortalidade dos animais.
Sem esse método, ainda não existem alternativas comercialmente viáveis para produzir foie gras, afirma Sturaro. No entanto, algumas opções estão sendo estudadas, como o cultivo de células em laboratório e produtos à base de plantas.
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Brasil na frente
Agora que o texto foi sancionado, o Brasil será o segundo país a proibir a produção e a comercialização de produtos obtidos por meio da alimentação forçada de animais. O primeiro foi a Índia.
No caso da produção, outros países já adotam restrições semelhantes, como Reino Unido, Alemanha, Itália, Austrália e Argentina.
“Realmente o Brasil sai na frente de muitos países, inclusive os que geralmente são pioneiros em práticas de bem-estar animal”, afirma Sato.
O projeto de lei foi apresentado há seis anos no Senado e tramitou em caráter conclusivo pelas comissões — ou seja, não precisou passar pelo plenário, explica Natália Figueiredo, gerente de políticas públicas da World Animal Protection Brasil.
Segundo Figueiredo, a embaixada da França pediu apoio da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) para evitar que o projeto também proibisse a importação de produtos feitos com a técnica. O g1 entrou em contato com a FPA e com a embaixada da França, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
Já internamente, o projeto passou sem obstáculos, uma vez que o Brasil só possui três produtores que usam a técnica de gavage. “E é uma iguaria, é um alimento muito caro, ela é elitizada. Então, também não tem esse fator de você estar tirando comida do brasileiro”, afirma Sato.
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União Europeia acusa TikTok de expor menores a riscos online

Ícone do aplicativo de compartilhamento de vídeos TikTok.
AP/Matt Slocum/Arquivo
A União Europeia acusou o TikTok nesta sexta-feira (24) de não proteger os menores, uma vez que as configurações de suas contas os expõem a riscos como cyberbullying e comportamentos predatórios.
A UE afirmou que essas contas deveriam ser visíveis apenas para pessoas permitidas. Adolescentes acima de 13 anos podem usar o TikTok.
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“Um alto nível de proteção não deveria ser uma opção que precise ser ativada; deveria ser a configuração padrão”, declarou a responsável pela área de tecnologia da UE, Henna Virkkunen, em comunicado.
A UE intensificou seus esforços para proteger os menores com novas normas previstas para o fim deste ano, que proibirão crianças menores de 13 anos de usar redes sociais.
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Bruxelas abriu sua investigação sobre o TikTok, de propriedade do grupo chinês ByteDance, em 2024 com base na Lei de Serviços Digitais (DSA).
De acordo com a DSA, as configurações das contas de menores contam, por padrão, com medidas de segurança e proteção mais rigorosas.
“As configurações das contas do TikTok não cumprem essa norma”, afirmou a UE em sua avaliação preliminar. Elas “continuam a expô-los a riscos, como contatos indesejados, cyberbullying ou comportamentos predatórios”.
A UE constatou durante a investigação que os menores podem tornar sua conta pública, o que significa que qualquer pessoa, tenha ou não uma conta no TikTok, pode ver seu conteúdo.
Mesmo quando optam por tornar suas contas privadas, podem ser “facilmente encontradas”.
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Um porta-voz do TikTok afirmou que as contas de adolescentes contam com mais de 50 recursos de privacidade e segurança pré-configurados, e destacou que as contas de menores de 18 anos são privadas por padrão.
“Analisaremos essas conclusões preliminares enquanto seguimos colaborando de forma construtiva” com a UE, acrescentou.
Se confirmadas as conclusões da UE sobre o TikTok, o bloco poderá impor uma multa de até 6% do faturamento anual total da empresa em nível mundial.

'Estamos protegendo a criação de Deus': as freiras ativistas que desafiam as companhias de Big Tech

A irmã Susan Francois faz parte da Congregação das Irmãs de São José da Paz, que reúne 88 freiras nos Estados Unidos e no Reino Unido e pratica o chamado ativismo acionário
Congregação das Irmãs de São José da Paz via BBC
A irmã Susan Francois talvez não corresponda à imagem que muita gente faz de uma freira católica.
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Ela não usa hábito, a veste tradicional composta por túnica e véu. E também é ativa na rede social TikTok. Seu perfil reúne vídeos gravados em frente a um centro de detenção de imigrantes em Nova Jersey, nos Estados Unidos, onde defende migrantes e suas famílias.
Mas a irmã Francois também vem chamando atenção por outro tipo de ativismo.
Ela e outras freiras da Congregação das Irmãs de São José da Paz, que reúne 88 religiosas nos EUA e no Reino Unido, praticam o chamado ativismo acionário. Como acionistas, usam sua participação em empresas para pressionar grandes corporações a adotar medidas relacionadas a temas como mudanças climáticas, direitos territoriais dos povos indígenas e justiça racial.
Agora no g1
“Como tesoureira da congregação, sou a responsável por representar nossos interesses […] quando cobramos que essas empresas atuem em favor do bem comum”, afirma Francois.
Em um caso recente, elas tentaram convencer o conselho de administração da gigante de tecnologia Palantir (empresa de análise de dados que atua, por exemplo, como intermediária tecnológica entre o Vale do Silício e o governo dos EUA) a responder às suas preocupações. As freiras acreditavam que o software de inteligência artificial (IA) da empresa estava sendo usado pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) e por outros órgãos públicos para “rastrear e identificar imigrantes para detenção e deportação”.
A encíclica Magnifica Humanitas (ou, “Magnífica Humanidade”, na tradução do latim para o português), do papa Leão 14, trata dos desafios impostos pelo avanço da inteligência artificial
AFP via Getty Images
Segundo elas, isso poderia representar uma violação dos direitos humanos.
Mais especificamente, as religiosas queriam que a Palantir realizasse uma Avaliação de Impacto sobre Direitos Humanos (HRIA, na sigla em inglês) para analisar como seus produtos e serviços são utilizados e reduzir possíveis impactos negativos.
Para isso, recorreram ao chamado shareholder resolution (proposta apresentada por acionistas para deliberação em assembleia), um mecanismo que permite aos acionistas submeter propostas à votação na assembleia geral anual da empresa.
A proposta recebeu apenas 13% dos votos, mas a irmã Francois considera o resultado uma vitória, argumentando que os fundadores da companhia controlam 49,9% das ações com direito a voto.
“Do [total] de votos de acionistas que não fazem parte do grupo controlador, 56% votaram a favor da proposta das irmãs”, afirma. “O fato de tantos acionistas terem concordado conosco diz muito.”
A BBC procurou a Palantir para comentar o caso, mas a empresa não respondeu.
Mas em um comunicado anterior aos acionistas, a companhia afirmou que a iniciativa das freiras se baseava em “equívocos e informações incorretas sobre o trabalho da Palantir”. A empresa também disse que não é uma companhia de dados, não vende dados pessoais nem oferece serviços de mineração de dados.
Operações do ICE dividiram comunidades em diferentes partes do país. Na imagem, protesto no Estado do Maine após um homem ser baleado por agentes do órgão em julho
Getty Images via BBC
A votação ocorreu menos de duas semanas depois de o papa Leão 14 divulgar, em maio, sua primeira grande encíclica — Magnifica Humanitas ou “Magnífica Humanidade”, na tradução do latim para o português —, na qual alertou que a IA precisa ser “desarmada” para não “dominar a humanidade”.
O pontífice defendeu que a IA deve ser colocada a serviço do “bem comum” e que a dignidade humana precisa ser preservada.
A coincidência de datas foi casual, mas serviu de estímulo para a irmã Francois. “Já li essa encíclica muitas e muitas vezes. Ela reforça tudo o que está por trás do [nosso] trabalho”, afirma.
A participação acionária das freiras na Palantir permitiu que elas apresentassem formalmente questionamentos sobre as práticas da empresa
NurPhoto via Getty Images
A Palantir não é a única empresa que recebeu — ou foi ameaçada de receber — propostas de acionistas apresentadas pelas freiras como forma de pressionar os conselhos de administração a enfrentar questões que elas consideram de natureza moral.
As religiosas também confrontaram o Citigroup, uma das maiores instituições bancárias do mundo, por causa do financiamento a projetos de combustíveis fósseis na Amazônia. Preocupadas com os impactos sobre as comunidades indígenas da região, elas pediram que o banco publicasse um relatório sobre o tema.
Em abril de 2024, o Citigroup atendeu ao pedido.
Questionada sobre a eficácia desse tipo de iniciativa, já que muitas dessas propostas não conseguem apoio da maioria dos acionistas, a irmã Francois responde que isso depende da forma como se define o sucesso.
“Nossa primeira proposta foi apresentada pela congregação em 1976 a uma empresa que talvez você conheça: a Colgate-Palmolive. O tema era o sexismo na publicidade e [a forma como as mulheres eram retratadas].”
Os acionistas pediram que a empresa adotasse medidas para combater a discriminação de gênero. A Colgate-Palmolive se opôs à proposta, alegando que ela era desnecessária, e a medida acabou rejeitada.
Ainda assim, quase meio século depois, a irmã Francois diz não se decepcionar com o resultado.
“O sexismo desapareceu da publicidade? Não. A situação é diferente da que existia nos anos 1970? Sim.”
“Para as irmãs, e para a maioria dos investidores guiados por valores e princípios religiosos, o sucesso está em colocar essas questões em pauta e fazer com que elas cheguem ao conselho de administração para serem debatidas.”
A irmã Francois acredita que fazer questionamentos públicos sobre a conduta de grandes empresas pode ser suficiente para provocar mudanças
Congregação das Irmãs de São José da Paz
Então, como acionistas, as freiras lucram com as mesmas empresas cujas práticas criticam? Sim, responde a irmã Francois, reconhecendo a ironia da situação.
No entanto, ela explica que os rendimentos obtidos com esses investimentos são destinados aos cuidados de saúde das religiosas mais idosas e ressalta que a congregação possui apenas uma pequena participação nessas empresas.
A irmã Francois também afirma que há companhias nas quais elas jamais investiriam, como fabricantes de armas e empresas cuja principal atividade seja a produção de combustíveis fósseis.
Ainda assim, Francois defende que é preciso dialogar com as grandes corporações e estar presente nos espaços onde as decisões são tomadas.”Se nos afastarmos dos centros de poder (…), deixaremos de ter voz sobre a forma como [as decisões são] tomadas”, afirma Francois.
A irmã Francois acredita que ela e as demais freiras não defendem uma causa política, mas a criação de Deus
Congregação das Irmãs de São José da Paz
A Congregação das Irmãs de São José da Paz foi fundada em 1884, durante o pontificado do papa Leão 13, cuja atuação inspirou o papa atual a adotar o nome Leão 14.
A irmã Francois afirma que Leão 13 foi o autor do primeiro documento da Igreja Católica sobre a doutrina social voltada ao mundo do trabalho e diz que ambos os papas se dedicaram a temas sociais que afetam diretamente a vida das pessoas.
Por isso, quando alguns questionam se um grupo de freiras deveria tentar influenciar práticas empresariais de uma forma que pode ser vista como política — especialmente em um período de crescente polarização —, a irmã Francois tem uma resposta direta: “Não estamos defendendo partidos políticos. Estamos defendendo o valor da criação de Deus e o direito de todas as pessoas aos direitos humanos. Se isso é política, tudo bem.”
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