'O gado está morrendo de sede e fome': o impacto devastador do El Niño no Corredor Seco da América Central

‘Nunca vi uma seca como esta’, afirma o agricultor Juan Estanislao Muñoz, que mora no sul de Honduras.
Gentileza WFP via BBC
Juan Estanislao Muñoz está acostumado com secas intensas. Mas ele garante que a seca atual não tem precedentes.
“Tenho 61 anos e nunca, na minha vida, vi uma seca como esta”, afirma ele. “Não haverá colheita, não haverá nada.”
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Muñoz é agricultor e mora com um sobrinho na comunidade das Chácaras no Departamento de Choluteca, no sul de Honduras.
Sua casa fica no Corredor Seco da América Central, uma faixa de terra que atravessa parte da Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica.
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Mais de 10 milhões de pessoas moram na região. Ali, mais de 70% da população rural vive na pobreza e mais de um milhão de crianças sofrem atraso de crescimento causado pela desnutrição, segundo a ONU.
E, nesta região já tão vulnerável, o fenômeno El Niño se soma às mudanças climáticas, agravando a escassez de água e levando milhares de famílias a uma situação de emergência e desespero.
Colheitas foram perdidas na comunidade de Los Piches, no departamento de Valle, em Honduras.
AFP via Getty Images/BBC
O El Niño é uma variação natural que ocorre a cada dois a sete anos, elevando as temperaturas superficiais de uma vasta zona do Pacífico.
O fenômeno dura cerca de um ano e altera os padrões dos ventos e chuvas em todo o mundo. Com isso, aumenta a probabilidade de secas e incêndios florestais, em algumas regiões do planeta, e de chuvas torrenciais e inundações, em outras.
Uma das medidas empregadas para medir o aquecimento do oceano Pacífico indica que o El Niño atual é o mais forte desde 1900, segundo afirmou à BBC o Serviço Meteorológico do Reino Unido.
Os impactos do fenômeno já causam estragos no Corredor Seco da América Central, onde milhões de famílias da zona rural dependem da agricultura de subsistência para produzir milho e feijão.
Os agricultores da região costumam cultivar o solo duas vezes por ano. Um primeiro ciclo ocorre entre maio e agosto e um segundo, chamado de ciclo final, entre agosto e dezembro.
“Na primeira colheita, não tivemos nada. Agora, a terra está limpa para o plantio, mas, se não chover, não teremos produção de milho”, conta Muñoz.
“Tenho uma vaca, mas, agora, ela não está comendo pasto, mas sim terra, folhas… O gado aqui está morrendo de sede e de fome.”
Uma procissão em agosto pediu chuva em Santo Domingo Xenacoj, no Departamento de Sacatepéquez, região central da Guatemala.
AFP via Getty Images/BBC
Fenômeno global
A diretora regional do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA) para a América Latina, Lena Savelli, acaba de visitar Honduras.
“O que mais me impressionou foi observar como a seca transformou completamente a paisagem e a vida das pessoas”, contou ela à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
“Visitei Choluteca, uma comunidade onde o rio que abastecia famílias inteiras há anos, hoje, é simplesmente um caminho cheio de terra e pedras.”
“Conversei com agricultores que perderam grande parte das suas colheitas de milho e feijão porque as chuvas nunca chegaram como eles esperavam”, relata Savelli.
‘O rio que abastecia famílias inteiras há anos, hoje, é simplesmente um caminho cheio de terra e pedras’, lamenta a diretora regional do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA) para a América Latina, Lena Savelli.
Gentileza WFP via BBC
Somente em Honduras, o número de pessoas com insegurança alimentar poderá aumentar de 1,4 para 1,9 milhão, devido à seca associada ao El Niño, segundo Savelli.
“Isso significa que cerca de 500 mil pessoas a mais poderão enfrentar dificuldades de acesso a alimentos em quantidade suficiente”, alerta ela.
O PMA estima que, em toda a América Central, 4,2 milhões de pessoas poderão entrar em insegurança alimentar devido ao El Niño.
Na América Latina e no Caribe em geral, o PMA declarou que pelo menos 16 milhões de pessoas a mais poderão sofrer oferta insuficiente de alimentos, devido ao fenômeno climático.
E, em nível global, o El Niño poderá elevar o número de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda de 225 milhões para 274 milhões — ou seja, um aumento de 49 milhões de pessoas.
O sr. Lorenzo e dona Rosa
Em coordenação com os governos centro-americanos, o PMA distribuiu, desde março deste ano, uma ajuda antecipada para mais de 400 mil pessoas no Corredor Seco.
Estas ações antecipadas incluem pagamentos em dinheiro (equivalentes a US$ 150 por mês, cerca de R$ 785) e sacos de alimentos. Seu propósito é impedir que as famílias tomem medidas desesperadas, como endividar-se, reduzir o consumo de alimentos ao mínimo ou vender seu gado, explica Savelli.
“Agora que a seca já chega com força, estamos fornecendo assistência em dinheiro a mais de 470 mil pessoas afetadas na América Central, para cobrir suas necessidades mais urgentes”, segundo ela.
Muñoz é um dos agricultores que recebem ajuda do PMA. E também o sr. Lorenzo e dona Rosa, um casal que mora com seus netos em Choluteca e de quem Savelli se recorda particularmente.
Dona Rosa mostra o poço seco da sua comunidade a Lena Savelli, diretora regional do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas para a América Latina.
Gentileza WFP via BBC
O sr. Lorenzo e dona Rosa passaram anos cultivando milho e feijão e, graças ao seu trabalho, conquistaram uma vida estável.
“Aqui era bonito”, conta Lorenzo Carranza Hernández. “Tirava até 60, 70 cargas de milho e gerenciava três silos.”
“Não havia luxos, mas meus filhos nunca foram para a escola descalços. Agora, há muitas crianças assim. Com El Niño, a vida é difícil.”
Lorenzo não consegue trabalhar devido às complicações do seu diabetes. Sua esposa, Rosa Arístides, conta que seus filhos “se viram por aí” e ajudam “a comprar remédios”.
“Aqui, todos nós somos vulneráveis”, segundo dona Rosa.
“Os poços de água não têm nada, o que prejudicou a todos. Estamos muito aflitos porque a chuva não quer voltar e os poços estão se esgotando.”
“Nos meus 65 anos, nunca havia acontecido isso”, lamenta ela. “Só podemos esperar que Deus nos dê a bênção, porque Ele é o único que não deixa ninguém desamparado.”
O sr. Lorenzo e dona Rosa passaram anos cultivando milho e feijão. Graças ao seu trabalho, eles conquistaram uma vida estável, mas, agora, dependem de ajuda.
Gentileza WFP via BBC
‘Às vezes, me ponho a chorar’
A situação também é crítica em outras regiões de Honduras e no restante do Corredor Seco.
Lidia Ochoa mora na aldeia de Los Piches, na municipalidade de San Lorenzo (Departamento hondurenho de Valle).
“Às vezes, me ponho a chorar”, conta ela à agência de notícias AFP. “Às vezes comemos, às vezes não.”
“Comemos com uma tortilha e não voltamos a comer mais porque tudo está caríssimo. Nunca havíamos visto algo parecido.”
‘Às vezes, me ponho a chorar. Às vezes comemos, às vezes não”, lamenta Lidia Ochoa.
AFP via Getty Images/BBC
Darwin Cruz também mora em San Lorenzo. Desde que a seca se intensificou, em junho, ele precisou vender duas das suas vacas leiteiras e outra morreu.
Sobraram três, que produzem 25% do leite habitual. E, com esta receita reduzida, ele precisa alimentar sua esposa e suas duas filhas.
O que ele fará se a chuva não vier? “Vender minhas vaquinhas”, declarou ele à AFP.
A situação também é sombria em comunidades de El Salvador.
Em El Matazano, no leste do país, a cisterna que fornecia água a cerca de 50 famílias também permitia criar cerca de 1 mil tilápias para consumo e venda. Agora, não há mais peixes e a água é armazenada para usos prioritários.
“Está nos prejudicando porque… não estamos consumindo tilápia e também financeiramente, porque era um sustento”, afirmou María del Carmen Portillo à agência AFP.
Na Guatemala, a líder indígena Elvira Pasá mora em uma aldeia no município de Cunén, no norte do país. Ela declarou à AFP que “todas as colheitas de milho serão perdidas”.
“A verdade é que já estou ficando com medo, pois não sabemos com o que iremos viver.”
Desde a intensificação da seca, em junho, Darwin Cruz precisou vender duas das suas vacas leiteiras e outra morreu.
AFP via Getty Images/BBC
As diversas faces da crise
Um relatório publicado em agosto por diversas agências de ajuda, incluindo a Oxfam e a Ação contra a Fome, fez um levantamento em 58 municípios da Guatemala, Honduras e El Salvador.
De cerca de 73 mil lares que semearam milho no primeiro ciclo em 2026, mais de 70 mil relataram perdas. E 78,6% desses lares perderam entre 75 e 100% da sua colheita.
O relatório acrescenta outro fator agravante. Segundo as entidades, “diversas comunidades relataram o regresso de pessoas migrantes deportadas ou que retornam sem dinheiro, o que aumenta a pressão sobre os recursos, que já são escassos”.
Darwin Cruz ainda tem três vacas leiteiras, mas elas produzem apenas 25% do leite habitual.
AFP via Getty Images/BBC
O fenômeno El Niño atual não é apenas uma crise de agricultura ou de alimentação. Ele afeta as famílias do Corredor Seco de diversas formas.
O relatório da Oxfam recolheu o testemunho a seguir no Departamento hondurenho de Lempira:
“O centro de saúde não tem medicamentos; as pessoas precisam de ajuda para comprar alimentos ou remédios.”
“Na escola, a merenda escolar não chega há dois anos. As pessoas que migraram em anos anteriores estão regressando e a comunidade não recebe mais remessas” de dinheiro.
“As famílias… não têm mais reservas… elas devem ainda os adubos do primeiro plantio e não têm dinheiro para semear o ciclo final.”
Este testemunho ilustra a “sequência completa da crise”, segundo o relatório: perda de colheita, esgotamento de reservas, interrupção de remessas, endividamento agrícola e debilitação simultânea dos serviços básicos de saúde e educação.
O documento destaca que casos como estes foram reiteradamente documentados em mais de 300 comunidades avaliadas.
Em El Matazano, no Departamento de Morazán (leste de El Salvador), María del Carmen Portillo limpa o tanque que abastecia dezenas de famílias e onde havia criação de tilápias. Agora, não há peixes e a água é armazenada para usos prioritários.
AFP via Getty Images/BBC
Médio e longo prazo
Os governos centro-americanos ativaram programas de emergência frente ao El Niño. Eles incluem distribuição de alimentos e linhas de crédito para os agricultores.
Em colaboração com a FAO, por exemplo, o governo de El Salvador distribuiu “kits agrícolas”, que incluem sementes de milho mais resistentes à seca.
Savelli destaca que “a melhor resposta é aquela que ajuda as pessoas antes que elas percam suas colheitas, sua receita ou suas fontes de água”.
E, para isso, é fundamental que as ações de emergência sejam acompanhadas por medidas de mais longo prazo.
Vilma Ortiz, no Departamento de Morazán, em El Salvador, tenta salvar seus pimentões, que ela plantou no lugar de tomates este ano porque, segundo lhe disseram, eles aguentam mais a seca.
AFP via Getty Images/BBC
“O El Niño não pode mais ser observado como um fenômeno isolado”, afirma a diretora regional do PMA.
“As famílias com quem conversei em Choluteca contaram que as chuvas são cada vez mais imprevisíveis e que as temporadas agrícolas não se comportam mais como antes.”
“A médio e longo prazo, na América Central, é fundamental continuar construindo sobre os importantes avanços que os governos já estão impulsionando para fortalecer a resiliência das comunidades frente aos fenômenos climáticos extremos”, explica Lena Savelli.
“Isso inclui investimentos em sistemas de alerta precoce, gestão dos recursos hídricos, proteção social e outras medidas que ajudem as famílias e os agricultores a enfrentar melhor as secas e inundações.”
O PMA projeta que os impactos do El Niño serão verificados com mais força nos meses de novembro e dezembro. E suas repercussões prosseguirão por boa parte de 2027.
Na comunidade das Chácaras, em Choluteca, a terra continua preparada e os agricultores não perdem a esperança de voltar a semear.
A água que eles bebem costuma vir do poço mais próximo, que agora está esgotado. Por isso, eles precisam caminhar por 20 minutos até um outro poço, que também está secando.
“Se este poço acabar, estamos fritos”, afirma Juan Estanislao Muñoz. “Precisamos ir buscar água onde ela estiver.”

Ex-funcionário da OpenAI diz que empresas de IA não são 'nem de perto cuidadosas o suficiente'

OpenAI
Reuters/Dado Ruvic
Um ex-funcionário da área de segurança da OpenAI, empresa que criou o ChatGPT, criticou a forma como a companhia lida com a segurança da inteligência artificial (IA). Segundo David Robinson, que deixou recentemente a empresa, a cultura de desenvolvimento acelerado aumenta o risco de falhas.
Em um artigo publicado neste sábado (3) na revista americana “The Atlantic”, Robinson afirmou que as empresas de IA, incluindo a OpenAI, não estão sendo “nem de perto cuidadosas o suficiente”.
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Segundo ele, as companhias deveriam dar mais espaço a especialistas em segurança e à pesquisa antes de desenvolver sistemas mais avançados.
“O tempo de tentativa e erro acabou”, escreveu David Robinson. Para ele, sistemas avançados de IA precisam de medidas de segurança semelhantes às adotadas em setores como energia nuclear e aviação.
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David Robinson também criticou uma prática que a OpenAI chama de “implantação iterativa”: lançar sistemas e reforçar as medidas de segurança à medida que os problemas aparecem.
As críticas se somam a um debate no setor de inteligência artificial sobre a velocidade com que as empresas desenvolvem sistemas cada vez mais avançados.
A OpenAI e a concorrente Anthropic têm sido questionadas após episódios em que controles de segurança falharam ou sistemas experimentais apresentaram comportamentos inesperados.
David Robinson afirmou ter trabalhado por três anos e meio na OpenAI, onde ajudou a elaborar a estrutura usada pela empresa para lidar com riscos e supervisionou relatórios de segurança de 12 lançamentos de modelos avançados.
“À medida que a empresa corre de um lançamento para o outro, ela não está conseguindo atingir o nível de cuidado que acredito ser necessário”, escreveu.
Em resposta, a OpenAI afirmou que busca evitar que seus modelos se tornem mais avançados do que a empresa consegue administrar com segurança. “Pausamos o treinamento ou suspendemos os modelos quando precisamos diminuir o ritmo”, disse um porta-voz da companhia.
David Robinson também alertou que as capacidades da inteligência artificial estão avançando mais rapidamente do que o conhecimento dos pesquisadores sobre o chamado “alinhamento”, área dedicada a fazer com que os sistemas de IA atuem de acordo com objetivos e valores humanos.
‘Brincando com as nossas vidas’
Essa não foi a primeira vez que um funcionário fez críticas às empresas de inteligência artificial. No mês passado, um ex-pesquisador que deixou a OpenAI para trabalhar na Anthropic deixou a indústria e acusou as duas empresas dos Estados Unidos de “brincar com as nossas vidas”.
Jacob Coxon, um britânico de 27 anos, trabalhou nos últimos três anos com pré-treinamento, a etapa em que os modelos de IA absorvem grandes quantidades de informação, primeiro na OpenAI e depois, neste ano, em sua maior rival, a Anthropic.
“Nenhuma das empresas está agindo de forma responsável. Elas estão correndo diretamente em direção a uma superinteligência capaz de se aprimorar sozinha e estão apostando com nossas vidas”, escreveu Coxon na rede social X.
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*Com informações da agências Reuters e France Presse.

Por que a Espanha, que construía casas demais, vive hoje uma grave crise de moradia

Milhares foram às ruas de Madri neste sábado
EPA
Nos últimos dias, o nome da aposentada Maricarmen Abascal, de 87 anos, esteve presente em muitas rodas de conversa na Espanha.
As imagens da idosa sendo retirada de maca pelos paramédicos do apartamento no centro de Madri, onde ela morou de aluguel por sete décadas, comoveram o país.
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Abascal finalmente poderá voltar para casa, depois de celebrar um acordo com a empresa proprietária do imóvel. Mas o impacto causado pelo incidente não termina por aqui.
Além de provocar uma onda de protestos, o caso voltou a colocar no centro do debate público um dos problemas que mais preocupam os espanhóis há anos, segundo as pesquisas: o acesso à moradia.
Crise habitacional na Espanha: Parlamento derruba decretos do governo que mudavam regras de aluguel
Neste sábado (3/10), milhares de manifestantes foram às ruas em toda a Espanha exigindo maior proteção aos inquilinos, após o governo não conseguir aprovar no parlamento, na sexta-feira (2/10), uma legislação emergencial sobre habitação.
Em 2024, uma em cada quatro famílias espanholas afirmava ter problemas para conseguir ou manter seu teto, segundo um relatório publicado pela Fundação de Fomento de Estudos Sociais e Sociologia Aplicada (FOESSA).
Comprar ou, conforme o caso, alugar uma moradia passou a ser um objetivo cada vez mais difícil de alcançar para milhares de pessoas na Espanha.
Atualmente, 47,3% dos jovens espanhóis com 26 a 34 anos de idade continuam morando com os pais. Eles afirmam que o principal motivo é que eles não têm condições de comprar ou alugar moradia, devido aos altos custos, informou em abril o Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha (INE).
Mas como é possível que, em um país que, entre 1997 e 2008, chegou a construir cinco milhões de casas e apartamentos (cerca do dobro da demanda de mercado da época), existam hoje centenas de milhares de pessoas com dificuldades para ter acesso à moradia?
O despejo temporário de Maricarmen Abascal fez reviver o debate sobre a crise de moradia vivida pela Espanha
Francesco Militello Mirto/NurPhoto via Getty Images (BBC)
A crise de 2008 atingiu fortemente o setor espanhol da construção civil, pondo fim a muitas empresas e deixando muitos projetos inacabados
Alberto Ortega/Europa Press via Getty Images (BBC)
A crise que mudou tudo
“A reviravolta ocorreu precisamente porque o excesso de construções registrado entre 1997 e 2007 deixou a impressão de que se havia construído demais”, explica Carme Trilla, presidente da fundação sem fins lucrativos Hàbitat3, uma referência no fornecimento e gestão de moradias sociais.
A entidade trabalha para garantir o acesso à moradia digna, especialmente entre pessoas em situação de exclusão.
O mundo acadêmico compartilha da mesma opinião.
“Até 2008, fazíamos exatamente o contrário do que fazemos agora”, defende Jorge Galindo, diretor de Política Econômica da Escola Superior de Administração e Direção de Empresas da Espanha (Esade).
“Naquela época, estávamos construindo praticamente duas moradias por lar criado”, explica ele, “e, ao mesmo tempo, tínhamos um rio de crédito barato, que financiava tanto a construção quanto a compra e venda dessas moradias, sem nenhum tipo de critério racional.”
Mas a crise financeira originada nos Estados Unidos, após a falência do banco Lehman Brothers, fez estourar a bolha imobiliária espanhola, fechando a torneira do crédito e fazendo os preços das moradias afundar, o que transformou radicalmente o setor.
“Passamos de construir quase 14 residências para cada 1 mil habitantes, o que era uma aberração, para duas a cada 1 mil, o que é outra aberração, já que, em outros países, são construídas quatro moradias para cada 1 mil habitantes”, explica o professor de economia José García Montalvo, da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, na Espanha.
O resultado é que, hoje, o país tem um déficit habitacional de cerca de 750 mil residências, segundo dados do Banco da Espanha. Mas o organismo regulador espanhol alertou, poucos dias atrás, que este número poderá superar um milhão nos próximos dois anos, se não forem tomadas as medidas necessárias.
A solução parece estar à vista de todos: construir muito mais do que as 90 mil residências anuais edificadas atualmente na Espanha. Mas por que isso não está sendo feito?
“Porque o setor foi dizimado”, responde García Montalvo.
A professora de economia Taltavull de la Paz, da Universidade de Alicante, na Espanha, usa termos parecidos. Ela indica que a crise trouxe “tremendas consequências” para o setor espanhol de construção civil.
“O setor ficou tão reduzido que existem atualmente poucas empresas construtoras”, declarou ela à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. E a professora alerta que uma possível recuperação levará tempo.
As construções diminuíram enquanto a população aumentava, o que provocou alta dos preços de venda e aluguel de residências
Andrey Rudakov/Bloomberg via Getty Images (BBC)
Entra em ação a lei do mercado
Mas, enquanto a construção de moradias não se recupera, outro elemento vem complicando o panorama: o crescimento da população, impulsionado sobretudo pela imigração.
“Desde 2021, a formação de lares está em alta”, explica Galindo. “Agora mesmo, na Espanha, estão sendo criados 250 mil lares líquidos a cada ano, a maioria graças à migração procedente da Colômbia e da Venezuela.”
“Se, na época da bolha, construíamos o dobro de moradias em relação aos lares formados, hoje construímos um terço. E essas pessoas que estão vindo morar no nosso país, contribuir para a nossa economia e fazer parte da nossa sociedade não encontram acomodações.”
A combinação entre a oferta insuficiente e o aumento da demanda explica a alta dos preços das moradias disponíveis, sobretudo as destinadas ao aluguel.
“O aluguel é a primeira porta de entrada para uma pessoa que chega a uma cidade nova, seja de dentro ou fora da Espanha, ou para alguém que se emancipa”, prossegue o especialista.
“Essa maior pressão da demanda, aliada à falta de oferta suficiente, explica a forte escalada dos preços.”
Desde 2015, os preços das casas e apartamentos à venda ou para alugar subiram em 80%, enquanto os salários dos trabalhadores aumentaram apenas em 30% no mesmo período, segundo dados do INE.
Em algumas cidades espanholas, o preço médio do aluguel atinge atualmente o equivalente R$ 7 mil por mês, o que equivale a 98,7% do salário médio dos jovens no país.
O despejo da aposentada de 87 anos provocou uma onda de protestos em todo o país
Olmo Blanco/Getty Images (BBC)
O papel dos ‘abutres’ e dos turistas
O despejo temporário de Abascal foi resultado de um processo judicial promovido pela empresa proprietária do seu apartamento.
O caso também voltou a colocar em foco outros participantes do mercado, como os fundos de investimento e aqueles que que destinam seus imóveis ao aluguel para turistas.
“Eles têm uma parcela importante de responsabilidade, mas não estão sozinhos”, reconhece à BBC o porta-voz do Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Sevilha, na Espanha, Jaime Jover.
“Os fundos de investimento são um novo participante que entrou com força no mercado espanhol, promovido, em grande parte, pelo governo, pois eles têm diversos incentivos fiscais.”
“Seu modo de proceder aquece muito o mercado, por meio de grandes compras de moradias que são revendidas por preços mais altos depois de três ou quatro anos, sem realizar nenhum investimento de melhoria”, prossegue Jover.
Mas García Montalvo duvida do seu impacto.
“Os fundos de investimento, ou os fundos abutres, como chamamos aqui, detêm uma parcela minúscula do mercado, de cerca de 5%”, explica o economista. “Por isso, qual é o seu papel no mercado? Nenhum.”
“Na Espanha, não existem grandes proprietários. A maior parte das residências é de pequenos proprietários que possuem uma ou duas casas alugadas.”
Cerca de 2,4 milhões de espanhóis possuem casas e apartamentos alugados, segundo dados do Observatório do Aluguel.
Nos últimos anos, muitos desses proprietários optaram por alugar suas moradias a turistas ou outras pessoas por curto período. Isso reduziu o número de unidades disponíveis para as famílias, segundo destacam os especialistas consultados.
Em 2025, a Espanha recebeu 96,8 milhões de visitantes estrangeiros, um aumento de 3,2% sobre o ano anterior.
Estes dados fazem do país europeu o segundo mais visitado do mundo, depois da França, segundo a Organização Mundial do Turismo (ONU Turismo).
“O déficit de oferta não existe apenas devido à construção de menos residências, mas também porque uma parte do parque imobiliário não se destina à moradia habitual, mas ao aluguel turístico ou de temporada”, destaca Trilla.
“Em determinadas zonas, esta situação exerce pressão ainda maior sobre o mercado.”
Os proprietários de parte das residências preferem alugá-las aos turistas que visitam a Espanha todos os anos
OSCAR DEL POZO/AFP via Getty Images (BBC)
O que escondem os números
A falta de oferta parece ser, segundo os especialistas, a causa fundamental da crise de moradia que atinge a Espanha.
Mas esta situação gera uma dúvida. O que acontece com os 3,8 milhões de residências que, segundo o INE, estão vazias no país?
“Elas estão em regiões onde ninguém quer morar”, responde Galindo.
“Essa moradias, em sua maioria, ficam em municípios de onde as pessoas se mudaram e dificilmente voltarão a ser ocupadas porque os empregos, as oportunidades e as famílias não estão mais ali.”
O caso de Maricarmen Abascal também serviu para chamar a atenção para o tema dos despejos por falta de pagamento do aluguel ou da hipoteca. A imprensa espanhola noticiou que foram realizados 45 despejos por dia no primeiro trimestre de 2026.
Mas este tipo de situação vem diminuindo de forma constante desde 2021, quando foram registrados 39.096 despejos, até atingir 24.520 em 2025, segundo dados do Conselho Geral do Poder Judiciário.
O organismo também destaca que nem todos esses despejos afetaram necessariamente os ocupantes de residências. Eles também incluem instalações comerciais, locais de estacionamento etc.
À primeira vista, esta parece ser uma boa notícia, mas alguns especialistas garantem que a estatística esconde outro lado da crise.
O preço das residências, seja para compra ou aluguel, aumentou em 80% desde 2015, enquanto os salários subiram em 30%, segundo dados do INE
Burak Akbulut/Anadolu Agency via Getty Images (BBC)
“É estranho”, afirma García Montalvo. “Parece que as coisas estão melhores, mas, na verdade, elas estão se agravando.”
“Quem consegue uma moradia de aluguel? Só o primeiro? E quem é o primeiro? O nômade digital que ganham 6 mil euros (cerca de R$ 35,5 mil) de uma empresa alemã ou suíça.”
“Quem são os últimos? Os imigrantes, os jovens e as famílias monoparentais, que nunca chegam a alugar”, explica ele.
“O que acontece, então? Os inquilinos são cada vez mais ricos e, por isso, a estatística melhora, pois não é preciso despejar o nômade digital.”
Para ele, este fenômeno também explica por que cada vez mais residências nas grandes cidades espanholas são alugadas por quartos, não como moradias completas.
“O mercado está sob tanta pressão que não são mais alugadas residências inteiras, mas em pedacinhos”, lamenta García Montalvo.
Frente à onda de indignação e protestos causada pelo caso Maricarmen, o governo socialista do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez anunciou uma série de medidas, que incluem a suspensão de determinados despejos até 2030 e a prorrogação de alguns contratos de aluguel, entre outras decisões.
Mas as mudanças não foram aprovadas no Congresso.
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Mega-Sena, concurso 3066: confira os números sorteados; prêmio acumulou

Concurso 3066 da Mega-Sena – veja sorteio
O sorteio do concurso 3066 da Mega-Sena foi realizado, excepcionalmente, na noite deste sábado (3), em São Paulo. A mudança aconteceu por conta das eleições que serão realizadas neste domingo (4).
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Veja os números sorteados: 04 – 06 – 09 – 13 – 28 – 48.
Não houve ganhadores e o prêmio acumulou. O próximo sorteio pode pagar até R$ 92 milhões.
Sorteio da Mega-sena
Caixa
O g1 passou a transmitir, desde abril, todos os sorteios das Loterias Caixa, ao vivo. A transmissão começa momentos antes de cada dia de concursos, no site e no canal do g1 no YouTube.
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A aposta mínima para a Mega-Sena custa R$ 6 e pode ser realizada também pela internet, até as 20h – saiba como fazer a sua aposta online.
A Mega tem três sorteios semanais: às terças, quintas e domingos.
Para apostar na Mega-Sena
A aposta mínima custa R$ 6 e pode ser realizada também pela internet, até as 20h – saiba como fazer a sua aposta online.
Os jogos podem ser realizados até as 20h (horário de Brasília) em qualquer lotérica do país ou por meio do site e aplicativo Loterias Caixa, disponíveis em smartphones, computadores e outros dispositivos.
Já os bolões digitais poderão ser comprados até as 20h30, exclusivamente pelo portal Loterias Online e pelo aplicativo.
O pagamento da aposta online pode ser realizado via PIX, cartão de crédito ou pelo internet banking, para correntistas da Caixa. É preciso ter 18 anos ou mais para participar.
Probabilidades
A probabilidade de vencer em cada concurso varia de acordo com o número de dezenas jogadas e do tipo de aposta realizada. Para um jogo simples, com apenas seis dezenas, que custa R$ 6, a probabilidade de ganhar o prêmio milionário é de 1 em 50.063.860, segundo a Caixa.
Já para uma aposta com 20 dezenas (limite máximo), com o preço de R$ 232.560,00, a probabilidade de acertar o prêmio é de 1 em 1.292, ainda de acordo com a instituição.
Volante da Mega-Sena
Ana Marin/g1

Presidente eleito terá obstáculos na economia; juro alto é o principal desafio, entenda

Miriam Leitão: BC ainda tem juros altos para esfriar economia
O presidente eleito em outubro deste ano para governar o país no próximo mandato, de 2027 a 2030, encontrará o país com o desemprego no menor nível da série histórica e a balança comercial siga apresentando resultados positivos.
O próximo chefe do Executivo encontrará, porém, um cenário econômico adverso, marcado pela desaceleração da economia em meio a juros elevados, segundo especialistas.
A baixa produtividade da economia, a instabilidade internacional, o alto endividamento das famílias e as projeções de inflação acima da meta também deve continuar sendo um obstáculo ao crescimento do país.
O g1 conversou com especialistas para entender o que o próximo presidente pode fazer para melhorar o ambiente econômico do país.
Para a economista Zeina Latif, sócia-diretora da Gibraltar Consulting e professora do Insper, a evolução da economia passa por uma melhora no cenário político.
A economista afirma que será necessário uma “pacificação do país” que permita a criação de uma base aliada no Congresso — o que aumentaria a capacidade de implementação da agenda econômica do futuro ocupante do Palácio do Planalto.
“Acho que a primeira coisa, antes de falar diretamente da economia, é o pano de fundo que precisa ser construído na direção de pacificar o país, na direção de criar uma base aliada com participação no governo e, obviamente, como uma forma de também trazer confiança dos agentes econômicos. Esse passo é muito importante”, disse.
Três setores da economia
Divulgação/SEBRAE, Marcos Oliveira/Agência Senado e Governo do Ceará
Diminuição dos juros
Os especialistas apontam que o principal obstáculo a ser enfrentado pelo futuro presidente na economia é o alto patamar da taxa de juros do país — que tem freado o ritmo de crescimento da economia, impulsionando a inadimplência e o endividamento da população.
A taxa básica da economia, que chegou a 15% ao ano, está atualmente em 13,75% ao ano. Ainda assim, está entre as mais altas do mundo, em termos reais. O objetivo do Banco Central ao manter a taxa tão alta é conter as pressões inflacionárias e trazer a inflação para a meta fixada de 3%.
Para possibilitar juros menores, os analistas defendem o reequilíbrio das contas públicas, ou seja, não só a retomada de saldos positivos — algo que não acontece de forma sustentada desde 2014 — mas a implementação de superávits crescentes (para conter a alta na dívida pública).
Os principais presidenciáveis parecem entender o problema. Em seus planos de governo, apontam a alta taxa de juros como um dos principais obstáculos ao crescimento sustentável do país. E, embora defendam reequilíbrio das contas públicas, eles não detalham como pretendem fazer isso.
Para Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos e ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, o desafio central para enfrentar a desaceleração da economia é a recuperação de superávits primários, ou seja, saldos positivos nas contas do governo.
“Não poderá ser do tipo ‘choque’. Será preciso um programa de recuperação para um período maior, mas com resultados colhidos já desde o início. Isto é, um programa de ajuste proposto pelo presidente e aprovado pelo Congresso para começar a vigorar o quanto antes”, disse Felipe Salto.
Ele defendeu discutir vinculações, indexações, subsídios tributários e financeiros, supersalários, emendas parlamentares, previdência dos militares e outras rubricas. Salto avalia, porém, que o alto nível de endividamento da população não é apenas culpa da taxa básica da economia.
O economista citou os altos níveis de “spreads bancários”, ou seja, de taxas finais cobradas pelos bancos bem acima da taxa Selic, e é preciso reduzir esses valores.
“Não é possível que qualquer plataforma, hoje, consiga sair ofertando crédito a torto e a direito. Isso tem de mudar”, opinou Salto.
Flávio Ataliba, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), analisou que a atual regra para as contas públicas (o arcabouço fiscal) ainda não conseguiu dissipar as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas.
Para ele, a ausência de uma sinalização clara sobre como o país estabilizará sua dívida aumenta a percepção de risco dos investidores e contribui para manter os juros em níveis elevados.
Segundo Ataliba, do FGV-Ibre, uma regra fiscal considerada crível abre espaço para reduzir os juros de forma sustentável, aliviar o endividamento das famílias e criar condições para elevar a produtividade do país. “Hoje não existe uma previsibilidade crível de que teremos uma regra capaz de estabilizar a dívida. Isso gera um prêmio de risco muito grande na economia”, afirmou.
Para baixar os juros, Zeina Latif defendeu medidas que sinalizem o compromisso com as contas públicas, mesmo que o ajuste não garanta a estabilização da dívida brasileira nos próximos anos. Ela defendeu reformas, muitas delas constitucionais, para reduzir os gastos obrigatórios.
“Mas mostrar esse compromisso já ajudaria a desinflamar, vamos dizer assim, a economia, ou seja, reduzir expectativa de inflação, reduzir volatilidade cambial, reduzir taxa de juros. Então essa questão fiscal é central como um alicerce para a estabilidade macroeconômica”, afirmou.
Desemprego e produtividade
Com a economia brasileira em desaceleração, o economista Flávio Ataliba, do FGV Ibre, avaliou que o mercado de trabalho tende a registrar “efeitos mais significativos” (perda de dinamismo) ao longo de 2027.
Além dos desafios de curto prazo, o economista aponta a baixa produtividade como um problema estrutural da economia brasileira. “A gente só consegue aumentos reais de renda sem recorrer ao endividamento por meio do crescimento da produtividade. Sem isso, fica difícil atender às demandas da população e sustentar o crescimento”, disse Ataliba.
Felipe Salto concorda que o desemprego deve aumentar em algum momento, mas avalia que é possível passar pelo turbilhão, em 2027, reequilibrando as contas públicas, inclusive por meio de medidas que já foram tomadas pelo atual governo, como a limitação da evolução do salário-mínimo ao teto do arcabouço. Mas também avançando na agenda fiscal.
Segundo Zeina Latif, a grande questão do Brasil é aumentar a produtividade da mão de obra e, junto com isso, as remunerações — o que também ajudaria a reduzir o endividamento das famílias.
“Acho que precisamos repensar essas medidas de estímulo ao consumo. Seria mais saudável o consumo acelerar em função das reformas, em função do ambiente macroeconômico mais favorável, em função do ganho de produtividade se traduzindo em salários. Essa é a forma mais saudável, e não estímulos artificiais que, lá na frente, acabam gerando esse estresse financeiro para as famílias”, concluiu.
Política comercial
Na política comercial com outros países, marcada atualmente por tensões por conta da guerra no Oriente Médio, que influencia as compras e vendas de produtos brasileiros, assim como pelo tarifaço imposto pelo presidente norte-americano, Donald Trump, os economistas avaliam que ampliar as exportações e abrir mais a economia pode aumentar investimentos, produtividade e crescimento no longo prazo.
“Em um quadro de guerras, conflitos e tarifaços, o desafio é manter essas diretrizes [garantir assento ao Brasil nas mesas de negociação com as principais economias e amplificar nossa histórica posição plural e agregadora]. Além disso, ter claro que só vamos voltar a crescer com uma expansão mais importante das exportações líquidas, resgatando, inclusive, a importância que a indústria já teve no passado, à luz das novas agendas ambientais, de energia e de tecnologia”, disse Salto.
Zeina Latif defendeu a reformulação do Mercosul (bloco econômico formado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) para que se tenha maior flexibilidade de fazer acordos comerciais. Pelas regras atuais, acordos têm que ser feitos em conjunto pelo bloco, e não somente por um país.
Além disso, ela defendeu uma maior abertura comercial, por meio de redução de tarifas de importação, pois o Brasil ainda é relativamente fechado ao comércio exterior.
“Nas barreiras não tarifárias, realmente fazer um pente-fino. Tem muitas discussões sobre bitributação, são muitas distorções. Você vai tentando proteger um setor ou outro, e ficou um ‘mosaico’ de regras que, muitas vezes, geram mais burocracia, mais incertezas, complexidades, sem ter um todo coerente. Política comercial é algo que a gente está muito atrasado. Felizmente, alguns acordos comerciais caminham, mas nesse mundo com mais riscos seria importante o Brasil acelerar a agenda de diversificação de parceiros comerciais”, concluiu Latif.

Eleição é feriado nacional? O que muda para quem trabalha na data? Veja direitos

Título de eleitor
Foto: Agência Brasil/Divulgação
Mais de 150 milhões de brasileiros voltarão às urnas neste domingo (4) para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais. O que muita gente não sabe é que o dia da votação é considerado feriado nacional.
A previsão está no artigo 380 do Código Eleitoral, que estabelece que “será feriado nacional o dia em que se realizarem eleições de data fixada pela Constituição Federal”.
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Isso significa que o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026, marcado para este domingo (4), será feriado em todo o país.
Se houver segundo turno para a eleição presidencial ou para a escolha de governadores, uma nova votação será realizada em 25 de outubro. Nos locais onde ocorrer, a data também será considerada feriado eleitoral.
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🔎 Mesmo nos feriados nacionais, nem todos os trabalhadores são dispensados. A legislação permite que atividades essenciais e outras categorias autorizadas continuem funcionando nessas datas.
A existência do feriado não significa que todas as atividades precisem parar. O próprio TSE entende que empresas, comércios e serviços podem funcionar no dia da eleição, desde que respeitem a legislação e garantam aos trabalhadores condições para exercer o direito ao voto.
“O empregado pode ser escalado para trabalhar, desde que sejam respeitadas as regras aplicáveis aos feriados e, principalmente, seja garantido o seu direito de votar”, afirma Marcel Zangiácomo, sócio do escritório Galvão Villani, Navarro, Zangiácomo e Bardella Advogados.
Para ajudar quem estará trabalhando no dia da votação, o g1 responde s principais dúvidas sobre o tema.
Confira abaixo:
O trabalhador pode ter que trabalhar no feriado?
Quais são os direitos?
Como fica o direito ao voto de quem estará trabalhando?
E se o local de trabalho ficar longe do local de votação?
O que fazer se a empresa dificultar a ida às urnas?
Como denunciar irregularidades?
O trabalhador pode ter que trabalhar no feriado?
Sim. Embora o artigo 70 da CLT proíba o trabalho em feriados nacionais, a legislação prevê exceções para atividades consideradas essenciais, como indústria, comércio, transporte, comunicações, serviços funerários e segurança, entre outras.
Além disso, o empregador pode solicitar que o funcionário trabalhe durante o feriado quando houver previsão em convenção coletiva, acordo firmado entre empregadores e sindicatos.
Quais são os direitos?
Como se trata de um feriado nacional, o trabalho realizado nessa data deve seguir as regras previstas para esse tipo de situação.
“Em regra, o trabalho em feriado deve ser remunerado em dobro ou compensado com outro dia de folga. Também é importante verificar a convenção coletiva da categoria, que pode estabelecer condições específicas”, diz Zangiácomo.
Como fica o direito ao voto de quem estará trabalhando?
A legislação brasileira garante ao trabalhador o direito de se ausentar pelo tempo necessário para votar, sem sofrer qualquer prejuízo.
⚠️ O empregador não pode criar obstáculos ao deslocamento nem adotar medidas que dificultem o exercício desse direito. Isso inclui descontos salariais ou a exigência de compensar as horas utilizadas para comparecer à seção eleitoral.
Na prática, a empresa pode ajustar escalas, flexibilizar horários ou adotar outras medidas para garantir o direito de votar.
E se o local de trabalho ficar longe do local de votação?
Nesses casos, o tempo necessário para o deslocamento também deve ser considerado. “A empresa deve garantir condições para que o empregado consiga votar. Se ele trabalha longe ou em outra cidade, o tempo necessário para o deslocamento deve ser levado em conta.”
O entendimento do TSE é de que o empregador deve adotar medidas que permitam ao trabalhador chegar ao seu local de votação sem obstáculos.
O que fazer se a empresa dificultar a ida às urnas?
O trabalhador deve reunir provas da situação, como mensagens, comunicados, e-mails e testemunhos.
“A empresa não pode impedir nem dificultar o voto. Se isso acontecer, o trabalhador deve registrar a situação e pode procurar a Justiça Eleitoral ou os órgãos trabalhistas competentes”, afirma Zangiácomo.
Além de violar um direito fundamental, a conduta pode configurar crime eleitoral. O artigo 297 do Código Eleitoral prevê detenção de até seis meses e multa para quem impedir ou dificultar o exercício do voto.
Como denunciar irregularidades?
Quem enfrentar dificuldades para votar ou sofrer pressão relacionada às eleições deve guardar provas sempre que possível, aponta o MPT.
Mensagens de WhatsApp, e-mails, vídeos, áudios, prints de conversas, documentos e testemunhos podem ajudar a comprovar os fatos.
As denúncias podem ser encaminhadas ao Ministério Público do Trabalho, ao Ministério Público Eleitoral (MPE) e aos canais de denúncia dos Tribunais Regionais do Trabalho.
O trabalhador também pode procurar o sindicato da categoria para receber orientação e apoio.

Vai trabalhar no dia da eleição? Veja se a empresa pode descontar o tempo para votar

Urnas eletrônicas 2024 do Paraná
Giuliano Gomes/PR Press
Para milhões de brasileiros, o primeiro turno das eleições, neste domingo (4), também será dia de expediente. Profissionais da saúde, da segurança, da hotelaria e de outros serviços essenciais precisarão conciliar a jornada de trabalho com a ida às urnas.
É nesse momento que surgem dúvidas recorrentes como: a empresa é obrigada a liberar o funcionário para votar? O tempo utilizado pode ser descontado do salário? É preciso compensar essas horas depois?
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A legislação brasileira garante ao trabalhador o direito de se ausentar pelo tempo necessário para votar, sem sofrer qualquer prejuízo.
⚠️ O empregador não pode criar obstáculos ao deslocamento nem adotar medidas que dificultem o exercício desse direito. Isso inclui descontos no salário ou a exigência de compensar as horas utilizadas para comparecer à seção eleitoral.
Para ajudar quem estará de expediente durante a votação, o g1 reuniu as principais dúvidas sobre a legislação eleitoral e os direitos dos trabalhadores no dia da eleição.
Abaixo, entenda:
Quem trabalha no dia da eleição pode sair para votar?
O patrão é obrigado a liberar o funcionário?
As horas usadas para votar podem ser descontadas?
E quem vota em outra cidade?
E se a empresa dificultar a ida às urnas?
E conversar sobre política no trabalho? É proibido?
Quando a situação passa a ser assédio eleitoral?
Como denunciar irregularidades?
Quem trabalha no dia da eleição pode sair para votar?
Sim. O trabalhador tem o direito de se ausentar pelo tempo necessário para ir ao local de votação e votar. A empresa não pode impedir esse deslocamento nem criar dificuldades que inviabilizem o exercício desse direito.
Essa garantia vale para qualquer categoria profissional. O direito é o mesmo para quem trabalha em hospital, supermercado, restaurante, fábrica, posto de combustível ou qualquer outro estabelecimento que funcione aos domingos.
Na prática, o empregador deve organizar a jornada para que o trabalhador consiga exercer seu direito ao voto.
O patrão é obrigado a liberar o funcionário?
O Ministério Público do Trabalho (MPT) determina que o empregador deve permitir que o funcionário se ausente pelo tempo necessário para ir à seção eleitoral, votar e retornar ao trabalho.
A regra vale mesmo quando a empresa está com grande movimento ou quando o trabalhador está escalado em horário coincidente com a votação.
As horas usadas para votar podem ser descontadas?
Não. O período necessário para ir às urnas não pode resultar em descontos no salário do trabalhador.
A empresa também não pode exigir a compensação das horas utilizadas para votar. De acordo com o MPT, esse tipo de exigência pode dificultar o exercício de um direito garantido pela legislação eleitoral.
Em outras palavras, o funcionário não precisa repor esse tempo depois nem acumular horas negativas por ter comparecido à sua seção eleitoral.
E quem vota em outra cidade?
Nesses casos, a proteção continua valendo. O empregador não pode criar obstáculos ao exercício do voto, mesmo quando o trabalhador precisa viajar para outra cidade para votar.
Isso não significa que qualquer ausência será automática ou sem limites. O que a legislação protege é o exercício do direito ao voto. Por isso, a empresa deve ajustar a jornada de trabalho para permitir que o trabalhador vote.
E se a empresa dificultar a ida às urnas?
O Código Eleitoral estabelece que ninguém pode impedir ou dificultar o exercício do voto. Criar obstáculos ao comparecimento às urnas pode configurar uma infração eleitoral.
Isso vale tanto para situações explícitas quanto para formas indiretas de dificultar a votação.
Por exemplo:
negar a saída para votar;
ameaçar descontos salariais;
exigir compensação das horas;
alterar escalas para dificultar a votação;
criar constrangimentos relacionados à ida às urnas.
Também são consideradas práticas irregulares situações como:
exigir que o funcionário informe sua preferência eleitoral;
pedir comprovação do voto;
solicitar fotos da urna;
determinar que o trabalhador grave ou fotografe o momento da votação.
E conversar sobre política no trabalho? É proibido?
A legislação não proíbe conversas sobre política. O problema surge quando o ambiente de trabalho é usado para pressionar ou constranger alguém por causa de suas opiniões políticas.
O MPT destaca que empregadores não podem utilizar sua posição hierárquica para influenciar o voto dos funcionários.
Quando a situação passa a ser assédio eleitoral?
O assédio eleitoral ocorre quando há ameaças, constrangimentos, humilhações, intimidação ou promessa de vantagens com o objetivo de influenciar a escolha política do trabalhador.
Entre os exemplos citados na cartilha estão:
ameaças de demissão ligadas ao resultado das eleições;
promessas de benefícios em troca de apoio político;
pressão para participar de atos de campanha;
exigência do uso de roupas, adesivos ou materiais ligados a candidatos;
perseguição de trabalhadores por suas opiniões políticas.
Como denunciar irregularidades?
Quem enfrentar dificuldades para votar ou sofrer pressão relacionada às eleições deve guardar provas sempre que possível, aponta o MPT.
Mensagens de WhatsApp, e-mails, vídeos, áudios, prints de conversas, documentos e testemunhos podem ajudar a comprovar os fatos.
As denúncias podem ser encaminhadas ao Ministério Público do Trabalho, ao Ministério Público Eleitoral (MPE) e aos canais de denúncia dos Tribunais Regionais do Trabalho.
O trabalhador também pode procurar o sindicato da categoria para receber orientação e apoio.

Do endividamento à imagem ruim: os problemas que o agro quer ver resolvidos pelo próximo presidente

Agronegócios puxou alta do pib no 1º trimestre
YASUYOSHI CHIBA/AFP
O próximo presidente vai herdar problemas do agronegócio que não cabem em um mandato de quatro anos, segundo os especialistas entrevistados pelo g1.
A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) propõe cinco políticas públicas para enfrentar gargalos que vão do financiamento rural e dos eventos climáticos extremos à infraestrutura, à dependência de insumos importados e à abertura de mercados no exterior.
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As propostas são:
Política nacional de financiamento, seguro rural e resiliência climática da agroindústria: criação de um marco plurianual para ampliar os recursos destinados ao setor, incluindo um Fundo Nacional de Catástrofes Climáticas.
Política industrial para fortalecer as cadeias estratégicas da agroindústria brasileira: estímulo à produção de insumos, para garantir a competitividade da indústria brasileira, eliminando o “passivo regulatório” para agilizar a aprovação de novas tecnologias.
Política nacional de governança, planejamento e financiamento de infraestrutura agroindustrial: modernização e harmonização dos processos de licenciamento e autorização de empreendimentos de infraestrutura.
Política nacional de comunicação, educação e valorização da agroindústria: ações permanentes para ampliar o conhecimento sobre a contribuição do setor para a segurança alimentar, a sustentabilidade, a inovação e o desenvolvimento econômico.
Política nacional de inserção internacional e defesa da competitividade brasileira: enfrentamento de barreiras tarifárias e não tarifárias, com atuação coordenada entre governo, instituições de pesquisa e setor produtivo.
Agora no g1
Especialistas ouvidos pelo g1 dizem que os gargalos são reais, mas têm dimensões diferentes e exigem políticas de longo prazo, além da participação da iniciativa privada. Alguns já são alvo de ações do governo atual, mas ainda apresentam problemas de execução ou escala.
Entenda o cenário de cada um dos cinco pontos e quais caminhos para enfrentá-los.
Financiamento e seguro rural
Para Felippe Serigati, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) Agro, o principal gargalo do financiamento e do seguro rural é o custo. Segundo ele, os juros permanecem elevados devido ao endividamento dos produtores e ao aumento dos pedidos de recuperação judicial.
Por este motivo, os bancos estão mais seletivos na concessão de crédito.
Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, explica que a inadimplência dos produtores acontece por causa dos prejuízos acumulados em safras seguidas, provocados por problemas climáticos, juros altos e custos elevados de produção.
“Isso vai tendo um efeito em cadeia, prejudicando os investimentos antes da produção. Por isso que, nesse momento, o governo tem de agir de uma maneira um pouco mais forte para tentar evitar que esse processo acabe consumindo os investimentos no setor”, diz.
Atualmente, apenas 3% da produção agropecuária está coberta por seguro, segundo o pesquisador.
Para Serigati, da FGV, o ajuste também precisa envolver credores e devedores. “Os credores vão demandar algum tempinho para que eles possam ajustar novamente suas carteiras de crédito rural. Do lado dos tomadores desse crédito, eles têm de ter as contas mais bem organizadas, para conseguir sinalizar as suas reais condições de pagar”, afirma.
Além disso, ele explica que algumas instituições financeiras evitam esse tipo de crédito por causa do custo para operá-lo, gerado pela taxa Selic e pela percepção de risco, principalmente diante da instabilidade climática.
Na quarta-feira (30), o Diário Oficial da União publicou a lei 15.526/2026, que funcionará como um novo marco regulatório para o seguro rural no país. Ele já atende diversos dos pedidos feitos pela Abag, como a a regulamentação do Fundo de Catástrofe, voltado para os prejuízos causados pelo clima.
Além disso, a nova lei também determina que as despesas com a subvenção ao prêmio do seguro rural tenham caráter obrigatório. Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), isso vai vai evitar o contingenciamento de recursos e traz uma blindagem no orçamento.
Até então, o seguro rural não era uma despesa obrigatória e era uma das primeiras áreas a sofrer cortes, explica Serigati, pesquisador da FGV.
Segundo Gilio, muitas vezes, critérios previstos nas políticas de crédito rural não são cumpridos e que até linhas financiadas pelo Plano Safra são de difícil acesso para o produtor. O pesquisador diz que o governo precisa investir no setor, por se tratar de uma atividade estratégica para a economia do país.
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Cadeias estratégicas
Para os especialistas, a dependência de fertilizantes importados é, hoje, o principal problema dentro desse tema. O Brasil importa cerca de 80% dos adubos químicos que consome, e parte relevante dos fornecedores está em países envolvidos em guerras ou em rotas afetadas por conflitos, como o Estreito de Ormuz.
O Brasil já conta com o Plano Nacional de Fertilizantes, que busca aumentar a independência do país nessa área. No entanto, seus resultados são de longo prazo. Além dos investimentos, é necessário que haja fontes de potássio, fósforo e nitrogênio disponíveis para exploração.
“A gente tem matéria-prima para alguns produtos, mas, para outros, a gente não tem. Vamos continuar dependendo de um certo volume de importação”, diz Carlos Eduardo de Freitas Vian, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz Esalq-USP.
Enquanto o plano não é concretizado, o Brasil deveria diversificar os fornecedores, para ficar menos exposto aos conflitos, afirma Serigati, da FGV. A Abag também pede para aumentar a fabricação de maquinários no Brasil. Contudo, o pesquisador afirma que o país até exporta esses itens.
Para Vian, a principal dependência está nos componentes dos maquinários, como os chips. Na avaliação dele, é inviável trazer esse tipo de fabricação para o Brasil, já que o país não teria demanda suficiente.
O documento da Abag também cita um “passivo regulatório” que atrasa a aprovação de novas tecnologias. Nesse caso, o professor da Esalq acredita que, de fato, isso acontece na aprovação de defensivos químicos, por causa da realização de testes de segurança, tanto ambientais, como para a saúde.
“Porque quando você agiliza esses processos, você pode estar deixando de visualizar alguma outra coisa. Então é um problema mesmo que, para mim, é de difícil solução”, afirma.
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Infraestrutura agroindustrial
O Brasil enfrenta um grande desafio quando se fala de infraestrutura para que em apenas um mandato presidencial consiga se resolver, afirma Serigati.
“Estamos falando de, em um prazo de quatro anos, um aumento de quase 100 milhões de toneladas, equivalente à safra da Argentina. A infraestrutura tem muita dificuldade de crescer no mesmo ritmo que a produção agropecuária”, diz.
Entre os principais gargalos logísticos estão a baixa capacidade de armazenamento e as condições precárias de parte das estradas.
“É uma questão bastante grave, que eleva muito o custo e que acaba atingindo diretamente a margem do produtor agrícola e isso requer também uma ação pública”, afirma Gilio.
A falta de armazenamento adequado também provoca perdas de produtos agrícolas. Um dos entraves apontados pelo pesquisador é a demora na concessão de licenças ambientais para obras.
“Porque às vezes os projetos ficam simplesmente parados, são produtos que às vezes são urgentes, já têm às vezes financiamento para fazer, já têm estudos ambientais feitos, e aí, dentro da máquina pública, essas licenças acabam ficando presas”, afirma.
Outra melhoria que ele acredita que poderia ser feita é a maior integração entre os modais de transporte, como ferrovias e hidrovias, reduzindo a dependência das estradas.
Para Vian, da Esalq, a conectividade no campo também é um gargalo de infraestrutura. “Não adianta nada se você tem uma máquina conectada, se você não tem como transferir dados”, afirma.
Mais de 1,3 milhão de domicílios rurais não tinham acesso à internet em 2024, o equivalente a 15% do total, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O pesquisador do Insper pontua ainda que se trata de um problema de décadas e que levaria tempo para ser solucionado. Além disso, a iniciativa privada também precisaria investir nisso. No entanto, ele acredita que o próximo presidente poderia criar uma política de Estado voltada a garantir segurança jurídica para os investimentos.
Serigati explica que o financiamento de obras de infraestrutura é mais complexo e que o setor público não dispõe de recursos suficientes para atender toda a demanda. Por isso, a participação da iniciativa privada também seria necessária.
“E aí os instrumentos são variados: concessão, privatização ou parceria público-privada”, afirma.
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Comunicação e valorização da agroindústria
O agronegócio enfrenta um problema de imagem dentro do próprio Brasil e no exterior, pontua Vian. Para ele, o setor precisa realmente de um plano de comunicação que valorize seus pontos fortes, mas que também demonstre disposição para corrigir fragilidades.
Segundo o professor, o governo federal já conta com mecanismos voltados a esse objetivo, mas eles podem ser aprimorados. “Eu acho que a gente precisa preparar melhor os nossos representantes, embaixadores, para falar de uma forma institucional, mas acho que a iniciativa privada, as associações, todo mundo de alguma maneira tem o seu papel nisso”, afirma.
Para Serigati, uma política pública articulada com iniciativas do setor ajudaria a posicionar o Brasil nas negociações com outros países e ampliar a abertura de mercados.
Gilio afirma que outros países têm mais sucesso que o Brasil em criar uma marca internacional dos seus produtos agrícolas. “A gente tem alguns exemplos claros, como o café colombiano”, diz. “Esses produtos passam a ser desejados pela própria origem”, completa.
De acordo com o pesquisador do Insper, cabe também ao setor cumprir as políticas públicas, como a de combate ao desmatamento, para colaborar com a imagem. Ele ressalta que essa não é uma ação que possa ser concluída por um único governo e que seus resultados demandam vários anos.
Inserção internacional e competitividade
O mercado internacional vive uma nova configuração, em que, além de produzir de forma competitiva, os países precisam manter um diálogo com os compradores e esse é o desafio do Brasil neste tema, afirma Serigati.
Gilio afirma que o Brasil ainda tem poucos acordos comerciais de longo prazo. Por exemplo, o país deveria ter um acordo com a China, principal cliente do setor.
“Nesse mundo de guerra comercial, em que as barreiras crescem, as tarifas crescem por um lado, as restrições sanitárias por outro. É importante o país trabalhar um pouco mais em construir pontes para que a gente consiga garantir esses mercados”, diz.
Segundo ele, os acordos geram previsibilidade, o que também favorece os investimentos privados no país. O pesquisador da Insper acredita também que o Brasil deveria se antecipar mais a possíveis restrições que os países parceiros venham a criar.
Um exemplo é o caso da proibição de antimicrobianos na produção animal, criada pela União Europeia. O Brasil só reagiu após a divulgação oficial da medida, embora ela já fosse amplamente esperada.
Outra questão é que o Brasil exporta grandes volumes, mas concentra as vendas em poucos países, o que representa um risco para o mercado.
Para Serigati, o esforço de se fazer presente nas mesas de negociação internacionais cabe ao governo, o que já tem sido feito pelo Brasil ao longo dos anos, mas também da iniciativa privada, como associações.
Vian, da Esalq, concorda que essa parceria é necessária. Ele afirma que o Brasil já conta com uma legislação sanitária e ambiental sólida e precisa defender esses pontos nas negociações internacionais.
Além disso, cada setor tem de estar preparado para as regras do país que deseja atender, afirma. Isso torna mais fácil negociar os termos das comercializações por produto, por exemplo, do que em um âmbito mais amplo, diz.
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Como os candidatos pretendem mexer na economia? Compare propostas para 5 temas

Montagem com fotos dos candidatos à Presidência: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo)
Globo
A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, os principais candidatos à Presidência apresentam caminhos diferentes para lidar com alguns dos maiores desafios da economia brasileira.
Entre os temas que estarão na mesa do próximo presidente estão o equilíbrio das contas públicas, os juros, o endividamento das famílias, o crescimento econômico e a produtividade.
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) apresentam em seus planos de governo propostas para enfrentar esses desafios.
O g1 reuniu as principais ideias econômicas dos candidatos para mostrar o que cada um propõe para o país em áreas que afetam diretamente as contas do governo, as empresas e o bolso dos brasileiros.
Confira, a seguir, os principais temas econômicos e as propostas dos candidatos para cada um deles. As medidas foram reunidas a partir dos planos de governo apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Agora no g1
Bets e apostas online
O vício em apostas online atinge milhões de brasileiros e já é considerado problema de saúde pública.
Reprodução/TV Verdes Mares
As bets, como são chamadas as plataformas de apostas online, foram legalizadas no Brasil em 2018 e regulamentadas em 2023. Desde 2025, as empresas autorizadas passaram a pagar impostos sobre a atividade. Naquele ano, o governo arrecadou R$ 8,94 bilhões com a tributação do setor.
O mercado voltou ao centro do debate em setembro deste ano, quando o governo Lula anunciou uma medida provisória para proibir as apostas de quota fixa, os jogos online e os cassinos virtuais.
A decisão foi apresentada como parte de um pacote de medidas para combater o endividamento das famílias. A MP ainda precisa ser analisada pelo Congresso para se tornar definitiva.
🔎 Segundo estudo do Comsefaz, as apostas retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias em 2025. O governo, por outro lado, arrecadou R$ 15,3 bilhões em impostos sobre as bets desde o início daquele ano.
Entretanto, entidades do setor contestam a proibição e afirmam que a medida pode levar apostadores a plataformas clandestinas, fora do alcance da fiscalização e de mecanismos de proteção ao consumidor.
Para o tema, as propostas dos candidatos são:
Augusto Cury: o plano de governo do candidato não cita diretamente bets ou apostas online. O documento trata de dependência digital, redes sociais e jogos eletrônicos e propõe programas de cidadania digital e gestão emocional nas escolas.
Flávio Bolsonaro: propõe proibir o uso de recursos de programas sociais em apostas, além de campanhas de conscientização e orientação financeira pela Caixa.
Lula: defende mecanismos de controle do endividamento associado às apostas, regras mais rígidas para concessão de crédito e ampliação do atendimento em saúde mental para pessoas afetadas por jogos. O programa também prevê proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
Renan Santos: o plano de governo do Partido Missão não faz menção aos termos bets, apostas online ou jogos de azar.
Ronaldo Caiado: defende regras mais rígidas, incluindo proibição de publicidade de apostas em meios de comunicação de massa e redes sociais, teto para gastos dos apostadores, tratamento para jogo compulsivo e combate a plataformas ilegais.
Romeu Zema: o plano não menciona diretamente bets ou apostas online.
Dívida pública e orçamento
A situação das contas públicas pode ser um dos temas centrais do debate. O assunto envolve quanto o governo arrecada, quanto gasta e como financia suas despesas quando as receitas não são suficientes.
O desequilíbrio dessas contas pode contribuir para o aumento da dívida pública e pressionar os juros, com impactos sobre o custo do crédito, os investimentos e o crescimento da economia.
🔎 Quando o governo gasta mais do que arrecada, há déficit primário. Quando arrecada mais do que gasta, há superávit. Os juros da dívida não entram nesse cálculo.
Quando há déficit, o governo precisa buscar outras fontes de financiamento para cobrir a diferença entre receitas e despesas. Uma das formas é tomar empréstimos, o que pode aumentar o endividamento público.
E, quanto maior a necessidade de financiamento, maior pode ser o custo para captar recursos.
Em agosto, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 10 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto, o déficit chegou a R$ 88,9 bilhões. A dívida pública alcançou 82,9% do PIB, ou R$ 11,05 trilhões, o maior nível desde março de 2021.
🔎 A dívida pública é o dinheiro que o governo toma emprestado para financiar suas despesas e depois devolve aos credores com juros. Uma das principais formas de fazer isso é por meio da emissão de títulos públicos.
Considerando também os juros da dívida, o déficit chegou a R$ 1,26 trilhão nos 12 meses até agosto, equivalente a 9,48% do PIB. No período, os juros somaram R$ 1,18 trilhão.
Para Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, o próximo presidente terá de apresentar medidas para controlar o crescimento das despesas obrigatórias, como Previdência, salários e programas sociais, e buscar resultados positivos nas contas públicas.
O analista diz que, sem um plano claro, o mercado mantém os juros longos elevados — ou seja, as taxas cobradas em investimentos e empréstimos com prazo mais longo. Isso dificulta a queda da Selic e pressiona o crescimento porque o crédito fica mais caro e pode desestimular o consumo e os investimentos.
“Uma dívida em trajetória de alta aumenta o prêmio de risco [rentabilidade extra que um investimento oferece para compensar o investidor por correr mais riscos do que em uma aplicação segura], pressiona os juros e acaba reduzindo o espaço para investimento e crescimento.”
Para conter o crescimento das despesas, o governo adotou o arcabouço fiscal em 2023, com regras para a evolução dos gastos. Para 2027, o projeto de Orçamento prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões e uma meta de resultado equivalente a 0,5% do PIB.
As propostas dos candidatos são:
Augusto Cury: propõe reduzir o déficit das contas públicas até chegar próximo de zero e diminuir gradualmente o tamanho da dívida em relação à economia. Também defende uma reforma administrativa, mudanças na divisão de responsabilidades entre União, estados e municípios e o uso de inteligência artificial para encontrar fraudes e desperdícios no setor público.
Flávio Bolsonaro: propõe mudar as regras fiscais para estabilizar e reduzir a dívida em relação ao tamanho da economia. Também defende que o governo passe a gastar menos do que arrecada, limite empréstimos com juros subsidiados pelo Tesouro e reduza despesas que não são obrigatórias nos três Poderes.
Lula: defende manter o Novo Arcabouço Fiscal, que estabelece regras para o crescimento dos gastos públicos, mas preservar recursos para saúde, educação e programas de proteção social. Também propõe melhorar a eficiência dos gastos, revisar benefícios fiscais e aumentar a tributação sobre os mais ricos.
Renan Santos: critica o Novo Arcabouço Fiscal e propõe uma PEC de Equilíbrio Fiscal, com economia projetada de R$ 1,1 trilhão até 2031. Entre as medidas estão desvincular benefícios previdenciários e o BPC do salário mínimo, limitar a correção à inflação, acabar com a vinculação de receitas para saúde e educação, reduzir renúncias fiscais e revisar benefícios e gastos do funcionalismo.
Ronaldo Caiado: propõe um plano de longo prazo para estabilizar a dívida e voltar a registrar resultados positivos nas contas públicas, sem aumentar impostos ou fazer cortes lineares. Também defende limitar o crescimento das despesas obrigatórias e revisar subsídios e benefícios tributários.
Romeu Zema: propõe uma ampla redução das despesas do governo, com reforma da Previdência, contenção do crescimento das despesas obrigatórias, revisão das regras para emendas parlamentares e reforma administrativa. Também defende a privatização de empresas estatais, a ampliação de parcerias com o setor privado e a venda de imóveis federais sem uso. O plano prevê ainda metas progressivas de redução da carga tributária, vinculadas à diminuição dos gastos públicos.
Endividamento das famílias
Em julho, 82% dos consumidores tinham algum tipo de dívida a vencer
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O endividamento recorde das famílias e os impactos no orçamento doméstico também devem estar entre os temas do debate.
Em julho, 82% dos consumidores tinham algum tipo de dívida a vencer, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o maior nível da série histórica da entidade. O cenário envolve principalmente cartão de crédito, carnês, empréstimos e financiamentos.
Já a inadimplência, quando o consumidor deixa de pagar uma dívida no prazo, também permanece elevada. A taxa média nas operações de crédito subiu de 4,9% para 5% entre julho e agosto, segundo o Banco Central do Brasil (BC), atingindo o maior nível da série histórica revisada, iniciada em março de 2011.
🔎 Os juros têm impacto direto nesse cenário, uma vez que, quanto mais caro o crédito, maior tende a ser o custo para quem precisa parcelar uma compra, contratar um empréstimo ou renegociar uma dívida.
Segundo Uarian, o endividamento das famílias é um dos principais obstáculos ao crescimento econômico e, por isso, deve estar entre os principais temas do debate entre os presidenciáveis.
“O percentual de famílias endividadas está em nível recorde e o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu o maior patamar da série histórica.”
O analista destaca ainda que o consumo representa cerca de 63% do PIB e que o crédito caro, especialmente no cartão de crédito e em modalidades de curto prazo, compromete parte do orçamento doméstico.
“Qualquer proposta de estímulo ao consumo ou de crescimento precisa enfrentar esse gargalo de forma direta.”
As propostas são:
Augusto Cury: propõe criar o Banco do Empreendedor, com microcrédito de R$ 2 mil a R$ 20 mil e juros de 5% a 6% ao ano, além de mudar critérios de análise de risco bancário para considerar o histórico de pagamento dos consumidores.
Flávio Bolsonaro: propõe reduzir juros e inflação por meio do reequilíbrio das contas públicas. Também prevê o programa Ganha-Ganha, orientação financeira pela Caixa, renegociação de dívidas para mulheres e um modelo de financiamento estudantil condicionado à renda.
Lula: aposta na renegociação de dívidas por programas como Desenrola Brasil, Novo Desenrola e Desenrola Pequenos Negócios, além de defender regras de concessão responsável de crédito e condições para uma queda sustentada dos juros.
Renan Santos: o plano não apresenta medidas específicas para renegociação de dívidas das famílias ou crédito ao consumidor. O foco está na dívida pública federal e na reestruturação do Estado, incluindo a substituição do Bolsa Família pelas chamadas Frentes Cidadãs.
Ronaldo Caiado: associa o custo elevado do crédito à situação das contas públicas e propõe reduzir despesas obrigatórias para diminuir os juros. Também prevê um Crédito Social Acompanhado para pequenos empreendedores e medidas de proteção patrimonial a públicos vulneráveis.
Romeu Zema: propõe facilitar a renegociação e a portabilidade de dívidas pelo Open Finance, além de modernizar as garantias de crédito para reduzir os juros. Também prevê o “Programa Sócios do Brasil”, com R$ 1.000 investidos para cada brasileiro ao nascer, com saque aos 18 anos.
Tarifaço, comércio exterior e terras raras
Foto de arquivo: Trump mostra tabela do tarifaço em 2 de abril de 2025
Reuters/Carlos Barria/File Photo
O comércio exterior também pode entrar na discussão, especialmente diante das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos. Em julho, o governo de Donald Trump aplicou sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parte dos produtos brasileiros. Em alguns casos, as duas tarifas são cumulativas, chegando a 37,5%.
Nesse contexto, entram também as discussões sobre as terras raras, grupo de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias como celulares, veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa.
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, enquanto a China domina cerca de 70% da produção global e também concentra etapas importantes do refino e da fabricação de ímãs.
O interesse dos EUA pelas reservas brasileiras ganhou espaço nas negociações entre os dois países em meio ao tarifaço. Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração, representantes americanos demonstraram interesse em acordos para a aquisição de minerais estratégicos do Brasil.
Confira as propostas dos candidatos para os temas:
Augusto Cury: propõe reduzir a burocracia para quem exporta, devolver impostos pagos pelas empresas exportadoras e criar cinco corredores para facilitar o transporte de produtos para outros países, além de cinco áreas regionais voltadas à exportação.
Flávio Bolsonaro: propõe estreitar relações comerciais com países como EUA, Argentina e Israel, sem deixar de negociar com China, União Europeia e outros países asiáticos. Também defende facilitar a entrada de matérias-primas, equipamentos e tecnologias e aumentar a participação do Brasil no comércio internacional.
Lula: defende o Plano Brasil Soberano para reduzir os impactos das barreiras comerciais e apoiar empresas afetadas. Também propõe buscar novos mercados para os produtos brasileiros, fortalecer a indústria nacional e aumentar a exportação de produtos com maior valor agregado, além de ampliar acordos comerciais.
Renan Santos: defende uma política externa sem alinhamento automático com grandes potências e uma atuação pragmática no BRICS+. Também propõe criar Zonas Econômicas Especiais, com incentivos para atrair investimentos e ampliar a produção e exportação de produtos de maior valor agregado, como terras raras, aço verde, hidrogênio verde, ciberdefesa e inteligência artificial.
Ronaldo Caiado: defende que o Brasil mantenha relações comerciais com diferentes países, sem se alinhar automaticamente a nenhum deles. Também propõe aumentar o uso de tecnologia nos produtos exportados, processar minerais estratégicos no país antes de vendê-los ao exterior e ampliar os acordos comerciais.
Romeu Zema: defende a saída do Brasil dos BRICS, mantendo relações comerciais com os países do bloco, e a transformação do Mercosul em uma zona de livre comércio, permitindo que o país faça acordos diretamente com outras nações. Também propõe retomar o processo de entrada na OCDE e reduzir gradualmente as tarifas de importação.
Inflação e juros
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, acumulou 4,22% em 12 meses até agosto
ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
A taxa de juros é um dos temas que conecta praticamente todos os assuntos econômicos. A Selic está em 13,75% ao ano, após cinco cortes feitos pelo Banco Central em 2026. Para o fim do ano, o mercado financeiro espera mais uma redução, para 13,50%.
🔎 Apesar da redução, a taxa ainda é considerada elevada e mantém o custo do crédito alto para famílias e empresas. Também aumenta o custo de financiamento da dívida pública e pode pesar sobre o consumo e os investimentos.
A inflação continua acima da meta de 3%. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, acumulou 4,22% em 12 meses até agosto.
As propostas são:
Augusto Cury: defende que o governo mantenha as contas públicas equilibradas para ajudar a reduzir a inflação e os juros. Também propõe oferecer empréstimos pequenos com juros de 5% a 6% ao ano e criar medidas para reduzir taxas que considera excessivas cobradas de mulheres e produtores rurais.
Flávio Bolsonaro: relaciona a inflação e os juros altos ao aumento dos gastos e da dívida do governo. Propõe mudar as regras para controlar as contas públicas, limitar empréstimos do governo com juros mais baixos e reduzir impostos sobre combustíveis e energia elétrica.
Lula: defende a manutenção do Novo Arcabouço Fiscal, conjunto de regras para controlar o crescimento dos gastos públicos, e medidas que criem condições para uma redução dos juros ao longo do tempo. Também propõe aumentar a produtividade da indústria, ampliar a produção de energia mais limpa e manter estoques de alimentos para ajudar a evitar altas de preços.
Renan Santos: relaciona o aumento da dívida e uma política fiscal expansionista à pressão sobre a inflação e à manutenção dos juros elevados. Defende um ajuste fiscal amplo para estabilizar a dívida e criar condições para a redução dos juros e a retomada dos investimentos.
Ronaldo Caiado: propõe um plano de longo prazo para controlar as contas públicas e fazer com que os gastos do governo cresçam menos que a economia. Também defende uma atuação coordenada entre as políticas de controle das contas públicas e de juros, mantendo a autonomia do Banco Central.
Romeu Zema: propõe controlar a dívida pública e manter superávits nas contas do governo para criar condições para uma queda sustentada dos juros. Também defende reduzir gradualmente o IOF, diminuir linhas de crédito subsidiadas do BNDES e outras modalidades de crédito direcionado e retirar encargos e subsídios da tarifa de energia elétrica para reduzir o custo da conta de luz.
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, inflação e juros estão entre os principais temas do debate porque estão diretamente relacionados ao ritmo de crescimento da economia.
“Qualquer proposta econômica que aumente a demanda sem ampliar a capacidade de produção pode dificultar a queda da inflação e manter os juros elevados por mais tempo.”
O analista aponta ainda outros dois desafios para os próximos anos: emprego e renda e a reforma tributária. Segundo ele, o mercado de trabalho continua forte, mas será necessário transformar o aumento do emprego em ganhos sustentáveis de renda, o que depende de produtividade e qualificação.
Sobre a reforma tributária, Lima afirma que “2027 será um período importante da transição para o novo sistema”.
“No fim, acredito que essas questões estão conectadas, já que fiscal, juros, investimento, produtividade e renda vão determinar quanto o Brasil conseguirá crescer de forma sustentável nos próximos anos.”

R$ 9 a cada R$ 10 das despesas já têm destino: o que sobra do Orçamento de 2027 para o próximo presidente?

Candidatos à Presidência
Fotos: Reprodução
Quem assumir a Presidência da República em 2027 terá pouco espaço no Orçamento para tirar novas promessas do papel no próximo ano.
Dos R$ 2,826 trilhões previstos em despesas primárias, 90% estão comprometidos com aposentadorias, salários, benefícios sociais e outras despesas obrigatórias.
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Os números constam do Raio X do Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027 (PLOA). O levantamento foi elaborado pela Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados (CONOF), com base na proposta enviada pelo governo ao Congresso.
📌 Os R$ 2,826 trilhões correspondem às despesas primárias. Esse valor inclui os gastos obrigatórios e aqueles sobre os quais o governo tem alguma margem para definir prioridades. O Orçamento total é de R$ 7,4491 trilhões e abrange despesas financeiras, como juros, pagamento de parcelas e renovação da dívida. Como o projeto ainda está em análise, os valores podem mudar até a aprovação definitiva, prevista para dezembro de 2026.
Os 10% restantes, equivalentes a R$ 283,2 bilhões, correspondem às chamadas despesas discricionárias. Nessa parcela, o governo tem alguma margem para definir prioridades.
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Apesar dessa flexibilidade, o valor não representa “dinheiro livre” para financiar todo o programa de governo vencedor nas urnas.
Na prática, o próximo presidente não poderá simplesmente cortar ou redirecionar gastos obrigatórios para financiar novas políticas. Para alterar parte dessas despesas, será necessário mudar leis ou a Constituição, o que depende da aprovação do Congresso.
Só parte dos R$ 283,2 bilhões está nas mãos do Executivo
Dos R$ 283,2 bilhões em despesas discricionárias, R$ 61,2 bilhões são destinados a emendas parlamentares individuais e de bancada, e aos gastos dos demais Poderes, do Ministério Público da União (MPU) e da Defensoria Pública da União (DPU).
Restam, portanto, R$ 222,1 bilhões programados pelo Executivo. Ainda assim, nem todo esse valor está disponível para novas propostas.
🧩 Esses recursos financiam programas em andamento, investimentos e despesas necessárias ao funcionamento dos ministérios e dos serviços públicos.
O economista Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), ressalta que as despesas sobre as quais o governo pode definir prioridades não são necessariamente dispensáveis.
“É nessa parcela que estão investimentos, manutenção de universidades, infraestrutura, fiscalização, ciência e tecnologia e o custeio de inúmeros serviços públicos”, afirma.
Quanto do Orçamento de 2027 está nas mãos do Executivo?
Arte/g1
Nem toda promessa entra na mesma conta
Ainda assim, as propostas eleitorais podem pressionar o Orçamento de maneiras diferentes. Obras, compra de equipamentos, subsídios e expansão de serviços podem disputar a parcela sobre a qual o governo tem alguma margem de decisão.
Benefícios permanentes, reajustes e novas despesas com pessoal podem elevar os gastos obrigatórios. Já a redução de impostos pode diminuir a arrecadação e, consequentemente, o dinheiro disponível.
Parte das promessas dos candidatos envolve políticas que já recebem recursos federais e têm valores previstos no PLOA. Isso não significa, porém, que exista dinheiro reservado para financiar as ampliações prometidas.
O programa de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, por exemplo, propõe consolidar ou ampliar políticas como o Bolsa Família, o Pé-de-Meia e o Minha Casa, Minha Vida, além de fortalecer universidades, institutos federais e o Sistema Único de Saúde (SUS).
O documento prevê ainda investimentos por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento, o fortalecimento da Nova Indústria Brasil e do Plano de Transformação Ecológica e a continuidade da política de valorização do salário mínimo.
Como parte dessas políticas já existe, o Orçamento de 2027 deve prever recursos para sua manutenção. Aumentar o número de beneficiários, expandir serviços ou elevar os investimentos, porém, pode exigir dinheiro adicional.
⚠️ Sem metas, prazos e estimativas de custo para cada uma das principais ampliações, não é possível saber quanto poderia ser financiado com os recursos já previstos, quanto exigiria a transferência de dinheiro entre áreas e quanto dependeria de novas receitas ou do aumento dos gastos obrigatórios.
O aumento dos investimentos também aparece no programa de Ronaldo Caiado, do PSD. Entre as propostas estão a criação de um plano nacional de infraestrutura para os próximos 30 anos, a retomada de obras paralisadas, o Pacto Nordeste 2030 e o reforço de políticas de segurança, saúde e formação profissional.
O programa estabelece a meta de elevar o investimento total da economia para perto de 25% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse percentual inclui recursos públicos e privados. Portanto, não significa que o governo federal gastaria sozinho o equivalente a 25% do PIB.
Caiado também propõe revisar subsídios e benefícios fiscais considerados ineficientes, combater fraudes em programas sociais e limitar o crescimento das despesas obrigatórias e dos gastos de manutenção da administração a um ritmo inferior ao do PIB em valores correntes.
⚠️ O plano de governo não informa qual parcela do investimento total caberia ao governo federal nem quanto seria economizado com a revisão dos gastos atuais.
Já o programa de Augusto Cury, do Avante, inclui cinco corredores estratégicos de exportação, a expansão do ensino técnico e o aumento do subsídio ao seguro rural. Também prevê o Brasil Proteína 10.000, que pretende atrair ou instalar 10 mil agroindústrias em oito anos.
O documento propõe ainda a criação de um banco para financiar pequenos empreendedores, microempresas e empresas iniciantes, além de 10 mil Escolas de Empreendedorismo e formas de pagamento por serviços ambientais.
O plano combina concessões e parcerias entre o poder público e empresas privadas com propostas de controle de gastos. Entre as medidas estão buscar um resultado próximo do equilíbrio entre receitas e despesas, realizar uma reforma administrativa, estudar a redução do número de ministérios e usar inteligência artificial para identificar fraudes e ineficiências.
💰 As medidas podem exigir recursos para infraestrutura, incentivos financeiros, educação profissional e crédito público. O programa, no entanto, não informa o custo total das propostas nem o valor que seria gasto em 2027.
O programa de Romeu Zema, do Novo, reúne exemplos de diferentes formas de impacto sobre o Orçamento. Entre as propostas estão a ampliação das parcerias entre o poder público e empresas privadas nas áreas de saúde e educação, a implantação de um registro nacional de saúde e a expansão de políticas de aluguel social e moradia para a população de baixa renda.
O plano de governo também propõe pagar R$ 5 mil às famílias que deixarem o Bolsa Família após superar o limite de renda do programa. Outra iniciativa, chamada Sócios do Brasil, prevê o depósito de R$ 1 mil para cada pessoa quando nascer, com possibilidade de retirada aos 18 anos.
⚠️ Esses estão entre os poucos casos em que o valor a ser pago a cada beneficiário é informado. O documento, porém, não apresenta o número total de pessoas atendidas nem o custo anual das medidas.
O programa de Zema também propõe uma reforma da Previdência, a privatização de empresas estatais, a venda de bens e participações da União, uma reforma administrativa, o corte de ministérios e cargos e a redução gradual de financiamentos destinados a setores específicos ou oferecidos em condições favorecidas.
O documento também defende a redução de impostos sobre empresas e o fim dos encargos cobrados sobre o valor de um salário mínimo na contratação de trabalhadores que deixem a informalidade.
Outras candidaturas condicionam o aumento dos investimentos a mudanças prévias nos gastos obrigatórios. O programa de Renan Santos, do Missão, apresenta como principal proposta para as contas públicas a “PEC do Equilíbrio Fiscal”, à qual atribui uma economia de R$ 1,1 trilhão até 2031.
Entre as medidas estão retirar a vinculação dos benefícios da Previdência e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) ao salário mínimo, eliminar os valores mínimos para saúde e educação vinculados pela Constituição, revisar o abono salarial, limitar supersalários e unir municípios considerados incapazes de sustentar as próprias contas.
O programa também propõe substituir o Bolsa Família pelas “Frentes Cidadãs” e aumentar os investimentos em infraestrutura somente após a aprovação dessas reformas.
💰 A economia de R$ 1,1 trilhão é uma projeção para o período até 2031. Isso não significa que todo o valor estaria disponível em 2027. No material analisado, o programa não detalha quanto seria economizado no primeiro ano nem o custo de elevar os investimentos aos níveis prometidos.
Há ainda candidaturas que pretendem combinar cortes na administração pública, redução de impostos e projetos de infraestrutura. O programa de Flávio Bolsonaro, do PL, propõe o chamado “Tesouraço”, que prevê a eliminação de pelo menos dez ministérios, a redução de cargos de livre nomeação e de despesas administrativas e o combate a supersalários e “penduricalhos”.
Ao mesmo tempo, o programa anuncia R$ 900 bilhões em quatro anos para rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. A estratégia inclui concessões, parcerias entre o poder público e empresas privadas e a antecipação de recursos com base em bens, imóveis e receitas futuras da União.
O plano também prevê a redução de impostos sobre o consumo, a energia elétrica e os combustíveis. Além disso, propõe usar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para apoiar a atuação de pequenas e médias empresas no exterior.
💰 O efeito sobre as contas públicas seria misto: o programa promete economizar com a redução da estrutura administrativa, mas também prevê novos investimentos e medidas que podem diminuir a arrecadação. O plano não informa quanto dos R$ 900 bilhões anunciados para infraestrutura viria de recursos públicos, de investimentos privados ou da antecipação de receitas com base em bens e direitos da União. Também não apresenta uma estimativa do total que seria economizado com o “Tesouraço”.
➡️ Para os especialistas ouvidos pelo g1, as campanhas deveriam explicar não apenas o que pretendem fazer, mas também de onde sairia o dinheiro para financiar suas propostas.
Isso permitiria identificar quais gastos poderiam ser reduzidos ou transferidos para outras áreas, quais promessas exigiriam novas fontes de receita e quais dependeriam da aprovação do Congresso.
Segundo Silva, para destinar mais dinheiro a uma nova política, será preciso indicar quais despesas poderão ser reduzidas, adiadas ou transferidas para outras áreas, ou apontar de onde virão os recursos adicionais.
“O debate correto não é ser a favor ou contra emendas em abstrato, mas saber se a alocação determinada politicamente pelo Parlamento produz mais retorno social do que aquilo que precisará ser comprimido para acomodá-la.”
Algumas das mudanças propostas pelos candidatos não dependem apenas da decisão do presidente. Despesas obrigatórias, regras de emendas, impostos e benefícios permanentes podem exigir aprovação do Congresso.
O que propõem os candidatos à Presidência?
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Emendas reduzem o espaço dos ministérios e ampliam o poder do Congresso
A parcela do Orçamento sobre a qual há maior margem de decisão financia políticas e serviços em andamento e inclui R$ 44,8 bilhões em emendas parlamentares.
📊 Desse valor, R$ 28,5 bilhões estão reservados para emendas individuais e R$ 16,3 bilhões para as 27 bancadas estaduais. O projeto não destina um valor específico às emendas de comissão.
Esse dinheiro também pode financiar obras, investimentos e políticas públicas.
A principal diferença está em quem decide o destino do dinheiro. Nos recursos programados pelos ministérios, a decisão cabe principalmente ao Executivo. Nas emendas, deputados, senadores e bancadas indicam onde os valores serão aplicados.
Como há um limite para o total de gastos submetido às regras fiscais, aumentar os recursos de uma área reduz o espaço disponível para as demais. As emendas individuais e de bancada também têm execução obrigatória, desde que cumpram as regras do Orçamento e não haja impedimentos técnicos.
Essa mudança ampliou o poder do Congresso sobre a destinação do Orçamento.
Na pesquisa “Emendas parlamentares e processo orçamentário no presidencialismo de coalizão”, Rodrigo Oliveira de Faria, doutor em Direito Financeiro pela Universidade de São Paulo (USP), aponta que, a partir de 2013, parte das decisões antes concentradas no Executivo foi transferida para o Legislativo.
Com a execução obrigatória das emendas individuais e de bancada, o presidente perdeu parte da capacidade de negociar a liberação desse dinheiro em troca de apoio no Congresso. Ao mesmo tempo, os parlamentares ampliaram sua influência sobre o destino dos recursos.
Segundo ele, as emendas deixaram de ser apenas uma “moeda de troca” liberada pelo governo para obter apoio no Congresso. Ao se tornarem obrigatórias, passaram a representar verdadeiras “joias da Coroa”, isto é, recursos valiosos cuja destinação está cada vez mais sob influência do Legislativo.
“Com a diferença de que, se antes as cartas eram dadas pelo Executivo, atualmente passaram a ser distribuídas pelo Legislativo, assinalando maior dependência do presidente da República em relação ao relator-geral do PLOA.”
🧩 A maior parte dos gastos continua vinculada a obrigações previstas em leis e na Constituição, enquanto o Executivo elabora a proposta de Orçamento e executa as políticas sob sua administração. O avanço das emendas, porém, reduziu a parcela cuja destinação pode ser definida diretamente pelo governo.
A execução obrigatória das emendas retirou do presidente parte de um instrumento tradicional de negociação política. Como a liberação desses recursos deixou de depender da decisão do Executivo, o Palácio do Planalto passou a buscar outras formas de negociar com o Congresso.
O cientista político e economista Fabio Andrade, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), explica que, desde a criação do chamado “orçamento secreto”, o Congresso ganhou mais autonomia para indicar o destino dos recursos.
“O governo federal perdeu uma parte significativa daquela capacidade de negociação via destinação orçamentária”, afirma.
Segundo Andrade, parte dessa articulação pode ocorrer por meio da distribuição de cargos na administração federal.
“Resta muitas vezes ao Executivo uma articulação baseada na ocupação de postos considerados importantes e que propiciam um acesso mais estratégico a recursos.”
O que dizem as campanhas?
O g1 perguntou às campanhas qual seria o custo ou a economia estimada das propostas para 2027, quais seriam as fontes de financiamento e quais medidas dependeriam do Congresso.
A campanha de Renan Santos afirmou que a “PEC do Equilíbrio Fiscal” produziria uma economia de R$ 1,1 trilhão em cinco anos e seria apresentada após a eleição de 2026.
A proposta reuniria revisão de renúncias fiscais, corte de supersalários, desvinculação dos pisos de saúde e educação e desindexação dos benefícios previdenciários em relação ao salário mínimo. A campanha reconheceu que as medidas dependeriam da aprovação do Congresso.
A campanha de Ronaldo Caiado informou que pretende limitar o crescimento das despesas a, no máximo, 50% da expansão do Produto Interno Bruto e apresentar uma emenda constitucional para dar ao governo, por um período estimado de dois anos, maior liberdade para remanejar recursos do Orçamento.
Segundo a campanha, o ajuste incluiria o corte de pelo menos 10% dos subsídios e benefícios tributários, que somariam mais de R$ 600 bilhões, o fim das emendas impositivas e medidas para reduzir os prejuízos das estatais federais. A resposta também afirmou que os cortes não atingiriam a proteção aos mais pobres e que o controle das despesas abriria espaço para investimentos sociais.
As duas campanhas apresentaram projeções e medidas de ajuste, mas não informaram uma conta consolidada do impacto das propostas especificamente em 2027.
As campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury e Romeu Zema não responderam até a última atualização desta reportagem.