Clima e escassez alimentar elevam risco de guerras no mundo

Seca causada pelo El Niño deixou arrozais de Java Ocidental (Indonésia) rachados e secos
Donal Husni/NurPhoto/picture alliance via DW
O sistema alimentar mundial está sob pressão crescente, e novas pesquisas estão apontando áreas específicas onde isso pode levar a conflitos. Secas severas e eventos climáticos extremos estão prejudicando as colheitas em muitas regiões.
Um fenômeno El Niño, atualmente em desenvolvimento, ameaça agravar a escassez de alimentos para milhões de pessoas no próximo ano.
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Ao mesmo tempo, guerras e tensões geopolíticas estão interrompendo as cadeias de suprimentos que mantêm alimentos e insumos agrícolas em circulação e que poderiam ajudar a mitigar a falta de abastecimento.
A guerra na Ucrânia tem provocado repetidas turbulências nos mercados de grãos, enquanto os impactos do conflito envolvendo o Irã no Estreito de Ormuz elevaram os preços dos combustíveis e fertilizantes, aumentando os custos para agricultores em todo o mundo.
‘Guerra de drones’ entre Rússia e Ucrânia já afetou mais de 20 países; MAPA
Especialistas alertam há muito tempo que o aumento da insegurança alimentar pode alimentar a instabilidade.
Quando muitos não conseguem mais alimentar suas famílias, passam a disputar terras, água e outros recursos, ou simplesmente migram para outras regiões. Em países frágeis, essas pressões podem contribuir para agitações sociais e até conflitos armados.
Agora, novas pesquisas indicam onde alguns desses riscos são maiores. O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (Cadi, na sigla em inglês), desenvolvido por especialistas do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona, mapeia como as mudanças climáticas estão remodelando a produtividade agrícola ao redor do mundo.
ONU alerta para intensidade do fenômeno El Niño no Brasil
“As perdas mais severas estão nas regiões tropicais”, afirmou o pesquisador Hannes Mueller, um dos envolvidos na pesquisa.
As mudanças climáticas já estão reduzindo a produção de alimentos em diversas partes do planeta. Centenas de milhões de pessoas vivem em áreas onde as colheitas são menores do que há 30 anos.
Hannes Mueller citou Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador como países onde as perdas agrícolas já estão sendo sentidas.
“O Norte da África é outra região à qual deveríamos dedicar muito mais atenção. Se você olhar o mapa, a situação parece terrível. Realmente parece horrível.”
E as mudanças climáticas são apenas parte da história. Guerras, interrupções comerciais, proibições de exportação e aumento dos custos dos fertilizantes podem ampliar ainda mais a insegurança alimentar.
Nos próximos 25 anos, quase metade da população mundial poderá viver em áreas onde as fazendas estarão produzindo menos alimentos.
Novos vencedores, perdedores e conflitos
Terras agrícolas cheias de lama após inundações ao longo do rio Bhotekoshi, no Nepal
Ambir Tolang/NurPhoto/picture alliance via DW
Essas pressões podem enfraquecer governos, estimular migrações e facilitar o recrutamento de combatentes por grupos armados. Em sociedades que já enfrentam instabilidade, esses fatores podem empurrá-las para crises ainda mais profundas.
No entanto, a pesquisa do Cadi aponta para uma realidade surpreendente: ganhos na produtividade agrícola também parecem aumentar o risco de violência.
Segundo Mueller, a questão central não é apenas a escassez, mas a mudança. A crise climática e outros choques não tornam apenas algumas regiões mais pobres; elas também criam novas oportunidades, alterando o valor das terras e dos recursos naturais.
Em alguns lugares, terras antes consideradas marginais tornam-se mais produtivas e valiosas. Isso atrai investidores e gera competição pela propriedade e pelo acesso a esses recursos.
Assim, países que aparentemente se beneficiarão das mudanças podem enfrentar novas tensões. O Sudão, por exemplo, deverá produzir mais alimentos à medida que o clima mudar.
Porém, enquanto algumas áreas poderão se tornar mais produtivas, outras poderão sofrer perdas, criando novos vencedores e perdedores dentro do próprio país e elevando o risco de conflitos.
Essa instabilidade iminente, afirmou Mueller, também se aplica a áreas onde a mudança de produtividade ainda nem ocorreu.
“Se sabemos que sua terra se tornará mais produtiva no futuro, talvez eu queira tomá-la de você hoje”, disse Mueller. “É exatamente nesse ponto que as negociações fracassam e a violência surge.”
Mesmo em regiões estáveis e ricas, a crise climática está criando problemas futuros. Embora possa parecer algo trivial, a mudança nas áreas adequadas para o cultivo de uvas na Europa já está afetando agricultores locais. Grandes produtores de vinhos espumantes começaram a comprar terras em regiões montanhosas.
“Essas terras ainda não são produtivas, mas eles já sabem onde estarão as futuras colheitas de uvas”, explicou Mueller.
“Grandes empresas agrícolas estão comprando terras. Isso está acontecendo no mundo todo. Os moradores locais são deslocados porque grandes produtores chegam, os preços das terras sobem e começam disputas por algo que ainda está a 20 ou 30 anos de distância.”
Uma das descobertas mais marcantes da equipe do Cadi é que as transformações agrícolas têm maior probabilidade de gerar conflitos em países não democráticos.
Quando choques climáticos, insegurança alimentar e competição por recursos atingem democracias, elas tendem a possuir instituições capazes de obrigar grupos com interesses divergentes a negociar em vez de lutar.
“As democracias podem parecer irritantes e burocráticas. Nada avança tão rapidamente quanto as pessoas gostariam. Mas isso é algo positivo porque faz com que as pessoas conversem entre si”, disse Mueller.
“Existe uma plataforma para negociação. Existem instituições que ajudam as pessoas a negociar. Esse processo constante de busca por soluções está no coração do que previne conflitos.”
O Sul da Ásia como sinal de alerta
“Não prestamos atenção suficiente às ameaças que atingem a base dos nossos meios de subsistência”, afirmou Abdullah Fahimi, do centro de pesquisas Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP).
“Essas ameaças podem desencadear grandes crises e deslocar milhões e milhões de pessoas. As regiões que devemos observar mais atentamente são o Sul da Ásia e o Sahel, onde a vulnerabilidade climática e o rápido crescimento populacional significam que o número de pessoas afetadas pode aumentar dramaticamente.”
Segundo Fahimi, o Sul da Ásia se destaca por depender tanto de recursos hídricos vulneráveis quanto dos mercados globais de alimentos.
Os preços dos alimentos já aumentaram significativamente nas últimas décadas e, segundo ele, “o Sul da Ásia, com uma população de cerca de 2 bilhões de pessoas, é altamente dependente de importações”.
Essas importações incluem trigo, milho e óleo de palma provenientes de países como Rússia, Ucrânia, Canadá e Malásia.
Ao mesmo tempo, a agricultura local está cada vez mais ameaçada por ondas de calor, enchentes, queda da produtividade das terras e intrusão de água salgada causada pela elevação do nível do mar.
Enquanto a Índia realiza seu censo, cientistas alertam que clima pode travar colheitas para população crescente em algumas áreas do país
Diptendu Dutta/NurPhoto/picture alliance via DW
Além do impacto humano imediato, eventos como as enchentes devastadoras que atingiram o Nepal em agosto de 2026 oferecem uma visão dos desafios de longo prazo que podem se tornar mais frequentes no futuro.
“As cordilheiras do Himalaia e do Hindu Kush fornecem a maior parte da água usada na agricultura e no abastecimento humano da região”, explicou Fahimi. “Devido às mudanças climáticas, as geleiras e a neve estão derretendo muito rapidamente.”
No curto prazo, o aumento da água do degelo pode ampliar a disponibilidade hídrica. Porém, mais adiante neste século, ele alerta que a região poderá enfrentar “uma enorme crise humanitária que poderá afetar cerca de 2 bilhões de pessoas”.
À medida que a insegurança alimentar se aprofunda, as consequências sociais e políticas também podem se multiplicar.
“Quando a escassez de recursos ou os impactos das mudanças climáticas obrigam as pessoas a buscar outras formas de sustento, às vezes elas acabam sendo recrutadas por grupos terroristas”, afirmou Fahimi, citando exemplos da Nigéria e do Afeganistão.
Em outros casos, a frustração da população é direcionada aos governos caso eles não consigam mitigar os impactos sobre a subsistência das pessoas. “A legitimidade do governo passa a ser questionada, e isso pode evoluir para conflitos violentos.”
Essa visão reforça a conclusão mais ampla de Mueller.
🔎 As mudanças climáticas, as guerras e as interrupções comerciais não levam automaticamente a conflitos. Mas a adaptação climática não pode se limitar ao cultivo de diferentes culturas agrícolas ou ao uso de novas tecnologias.
As pessoas e as sociedades também precisam se adaptar às mudanças na distribuição de acesso à terra, à água e aos empregos.
A questão fundamental é saber se as sociedades possuem instituições capazes de administrar essas transformações. Onde governos, tribunais e instituições locais conseguem ajudar as comunidades a negociar novas realidades, os impactos dos choques podem ser absorvidos.
Onde essas instituições são fracas, a pressão sobre os sistemas alimentares pode acabar se transformando em pressão sobre a própria paz.

Mega-Sena pode pagar R$ 48 milhões neste domingo; g1 transmite ao vivo

Como funciona a Mega-Sena?
O concurso 3.054 da Mega-Sena pode pagar um prêmio de R$ 48 milhões para os apostadores que acertarem as seis dezenas. O sorteio ocorre às 11h deste domingo (6), em São Paulo.
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No concurso da última quinta-feira (3), nenhuma aposta acertou a faixa principal e o valor acumulou.
O g1 transmite todos os sorteios das Loterias Caixa, ao vivo. A transmissão começa momentos antes de cada dia de concursos, no site e no canal do g1 no YouTube.
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A aposta mínima para a Mega-Sena custa R$ 6 e pode ser realizada também pela internet – saiba como fazer a sua aposta online.
Volante da Mega-Sena
Ana Marin/g1
Para apostar na Mega-Sena
As apostas podem ser realizadas até as 20h (horário de Brasília) em qualquer lotérica do país ou por meio do site e aplicativo Loterias Caixa, disponíveis em smartphones, computadores e outros dispositivos.
Já os bolões digitais poderão ser comprados até as 20h30, exclusivamente pelo portal Loterias Online e pelo aplicativo.
Ainda segundo a Caixa, para os sorteios realizados aos domingos as apostas simples podem ser efetuadas até as 22h de sábado por meio das unidades lotéricas, pelo Portal Loterias Caixa e do aplicativo Loterias Caixa.
A comercialização dos Bolões Caixa nos canais eletrônicos, nesse caso, acontece até às 10h45 do domingo, quinze minutos antes da realização dos sorteios.
O pagamento da aposta online pode ser realizado via PIX, cartão de crédito ou pelo internet banking, para correntistas da Caixa. É preciso ter 18 anos ou mais para participar.
Probabilidades
A probabilidade de vencer em cada concurso varia de acordo com o número de dezenas jogadas e do tipo de aposta realizada. Para um jogo simples, com apenas seis dezenas, que custa R$ 6, a probabilidade de ganhar o prêmio milionário é de 1 em 50.063.860, segundo a Caixa.
Já para uma aposta com 20 dezenas (limite máximo), com o preço de R$ 232.560,00, a probabilidade de acertar o prêmio é de 1 em 1.292, ainda de acordo com a instituição.

Governo federal projeta receita total de R$ 3,24 trilhões em 2026; número é recorde e equivale a 23,7% do PIB

Notas de real
Reprodução/Pixabay
A equipe econômica estimou que as receitas totais do governo atingirão R$ 3,24 trilhões neste ano, o equivalente a 23,7% do Produto Interno Bruto (PIB).
Para o próximo ano, a expectativa da área econômica, de acordo com a proposta de orçamento, é de pequena queda nas receitas totais para 23,4% do PIB (R$ 3,46 trilhões).
As informações constam na proposta de orçamento para o ano de 2027, encaminhada nesta semana ao Congresso Nacional, que projeta um superávit de R$ 18,6 bilhões nas contas públicas no próximo ano.
Se confirmado, o patamar de 23,7% do PIB será o novo recorde da série histórica da Secretaria do Tesouro Nacional, que tem início em 1997, ou seja, o maior patamar em 30 anos.
Agora no g1
🔎A receita total considera a ou o valor da arrecadação corrigida pela inflação, são conceitos que, segundo analistas, permitem uma comparação histórica de longo prazo.
Até então, a maior receita total do governo, na proporção com o PIB, havia sido registrada em 2010, último ano do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (23,6% do PIB).
A média para a receita total do governo nos últimos 29 anos, entre 1997 e 2025, foi de 21,4% do PIB, segundo informações do Tesouro Nacional.
🔎 A receita total considera a arrecadação de tributos do governo federal, e outros ingressos de recursos, como “royalties”, concessões e dividendos, sem contar estados e municípios.
🔎 Esse conceito difere da chamada carga tributária da economia brasileira, que somou 32,1% do PIB em 2024, segundo dados da Secretaria da Receita Federal – que engloba os tributos de estados e municípios. O resultado de 2025 ainda não saiu.
Carga tributária e petróleo
O terceiro mandato do presidente Lula foi caracterizado pela carga tributária batendo recordes históricos e pelo crescimento de despesas — autorizado pela PEC da transição, que aumentou em cerca de R$ 170 bilhões as despesas anuais nos orçamentos públicos de cada ano, com criação de novas despesas e recomposição de orçamentos.
Ao mesmo tempo, o governo tem registrado alta nas receitas de exploração do petróleo neste ano, impulsionadas pelo preço do produto no mercado externo, fruto da guerra no Oriente Médio.
A expectativa do governo é de arrecadar R$ 172,1 bilhões neste ano (1,3% do PIB) em 2026, contra R$ 139,3 bilhões em 2025 (1,1% do PIB).
Preço do petróleo dispara, após volta de ataques entre Irã e EUA
Analistas têm manifestado reiteradamente preocupação com a trajetória das contas públicas, que seguem apresentando déficits seguidos apesar do bom comportamento das receitas.
Eles avaliam que isso pressiona a taxa de juros, e consequentemente, o endividamento público. Para baixar o juro e conter a dívida, defendem um corte de gastos por parte do governo (veja mais abaixo nesta reportagem).
Relembre alguns aumentos de impostos:
alta na tributação de fundos exclusivos (alta renda) e das “offshores” (exterior);
mudanças na tributação de incentivos (subvenções) concedidos por estados;
aumento de impostos sobre combustíveis feito em 2023 e mantido desde então;
reoneração gradual da folha de pagamentos;
fim de benefícios para o setor de eventos (Perse);
taxação das bets;
aumento do IOF sobre crédito e câmbio;
alta na tributação dos juros sobre capital próprio;
aumento na tributação de “fintechs”;
redução de benefícios fiscais;
elevação do imposto de importação de mais de mil produtos;
imposto de exportação sobre petróleo.
Em contrapartida, o governo ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil por mês (R$ 60 mil ao ano), que será efetivada na declaração de 2027. Também foi criado um desconto progressivo menor para rendas de até R$ 7.350 mensais.
Para compensar as reduções no imposto, a medida também estabelece uma cobrança mínima para contribuintes de alta renda, com alíquota progressiva de até 10% para quem ganha acima de R$ 600 mil por ano. Nada muda para aqueles que já têm desconto em folha (leia mais aqui).
Recomposição de receitas
Na proposta de orçamento do próximo ano, a equipe econômica tem um capítulo destinado às chamadas “medidas de recomposição das receitas e mudanças estruturais na tributação”.
“A reversão do processo de deterioração da base arrecadatória federal tem sido um grande desafio, embora alguns avanços já possam ser detectados”, diz a proposta de orçamento de 2027.
No documento, o governo lista várias medidas tomadas nos últimos anos, como a tributação de “offshores”, a alta no imposto dos cigarros, fim do benefício ao setor de eventos, fim gradual da desoneração da folha de pagamentos, a alta do IOF e do imposto de mais de mil produtos importados.
“Muitas dessas medidas foram instituídas com o propósito de corrigir distorções de mercado, reduzir gastos tributários ineficazes ou aumentar a progressividade tributária, mas seus efeitos fiscais para o equilíbrio financeiro da União são significativos”, acrescentou o governo.
O que dizem especialistas
A economista-chefe do banco Inter, Rafaela Vitória, afirma que o aumento de tributos e a alta do preço do petróleo ajudam a sustentar o crescimento da arrecadação mesmo com a perda de ritmo da atividade econômica.
No segundo trimestre de 2026, o PIB cresceu 0,5%, abaixo da alta de 1,1% registrada de janeiro a março.
A economista pontua, porém, que, apesar do bom desempenho das receitas, as contas públicas ainda devem fechar o ano no vermelho.
“O governo tem uma forte alta na arrecadação esse ano e ainda vai gerar um déficit primário próximo de 0,5% do PIB, resultado que deve ser pior que o de 2025”, avaliou.
Segundo Rafael Barros Barbosa, pesquisador do FGV IBRE, o fenômeno se explica pelo aumento dos gastos, que crescem em ritmo superior ao da arrecadação, contribuindo para a alta da dívida pública em relação ao tamanho da economia.
A dívida do setor público consolidado atingiu, em agosto, 82,5% do PIB — o maior nível desde abril de 2021, quando somava 82,6% do PIB, ou seja, é o maior patamar em mais de cinco anos.
“O que a gente observa nos últimos cinco anos, e essa é uma tendência deste último governo, é que a nossa receita até aumentou, mas os nossos gastos aumentaram mais ainda. Então, a principal explicação de por que a gente tem seguidamente aumentado a relação dívida/PIB é, basicamente, por causa de um aumento dos gastos”, afirma Rafael Barbosa.
Para o economista, uma das consequências do crescimento da dívida em relação ao PIB é o aumento dos juros.
“Uma vez que o governo gasta mais do que arrecada, ele acaba estimulando a demanda, gera pressão de inflação, e o Banco Central precisa controlar um pouco essa pressão de inflação, aumentando os juros. Isso tem consequências para toda a economia”, afirmou.

Como o GPS, criado para a guerra, moldou o mundo moderno

Como o GPS, criado para a guerra, moldou o mundo moderno
Getty Images via BBC
Em 2017, as tripulações de vários navios-tanque viveram uma experiência desconcertante. Ao se aproximarem de seu destino, descobriram que estavam em dois lugares diferentes ao mesmo tempo.
Seus olhos lhes diziam que estavam chegando ao porto russo de Novorossiysk, na costa norte do Mar Negro.
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Mas o sistema de posicionamento global mostrava que, em vez de navegarem sobre a água, parecia que estavam voando pelos ares.
Quando atracaram, o GPS continuava insistindo que seus navios estavam em terra firme, em um aeroporto próximo.
Agora no g1
Essa história foi a faísca que levou a jornalista econômica Katherine Dunn a explorar o GPS, essa tecnologia que nos situa em um mapa e cria uma representação do mundo completamente centrada em nós.
Ele também nos deu uma nova forma de nos identificar: um pequeno ponto azul que, sem instruções ou manuais, aprendemos a reconhecer como um eu.
Logo, tornou-se parte do cotidiano, não apenas como uma ferramenta para saber onde fica um lugar e como chegar até lá, mas também quanto tempo isso levará.
Se pararmos para pensar, rapidamente percebemos que ele também serve para que o táxi venha nos buscar ou para fazer compras on-line e, quando ampliamos o foco, visualizamos seu papel na logística global, particularmente no transporte de pessoas e mercadorias.
Mas talvez deixemos passar seu papel em sistemas como a sincronização de vastas redes — torres de telefonia móvel, sistemas bancários e redes elétricas —, nos quais ele ajuda a criar o tipo de comunicação fluida que hoje consideramos algo natural.
Sua onipresença se estende a áreas que talvez não associemos ao GPS, desde aplicações de alto risco relacionadas a redes financeiras e mísseis até a agricultura de precisão e mesmo à coordenação dos semáforos.
Tudo isso graças à constelação de satélites que orbitam a Terra e à resolução simultânea e ultrarrápida de quatro incógnitas.
Foi isso que Dunn contou à BBC Mundo. A curiosidade despertada pelo episódio dos navios a levou a pesquisar e escrever Little Blue Dot: How GPS Shaped the Modern World (“O Pequeno Ponto Azul: Como o GPS Deu Forma ao Mundo Moderno”, em tradução literal), sem tradução para o português.
Katherine Dunn, no meridiano de Greenwich, com seu livro
Acervo Pessoal via BBC
BBC Mundo — Como o GPS funciona?
Katherine Dunn — A ideia é que, esteja onde estiver, você precisa receber o sinal de quatro satélites, porque, em conjunto, eles estão resolvendo quatro equações: sua longitude, sua latitude, sua altitude — algo que costumamos esquecer, mas que importa se você estiver, por exemplo, no sexto andar de um prédio — e uma quarta variável, que é o tempo, medido com uma precisão de bilionésimos de segundo.
Todo o sistema depende de uma precisão perfeita na medição do tempo. E, como subproduto de usar o tempo para calcular sua localização, o GPS acaba lhe dando um relógio atômico de bolso: ele pega a hora dos relógios atômicos que viajam nos satélites e a entrega, sem que você perceba, no celular ou no carro.
No fundo, é um computador no espaço falando com um computador no receptor, que, por sua vez, fala com um computador em uma estação terrestre.
A física por trás é extremamente complexa, mas a ideia geral é tão elegante que provavelmente é por isso que o sistema resistiu ao passar do tempo e se tornou tão bem-sucedido.
BBC Mundo — Por que o GPS precisa saber algo tão específico quanto em que andar de um prédio você está?
Dunn — Porque ele foi projetado para aviões, como uma ferramenta para bombardear com precisão.
Ele tem antecedentes — muitos deles também ligados a campanhas de bombardeio —, mas nasce diretamente da Guerra do Vietnã, quando a Força Aérea dos Estados Unidos fracassou repetidas vezes em atacar com precisão a Trilha Ho Chi Minh e as pontes usadas para transportar tropas e suprimentos.
Ali estava a poderosa aviação dos Estados Unidos, incapaz de acertar uma ponte no Vietnã do Norte. Eles precisavam de uma precisão extrema, e em três dimensões, além de uma velocidade de cálculo altíssima, porque um avião se move muito rápido e precisa saber sua localização quase em tempo real enquanto atravessa o céu.
BBC Mundo — Daí o tempo ser um fator tão crítico. E essa é a parte mais difícil de entender para quem não é físico.
Dunn — As pessoas costumam dizer que “o GPS funciona por triangulação”, mas não: triangulação envolve ângulos; aqui, é pura velocidade.
O sistema calcula quanto tempo um sinal de rádio leva para sair do satélite e chegar ao receptor e precisa medir esse intervalo com uma precisão de bilionésimos de segundo, porque as diferenças que precisam ser detectadas são minúsculas.
BBC Mundo — Desenvolver o GPS exigiu a tecnologia mais avançada, desde aqueles relógios atômicos até foguetes, baterias e computadores. Para mantê-lo, são necessários milhões de dólares por ano e, ainda assim, ele é gratuito: uma raridade, sobretudo se pensarmos que nasceu nos Estados Unidos, o bastião do capitalismo.
Dunn — É curioso que, durante anos, o próprio Pentágono não deu muito valor a ele. Só quando outros países começaram a adotá-lo é que perceberam que tinham em mãos não apenas uma ferramenta militar poderosíssima, mas também uma ferramenta industrial, comercial e de poder.
No fim dos anos 1990, após um incidente casual que ameaçou o espaço de frequências usado pelo GPS, o governo americano entendeu duas coisas: que, se todo mundo dependesse desse sistema, ele estaria mais protegido, e que indústrias inteiras estavam sendo construídas em torno dele, com os Estados Unidos fabricando os receptores.
Em parte, recuperaram esse investimento de outras formas: o sistema impulsionou indústrias gigantescas, muitas delas lideradas por empresas americanas. As grandes empresas de tecnologia, por exemplo, dependem enormemente dos dados de localização e foram construídas sobre um produto do governo, pago com os impostos dos contribuintes.
BBC Mundo — Promoveram ativamente a adoção do sistema por outros governos, e muitos fizeram isso de bom grado, mas alguns não ficaram tão satisfeitos, certo?
Dunn — Os europeus começaram a se incomodar com a ideia de que tanta infraestrutura dependesse de um único produto americano, e daí surgiu, em grande parte, o Galileo, o sistema europeu de autonomia estratégica.
Hoje, ele é mais diversificado, embora o GPS continue sendo o sistema dominante em muitas indústrias, mesmo não sendo mais o melhor dos cinco que existem — o chinês, dizem, é de longe o mais avançado —, simplesmente porque é o mais antigo e muitos receptores são fabricados pensando apenas nele.
A aviação, por exemplo, tende a usar apenas o GPS, enquanto o chip de um telefone costuma aproveitar todas as constelações disponíveis ao mesmo tempo.
O segundo modelo de iPhone foi a apresentação do GPS ao grande público e marcou o momento em que ele começou a se tornar algo cotidiano para milhões de pessoas
Getty Images via BBC
BBC Mundo — Quem foram os primeiros a usar o GPS fora do âmbito militar?
Dunn — Os primeiros usuários fora do meio militar foram nerds: agrimensores e pesquisadores universitários. Depois vieram especialistas muito específicos e, mais tarde, um punhado de nerds endinheirados que procuravam fósseis de dinossauros ou eram aficionados por navegação à vela — um certo tipo de aventureiro de elite capaz de pagar por receptores que, no início, custavam cerca de US$ 100 mil, hoje equivalentes a R$ 514 mil.
Só nos anos 1980 surgiu o primeiro carro com GPS, e foram os japoneses que perceberam o potencial para a indústria automobilística, em parte porque o Japão havia sido, no pós-guerra, uma espécie de oficina dos Estados Unidos e acabou aperfeiçoando essa tecnologia até mais do que seu criador.
Para o resto do mundo, se você não era fã de tecnologia, de motores, de montanhismo ou de navegação, o primeiro salto foi ter um TomTom ou um Garmin no carro.
Mas o grande salto veio com o iPhone 3G, o primeiro a incorporar GPS, e o Google Maps como aplicativo de mapas: já não era algo que ficava no carro, mas algo que você carregava consigo o tempo todo.
BBC Mundo — O GPS começou a ser muito usado e a substituir os mapas que costumavam nos dizer onde as coisas estavam, mas descobriu-se que algumas delas não ficavam exatamente onde imaginávamos.
Dunn — É uma ideia maluca, não? Hoje estamos acostumados a que a informação corresponda à realidade: se está no mapa, tem que estar lá.
Mas nem sempre era assim. O GPS colocou essas discrepâncias em evidência e obrigou a corrigi-las.
A Estátua da Liberdade é um exemplo famoso, mas descobriu-se que havia muitas outras coisas assim, inclusive pistas de pouso deslocadas vários metros em relação às suas coordenadas oficiais.
O que entendi é que a precisão absoluta não existe: trata-se sempre de chegar o mais perto possível e continuar fazendo ajustes.
BBC Mundo — Mas, se nesses casos o GPS ajudou a reconciliar os mapas com a realidade, em outros acontece exatamente o contrário, como ocorreu com as tripulações daqueles navios no porto russo de Novorossiysk: seus GPS mostravam que elas estavam sobre a pista de um aeroporto localizado a dezenas de quilômetros de distância.
Dunn — É o primeiro grande episódio desse tipo que se conhece publicamente.
Pesquisadores começaram a perceber que essas interferências ocorriam onde quer que Vladimir Putin estivesse — na verdade, ele estava por perto durante o incidente de Novorossiysk — e também ao redor de prédios do governo russo, como o Kremlin ou o chamado Palácio de Putin, no Mar Negro.
E, depois, em um documentário sobre o opositor russo Alexei Navalny, que investiga justamente esse palácio, viram uma cena em que tentam sobrevoá-lo com drones, mas não conseguem se aproximar.
Foi assim que perceberam a conexão: a manobra tinha como objetivo impedir que drones se aproximassem, seja para espionar, seja para atacar figuras do poder.
A contrainteligência russa usava equipamentos potentes de interferência eletrônica e transmitia coordenadas falsas pré-programadas para criar um escudo móvel e invisível ao seu redor
Getty Images via BBC
BBC Mundo — Como isso é feito, tecnicamente?
Dunn — Aí entra a diferença entre interferência e falsificação de sinal.
Interferir é simplesmente abafar o sinal: é como se, enquanto você está dizendo alguma coisa, eu começasse a gritar. Você continua falando, mas ninguém consegue ouvi-lo.
Falsificar é mais ardiloso: é sequestrar o sinal, como se, de repente, eu assumisse sua voz e dissesse coisas que você nunca disse ou diria.
Nesses casos, houve um pouco de interferência pura, mas o que fazia os navios “aparecerem” em aeroportos era a falsificação.
E o motivo de escolherem justamente coordenadas de aeroportos é que, naquela época, a maioria dos drones comerciais vinha configurada de fábrica para mudar de direção ou cair se detectasse que estava perto de um aeroporto, por razões de segurança.
Se conseguissem fazer o drone acreditar que a localização de Putin era a de um aeroporto, o drone não poderia se aproximar.
Hoje, para qualquer profissional, é muito fácil contornar essa restrição; na Ucrânia, com o uso atual de drones, essa limitação foi completamente superada.
BBC Mundo — É possível simplesmente ‘desligar’ o GPS?
Dunn — Seria possível, sim. Seria extremamente disruptivo, mas a boa notícia é que hoje existem outros sistemas alternativos, então provavelmente o telefone nem sequer seria afetado.
O que mais causa temor não é tanto o desaparecimento do GPS, mas que ele seja manipulado sem que ninguém perceba. Isso, sim, assusta, porque temos muito menos ideia de como os sistemas reagiriam nesse cenário. É parecido com um ataque cibernético, mas analógico.
BBC Mundo — Há regiões do mundo onde isso já está acontecendo de forma séria?
Dunn — Desde a guerra dos drones e as linhas de frente na Ucrânia até o que aconteceu no Estreito de Ormuz, talvez você tenha visto alguns desses efeitos: navios que traçam rotas estranhas, dando voltas sem sentido, ou até mísseis americanos de alta precisão que chegam à Ucrânia e, de repente, não funcionam como deveriam.
A manipulação do GPS se tornou uma característica cada vez mais comum dos conflitos desde que essa tecnologia existe.
BBC Mundo — Para terminar: adoro essa imagem evocada pelo título do seu livro, a de nos transformarmos em um pequeno ponto azul na tela.
Dunn — Esse título se conecta a algo em que pensei muito enquanto escrevia: existia essa ideia da exploração espacial, de olhar para o céu, para o cosmos. No entanto, boa parte do que fizemos foi sair apenas um pouco para o espaço e virar as câmeras de volta para nós mesmos.
Há algo contraditório no fato de que boa parte dessa ciência e dessa física acabou colocada a serviço da guerra — e também, no cotidiano, de nos vender coisas e nos fazer gastar dinheiro.
Embora haja também o lado positivo: boa parte da ciência climática, por exemplo, surgiu dessas mesmas descobertas. A tecnologia não é boa nem ruim em si mesma; pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Currículo inovador ajuda a driblar a IA? Veja quando inovar pode atrapalhar a seleção

O designer australiano Felix Toohey cria currículos criativos e personalizados para cada empresa, transformando a candidatura em objetos e experiências inusitadas para chamar a atenção dos recrutadores.
Reprodução/Redes Sociais
Enquanto muitos candidatos apostam em portfólios elaborados, cartas de apresentação personalizadas ou mensagens no LinkedIn para chamar a atenção dos recrutadores, o designer australiano Felix Toohey decidiu seguir um caminho bem diferente: transformar o próprio currículo em uma experiência física e impossível de ignorar.
Morador de Melbourne, Toohey entrega pessoalmente os currículos às empresas onde sonha trabalhar. Mas vai além. Em vez de distribuir documentos convencionais, ele cria uma apresentação diferente para cada empresa e transforma o currículo em objetos e experiências pensados para seus potenciais empregadores.
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
No Instagram, ele compartilha algumas das criações com seus seguidores. Em uma das criações mais conhecidas, o currículo foi apresentado em uma bandeja de café. Copos de papel personalizados traziam, em formato de “latte art”, os títulos de cada seção, como formação acadêmica e experiência profissional.
As criações fazem parte da série “Ghosting Busters” (em tradução livre, “caçadores de ghosting”), projeto em que Toohey desenvolve currículos cada vez mais excêntricos para se destacar em um mercado de trabalho competitivo.
Agora no g1
Apesar da repercussão, a estratégia ainda não resultou em uma vaga fixa. O projeto, no entanto, abriu outras portas. A Canva, por exemplo, fez uma parceria com o designer para produzir um vídeo patrocinado inspirado na série “Ghosting Busters”.
🤔 Mas, trazendo a discussão para a realidade do mercado de trabalho brasileiro, até que ponto um currículo inovador ajuda a driblar o avanço da inteligência artificial nos processos seletivos? E ainda vale imprimir o documento e entregá-lo pessoalmente?
Segundo especialistas ouvidos pelo g1, a resposta depende de fatores como o tipo de vaga, a área de atuação e a forma como as empresas utilizam ferramentas de inteligência artificial na seleção.
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Ajuda, mas não garante vaga 😉
Para Maria Paula Oliveira, diretora de recursos humanos da LG lugar de Gente, um currículo criativo pode chamar a atenção do recrutador, mas não garante, por si só, uma contratação.
A originalidade funciona como uma espécie de cartão de visitas e pode despertar curiosidade na primeira análise. A decisão, porém, continua baseada principalmente na combinação entre qualificações, competências e experiência profissional.
Na avaliação da especialista, existe uma linha tênue entre chamar atenção e criar obstáculos para a própria candidatura. Formatos muito complexos, informações difíceis de localizar ou ações consideradas invasivas podem gerar uma impressão negativa.
Quando o recrutador gasta mais tempo tentando entender a apresentação do currículo do que avaliando a trajetória profissional, a estratégia passou do ponto.
A especialista afirma que a criatividade tende a funcionar melhor em profissões nas quais a apresentação visual já faz parte do trabalho, como marketing, publicidade, design, criação de conteúdo, moda, arquitetura e comunicação.
Já em setores como jurídico, financeiro e técnico, a recomendação é priorizar a organização das informações, a clareza e os resultados alcançados.
Outro ponto importante é que personalizar o documento não significa criar um layout diferente para cada empresa, mas destacar experiências e competências relacionadas aos requisitos da posição. Essa adaptação também pode facilitar a análise por sistemas de recrutamento que utilizam inteligência artificial.
Currículos com dados inseridos em gráficos, imagens ou elementos visuais muito complexos podem ter parte das informações ignorada durante a triagem automatizada. Com isso, experiências relevantes podem deixar de ser identificadas.
Por isso, quem aposta em uma apresentação diferenciada deve manter também uma versão convencional do currículo, especialmente para inscrições feitas por plataformas digitais.
A especialista também recomenda calibrar o grau de ousadia de acordo com a empresa. “A mesma ideia pode ser lida como iniciativa numa empresa e como desconexão de contexto em outra”, afirma.
Para quem deseja se destacar sem correr o risco de parecer interessado apenas em repercussão, a executiva recomenda que qualquer iniciativa diferenciada esteja diretamente relacionada às competências exigidas pela vaga.
“No caso de Felix Toohey, o currículo criativo funciona também como portfólio. A criatividade faz sentido porque demonstra, na prática, as habilidades que ele utiliza no trabalho. Quando não existe essa conexão, a estratégia pode gerar mais ruído do que valor”, conclui.
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Currículo impresso perdeu espaço 📝
Para Patricia Suzuki, diretora de RH da Redarbor Brasil, entregar o currículo pessoalmente perdeu espaço com a digitalização dos processos seletivos.
Hoje, muitas empresas recebem e fazem a triagem das candidaturas por meio de sites. Por isso, quando a companhia estabelece um canal oficial, aparecer pessoalmente não substitui a candidatura digital.
Em empresas menores ou estabelecimentos comerciais, uma abordagem presencial educada e adequada ao contexto ainda pode ajudar a criar contato.
Patricia também recomenda adaptar o currículo à vaga, ajustando o título, o resumo profissional, as experiências e as competências de acordo com o que a empresa procura.
A orientação vale especialmente para processos digitais, nos quais sistemas automatizados podem fazer a primeira análise.
“O candidato pode ter uma apresentação visual diferenciada, mas deve garantir que cargo, experiências, formação, competências e demais informações relevantes estejam em texto claro”, diz.
A diretora alerta ainda para o risco de transformar a candidatura em uma tentativa de viralização. Excesso de elementos visuais, humor inadequado, abordagens desconectadas da vaga ou formatos que priorizam a surpresa em detrimento da clareza podem prejudicar a impressão causada no recrutador.
“O currículo não deve parecer mais preocupado em impressionar do que em comunicar o perfil profissional”, afirma.
Independentemente do formato, Patricia diz que o documento precisa permitir que o recrutador encontre rapidamente informações básicas, como contato profissional, área de interesse, experiências, formação e competências relevantes. Idiomas, certificações, cursos e portfólio também podem ser incluídos quando fizerem sentido para a vaga.
“O objetivo não deve ser fazer o recrutador lembrar do candidato pela excentricidade, mas pela combinação entre relevância, clareza e capacidade de demonstrar valor para aquela oportunidade”, completa.
Quer inovar no currículo? Veja o que fazer e o que evitar
Especialistas ouvidas pelo g1 dão algumas recomendações para quem deseja se destacar nos processos seletivos sem comprometer a análise do currículo.
➡️ Comece pela vaga, não pela ideia: antes de pensar em um formato criativo, entenda o que a empresa procura e quais competências são importantes para a posição.

✍🏽 Adapte o conteúdo à vaga: personalize o currículo destacando experiências, competências e resultados que tenham relação direta com os requisitos da vaga.

✅ Priorize a clareza: contato, experiência profissional, formação acadêmica e competências devem estar organizados de forma simples e fácil de localizar. Se o design dificultar a leitura, a estratégia pode ter efeito contrário.

🧐 Use a criatividade para demonstrar uma habilidade: um designer pode explorar recursos visuais; um profissional de comunicação pode apostar em uma narrativa diferenciada. A inovação funciona melhor quando comprova uma competência relevante para a função.

🚫 Considere a área e a cultura da empresa: formatos criativos costumam funcionar melhor em áreas como design, publicidade, marketing, comunicação e audiovisual. Além disso, uma iniciativa que faz sentido em uma startup pode não ter o mesmo efeito em uma empresa mais tradicional.

💻 Tenha uma versão tradicional para candidaturas digitais: mesmo que opte por um modelo criativo, mantenha uma versão convencional para inscrições feitas em plataformas de recrutamento e sites de carreira.

😥 Não confunda criatividade com excentricidade: excesso de elementos visuais, humor inadequado, informações difíceis de encontrar ou abordagens invasivas podem fazer o candidato ser lembrado pelo motivo errado.
As 5 mentiras mais comuns nos currículos — e como elas são descobertas por recrutadores

Restos de carne, gordura e até ossos que iriam para o lixo viram ração para outros animais no ES

Restos de carne se transformam em alimentos para animais em fazendas no ES
O que para muitos é considerado apenas descarte, para o setor de reciclagem animal é matéria-prima valiosa. Diariamente, toneladas de resíduos de carne, gordura e ossos que não servem para o consumo humano são transformadas em ingredientes essenciais para a fabricação de rações agrícolas no Espírito Santo.
E esse ciclo de reaproveitamento conecta diretamente uma indústria de processamento em Fundão, na Região Metropolitana de Vitória, à produtividade de granjas em Santa Maria de Jetibá, na Região Serrana do estado.
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Na granja da avicultora Jerusa Sthur, quase 100 mil galinhas produzem cerca de 2,7 milhões de ovos por mês. A produção é vendida diretamente para estados como Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Para garantir a qualidade final dos ovos, as galinhas recebem alimentação que é reposta oito vezes ao dia. Isso tudo para que alimento não falte e a ração esteja sempre à disposição dos animais.
“Eu comparo com a gente, né? Se a gente tiver uma boa alimentação, a gente tem uma boa saúde. A galinha é a mesma coisa. Se ela tiver uma uma ração de qualidade, uma ração boa, ela vai dar os frutos que precisa dar”, explicou Jerusa.
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Carne, ossos e gordura que iriam para o lixo se transformam em ração e alimentos para outros animais no Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
De resíduo a matéria-prima
E para manter uma ração de boa qualidade, o processo começa bem longe das granjas, no município de Fundão. Lá funciona uma indústria responsável por processar cerca de 350 toneladas diárias de subprodutos animais, que transforma resíduo em matéria-prima.
Todos os dias pela manhã, dezenas de veículos saem da fábrica para realizar a coleta em frigoríficos, abatedouros e casas de carne de todos os 78 municípios do Espírito Santo.
O material recolhido e direcionado para processamento é composto por pele, ossos, vísceras e gorduras — partes que não são aproveitadas para o consumo humano.
O processo de transformação na indústria é rigoroso:
Triagem e Trituração: Logo depois da triagem, a matéria-prima segue para o triturador, onde os resíduos são transformados em uma massa homogênea.
Cozimento: Essa massa é então encaminhada para o cozimento em altas temperaturas.
Prensagem e Separação: Em seguida, o material passa pela separação entre a parte sólida e a líquida. Os sólidos são prensados e dão origem à farinha, enquanto a gordura líquida segue para outro setor, onde é classificada e filtrada antes do armazenamento.
Nutrição biodisponível
O gerente de qualidade Israel Leandro da Silva acompanha o trabalho e explicou que a farinha produzida a partir de subprodutos do abate é um ingrediente de extrema importância para garantir a qualidade da ração.
Ele ressaltou os benefícios de se utilizar uma matéria-prima oriunda do próprio organismo animal:
“É um produto mais biodisponível pro animal, porque ele é oriundo do próprio organismo do animal e possui também grande quantidade de proteína bruta, de aminoácidos essenciais, que são importantes para cada tipo de função no organismo do animal”, destacou o especialista.
Farinha produzida a partir de subprodutos do abate passa por controle de qualidade
Reprodução/TV Gazeta
Ele apontou, ainda, que a gordura extraída (sebo e óleo) também desempenha um papel fundamental na nutrição animal, funcionando como um excelente palatabilizante. Ela confere o sabor e o gosto ideais que atraem o apetite do animal para o consumo da ração.
O excedente dessa gordura é direcionado para outros tipos de indústrias, principalmente a química, servindo como base para a fabricação de biodiesel, sabão, produtos de higiene e limpeza, além de cosméticos como cremes e maquiagens.
Controle de qualidade rigoroso em laboratório
Antes de saírem da indústria em Fundão, os produtos passam por um laboratório interno para garantir a segurança alimentar.
Amostras dos três tipos de farinha produzidas são analisadas por um equipamento de alta tecnologia conhecido como NIR. Já para o sebo bovino e o óleo de vísceras, os testes químicos avaliam principalmente a acidez do material.
A técnica de laboratório da indústria reforça o rigor técnico aplicado em cada lote vendido:
“Nosso laboratório analisa todos os produtos aqui da fábrica, seja os três tipos de farinha, o sebo bovino e o óleo de vísceras […] a análise principal que a gente realiza tanto no sebo quanto no óleo é a análise de acidez. Essas análises são muito importantes, pois aqui a gente trata de qualidade, vender um produto de qualidade”, explicou a analista Isabella Xavier.
Uma receita de ração para cada fase da vida
Depois de passar por todas as etapas de controle, a farinha e a gordura seguem para as fábricas de ração de diversas regiões.
Na granja em Santa Maria de Jetibá, esses ingredientes são combinados ao milho (que fornece energia), à soja e ao calcário (responsável pela casca dos ovos). A farinha entra justamente para auxiliar no fortalecimento da estrutura óssea da galinha e na perfeita formação da casca dos ovos.
O gerente da granja explicou que a formulação da ração não é única. Ela acompanha o desenvolvimento biológico das aves por meio de “receitas” específicas para cada fase, desde o nascimento até a fase adulta de postura:
“No início, a gente precisa fazer com que o pintinho ele se desenvolva. Ele precisa ganhar carcaça, massa muscular, ele precisa crescer para ter uma uma vida útil maior depois para produção de ovos. E à medida que vai passando as fases, a idade da galinha, a gente vai alterando os produtos. Quanto mais qualidade, maior o rendimento na produção”, destacou Ereneu Schiliwer.
À medida que as galinhas envelhecem, a fórmula é alterada para garantir o máximo rendimento produtivo no campo.
Ao final, o que começou como descarte inevitável da cadeia de carne nos frigoríficos retorna ao campo em forma de alimento de alta qualidade, fechando um ciclo de produtividade no Espírito Santo.
Farinha produzida com resíduos de carne, gordura e ossos é usada como alimentação para galinhas em granja no Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
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Dívida dos EUA passa de R$ 200 trilhões. Por que Trump não consegue frear a alta?

Trump defende avanço da economia e política de imigração
A dívida do governo dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões (R$ 206 trilhões) nos primeiros 19 meses do segundo mandato de Donald Trump. O número dá a dimensão do desafio que o presidente enfrenta.
O republicano voltou à Casa Branca prometendo reduzir gastos, diminuir o tamanho do governo e estimular a economia para colocar as contas públicas em ordem. Até agora, porém, a dívida continuou crescendo.
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Mas o problema não começou com Trump. A dívida americana vem aumentando há décadas, sob governos republicanos e democratas. Entre os fatores estão cortes de impostos, guerras, programas de estímulo à economia e, mais recentemente, o envelhecimento da população.
Em janeiro de 2025, Trump assumiu novamente a Presidência prometendo mudar essa trajetória, mas também ampliou os gastos e reduziu impostos. O resultado é uma dívida cada vez maior e uma conta mais pesada para o governo.
🔎 Além de a dívida ter aumentado, o custo para financiá-la também subiu, à medida que os rendimentos de alguns títulos do governo americano chegaram aos níveis mais altos em quase duas décadas.
Especialistas em orçamento alertam que, sem mudanças, o governo poderá ser pressionado a tomar medidas politicamente impopulares, como aumentar impostos ou reduzir benefícios sociais, incluindo a Previdência Social.
“Não há nenhum cenário em que se possa analisar o histórico do presidente Trump, tanto neste mandato quanto no anterior, e declará-lo um sucesso fiscal”, disse Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, um grupo de estudos de Washington.
Para ela, Trump não é o único responsável pela situação atual, mas ocupa um papel central por definir a agenda do governo.
“A maneira como chegamos a este ponto não foi culpa dele, mas o fato de estarmos nesta situação e de os parlamentares não terem feito nada para melhorá-la é culpa de todos eles, com o presidente claramente ocupando um papel central e definindo a agenda.”
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante um evento para assinar uma ordem executiva sobre flexibilidade na vacinação em 10 de agosto de 2026
Kylie Cooper/Reuters
Trump prometeu cortar gastos. A dívida continuou subindo
A promessa de reduzir o tamanho do governo esteve no centro da campanha de Trump. Durante o primeiro ano do segundo mandato, milhares de funcionários federais foram demitidos e programas considerados pelo governo como desperdício foram eliminados.
O porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, afirmou que Trump foi o “primeiro presidente a combater seriamente o desperdício, a fraude e os abusos generalizados em todo o governo federal”.
O déficit anual — a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta — chegou a cair em 2025, mas apenas marginalmente. A dívida total, por sua vez, continuou aumentando.
Os cortes de impostos também pesaram sobre as contas. Segundo o Comitê para um Orçamento Federal Responsável, as reduções de impostos aprovadas no primeiro mandato de Trump acrescentaram US$ 8,4 trilhões (R$ 43,3 trilhões) à dívida.
Já no segundo mandato, a nova lei tributária e de imigração acrescentou outros US$ 4,7 trilhões (R$ 24,2 trilhões), de acordo com o Escritório de Orçamento do Congresso.
🔎 Trump, portanto, enfrenta uma contradição que também aparece em outros países, inclusive no Brasil: reduzir impostos pode estimular a economia, mas, se a queda na arrecadação não vier acompanhada de uma redução equivalente nos gastos, a dívida tende a continuar crescendo.
A conta não começou com Trump
A trajetória da dívida americana atravessa governos dos dois partidos. Presidentes republicanos como Ronald Reagan e George W. Bush ampliaram os déficits com cortes de impostos, enquanto as guerras durante os governos Bush também aumentaram os gastos.
Já os democratas Barack Obama e Joe Biden adotaram grandes pacotes de estímulo depois da crise financeira de 2008 e durante a pandemia de Covid-19, respectivamente.
Bill Clinton foi uma exceção. Em seu segundo mandato, o governo registrou modestos superávits anuais, em um período de forte crescimento econômico e de reformas nos programas de assistência social, resultado de um acordo com um Congresso controlado pelos republicanos.
Por isso, é difícil atribuir a dívida a um único presidente ou partido. Republicanos e democratas, em diferentes momentos, aumentaram os gastos ou reduziram as receitas do governo.
O problema também é demográfico
Há ainda uma pressão sobre as contas públicas que não depende de quem está na Casa Branca: o envelhecimento da população.
A geração conhecida como baby boom, nascida nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, está se aposentando. Com isso, aumentam os gastos com benefícios sociais, enquanto a arrecadação de impostos sobre os salários não é suficiente para cobrir os pagamentos futuros.
É um problema semelhante, em sua lógica, ao desafio enfrentado por outros países que estão envelhecendo: mais pessoas passam a receber benefícios do governo, enquanto proporcionalmente há menos trabalhadores contribuindo para financiá-los.
Nos EUA, gerações anteriores de republicanos defenderam mudanças nesses programas. Trump, porém, levou o partido a se afastar dessa posição ao criar novos programas de proteção social, como contas de investimento apoiadas pelo governo para recém-nascidos.
A aposta de Trump: crescer para pagar a conta
A estratégia de Trump parte de uma ideia antiga entre os conservadores americanos: impostos menores e menos intervenção do governo poderiam estimular investimentos e crescimento econômico.
Com uma economia maior, a arrecadação aumentaria e seria possível reduzir o peso da dívida sem recorrer a aumentos de impostos ou a cortes profundos nos programas sociais.
Trump resumiu essa aposta em agosto: “O crescimento vai resolver isso com muita facilidade”.
No fim de agosto, no Salão Oval, ele afirmou que suas políticas poderiam elevar a produção econômica dos EUA em 20% ao ano.
Segundo o texto, esse ritmo de crescimento foi alcançado apenas uma vez desde 1947, no terceiro trimestre de 2020, quando a economia se recuperou após o fim das restrições relacionadas à Covid-19.
O otimismo de Trump contrasta com o alerta de Kevin Warsh, chefe do Federal Reserve (Fed), o banco central americano.
Segundo Warsh, o volume recorde de investimentos em inteligência artificial e grandes empresas de tecnologia indica uma disputa por capital e pode pressionar as taxas de juros para cima, aumentando também o custo de financiamento do governo.
O corte de gastos ficou longe da promessa
Durante a campanha, Trump prometeu que os cortes de impostos seriam acompanhados por grandes reduções nos gastos públicos. Para isso, encarregou Elon Musk de comandar o agora extinto Departamento de Eficiência Governamental.
Musk prometeu economizar US$ 2 trilhões (R$ 10,3 trilhões) no orçamento. A agência acabou relatando uma economia de US$ 110 bilhões (R$ 566,5 bilhões).
Segundo o Escritório de Responsabilidade Governamental, porém, esse cálculo se baseava em alegações exageradas ou que não podiam ser verificadas. A Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário sobre as conclusões.
Para MacGuineas, o problema não está necessariamente em reduzir impostos, mas em fazê-lo sem cortar gastos na mesma proporção.
“Não é que não se possa reduzir impostos. É possível, mas é preciso associar isso a cortes nos gastos, e isso não tem acontecido”, disse.
Elon Musk e Donald Trump em conversa com jornalistas no Salão Oval em fevereiro
REUTERS/Kevin Lamarque/Foto de arquivo
Quem paga a conta?
Por enquanto, a dívida de US$ 40 trilhões (R$ 206 trilhões) pode parecer um problema distante para o cidadão comum. Mas seus efeitos já aparecem no cotidiano americano.
🔎 Juros mais altos encarecem financiamentos imobiliários, enquanto a inflação reduz o poder de compra quando os preços sobem mais rapidamente que os salários.
A pressão também tende a ganhar peso político. A dívida ultrapassou US$ 40 trilhões (R$ 206 trilhões) pouco antes das eleições legislativas de novembro, que definirão se os republicanos manterão o controle do Congresso na segunda metade do mandato de Trump.
O mecanismo é conhecido também no Brasil: quando o governo gasta mais do que arrecada por um período prolongado, a conta não desaparece. Em algum momento, é preciso aumentar receitas, cortar despesas ou conviver com uma dívida maior e mais cara.
No caso americano, porém, essa escolha se tornou especialmente difícil porque envolve programas que atendem milhões de pessoas e decisões acumuladas por governos de diferentes partidos.
Autoridades atuais e ex-integrantes do governo afirmam que a Casa Branca não recebe o devido reconhecimento pelos avanços econômicos e pelas medidas para reduzir os preços ao consumidor, que, segundo eles, poderão melhorar a situação fiscal.
William Emmons, ex-vice-presidente de sistemas do Federal Reserve de St. Louis, vê a situação de outra maneira. Para ele, Trump herdou um cenário fiscal ruim, mas suas políticas o agravaram.
“Ele herdou um cenário desfavorável. Não é surpresa para ninguém que o ambiente orçamentário fosse desafiador, tanto em 2016, quando ele assumiu o cargo, quanto hoje”, disse Emmons. “Ele piorou uma situação que já era ruim.”
* Com informações de Jacob Bogage, da agência de notícias Reuters

Por que o acordo de US$ 18 bilhões da Meta importa além dos Estados Unidos

Meta pagará indenização de US$17 bilhões nos EUA
Há bons motivos para ser cético quanto ao impacto que o mais recente acordo legal da Meta terá sobre a gigante de tecnologia. A empresa já sobreviveu a escândalos, audiências no Congresso e multas regulatórias sem grandes danos duradouros.
Um acordo aprovado pelo tribunal no valor de até US$ 18 bilhões parece enorme, mas a Meta pode arcar com isso: o valor equivale a cerca de 8,5% da receita total da empresa em 2025.
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A grande questão não é o dinheiro. É que os governos estão começando a regular como as plataformas de mídia social são construídas.
O acordo pode marcar uma mudança importante na política de redes sociais justamente porque trata da estrutura das próprias plataformas e exige que as empresas façam mudanças para proteger crianças.
Algoritmos de recomendação, rolagem infinita, falta de controles de idade e outros recursos projetados para prender a atenção estão cada vez mais sob escrutínio. Os governos começam a intervir não apenas no conteúdo oferecido pelas plataformas, mas também na forma como os produtos são projetados e funcionam.
E essa mudança vai além dos Estados Unidos. Em vários países — especialmente no Brasil — os governos estão dispostos a enfrentar empresas de tecnologia nos tribunais para promover mudanças.
Acusada de viciar crianças e adolescentes nas redes sociais, Meta vai pagar indenização bilionária nos Estados Unidos
O produto é o problema
O litígio surgiu de um caso federal movido por dezenas de estados, com Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey levando suas reivindicações de proteção ao consumidor a julgamento. A Meta nega qualquer irregularidade.
Segundo um acordo aprovado por um juiz federal em 26 de agosto de 2026, a empresa concordou com mudanças para usuários menores de 18 anos, incluindo um limite padrão de duas horas diárias combinadas entre Facebook e Instagram, restrições ao uso entre meia-noite e 6h, controles mais rígidos nas notificações e verificações de idade mais rigorosas. Um auditor independente supervisionará o cumprimento das medidas.
As defesas legais da indústria de mídias sociais há muito se apoiam na Seção 230, a lei federal que geralmente impede que plataformas sejam tratadas como responsáveis pelo conteúdo de terceiros.
Os casos contra a Meta e outras empresas, muitos dos quais ainda estão em andamento, investigam uma questão diferente. Os autores argumentam que alguns danos surgem de características criadas pelas próprias plataformas.
No início deste mês, o 9º Circuito rejeitou a tentativa de Meta e TikTok de recorrer das decisões que permitiam que milhares de processos prosseguissem.
A decisão foi restrita: o tribunal disse que a Seção 230 oferece uma defesa contra responsabilidade, e não imunidade contra processos. Em outras palavras, não decidiu se Meta e TikTok eram responsáveis, apenas que as empresas não conseguiram impedir os casos nessa fase.
Em 7 de agosto, um tribunal do Novo México também emitiu uma sentença final, reduzindo a responsabilidade financeira total da Meta no estado para US$ 942 milhões e impondo cinco anos de mudanças supervisionadas pelo tribunal no Facebook e Instagram para usuários do estado.
As medidas incluem verificação de idade mais rigorosa, limites de tempo e restrições a recursos voltados para usuários jovens. A corte também rejeitou o argumento da Meta de que proteções federais para plataformas online a protegiam da responsabilidade pelos produtos que projetou. A Meta está contestando a decisão.
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O acordo de US$ 17 bilhões, portanto, acompanha uma mudança jurídica mais ampla: os tribunais estão começando a testar a ideia de que as plataformas podem ser responsabilizadas não apenas pelo conteúdo publicado pelos usuários, mas também por elementos dos produtos que desenvolvem.
A Meta aceitou que controles sobre tempo online, notificações, verificação de idade e sistemas de recomendação podem funcionar em plataformas que atendem centenas de milhões de pessoas. Isso dificulta que Roblox, Snap, TikTok, YouTube e outros concorrentes argumentem que salvaguardas semelhantes são tecnicamente impossíveis.
Existem limites óbvios para o acordo. Duas horas por dia dificilmente representam abstinência digital. Pais podem anular os controles, e adolescentes conseguem contornar algumas restrições. A verificação de idade continua tecnicamente difícil e também levanta preocupações de privacidade. Ainda não se sabe se essas mudanças vão melhorar a saúde mental dos adolescentes.
Mesmo assim, o acordo vai além das promessas conhecidas da indústria de “fazer melhor”. Os reguladores estão começando a interferir no próprio produto.
O preço da atenção
As consequências financeiras de longo prazo também podem ser maiores do que a cifra principal sugere. A Meta eliminou uma grande fonte de incerteza jurídica, o que os investidores inicialmente pareciam receber bem.
No entanto, milhares de casos envolvendo indivíduos e distritos escolares continuam. Mais importante para o modelo de negócio, restrições em notificações, recomendações e tempo online podem reduzir a atenção da qual dependem as receitas publicitárias.
Cerca de 30% do compromisso financeiro máximo da Meta depende da adoção de salvaguardas semelhantes pelo TikTok e pelo YouTube, com pagamentos equivalentes. A Meta tem interesse em garantir que as restrições no Instagram não façam os jovens simplesmente migrarem para concorrentes.
Se TikTok e YouTube aderirem ao acordo, a Meta se comprometeu a endurecer ainda mais suas próprias regras, reduzindo o limite diário para uma hora por aplicativo e ampliando as restrições noturnas das 22h às 7h.
A segurança infantil é uma das poucas questões tecnológicas com apoio bipartidário em Washington. Câmara e Senado discutem leis que imporiam novas obrigações às plataformas. Em junho, a Câmara aprovou a Lei de Segurança Online para Crianças e, em 5 de agosto, o Comitê de Comércio do Senado avançou com a legislação.
No fim de agosto, senadores também citaram o acordo com a Meta ao retomar a iniciativa pela Kids Off Social Media Act.
As regras estão se espalhando
As consequências do acordo da Meta provavelmente vão além dos Estados Unidos. Reguladores de outros países já seguem uma direção semelhante. Em julho, a Comissão Europeia concluiu preliminarmente que a Meta violou a Lei de Serviços Digitais devido ao design viciante do Facebook e do Instagram.
A investigação destacou rolagem infinita, reprodução automática e algoritmos que personalizam o que os usuários veem.
A Lei de Segurança Online do Reino Unido impõe deveres de segurança infantil às plataformas. A Austrália exige que as plataformas tomem medidas para impedir que crianças menores de 16 anos mantenham contas em redes sociais.
O Brasil colocou muitos desses princípios em lei. A ECA Digital, em vigor desde 17 de março, estabelece novas obrigações para plataformas digitais usadas por crianças e adolescentes brasileiros, mesmo quando o provedor está no exterior.
A lei exige verificação de idade, proteções padrão mais fortes e ferramentas de supervisão parental. Contas de usuários de até 16 anos devem ser vinculadas a um adulto responsável.
As regras brasileiras também miram características associadas ao uso excessivo ou compulsivo. Um decreto que regulamenta a lei restringe recursos como rolagem infinita, reprodução automática e notificações destinadas a prolongar o engajamento.
As famílias devem receber ferramentas para monitorar e limitar o uso, enquanto as configurações padrão para usuários mais jovens devem oferecer maior proteção.
Por isso, os compromissos da Meta no acordo importam para o Brasil menos como precedente legal e mais como demonstração do que é tecnicamente possível. As autoridades brasileiras já têm poder legal para exigir proteções mais fortes.
Se a empresa concordou em impor restrições noturnas e reduzir as notificações para adolescentes na Califórnia ou em Nova York, as autoridades brasileiras podem perguntar por que proteções semelhantes deveriam ser mais fracas no país.
O Brasil também possui ferramentas de fiscalização. A ANPD — o órgão brasileiro responsável pela proteção de dados — já começou a examinar sistemas de verificação de idade operados por Apple, Google e Microsoft. Em 21 de agosto, a fiscalização foi ampliada para mais de 20 outras plataformas, incluindo ChatGPT, Claude, Discord, Facebook, Instagram, TikTok, WhatsApp, X e YouTube.
Em 25 de agosto, a ANPD multou a ByteDance em aproximadamente US$ 31 milhões por violações da lei brasileira de proteção de dados envolvendo crianças e adolescentes. Também ordenou que o TikTok excluísse dados que, segundo o órgão, foram coletados de forma inadequada e exigiu que a empresa apresentasse um plano de conformidade.
O teste do Discord
Um novo caso envolvendo o Discord pode mostrar até onde o Brasil está disposto a ir para obrigar empresas de tecnologia a cumprir as novas regras.
Em 12 de agosto, a ANPD ordenou que a plataforma sediada nos EUA suspendesse as funções de transmissão ao vivo e compartilhamento de vídeos no Brasil até que pudesse demonstrar salvaguardas adequadas para crianças e adolescentes. A medida ocorreu após o caso de suicídio de uma menina de 13 anos no Brasil, em julho, que foi ligado pelas autoridades à plataforma.
O governo brasileiro ampliou a disputa em 25 de agosto, quando o Gabinete do Procurador-Geral entrou com uma ação civil buscando o equivalente a US$ 100 milhões em indenização coletiva e ordens judiciais para que o Discord mude suas práticas.
Entre as demandas estão verificação de idade mais rigorosa, supervisão parental, configurações padrão mais seguras, interrupção em tempo real de conteúdos seriamente prejudiciais e medidas para impedir que servidores banidos simplesmente reapareçam com novos nomes. O governo afirma que não busca fechar o serviço.
‘Graves violações de direitos de crianças’: por que o Discord teve lives suspensas no Brasil
O Discord contestou as medidas, argumentando que são desproporcionais e questionando a autoridade do regulador para impô-las. Em 2 de setembro, um juiz federal deu ao Discord 10 dias para apresentar uma nova proposta de proteção aos usuários.
A disputa brasileira se sobrepõe diretamente a questões que estão sendo discutidas nos Estados Unidos. Nos dois países, as autoridades estão recorrendo à verificação de idade, às configurações padrão e a outras decisões de design que antes eram, em grande parte, deixadas para as próprias empresas de tecnologia.
O Brasil pode se tornar um teste importante para saber se leis ambiciosas de segurança infantil podem ser aplicadas sem enfraquecer proteções legais básicas.