Por que o mercado reage às eleições antes mesmo de a economia mudar?

Como as eleições mexem com a Bolsa e o dólar
A divulgação do resultado do primeiro turno das eleições foi seguida por uma alta da bolsa de valores e uma queda dos juros futuros. Isso não significa que a economia tenha mudado da noite para o dia, mas que bancos, fundos e investidores passaram a reavaliar suas expectativas para os próximos anos.
O mercado financeiro reage não apenas ao que acontece no presente, mas também ao que pode acontecer. Por isso, pesquisas, declarações e resultados eleitorais podem provocar oscilações nos preços de ações, moedas e juros. O cenário internacional e os movimentos de entrada e saída de recursos do país também influenciam.
Essas oscilações refletem as expectativas do mercado, mas não revelam, por si só, a situação da economia. Para entender os possíveis efeitos de cada cenário sobre a população, é preciso considerar também indicadores como emprego, renda, preços e benefícios sociais.
Toda semana, o g1 Explica simplifica a economia, o mercado financeiro e a educação financeira, mostrando como tudo isso afeta o seu bolso.

Getty Images entra com pedido de recuperação judicial nos EUA

Fotografia analógica.
Madson Dias/Arquivo Pessoal
A empresa americana de fotografia Getty Images entrou, nesta quarta-feira (21), com um pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos, como parte de um plano para reestruturar suas dívidas e fechar seu capital.
“A empresa iniciou um processo para obter a aprovação formal de um plano de reorganização acertado previamente com seus principais credores e investidores. Para colocá-lo em prática, recorreu ao Tribunal de Falências dos Estados Unidos para o Distrito de Delaware, envolvendo algumas de suas empresas no país”, informou a companhia em comunicado.
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A companhia, que mantém parcerias com empresas de mídia, já havia anunciado neste mês um acordo com seus principais credores e investidores para realizar a reestruturação por meio de um Chapter 11 (Capítulo 11) previamente negociado.
Capítulo 11: entenda o que é o mecanismo e a diferença para a recuperação judicial brasileira
Pelo acordo, membros da família Getty e empresas ligadas à Koch Equity Development investirão até US$ 533 milhões (R$ 2,67 bilhões) na empresa. O plano também prevê uma redução significativa de suas dívidas.
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A Getty Images espera concluir a reestruturação financeira até o fim do ano, após obter as aprovações regulatórias necessárias.
A empresa informou que continuará funcionando normalmente durante o processo. A reestruturação terá financiamento de até US$ 143 milhões (R$ 716,9 milhões) da Koch Equity Development.
Ao fim da reestruturação, a Getty Images passará a ter capital fechado e será controlada pelos investidores responsáveis pelo novo aporte.
A companhia também está em processo de saída da Bolsa de Nova York, que iniciou no fim de setembro os procedimentos para retirar suas ações de negociação.

Após seis anos de atraso e crises de segurança, maior Boeing 737 MAX 10 é aprovado para voar; conheça

Boeing 737 Max
divulgação/Boeing
O Boeing 737 MAX 10, a maior versão da família 737 MAX, recebeu nesta terça-feira (20) a aprovação final da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA, na sigla em inglês).
A certificação permite que a fabricante comece a entregar, nos próximos meses, o avião, que tem capacidade para até 230 passageiros.
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O modelo tem capacidade superior à das outras versões da família: o 737 MAX 9 transporta até 195 passageiros, enquanto o MAX 7 pode levar até 160 pessoas.
A Boeing já construiu algumas unidades do MAX 10, que aguardavam a autorização para serem entregues. Segundo a consultoria do setor aéreo IBA, as companhias aéreas encomendaram mais de 1.550 unidades do modelo, que representam 31% dos pedidos ainda pendentes da família 737 da fabricante.
Agora no g1
A presidente e diretora-executiva da Boeing Commercial Airplanes, Stephanie Pope, afirmou que as entregas começarão nos próximos meses.
Segundo ela, o MAX 10 oferece maior capacidade de passageiros, mais autonomia de voo e maior eficiência econômica por assento em sua categoria.
O avião também é importante para os planos de expansão de diversas companhias aéreas. Entre os principais clientes estão United Airlines, Alaska Airlines, Ryanair, Delta Air Lines e American Airlines.
A Boeing aposta no MAX 10 para aumentar a entrada de dinheiro em caixa e avançar em sua recuperação financeira, após anos de crises e controvérsias que atrasaram o desenvolvimento do modelo. Antes dos adiamentos, a fabricante previa começar a entregar o avião em 2020.
Veja fotos do Boeing 737 MAX 10, o maior avião da família 737 MAX.
Certificação mais rigorosa após acidentes
A Boeing passou a enfrentar um processo de certificação mais rigoroso após dois acidentes fatais com o 737 MAX 8, em 2018 e 2019, que deixaram 346 mortos.
A empresa também passou a enfrentar maior fiscalização sobre a produção e o controle de qualidade após um painel da fuselagem de um 737 MAX 9 quase novo, operado pela Alaska Airlines, se soltar durante um voo em janeiro de 2024.
Em agosto, a FAA aprovou o 737 MAX 7, modelo menor da família, após uma análise que durou mais de oito anos.
Para certificar o MAX 10, o órgão regulador exigiu melhorias importantes, incluindo atualizações no sistema de controle de voo e a adoção de um sensor de ângulo de ataque aprimorado, que mede o ângulo entre a direção do avião e o fluxo de ar ao seu redor.
Essas mudanças também serão implementadas na frota já existente nos próximos anos.
Um problema no sistema que evita a formação de gelo nos motores do 737 MAX, identificado em 2023, também atrasou a certificação dos modelos MAX 7 e MAX 10.
No fim de setembro, a Boeing revelou outra falha na atualização mais recente do software de navegação da família 737 MAX, o que poderia provocar novos adiamentos. A FAA, porém, concluiu que o problema não representava um risco à segurança e não exigiu sua correção como condição para certificar o avião.
A fabricante ainda trabalha na certificação do 777-9, o maior avião comercial que produz. O projeto acumula seis anos de atraso, e a Boeing espera concluir o processo e iniciar as entregas em 2027.
Boeing 737 Max
divulgação/Boeing
* Com informações da agência Reuters.

Os maiores salários para 2027: veja ranking de carreiras por setor, para quem quer ou não ser chefe

Profissões em alta para 2027: veja cargos com salários de até R$ 93,5 mil
Os maiores salários do mercado não estão apenas nos cargos de chefia. Um levantamento da Robert Half, divulgado com exclusividade ao g1, mostra que algumas das carreiras mais bem remuneradas projetadas para 2027 estão em cargos de especialista, principalmente nas áreas de tecnologia e mercado financeiro.
Em muitos casos, profissionais sem responsabilidade pela gestão de equipes podem alcançar salários comparáveis aos de cargos de liderança em outros setores.
O estudo reuniu projeções salariais para mais de 450 profissões distribuídas em oito áreas: Tecnologia, Engenharia, Jurídico, Vendas e Marketing, Finanças e Contabilidade, Mercado Financeiro, Seguros e Recursos Humanos. Os salários podem chegar a R$ 93.550 por mês.
Guia Salarial 2027 (Não Gerenciável)
g1
No setor financeiro, o topo do ranking é ocupado por funções ligadas a investimentos, mercado de capitais, crédito estruturado e fusões e aquisições. São cargos que exigem alto grau de especialização e atuação em operações complexas, o que ajuda a explicar os salários mais elevados.
A tecnologia aparece logo em seguida. O avanço da inteligência artificial colocou profissionais de IA, segurança da informação, desenvolvimento de software e ciência de dados entre os mais disputados do mercado.
O próprio levantamento mostra o tamanho dessa disputa por talentos. Mais da metade dos gestores de tecnologia (53%) afirma oferecer salários acima do planejado para garantir contratações. Além disso, 41% já pagam remunerações maiores para profissionais com experiência em inteligência artificial generativa.
Os rankings reforçam uma tendência que vem ganhando força no mercado de trabalho. Se antes o principal caminho para aumentar os rendimentos era assumir cargos de gestão, hoje a especialização também pode levar a salários elevados, principalmente em áreas que enfrentam escassez de profissionais qualificados.
Esse movimento ocorre em um momento em que parte dos trabalhadores passou a repensar a busca por cargos de liderança. Em junho deste ano, uma reportagem publicada pelo g1 mostrou que muitos jovens têm recusado posições de chefia em busca de mais equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
A liderança ainda concentra os maiores salários
O avanço das carreiras especializadas não elimina uma realidade: quando se observa o mercado como um todo, os maiores salários continuam concentrados nos cargos executivos.
O ranking mostra que diretorias e posições de alta liderança, especialmente nas áreas financeira, comercial e de tecnologia, seguem reunindo as remunerações mais elevadas.
Guia Salarial 2027 (Executivosl)
g1
Dois caminhos para ganhar bem
A principal conclusão do levantamento é que o mercado passou a oferecer trajetórias mais diversas de crescimento profissional.
Chegar à liderança continua sendo o caminho para alcançar os maiores salários em boa parte das empresas. Mas já não é a única alternativa.
A valorização de áreas como inteligência artificial, dados, tecnologia e mercado financeiro abriu espaço para que profissionais especialistas alcancem remunerações cada vez mais competitivas, sem necessariamente assumir equipes ou migrar para cargos de gestão.
Levantamento da Robert Half mostra que especialistas em tecnologia e mercado financeiro figuram entre os profissionais mais bem remunerados projetados para 2027
Pexels
Entenda a metodologia
Para elaborar o guia, a Robert Half ouviu 500 gestores de contratação e 1.000 profissionais das áreas de Finanças e Contabilidade, Tecnologia, Engenharia, Jurídico e Suporte Administrativo e ao Cliente. Os entrevistados atuam em empresas de pequeno, médio e grande porte, incluindo companhias de capital aberto.
Os salários apresentados pela consultoria representam a remuneração-base praticada no mercado e não incluem bônus, participação nos lucros ou benefícios.
As faixas salariais são divididas em três níveis:
25º percentil: profissional recém-chegado à função, com pouca ou nenhuma experiência e necessidade de maior supervisão;
50º percentil: profissional com experiência suficiente para desempenhar as principais atribuições do cargo de forma autônoma;
75º percentil: profissional com qualificações diferenciadas, especializações, certificações ou competências que agregam valor além das atribuições habituais da função.
As tabelas desta reportagem mostram os cargos com os maiores salários projetados para 2027 em cada setor. Mas o Guia Salarial da Robert Half traz projeções para mais de 450 profissões e detalha as funções mais demandadas, os segmentos que mais contratam e as habilidades que podem impulsionar a remuneração nos próximos anos.
Confira a lista completa de cargos e salários aqui.

Chefe da Ferrari dá nota 10 a Tesla que 'voa' e elogia Elon Musk: 'Temos que continuar sonhando'

Como um Tesla voou e andou de ponta-cabeça?
O presidente-executivo da Ferrari, Benedetto Vigna, elogiou a apresentação do esportivo Roadster feita pela Tesla na semana passada. A demonstração incluiu manobras aéreas impulsionadas por propulsores derivados de tecnologias da SpaceX e instalados no carro.
Segundo a agência Reuters, o executivo disse que a indústria automotiva ainda tem espaço para inovações ousadas, mesmo em um mercado consolidado. Ele deu nota 10 para a tecnologia e nota 10 para a apresentação.
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“Isso certamente mostra que, também no mundo automotivo, ainda há muito a ser feito. Temos que continuar sonhando”, disse Vigna.
Vigna elogiou a iniciativa durante uma entrevista por videoconferência a uma conferência automotiva organizada pela revista italiana “Quattroruote”. Na ocasião, o executivo defendeu que as montadoras precisam assumir riscos e buscar ideias fora de seus próprios ambientes.
“Como europeu, obrigado por nos mostrar como, mesmo em um mundo antigo, ainda é possível inovar e ousar”, disse o presidente da Ferrari.
Tesla Roadster flutua na rampa
divulgação/Tesla
Elon Musk, presidente-executivo da fabricante, afirmou que a produção do Roadster começará em 2028.
A reação do mercado financeiro foi mista. As ações da Tesla subiram inicialmente, mas analistas avaliaram que a entrega do carro ainda está distante, após anos de tentativas frustradas de tirar o projeto do papel.
Carro voador
A Tesla apresentou em outubro a versão do Roadster, equipada com vários sistemas que são novidade no mercado. Um deles é um mecanismo de sucção com ventiladores. A tecnologia cria downforce para grudar o carro no chão, permitindo fazer curvas em alta velocidade.
Durante a demonstração oficial da Tesla, o veículo conseguiu escalar paredes e até ficar de cabeça para baixo.
Tesla Roadster na versão Rocket consegue flutuar com sistema de ar comprimido da SpaceX.
Divulgação / Tesla
O carro conta com mais de 1.300 cavalos de potência, somente com tração traseira. O modelo adota uma tecnologia da Tesla com um sistema de propulsores capaz de fazer a aceleração de 0 a 100 km/h em menos de um segundo.
Na versão Rocket, o veículo consegue descarregar dois tanques de ar comprimido para realizar manobras aéreas.
Na apresentação do modelo, o esportivo usou essa tecnologia para pular e dar uma pirueta por cima de todos os carros da Tesla.
Tesla Roadster faz de 0 a 100 km/h em menos de 1 segundo.
Divulgação / Tesla
Ferrari elétrica
A Ferrari ganhou as manchetes recentemente com um carro eletrificado que chamou a atenção não por voar, mas pelo seu design polêmico. As ações da empresa despencaram após a revelação do carro.
Apresentada ao público, a Ferrari Luce instantaneamente virou um meme na internet. O modelo traz um desenho arredondado e proporções que quase não lembram os tradicionais esportivos de luxo da marca italiana.
A fabricante diz que, mesmo assim, o interesse pela Ferrari Luce foi muito grande. O esportivo tem um custo de quase US$ 600 mil.
Ferrari também causou polêmica com seu carro elétrico, o Luce.
divulgação/Ferrari
O desenvolvimento do modelo contou com a participação de Jony Ive, ex-chefe de design da Apple, e da equipe de seu estúdio, a LoveFrom.
Para Vigna, a colaboração com profissionais de fora da indústria automotiva foi importante para chegar ao resultado desejado. O executivo afirmou que trabalhar apenas com a equipe interna não teria produzido as mesmas respostas.
“Se tivéssemos trabalhado sozinhos, não teríamos feito o que fizemos. Em outras palavras, enfrentamos toda uma série de questões e chegamos a algumas respostas estimuladas por pessoas que nos observavam de fora”, afirmou.
O executivo participou da entrevista por videoconferência, diretamente da Índia, onde a Ferrari organizou um evento para clientes. Ele também disse que o interesse pela marca italiana no país era forte.

De produtos baratos a líderes de tecnologia: como a China passou a superar gigantes ocidentais

À medida que as tecnologias se tornam mais presentes no cotidiano, formuladores de políticas públicas avaliam seus benefícios diante de preocupações com segurança de dados e influência estrangeira
Benjamin Bathke/DW
Não faz muito tempo, a GoPro era sinônimo de câmera de ação. Em seu auge, em 2015, a empresa americana reinava absoluta, com cerca de 6,6 milhões de unidades vendidas naquele ano e participação de mercado superior a 70%.
Hoje, a pioneira luta pela própria sobrevivência. O principal culpado? A concorrência chinesa.
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As maiores rivais da GoPro, DJI e Insta360, entraram no mercado de câmeras de ação em 2019 e 2021, respectivamente. Hoje, elas respondem por mais de 90% das vendas globais de câmeras inteligentes portáteis.
Alexander Hannemann, que usa regularmente câmeras de ação para filmar seus passeios demotocicleta, diz que trocou a GoPro pela Insta360 há cerca de dois anos.
Agora no g1
“A qualidade é muito melhor do que a da GoPro, mesmo quando estou acelerando e entrando em curvas a cerca de 80 quilômetros por hora”, disse à DW.
A GoPro escapou da falência em setembro, após baque por apostas malsucedidas em produtos e concorrência dos smartphones
Christian Ohde/imageBROKER/picture alliance via DW
A crescente liderança tecnológica da China
O caso da GoPro não é exceção. Desde aproximadamente 2010, muitas marcas chinesas não apenas alcançaram, mas superaram rivais ocidentais que antes dominavam o setor de tecnologia de consumo, de TVs inteligentes a aspiradores robóticos.
Já ficou para trás a época em que Made in China era sinônimo de produtos baratos e produzidos em massa.
“A China ainda fabrica produtos acessíveis”, afirma Chris Pereira, empreendedor canadense e autor com mais de 20 anos de experiência no país. “Mas os produtos também são de alta qualidade.”
Essa combinação fez com que bem mais da metade dos novos produtos globais de tecnologia para o consumidor passassem a vir de fornecedores chineses, acrescenta Pereira.
BYD, Xpeng e outras montadoras chinesas venderam quase dois terços de todos os carros elétricos comercializados no ano passado, superando empresas já estabelecidas, como a Tesla.
No segmento de aspiradores robóticos, marcas chinesas dominam o mercado global, enquanto a americana iRobot, antiga pioneira do setor, tem dificuldades para competir.
Mas por que as empresas chinesas superam cada vez mais seus rivais ocidentais?
Pereira, cuja consultoria iMpact ajuda empresas chinesas a ganhar espaço no exterior, atribui esse sucesso à intensa concorrência doméstica em cidades como Shenzhen, Hangzhou e Xangai, a cadeias de suprimentos altamente integradas e a uma cultura empresarial orientada para a ação, que permite às companhias inovar e responder rapidamente aos problemas.
Outros fatores importantes para a vantagem competitiva chinesa incluem automação industrial incomparável, uso estratégico de inteligência artificial na manufatura, agilidade regulatória e mão de obra relativamente barata.
Juntos, esses elementos resultam em custos de produção significativamente menores e ciclos de inovação muito mais rápidos do que os observados em outras economias.
Joey Cheng, fundador da Prolo Ring, empresa que fabrica anéis que permitem acesso a controles remotos e outros dispositivos usando apenas os polegares
Benjamin Bathke/DW
Joey Cheng, que se mudou para os Estados Unidos para fazer doutorado há mais de 20 anos, conhece tanto o lado do consumidor americano quanto o do produtor chinês.
Embora sua startup esteja sediada nos EUA, quase toda a produção é realizada em Shenzhen, onde é fabricada uma grande parcela dos equipamentos eletrônicos e dispositivos de consumo do mundo.
“A cadeia de suprimentos de Shenzhen é praticamente inevitável para reduzir custos e desenvolver produtos rapidamente”, diz Cheng. “Especialmente para uma startup, é preciso colocar o produto no mercado depressa ou você será atropelado pela concorrência.”
Persistem preocupações com privacidade e segurança
Embora os consumidores estejam aderindo em massa às empresas chinesas, algumas ressalvas permanecem.
Uma pesquisa recente mostrou que mais de 90% dos europeus não confiam seus dados a empresas chinesas de tecnologia, enquanto cerca de 80% desconfiam das americanas. Os alemães apresentaram o nível mais elevado de desconfiança.
Embora utilize câmeras da DJI e da Insta360 em suas viagens, a blogueira Nadine diz que prefere não ter dispositivos domésticos conectados de fabricantes asiáticos.”
“Meu aspirador robô é de uma empresa alemã justamente por isso: para que os dados permaneçam em conformidade com as regulamentações alemãs. Afinal, os fabricantes podem se conectar diretamente à câmera”, disse ela, referindo-se a casos de invasão de câmeras e sistemas de áudio envolvendo aspiradores robóticos.
A fabricante chinesa de óculos inteligentes Xreal entrou recentemente no mercado europeu por meio de varejistas, como a britânica Currys
Andy Wong/AP Photo/picture alliance via DW
Ainda assim, Pereira afirma que empresas chinesas em expansão internacional precisam pagar um “prêmio de confiança”.
“Esse déficit de confiança significa que elas precisam ser ainda mais competitivas em produto e preço para que o mercado as escolha”, afirma.
Segundo ele, essa distância pode ser reduzida por meio de uma presença física nos mercados estrangeiros, como a primeira fábrica europeia de carros de passeio da BYD, cuja inauguração é esperada para o fim deste ano na Hungria.
Empresas chinesas afirmam cumprir as regras de proteção de dados da União Europeia. No entanto, leis de segurança nacional tanto nos EUA quanto na China podem obrigar companhias a entregar dados ao governo, e autoridades alemãs observam que há supervisão limitada sobre possíveis transferências de dados de servidores europeus para outros países.
Além das preocupações com privacidade, empresas chinesas de tecnologia de consumo também vêm sendo alvo de escrutínio por suspeitas de espionagem e outros riscos, mais recentemente em relação a dispositivos conectados, como veículos elétricos.
Uma nova guerra comercial está a caminho?
Diante das preocupações de segurança, dos déficits comerciais e do domínio chinês em diversos setores, os Estados Unidos e vários outros países ocidentais impuseram tarifas, listas de restrições e exigências rigorosas a importações e empresas chinesas.
No fim de julho, o governo Trump proibiu a importação de robôs humanoides fabricados fora dos EUA.
Um representante da fabricante chinesa de robôs Primebot disse à DW que todas as empresas chinesas de tecnologia de consumo estão sentindo os efeitos dessas medidas.
“Talvez busquemos cooperação com uma empresa americana local. Outra solução possível é construir uma fábrica lá”, afirmou.
Países europeus e a própria União Europeia também avaliam a adoção de mais tarifas contra empresas chinesas.
Chris Pereira prevê que essas tarifas irão acelerar duas tendências entre as companhias chinesas: transferir mais produção para outros países e concentrar-se cada vez mais em desafiar marcas ocidentais de primeira linha com produtos premium.
“Autoridades e empresas chinesas reconhecem que a manufatura precisa ser localizada até certo ponto. Uma razão é amenizar as dificuldades de exportação; outra é gerar confiança local”, resume Pereira.
“A outra tendência é que, uma vez que as tarifas eliminam a vantagem de preço na base do mercado, a margem que sobra está no topo. Por isso, marcas chinesas competem cada vez mais diretamente com nomes ocidentais já consolidados, justamente onde a confiança é mais importante.”
As empresas ocidentais conseguem competir?
À medida que o domínio chinês continua crescendo, empresas ocidentais buscam formas de permanecer competitivas.
Kaz Merchant, que trabalha em uma companhia britânica de importação e exportação de equipamentos de tecnologia da informação, afirma que empresas menores, em particular, precisam encontrar nichos geográficos específicos.
“Elas precisam ter um diferencial próprio para determinado produto, algo que a China talvez não ofereça naquela região. Ou então precisam se associar a uma empresa chinesa”, diz.
Para Pereira, uma questão fundamental que a Europa precisa resolver é a velocidade de resposta dos órgãos reguladores.
“Os reguladores chineses dizem de forma muito clara e rápida o que é possível fazer. Essa velocidade ajuda as empresas a se aperfeiçoar e ter sucesso no exterior”, afirma.
“Se você esperar semanas por uma resposta, vai perder negócios.”

Por que ajuste fiscal do novo presidente do Chile leva a crise com desemprego recorde

O desemprego no Chile atingiu o nível recorde de 9,6%, o maior em mais de cinco anos
AFP via Getty Images
Falando para um grupo de empresários cristãos reunidos em um pequeno auditório, o ministro da Fazenda do Chile, Jaime Quiroz, pediu que eles evitassem o pessimismo. Para isso, ele usou citações da Bíblia e também alguns números.
A mensagem era dirigida àqueles que o conhecem há muitos anos. Quiroz desenvolveu toda a sua carreira profissional como empresário no setor privado.
“Não percam a calma, nem se desesperem”, declarou ele em Santiago no início de outubro, após a publicação de uma série de indicadores fracos sobre a economia chilena.
Agora no g1
Os investimentos produtivos, privados e públicos, apresentaram crescimento nulo no segundo trimestre deste ano, principalmente devido à queda da construção civil.
O desemprego atingiu o nível recorde de 9,6%, o maior em mais de cinco anos. E a demanda interna apresentou crescimento praticamente nulo.
O custo de vida no país aumentou em julho para 4,1%, com base nos últimos 12 meses. A alta foi impulsionada, em grande parte, pelo forte aumento do preço dos combustíveis. O Chile importa quase todo o petróleo que consome.
Já a mineração sofreu redução drástica. O país é o maior exportador de cobre do mundo.
Tudo isso ocorre no contexto de um plano de austeridade fiscal implementado pelo governo do presidente José Antonio Kast, de direita radical.
Ele chegou ao poder em março, com a promessa de reativar os investimentos e o emprego. Agora, ele enfrenta um nível de desaprovação de mais de 60%, segundo pesquisas locais.
A paralisação econômica ficou em evidência devido à queda do PIB chileno em 0,5%, no primeiro trimestre do ano, e de 0,2% no segundo, em comparação com os mesmos períodos do ano passado.
Esta é a maior retração da economia do Chile desde a pandemia de covid-19.
O primeiro semestre de 2026 registrou a maior queda da economia chilena desde a pandemia de covid-19
Bloomberg via Getty Images
O impacto dos preços dos combustíveis
Poucos dias depois do início da guerra no Irã, Kast assumiu a Presidência no Chile com sua própria motosserra, a fim de reduzir os gastos fiscais e levar adiante um plano de austeridade econômica que deveria impulsionar o crescimento da economia do país.
Mas o conflito no Oriente Médio fez o preço do barril de petróleo disparar.
Enquanto a maioria dos países procurava uma forma de controlar a situação, o governo chileno tomou a decisão de não intervir, deixando o custo dos combustíveis subir de acordo com o mercado.
Este episódio ficou conhecido como bencinazo (“gasolinaço”, em português), causando manifestações nas ruas e indignação entre muitos cidadãos chilenos.
Com a transferência do choque petrolífero para os consumidores, o preço dos combustíveis não afetou apenas o bolso das famílias mais vulneráveis e das pequenas empresas.
A alta também foi amplificada em efeito cascata e transmitida para o restante da economia, causando aumento da inflação.
O preço dos combustíveis no Chile disparou em 2026
Getty Images
O governo que havia acabado de tomar posse tomou esta decisão considerando que “o custo fiscal de compensar a alta dos preços era excessivo e ameaçava debilitar seus esforços para reduzir o déficit fiscal”, explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o principal economista para as Américas do centro de estudos Economist Intelligence Unit, Nicolás Saldías.
“O custo político para o governo foi muito elevado, pois a popularidade de Kast caiu rapidamente e não se recuperou”, explica ele.
Esta decisão “afetou a confiança dos consumidores”, segundo Joan Domene, economista-chefe para a América Latina da consultoria Oxford Economics.
O preço médio que os consumidores pagam pela gasolina na bomba, calculado com base na Região Metropolitana de Santiago (a mais povoada do país), aumentou em cerca de 30% desde os dias anteriores ao início da guerra no Irã até meados de outubro. Já o preço do diesel aumentou em mais de 40%.
Os especialistas concordam que, no próximo ano, poderá haver leve desaceleração dos preços globais da energia, embora marginal.
Esta projeção é atualizada constantemente. Mas, se este cenário se mantiver e não surgirem novos contratempos, é possível que surja “uma tendência para a recuperação da economia já no primeiro trimestre do ano que vem”, segundo Domene.
O preço dos combustíveis no Chile disparou em 2026
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A queda da produção mineral
A mineração, especialmente de cobre, é o principal produto de exportação do Chile e um dos setores mais importantes para o crescimento econômico do país.
Por isso, a queda da mineração em agosto foi tão negativa. O índice de redução foi de cerca de 17,4%, em termos anuais.
Esta queda levou a atividade mineradora chilena ao seu nível mais baixo das últimas três décadas.
O mês de agosto marcou o nível mínimo, mas a baixa produção de cobre vinha apresentando tendência negativa ao longo do ano. Acrescente-se a isso as interrupções operacionais nas minas e condições climáticas muito adversas, em julho e agosto.
No momento, as projeções indicam que a produção mineradora deverá aumentar no próximo ano, colaborando para a reativação econômica do país.
Mas uma das preocupações do setor é que a concentração de cobre nas rochas diminuiu, elevando os custos de produção e gerando incertezas.
A drástica queda da mineração em agosto levou o Banco Central chileno a reduzir as projeções de crescimento econômico deste ano, para o nível de 0,25% a 0,75%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) também reduziu sua estimativa para 0,6%.
Se as estimativas se concretizarem, o Chile será um dos países com menor crescimento da América Latina em 2026. O único país com prognóstico inferior na região é a Bolívia.
A percepção econômica dos consumidores chilenos se deteriorou, segundo o Índice de Percepção da Economia (Ipec) de setembro
Bloomberg via Getty Images
Austeridade fiscal
Parte do debate no Chile se concentra em saber se a paralisação econômica é transitória ou se irá se prolongar ao longo do tempo.
Desde que Kast assumiu o poder, um dos seus principais focos no setor econômico tem sido a austeridade fiscal.
Suas medidas incluíram o corte de 3% do orçamento de todos os ministérios, uma controversa redução ou fechamento de programas considerados “ineficientes” pelo governo e a redução dos investimentos públicos diretos.
Neste sentido, Nicolás Saldías destaca que as políticas fiscais do governo chileno “também estão reduzindo o crescimento econômico”.
O governo conseguiu reduzir o déficit, em parte, graças à redução dos gastos públicos, o que diminui a demanda da economia, segundo o economista.
Com a bandeira do ajuste fiscal nas mãos, o governo chileno apresentou a chamada “megarreforma”, um pacote de medidas propostas para o Congresso. Elas foram apresentadas como estímulo ao crescimento econômico e aos investimentos.
Basicamente, o pacote inclui uma reforma tributária que, entre outros pontos, reduz progressivamente os impostos para as empresas, de 27% para cerca de 23%, e garante invariabilidade tributária a longo prazo para os grandes investimentos.
O Congresso aprovou a megarreforma, que foi sancionada pelo presidente Kast no início de outubro, após árduos debates. A questão é se a redução de impostos corporativos e os outros incentivos para investimentos produzirão crescimento e empregos em níveis suficientes para compensar a queda da arrecadação fiscal.
Enquanto as medidas começam a ser implementadas e à luz dos indicadores existentes no momento, Joan Domene defende que o próximo ano deve trazer “uma reversão de muitos dos fatores causadores de incertezas”.
O economista para a América Latina da Bloomberg Intelligence, Felipe Hernández, é da mesma opinião.
Para ele, se as reformas forem implementadas e cumprirem efetivamente as previsões do governo, como esperam as empresas, “poderemos começar a observar efeitos positivos na economia no próximo ano”.
As previsões indicam melhoria da situação econômica chilena em 2027
AFP via Getty Images
Dificuldades para a população
Atualmente, o Congresso chileno está discutindo a Lei Orçamentária para 2027. Ela contempla um crescimento real dos gastos públicos de apenas 1,5%, um objetivo considerado austero em comparação com os governos anteriores.
A oposição vem questionando duramente este projeto. Ela denuncia que a proposta afeta dezenas de programas sociais que beneficiam pessoas vulneráveis, mas que o governo considera que não atingem os seus objetivos.
Em meio a esta situação, grande parte da população está frustrada com o desempenho econômico do país, segundo as pesquisas.
Com a alta da inflação e o desemprego em máximos históricos, muitos cidadãos enfrentam dificuldades na sua vida diária.
O consumo geral das famílias chilenas cresce lentamente e o Índice de Vendas de Supermercados fechou agosto em queda de 1,2% nos últimos 12 meses, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas.
Algumas semanas atrás, o governo anunciou um plano de emprego de cerca de US$ 1,3 trilhão (cerca de R$ 6,5 trilhões). O objetivo é criar mais de 100 mil postos de trabalho entre 2026 e 2027, acelerando obras públicas e oferecendo subsídios às empresas, para incentivar contratações.
Este tipo de plano não fazia parte da política de austeridade adotada pelo governo chileno, quando assumiu o poder em março. Mas, frente às circunstâncias, se o anúncio for cumprido, poderá dar oxigênio à economia do país.