Free flow: prazo para pagar pedágios atrasados sem multa está acabando; veja como regularizar

Pórtico do Free Flow no Rio Grande do Sul
Gustavo Mansur/Palácio Piratini
Os motoristas que passaram por pedágios eletrônicos, conhecidos como “free flow”, até 17 de outubro têm até 16 de novembro para pagar as tarifas em atraso sem receber multa.
Quem já pagou a multa e regularizou o pagamento do pedágio também pode solicitar o reembolso. (veja como mais abaixo)
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🔎 O free flow é um sistema de pedágio eletrônico sem cancelas que cobra a tarifa automaticamente, sem que o motorista precise parar ou reduzir a velocidade.
No fim de abril, o Ministério dos Transportes suspendeu as multas por falta de pagamento do free flow, para assegurar prazo adequado para a integração e o pleno funcionamento dos sistemas. Havia uma fragmentação dos canais de pagamento entre as concessionárias.
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A suspensão das multas durou 200 dias. Como o prazo regular para pagar o pedágio é de 30 dias, os motoristas que passaram pelos pórticos após 17 de outubro ainda estão dentro do prazo para quitar a tarifa antes de serem multados.
🚦 O não pagamento do pedágio é uma infração grave, com multa de R$ 195,23 e cinco pontos na CNH. Os motoristas que quitarem as tarifas até 16 de novembro também poderão ter retirados da CNH os pontos referentes às infrações abrangidas pela suspensão.
Como pagar o free flow
Para consultar as passagens pelo free flow, o motorista precisa:
Abrir o aplicativo CNH do Brasil;
Tocar na opção “Veículos”;
Escolher e tocar no veículo na lista exibida;
Tocar na opção “Pedágio eletrônico”.
Nessa área, é possível consultar as passagens registradas pelo free flow, acessar o canal de pagamento da concessionária e verificar se a tarifa foi paga.
Para quem utiliza tag, nada muda: a cobrança continua sendo feita automaticamente pela empresa contratada pelo motorista.
Também é possível usar o aplicativo para contestar uma cobrança caso identifique uma passagem que não foi realizada por seu veículo.
As passagens ficam registradas no aplicativo por até cinco anos. O motorista tem até 30 dias após receber a notificação da passagem pelo pórtico para quitar o pedágio.
Apenas o proprietário do veículo pode consultar as notificações, os registros das passagens e os valores cobrados pelo pedágio eletrônico. Diferentemente de uma multa de trânsito, a cobrança do pedágio não pode ser transferida para outro motorista.
Como pedir o reembolso de uma multa já paga
Motoristas que pagaram multas antes ou durante o período de suspensão podem solicitar o reembolso pelo portal gov.br.
Veja o passo a passo:
Acesse o site da ANTT:
Clique ou toque nas três linhas que ficam no canto superior esquerdo;
Selecione “Multas e Serviços” e depois clique ou toque em “Serviços”;
Clique ou toque em “Requerimento para restituição de Multas e Taxas”;
Preencha o requerimento;
Acesse o site gov.br para protocolar o pedido de reembolso preenchido;
Clique ou toque em “Iniciar” e faça o login com a conta gov.br;
Preencha os campos solicitados;
No campo “Tipo de solicitação”, selecione “Protocolar Documentos junto à ANTT”;
Siga as orientações na tela para anexar o documento e enviar o pedido.
O que é o pedágio eletrônico (free flow)?
Pórtico free flow
divulgação/Concessionária Novo Litoral
O pedágio eletrônico, ou free flow (“fluxo livre”, em inglês), é um sistema de cobrança que dispensa cabines, cancelas e o uso obrigatório de tags pelos motoristas.
Câmeras e sensores identificam os veículos durante a passagem, sem que os motoristas precisem parar ou reduzir a velocidade. Em algumas rodovias, a tecnologia também permite calcular a tarifa conforme a distância percorrida.
O pedágio eletrônico já é utilizado em mais de 20 países, entre eles Noruega, Portugal, Estados Unidos, Itália, China e Chile — que está entre os pioneiros na adoção da tecnologia na América Latina.
O pedágio free flow aplica multa?
Não. O sistema free flow apenas identifica o veículo e registra a cobrança da tarifa. O motorista não é multado por passar pelo pórtico, mas pode ser penalizado se não pagar o pedágio dentro do prazo.
A falta de pagamento é considerada evasão de pedágio, uma infração grave que prevê multa de R$ 195,23 e cinco pontos na CNH.
Como acontece a cobrança do pedágio?
O free flow utiliza tanto as tags já conhecidas pelos motoristas brasileiros quanto câmeras e sensores que permitem identificar veículos sem esse dispositivo.
As câmeras e os sensores ficam instalados em pórticos sobre as rodovias. Eles identificam os veículos por meio das tags ou da leitura das placas, permitindo registrar a cobrança do pedágio.
Algumas câmeras registram imagens em 3D para identificar o tipo de veículo, a quantidade de eixos e quais estão suspensos, ou seja, sem contato com o asfalto. Essas informações ajudam a calcular o valor correto do pedágio, especialmente para caminhões.
O sistema também utiliza luzes infravermelhas para identificar os veículos mesmo em condições de baixa visibilidade, como neblina ou fumaça.

'Não tinha como sobreviver': seca mata animais e deixa famílias sem renda em Sergipe

‘Não tinha como sobreviver’: seca mata animais e deixa famílias sem renda em Sergipe
A seca levou 11 municípios de Sergipe à situação de emergência. Sem pasto e água, muitos animais estão morrendo.
Para os produtores de leite, o prejuízo ocorre em cadeia. O animal perde o peso, produz menos leite e, em muitos casos, não resiste.
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Em Poço Redondo, a estiagem secou riachos e açudes. O produtor Cleiton Feitosa perdeu a lavoura de milho, e os animais ficaram sem ter o que comer.
Ao mesmo tempo, os custos da ração aumentaram. Sem condições de alimentar os animais, o criador decidiu vender 16 das 20 vacas para não ver o rebanho morrer.
A situação se repetiu com Genildo dos Santos, que precisou vender todo o rebanho. As 26 vacas de leite garantiam o sustento da família, que agora sobrevive apenas com o dinheiro de um benefício social.
“Não tinha como a gente sobreviver. [Não tinha dinheiro] nem pra a gente, nem pra elas. Aí tivemos que vender. A gente ficou com o coração magoado. Ainda hoje estamos”, disse.
José Valmir Gomes perdeu quatro animais. Os que restam estão magros e enfraquecem pouco a pouco.
“Daqui ela ia para casa. Aí aqui ela não aguentou, se deitou e não levantou mais. Porque além de fraca, ela tava prenha. Aqui o restinho da cria. Não dá nem pra saber se era macho ou era fêmea”, diz o criador ao mexer nos ossos do feto largados no chão.
A palma é o único alimento que restou para o rebanho. Mas a quantidade disponível só dá para alimentar as vacas por mais um mês.
“É pedir sorte a Deus que chova e as coisas voltem ao normal como era”, afirma Gomes.
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Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões de pessoas sem renda suficiente para manter alimentação saudável

Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões que não conseguem pagar por alimentação saudável.
Getty Images
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu o terceiro mandato com o “compromisso número 1” de tirar o Brasil do Mapa da Fome, pela segunda vez. A promessa foi cumprida em julho do ano passado, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou que o país havia deixado o indicador.
Mas o desafio que fica para o seu quarto mandato, não é pequeno: 44,8 milhões de brasileiros — cerca de um quinto da população — ainda não têm renda suficiente para manter uma alimentação saudável, composta por cereais, frutas, verduras, leguminosas e fontes de proteína, nas quantidades recomendadas pela ONU. (veja detalhes abaixo)
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O dado consta do relatório “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi)”, da agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), publicado em julho deste ano, com dados até 2025.
Pessoas que não conseguem pagar por uma alimentação saudável.
Arte/g1
A pesquisa também aponta que 20,3 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave entre 2023 e 2025, ou seja, não tiveram acesso regular a alimentos nutritivos em quantidade suficiente para uma vida saudável. Entre 2021 e 2023, esse número era maior: 39,7 milhões.
Onde estão essas pessoas? Nos domicílios chefiados por mulheres. No recorte racial, nos chefiados por mulheres negras. No regional, no Norte e no Nordeste.
Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, relaciona esse cenário às condições precárias de trabalho enfrentadas por essas populações, como baixos salários, informalidade e instabilidade de renda.
“A trabalhadora doméstica, por exemplo, tem muita descontinuidade na renda. Por isso, sua família fica mais sujeita à insegurança alimentar”, exemplifica.
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Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão consultivo da Presidência da República, acrescenta que as políticas públicas ainda têm dificuldade para alcançar e atender de forma contínua pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.
Segundo ela, o problema nem sempre é a completa ausência de contato com o Estado, mas a falta de continuidade no atendimento e de integração entre os serviços públicos.
“Uma pessoa em situação de rua, por exemplo, chega a um abrigo, a um centro de saúde. Em algum lugar, ela chega. O problema é que ela chega e vai embora. Ninguém a acolhe no sentido de dizer: ‘Fique aqui, você não precisa só de um curativo’.”
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Políticas para não voltar atrás
Questionados sobre o que o próximo governo deve fazer para reduzir a vulnerabilidade alimentar, os especialistas são unânimes: o Brasil não pode retroceder nas políticas de combate à fome. Isso porque o país entrou e saiu do Mapa em um intervalo relativamente curto de tempo.
A primeira saída aconteceu em 2014, mas o Brasil voltou ao Mapa da Fome em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), em um contexto de avanço da pobreza, agravado pela pandemia de Covid-19 e por um enfraquecimento de políticas de apoio à produção e distribuição de alimentos.
Naquele ano, o relatório da ONU mostrou que 61,3 milhões de brasileiros enfrentavam insegurança alimentar. Além disso, 4,1% da população vivia em situação de subnutrição, o equivalente a 8,6 milhões de pessoas.
🔎 O indicador de subnutrição é conhecido como “Mapa da Fome” e mede a parcela de pessoas cujo consumo habitual de calorias é insuficiente para viver.
Três anos depois, em julho de 2025, o relatório mostrou que a parcela de brasileiros em situação de subnutrição ficou abaixo de 2,5%, confirmando a saída do Mapa da Fome.
Segundo especialistas, a melhora dos indicadores foi impulsionada por políticas de recuperação da renda e ampliação do acesso a alimentos. Entre elas, destacam-se a retomada dos reajustes do salário mínimo acima da inflação e a recuperação de programas de segurança alimentar, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
➡️ O PAA atua em duas frentes: o poder público compra alimentos de agricultores familiares, o que gera renda no campo, e os destina a pessoas em situação de vulnerabilidade social, escolas e hospitais.
Execução do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Arte/g1
Avançar no combate à insegurança alimentar exige garantir que as políticas públicas alcancem as populações mais vulneráveis e ampliar o acesso a alimentos saudáveis. Para isso, é preciso elevar a renda, apoiar a produção agrícola e assegurar recursos contínuos aos programas de segurança alimentar.
“Embora a Constituição brasileira garanta o direito à alimentação, as políticas de segurança alimentar no Brasil não são políticas de Estado, como são as de saúde e educação, em que uma percentagem do orçamento é garantida”, destaca Graziano.
O que é alimentação saudável para a ONU?
Para estimar quantas pessoas não conseguem pagar por uma alimentação saudável, a ONU compara o custo de uma cesta variada de alimentos com a renda que sobra após o pagamento de despesas básicas, como moradia, vestuário e transporte.
Essa cesta reúne 11 alimentos capazes de fornecer, juntos, cerca de 2.330 calorias diárias por pessoa. A ONU seleciona os produtos mais baratos disponíveis em cada país que atendam às recomendações de uma alimentação equilibrada.
Os alimentos são divididos em seis grupos: cereais, raízes e tubérculos; carnes, peixes, ovos e laticínios; leguminosas, castanhas e sementes; óleos e gorduras; frutas; e verduras e legumes.
O g1 perguntou à FAO quais alimentos foram usados no cálculo do custo de uma dieta saudável no Brasil, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
E qual é a situação do Brasil?
O relatório da ONU aponta que o custo de uma alimentação saudável no país vem subindo ano a ano. Em 2025, chegou a 4,89 dólares internacionais por pessoa, por dia, ante 3,97 dólares internacionais em 2021.
Custo diário de uma alimentação saudável por pessoa.
Arte/g1
💵 O dólar internacional não é uma moeda que pode ser comprada ou trocada, mas uma medida usada para comparar o poder de compra entre países. O cálculo considera quantos reais são necessários para comprar, no Brasil, o equivalente ao que um dólar compra nos EUA. Como essa comparação leva em conta os preços dos produtos, e não a taxa de câmbio, não é possível converter o valor em reais pela cotação do dólar.
Já o número de pessoas que não consegue pagar por uma alimentação saudável atingiu o pico em 2021, no auge da pandemia, e vem recuando desde então. Apesar da queda, especialistas avaliam que o número ainda é elevado, pois representa cerca de um quinto da população.
Para Graziano, a valorização do salário mínimo nos últimos anos ainda não foi suficiente para garantir que as famílias tenham acesso a uma alimentação saudável.
“O custo de uma cesta básica saudável no Brasil hoje seria de R$ 240 a R$ 250 por mês por pessoa. Para uma família de quatro pessoas, isso representa cerca de R$ 1 mil, quase todo o salário mínimo (de R$ 1.621). Só pode pagar quem ganha mais que o mínimo”, diz Graziano.
Um agravante é que os reajustes salariais não conseguiram acompanhar a alta dos preços dos alimentos, o que reduziu o poder de compra da população. Segundo Graziano, é preciso considerar ainda que os preços dos alimentos frescos sobem mais rápido que dos ultraprocessados.
“A salsicha sobe menos do que o preço da alcatra, da picanha. Varia menos. Alimentos frescos e carnes dependem de transporte refrigerado e armazenagem especial, o que encarece o produto final”, diz.
Segundo Zimmermann, da Rede Penssan, os ultraprocessados custam menos porque utilizam matérias-primas mais baratas e amplamente produzidas no Brasil, como açúcar, gorduras e derivados de soja.
“Se a gente pensar nos produtos pré-prontos, nas massas, nos biscoitos, chocolates, muitos têm soja na composição. Isso acontece porque a gente produz muita soja, então o custo fica muito mais barato que outros componentes”, diz.
Variação da inflação dos alimentos consumidos em casa, em janeiro de cada ano, e reajustes reais do salário mínimo.
Arte/g1
Os desafios para reduzir preços
Zimmermann destaca que os preços das hortaliças oscilam mais, sobretudo quando comparados aos dos alimentos ultraprocessados.
Como esses cultivos têm ciclo curto de plantio e colheita, eventos climáticos, como secas e enchentes, podem destruir lavouras inteiras, reduzindo a oferta e encarecendo os produtos em poucos dias. Segundo ela, esse problema se agravou nos últimos anos com o aumento dos eventos climáticos extremos.
A especialista destaca que as oscilações do mercado internacional e as tensões geopolíticas também afetam a produção de hortaliças. Combustíveis e fertilizantes importados, por exemplo, estão sujeitos às variações de preços no exterior.
Nos últimos anos, conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia encareceram esses insumos, elevando os custos de produção e transporte, que acabam repercutindo no preço dos alimentos.
Para Graziano, outro entrave é a distribuição desigual dos investimentos em pesquisa agropecuária no Brasil. Segundo ele, os recursos são “fortemente enviesados” para produtos de exportação, como soja, milho e carne bovina, enquanto frutas, verduras, legumes e alimentos básicos, como arroz e feijão, recebem menos atenção.
“A Embrapa Hortaliças, por exemplo, tem desenvolvido novas variedades, assim como a Embrapa Feijão. Mas esses avanços ainda são pequenos quando comparados ao progresso de outros segmentos, como o da soja”, diz Graziano.
🌱 Na prática, a pesquisa pode ajudar a aumentar a produção de hortaliças com o desenvolvimento de variedades mais resistentes à seca e ao calor, além de técnicas de cultivo que reduzam as perdas provocadas por eventos climáticos extremos.
Diversidade e produção local
Elisabetta Recine, presidente do Consea, destaca que até mesmo polos de produção de frutas no Brasil são voltados ao mercado externo. É o caso do Vale do São Francisco (PE), que produz manga e uva principalmente para exportar à Europa e aos EUA.
“Esses polos dão preferência para a produção de frutas que os outros países estão querendo ao invés de olhar para a região e pensar: ‘bom, quais são as frutas tradicionais daqui? As frutas nativas ou que têm uma relação histórica ou social com o local?'”, diz.
“Não faz sentido, por exemplo, você produzir maçã em Santa Catarina, e levá-la para Manaus. Não quer dizer que as pessoas não têm direito de comer maçã. Quer dizer que a gente reduziu tanto a nossa diversidade que depende de circuitos longos. E isso impacta qualidade e preço do produto. Porque tem custo de transporte, de armazenagem e refrigeração.”
Uma das saídas seria estimular a produção local e a venda direta ao consumidor, com medidas como a criação de feiras livres e outros pontos de venda, além da isenção de taxas para feirantes.
Outra ação importante é reforçar os investimentos na agricultura familiar, responsável por 60% da produção de hortaliças. Isso pode ser feito por meio da ampliação de programas já existentes, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Desertos e pântanos alimentares
Encurtar o caminho entre a produção e o consumo também é importante para ampliar a oferta de alimentos frescos em desertos e pântanos alimentares no Brasil. Segundo Recine, essas barreiras de acesso ajudam a explicar a dificuldade de pagar por uma alimentação saudável.
Desertos alimentares são regiões onde há pouca ou nenhuma oferta de alimentos frescos e saudáveis, o que obriga moradores a percorrer longas distâncias para comprá-los.
Já nos pântanos alimentares, há mais estabelecimentos que vendem ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos e biscoitos, do que locais que oferecem alimentos saudáveis.
Dados do Ministério do Desenvolvimento Social mostram que cerca de 25 milhões de brasileiros viviam em desertos alimentares entre 2023 e 2024. Desse total, 6,7 milhões eram de baixa renda ou viviam em situação de pobreza.
Já os pântanos alimentares abrigavam cerca de 15 milhões de pessoas, das quais aproximadamente 104 mil viviam em favelas e comunidades urbanas.
“As periferias urbanas são extremamente desabastecidas. Se você entra num mercadinho, você vai encontrar os produtos básicos secos — como arroz e feijão — porque eles têm um tempo de prateleira grande. De fresco, encontra uma banana, uma batata, uma cebola”, ressalta.
Graziano afirma que, nas periferias das grandes cidades brasileiras, é fácil encontrar barracas de cachorro-quente, mas difícil comprar uma maçã.
“Somado a isso, a rotina de trabalho e a falta de tempo reduziram o preparo doméstico de alimentos frescos de cozimento longo — como feijão e mandioca —, empurrando as famílias para o consumo de ultraprocessado.”
Zimmermann conta que, em maio de 2026, o Brasil propôs à Organização Mundial da Saúde (OMS) a criação de regras globais para a venda e a publicidade de ultraprocessados, com foco na proteção de crianças e adolescentes.
Na ocasião, o governo anunciou que buscaria apoio de outros países para levar a proposta à votação em 2027.
Integrar serviços para combater a fome
Para alcançar os 20,3 milhões de brasileiros que ainda enfrentam insegurança alimentar, Elisabetta Recine afirma que o principal desafio é fazer com que as políticas públicas cheguem, de fato, a essas pessoas.
Segundo ela, parte dessa população vive em situação de extrema vulnerabilidade e enfrenta dificuldades para acessar até mesmo o Bolsa Família.
Uma forma de alcançar esse grupo é aproveitar o contato que essas pessoas já têm com os serviços públicos. Recine explica que mesmo quem vive nas ruas passa, em algum momento, por uma unidade de saúde, uma cozinha solidária ou uma equipe de assistência social.
O desafio é fazer com que esse atendimento pontual seja o início de um acompanhamento contínuo. É para enfrentar esse problema que foi criado, por exemplo, o Protocolo Brasil Sem Fome, que está sendo implantado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS).
Enquanto o Plano Brasil Sem Fome reuniu políticas e estratégias que ajudaram a tirar o Brasil do Mapa da Fome, o protocolo representa uma segunda etapa, voltada a alcançar as pessoas em situação de maior vulnerabilidade.
Para isso, o governo identificou municípios com os piores indicadores de insegurança alimentar e nutricional e busca integrar, nesses territórios, três redes de atendimento: saúde, assistência social e segurança alimentar.
A ideia é evitar que o atendimento termine no primeiro serviço procurado. Se uma pessoa chega a uma unidade de saúde, por exemplo, ela pode ter outras necessidades identificadas e ser encaminhada para serviços de assistência social ou de segurança alimentar. O mesmo deve ocorrer quando a porta de entrada é uma cozinha solidária ou um serviço da assistência social.
Na prática, o objetivo é criar uma rede de proteção para que a pessoa não receba apenas um atendimento pontual, mas continue sendo acompanhada pelos serviços públicos e tenha acesso aos programas de que precisa.
Silvia Zimmermann acrescenta que essa integração deve incluir a busca ativa — ou seja, as equipes públicas precisam ir atrás das famílias, em vez de esperar que elas procurem ajuda.
Segundo ela, cruzar dados dos serviços de saúde, assistência social e segurança alimentar com os do Cadastro Único — base do governo que reúne informações sobre famílias de baixa renda e é usada para acessar diversos programas sociais — ajuda a localizar essas pessoas e entender o que dificulta seu acesso às políticas públicas.
O trabalho inclui orientar as famílias e, quando necessário, ajudá-las a se inscrever ou atualizar seus dados no cadastro. Assim, o contato com um serviço pode abrir caminho para uma rede de apoio capaz de enfrentar as diferentes causas da insegurança alimentar.

Financiamento imobiliário mais caro? Bradesco, Itaú e Santander elevam taxas; Caixa não se manifesta

Bradesco, Itaú e Santander
Montagem com imagens de divulgação e da Reuters
Quem planeja financiar a compra de um imóvel vai encontrar juros mais altos em alguns dos maiores bancos privados do país. Nos últimos dias, Bradesco, Itaú e Santander anunciaram aumentos nas taxas de financiamento imobiliário.
Juntos, os três bancos responderam por cerca de 55% do valor financiado para aquisição de imóveis entre janeiro e setembro deste ano, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
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Em notas enviadas ao g1, as instituições atribuem o movimento, de forma geral, à alta dos juros futuros (leia abaixo). O rendimento dos títulos brasileiros de cinco anos, por exemplo, passou de 12,87% para 15,39% após as eleições, alta superior a 2,5 pontos percentuais.
🔎 Os juros futuros refletem as expectativas do mercado para as taxas de juros nos próximos meses ou anos. Eles oscilam conforme mudam as projeções para a inflação, as contas públicas e a atividade econômica. Por isso, podem subir mesmo quando a Selic está em queda.
Agora no g1
A Caixa Econômica Federal, que lidera com folga as contratações para compra de imóveis, não informou se também pretende reajustar suas taxas. Procurado pelo g1, o banco afirmou que está em período de silêncio antes da divulgação do balanço e, por isso, não se manifestará sobre o tema.
Veja abaixo como ficaram as taxas em cada banco, o que está por trás dos reajustes e os cuidados antes de fechar um financiamento:
Bradesco
Itaú Unibanco
Santander
O que explica o movimento
Cuidados antes de fechar o financiamento
Bradesco
Ilustração de logo do Bradesco.
Reuters
O Bradesco não informou a variação das taxas. No entanto, o g1 teve acesso a um comunicado enviado a parceiros que detalha os novos percentuais.
A taxa principal passou de 11,99% + TR (Taxa Referencial) para 15% + TR ao ano. Para clientes Private, subiu de 11,70% + TR para 13,60% + TR. A nova tabela entrou em vigor na segunda-feira (26).
Em nota, o banco afirmou que atualizou as taxas máximas de suas linhas de crédito imobiliário “em função do aumento verificado nas taxas de juros do mercado”.
“As condições finais de financiamento imobiliário são negociadas com análise individualizada das propostas, considerando o perfil do cliente e as características da operação”, acrescentou.
O Bradesco também afirmou que “segue valorizando o setor e oferecendo condições competitivas para seus clientes”.
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Itaú Unibanco
Fachada de unidade do Itaú em São Paulo
Reuters/Amanda Perobelli
Em nota ao g1, o Itaú informou que reajustou para 12,95% ao ano a taxa mínima do financiamento imobiliário a partir desta quinta-feira (29).
Um comunicado enviado pelo banco a parceiros detalha que as novas condições variam conforme o perfil do cliente. No segmento Private, a taxa parte de 12,89% + TR. Para não correntistas, chega a 14,85% + TR.
O Itaú atribuiu o reajuste às recentes oscilações dos juros futuros. Segundo o banco, como o financiamento imobiliário depende de recursos captados no mercado, essas variações afetam o custo das operações.
“O ajuste busca refletir as condições atuais de captação e preservar a sustentabilidade das operações”, afirmou.
A instituição acrescentou que as condições dependem do perfil e do relacionamento de cada cliente e reafirmou seu “compromisso com a oferta de taxas competitivas e condições de financiamento atrativas e adequadas às necessidades dos clientes”.
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Santander
Fachada de agência do Santander
Divulgação
No Santander, era possível encontrar financiamento com taxa de 11,69% ao ano + TR. A partir desta sexta-feira (30), as operações passam a ser ofertadas com taxas a partir de 12,49% + TR, segundo o banco.
Em nota, o Santander afirmou que “acompanha regularmente os indicadores econômicos” e as condições do mercado imobiliário, além de avaliar “continuamente as condições de seus produtos de crédito”.
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O que explica o movimento
A advogada Daniele Akamine, especialista em mercado imobiliário, afirma que os aumentos “surpreendem”. A Selic, taxa básica de juros do país, está em trajetória de queda e teve, em setembro, sua quinta redução consecutiva.
“Mas faz sentido do ponto de vista do banco. O financiamento imobiliário é um crédito de longo prazo, e a instituição se protege com base nos juros futuros, que subiram após a eleição”, diz.
Para Akamine, o que mais chama atenção é o tamanho do reajuste, que, segundo ela, ficou acima de 3% ao ano para a maioria dos clientes.
“Isso pode encarecer bastante a parcela, reduzir o valor que a família consegue financiar e diminuir o poder de compra”, afirma.
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Cuidados antes de fechar o financiamento
Diante da mudança nas taxas, a especialista recomenda comparar as condições oferecidas pelos bancos antes de fechar o financiamento. Ela lembra que a Caixa, por exemplo, não anunciou aumento nas taxas.
“Neste momento, o principal é comparar simulações entre bancos. Outro ponto essencial é olhar o Custo Efetivo Total [CET], e não apenas a taxa de juros. Duas propostas com juros parecidos podem ter custos finais muito diferentes”, explica.
🔎 O CET representa o custo total do financiamento. Ele reúne os juros, a correção pela TR, os seguros obrigatórios, as tarifas e os demais encargos da operação.
Segundo a especialista, também é preciso verificar qual índice será usado para atualizar o contrato durante o financiamento.
“A maioria dos financiamentos imobiliários no Brasil é corrigida pela TR. Existem linhas atreladas ao IPCA, que costumam ter uma taxa de juros menor e, aparentemente, são uma opção mais atraente”, diz.
Akamine acrescenta que outro ponto de comparação é o sistema de amortização — ou seja, a forma como o saldo devedor será reduzido ao longo do contrato.
“No SAC [Sistema de Amortização Constante], a primeira parcela é maior e diminui ao longo do tempo. No Price, a parcela é fixa, mas o total pago ao final costuma ser maior, quando as duas opções são comparadas no mesmo prazo”, conclui.
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Faturamento das 10 maiores empresas do agro cresce 11% e chega a R$ 1,24 trilhão; veja ranking

Série especial do JN mostra como o agronegócio brasileiro está enfrentando as mudanças climáticas
Jornal Nacional/ Reprodução
As 10 maiores empresas do agronegócio brasileiro somaram R$ 1,24 trilhão em receita líquida em 2025, um crescimento de 11,08% em relação ao levantamento anterior.
A lista é liderada pela JBS, gigante do setor de carnes, que faturou R$ 480,58 bilhões no período.
O ranking faz parte do levantamento Agro100, publicado pela revista Forbes Brasil.
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Na segunda posição aparece a MBRF, com receita de R$ 163,96 bilhões, seguida pela Cargill Alimentos, que somou R$ 115,29 bilhões.
Juntas, as dez primeiras colocadas representam uma parcela expressiva do agronegócio brasileiro. Considerando as 100 maiores companhias, o faturamento conjunto chegou a R$ 2,1 trilhões em 2025, alta de 13,45% na comparação com o ano anterior.
Veja lista:
Maiores empresas do agronegócio
g1
Comércio de grãos e carnes têm os maiores avanços
O crescimento do agronegócio foi puxado principalmente pelas empresas que comercializam produtos agrícolas e pelas ligadas à produção de carnes. Dos sete segmentos acompanhados pelo levantamento, seis tiveram aumento de receita superior à inflação em 2025.
O destaque foi o grupo de comércio e tradings, que registrou expansão de 23,51%. São empresas que compram, vendem e exportam produtos como soja e milho, conectando produtores brasileiros a compradores de outros países.
Na sequência aparece o setor de proteína animal, com alta de 16,37%. O grupo inclui frigoríficos e companhias de processamento de carnes, como JBS, MBRF e Minerva. A agroenergia também teve desempenho positivo, com crescimento de 13,37%, impulsionada por atividades como a produção de etanol e outros biocombustíveis.
Já as empresas de alimentos e bebidas registraram aumento de 7,2% na receita.
Celulose teve desempenho mais fraco entre os setores
A indústria de celulose foi o único dos sete segmentos que não conseguiu registrar crescimento acima da inflação em 2025.
O resultado foi afetado pela desvalorização da matéria-prima no mercado internacional. No começo do ano, o preço da celulose chegou a ficar abaixo de US$ 500 por tonelada, nível que pressiona a rentabilidade das empresas do setor.
Entre as companhias desse segmento está a Suzano, que ocupa a décima posição no ranking das maiores empresas do agronegócio brasileiro.