BC paraguaio diz que devolveu dinheiro de 1,2 milhão de correntistas do banco Ueno

Crise financeira no Paraguai afeta milhares de brasileiros que vivem no país e que trabalham em regiões de fronteira
O Banco Central do Paraguai (BCP) declarou neste sábado (7) que 1.196.000 correntistas do Banco Ueno tiveram seu dinheiro devolvido. Os fundos haviam sido bloqueados após o fechamento repentino do banco.
O balanço foi apresentado durante uma coletiva de imprensa no Palácio López, após uma reunião de emergência entre o presidente interino Pedro Alliana, ministros da Economia e Finanças e a diretoria do BCP. No total, foi devolvido o equivalente a cerca de R$ 880 milhões.
O ministro da Economia e Finanças, Óscar Lovera, afirmou que o governo mobilizou todas as frentes para dar uma resposta rápida à crise. “Fomos instruídos a fazer o máximo esforço para tranquilizar os poupadores afetados”, declarou.
O dinheiro saiu do Fundo de Garantia de Depósitos, uma reserva estratégica mantida pelo Banco Central justamente para resguardar os poupadores em cenários de quebra ou intervenção bancária.
O presidente interino do BCP, Pedro Acosta, ressaltou que o BCP segue analisando alternativas para auxiliar os depositantes cujos saldos ultrapassavam o limite coberto pela garantia.
A coletiva também detalhou o impacto da medida sobre os beneficiários do Instituto de Seguridade Social (IPS), principal organismo de previdência e seguridade social no Paraguai. Segundo o presidente do órgão, Derlis León, o próximo pagamento mensal dos pensionistas será depositado normalmente no dia 17 de novembro.
Cerca de 32.000 aposentados (de um total de 90.000) recebiam seus benefícios por meio do Banco Ueno. León garantiu que os trâmites finais para transferir essas contas para outros oito bancos locais estão sendo concluídos para evitar prejuízos aos beneficiários.
Entenda a crise financeira do Paraguai que levou ao impeachment
O Ueno Bank, maior banco digital do Paraguai e principal emissor de cartões de crédito do país, enfrenta problemas financeiros e é alvo de investigações.
A instituição tem cerca de 3 milhões de clientes e passou por uma intervenção do Banco Central paraguaio, que interrompeu o acesso dos correntistas ao dinheiro depositado.
De escândalo bancário ao impeachment: veja a cronologia da crise no Paraguai que ameaça derrubar o presidente
A situação se agravou depois que ajustes nos balanços do banco fizeram seu índice de solvência — indicador que mede a capacidade de uma instituição financeira de cumprir suas obrigações — cair para menos da metade do mínimo exigido pela regulamentação.
Diante do risco, o Banco Central iniciou um procedimento para proteger os depositantes e evitar que os problemas atingissem outras instituições financeiras.
O Ministério Público também pediu a abertura de uma investigação criminal e determinou a prisão de oito pessoas ligadas ao banco. Ao todo, 27 pessoas são investigadas por suspeita de fraude e estelionato.
Nos meses anteriores à crise, o Ueno já estava sob maior fiscalização.
Os órgãos reguladores investigavam se a instituição havia financiado indiretamente a venda de uma carteira de ativos de uma empresa ligada ao Grupo Vázquez, seu controlador. O banco negava ter participado da operação.
Paraguai: entenda a crise que colocou banco sob suspeita e levou à renúncia do presidente do BC
O caso também ganhou dimensão política.
Carlos Carvallo, que presidia o Banco Central e havia comandado o próprio Ueno até agosto de 2023, renunciou ao cargo na terça-feira (3), em meio às críticas sobre a fiscalização da instituição.
O então presidente do país, Santiago Peña, sofreu impeachment e foi destituído da presidência na tarde de sexta-feira (6), e logo depois teve sua prisão decretada por envolvimento no escândalo do banco.
A crise provocou protestos de clientes que foram às agências e encontraram as portas fechadas. Entre os afetados estão aposentados que recebem benefícios do governo por meio do banco.
O Ueno administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores do Instituto de Previsão Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões no país.
Nos dias anteriores à sua queda, quando ainda tentava conter a crise, Peña havia anunciado um acordo com o Congresso para acelerar a votação do uso do Fundo de Garantia de Depósitos, Peña anunciou um acordo com lideranças do Congresso para acelerar a votação de um projeto que autorizasse o uso do Fundo de Garantia de Depósitos para ressarcir os clientes.
O mecanismo funciona como uma proteção para quem mantém dinheiro em instituições financeiras: em determinadas situações, o fundo é utilizado para devolver os valores depositados, respeitando os limites previstos em lei.
O ex-presidente também afirmou que a medida deveria assegurar a devolução de recursos públicos mantidos pelo IPS e por outros fundos de previdência.
Apesar da gravidade do caso, o Banco Central e o governo mantêm a avaliação de que a quebra do Ueno foi um problema isolado e não representa um risco sistêmico para a economia paraguaia.
Em mensagem de renúncia, Peña pede desculpas e diz que ‘nenhuma pessoa está acima do Paraguai’; leia a íntegra
O Ueno Bank é o principal emissor de cartões de crédito do Paraguai
Jornal Nacional/ Reprodução

'Imposto do pecado' não é invenção brasileira: álcool e tabaco são taxados nos 38 países da OCDE, grupo de nações ricas

O que é o ‘imposto do pecado’ e como ele vai funcionar?
O anúncio de que o imposto seletivo – conhecido como “imposto do pecado” – passará a ser cobrado a partir de fevereiro do ano que vem gerou forte repercussão no setor produtivo e nas redes sociais.
🔎 Criado pela reforma tributária sobre o consumo, o “imposto do pecado” começará a ser cobrado em fevereiro e tem o objetivo de encarecer produtos ou atividades que causam danos à saúde ou ao meio ambiente nos próximos anos.
‘Imposto do pecado’: o que entra? Produtos vão ficar mais caros? Veja perguntas e respostas
No próximo ano, o governo diz que o objetivo é manter a atual carga tributária de cada produto, ou seja, sem aumento de imposto. Mas alguns setores afetados têm se queixado de que a tributação será maior.
🔎No Brasil, a lista inclui bebidas alcoólicas, refrigerantes e cigarros. O novo imposto também incidirá sobre alguns veículos, conforme o nível de poluição, sobre a extração de bens minerais e sobre loterias.
Países ricos já cobram
Apesar das queixas de alguns setores, o imposto do pecado (conhecido como “sin tax” ou “excise tax” em inglês) não é um exemplo de uma “jabuticaba” brasileira, ou seja, algo que existe apenas no Brasil.
➡️Segundo estudo de 2024 sobre tributação do consumo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), fórum que reúne 38 países, todas as nações do grupo mantêm impostos seletivos (“excise duties”) sobre tabaco e bebidas alcoólicas.
‘Imposto do pecado’: governo federal define as alíquotas do tributo, que começa a ser cobrado em 2027
Jornal Nacional/ Reprodução
O relatório da OCDE também inclui os combustíveis entre os produtos comumente sujeitos a impostos seletivos. O levantamento, porém, não traz uma relação consolidada dos países que adotam esse tipo de tributação sobre combustíveis.
O estudo não inclui bebidas açucaradas entre as principais categorias analisadas. Relatório de 2025 da Organização Mundial da Saúde (OMS), porém, aponta que alguns países adotam tributos específicos sobre esses produtos, entre eles Reino Unido, México, Portugal e França.
‘Imposto do pecado’: governo define regras para taxar carros; veja o que pesa no cálculo
O documento da OCDE avalia que os impostos seletivos são amplamente usados para influenciar o comportamento dos consumidores e desestimular o consumo de produtos associados a impactos negativos sobre a saúde ou o meio ambiente — objetivo do imposto do pecado brasileiro.
Governo publica MP com alíquotas do imposto do pecado
Veja quanto será cobrado no imposto do pecado no Brasil
bebidas açucaradas: 2,6%;
cervejas de malte: 4,2%;
vinhos, espumantes, proseccos e champanhe (excetuados os vinhos da madeira, do porto e de xerez): 8%;
vermutes: 12%;
vinhos da madeira, do porto e de xerez: 16%;
bebidas alcoólicas prontas para consumo, como drinks enlatados, com teor acima de 8%: 16%;
rum e cachaça: 20%;
uísque, vodca, gim e tequila entre outros: 24%;
cigarros: alíquota de 66,7%, mais R$ 3,50.
O texto estabelece, por exemplo, critérios de sustentabilidade e eficiência energética para a definição das alíquotas incidentes sobre veículos, aeronaves e embarcações.
Determinadas categorias de veículos terão alíquota zero, incluindo aqueles adquiridos por pessoas com deficiência ou com transtorno do espectro autista e por motoristas profissionais que utilizem o automóvel na categoria de aluguel (táxi), observadas as condições previstas na medida.
Veja alguns dos principais produtos afetados
➡️ Um levantamento da Fiocruz, citado pelo Ministério da Saúde, aponta que o consumo de álcool gerou custos de R$ 18,8 bilhões em 2019. Desse total, R$ 1,1 bilhão correspondeu a gastos federais diretos com internações e atendimentos ambulatoriais no Sistema Único de Saúde (SUS). Outros R$ 17,7 bilhões foram associados à perda de produtividade causada por mortes prematuras, afastamentos do trabalho, aposentadorias precoces e licenças médicas relacionadas a doenças provocadas pelo consumo de álcool.
➡️ No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, as doenças relacionadas ao tabagismo geram custos indiretos de R$ 86,3 bilhões por ano. Considerando também os custos diretos, o impacto econômico anual chega a R$ 153,5 bilhões, o equivalente a 1,6% do PIB. “Em contrapartida, a arrecadação de tributos federais na venda de cigarros é de apenas R$ 8 bilhões por ano, o que evidencia desequilíbrio entre os gastos com a saúde e a arrecadação gerada pela comercialização do produto”, diz.
➡️ Em um estudo para embasar a cobrança do Imposto Seletivo, o governo estimou que o tratamento de doenças associadas ao consumo de bebidas ultraprocessadas, como refrigerantes, isotônicos e refrescos, custa quase R$ 3 bilhões por ano ao Sistema Único de Saúde (SUS).
➡️ Produtores nacionais afirmam que as bebidas alcoólicas já são muito tributadas no Brasil, com impostos que representam de 40% a mais de 80% do preço dos produtos. Segundo o setor, um eventual aumento da tributação pode reduzir as margens de lucro, elevar os preços ao consumidor, provocar demissões e estimular o mercado ilegal.
Taça, copo, cerveja, álcool, bebida alcoólica.
Reprodução/EPTV

Ajuste nas contas públicas: o que está na mesa de Lula e o que está fora do radar do presidente

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante 1ª Reunião do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), no Palácio do Planalto, Brasília – DF
Ricardo Stuckert
Desde o resultado das urnas, que garantiu ao presidente Luiz Inácio da Silva (PT) o seu quarto mandato, ele tem sido pressionado a anunciar o nome que comandará o Ministério da Fazenda.
O mercado financeiro reagiu ao resultado da eleição com queda na bolsa de valores e alta do dólar.
Com base nas propostas apresentadas e nas declarações de Lula durante a campanha, analistas avaliaram que o petista não priorizaria o ajuste das contas públicas nos próximos quatro anos de governo.
Expectativas do mercado
As projeções de inflação aumentaram e as expectativas de crescimento da economia caíram. Economistas também passaram a estimar um patamar mais elevado para o dólar.
Em entrevista à TV Globo, Lula afirmou que o crescimento da dívida pública é uma preocupação, mas defendeu que a solução para o problema fiscal brasileiro passa pelo estímulo ao crescimento da economia, e não necessariamente por cortes de despesas, especialmente se afetarem a população mais pobre.
Interlocutores da equipe econômica do presidente têm dito que o governo fará um ajuste fiscal consistente e gradual para garantir a redução da taxa de juros e a manutenção, no longo prazo, de todas as políticas sociais do governo Lula.
Na quarta-feira (4), o Comitê de Política Monetária do Banco Central interrompeu uma sequência de cortes da Selic e manteve da taxa, ampliando a distância do Brasil para o segundo colocado com o maior juro real do mundo.
Na quinta-feira (5), o presidente recebeu ministros, ex-ministros e economistas ligados ao governo ou ao PT para ouvi-los sobre eventuais medidas para a economia.
Mercado aguarda sinal de Lula sobre ajuste fiscal
Sem ‘cavalo de pau’
Sem cadeira confirmada no quarto mandato de Lula, o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi destacado pela equipe da campanha para falar e sinalizou que não haverá um “cavalo de pau” na economia.
Ele tem repetido que o governo eleito quer promover um ajuste da ordem de dois pontos do Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país, no quarto mandato do presidente Lula.
Com uma alteração de rumo nessa magnitude entre 2027 e 2030, o resultado das contas públicas sairia de um déficit primário de cerca de 0,4% do PIB, em 2026, para um superávit de 1,6% do PIB em 2030.
➖Déficit: quando o governo gasta mais do que arrecada.
➕Superávit: quando há sobra de dinheiro no caixa, após o governo pagar todas as despesas.
🟰Resultado primário: é a diferença entre as receitas e despesas do governo. Essa conta não considera o que o governo gasta com o pagamento dos juros da dívida.
De acordo com o relatório de Acompanhamento Fiscal de junho da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, seria necessário um superávit de 2,1% do PIB somente para estabilizar a dívida pública, ou seja, para que ela pare de crescer.
O governo Lula terá, no entanto, um desafio já no primeiro ano do quarto mandato devido às medidas anunciadas na campanha que elevaram as despesas e precisarão ser acomodadas.
O que está na mesa
Embora a equipe econômica ainda não tenha detalhado o pacote em elaboração para melhorar as contas públicas, integrantes do governo já vêm indicando algumas das medidas em estudo.

Entre elas estão um compromisso mais explícito com o cumprimento da meta fiscal, a revisão de benefícios tributários e novas iniciativas para reforçar o arcabouço fiscal, com novas travas para conter o ritmo de crescimento das despesas.
O arcabouço fiscal foi a regra criada pelo governo Lula, no início do terceiro mandato, em substituição ao teto de gastos, que vigorou durante os governos dos presidentes Michel Temer e Jair Bolsonaro. O primeiro ano de vigência foi 2024.
Uma das diferenças entre as duas normas está na forma como as despesas podem crescer. No teto de gastos, as despesas avançam conforme a inflação. No arcabouço fiscal, o avanço dos gastos está condicionado ao crescimento da arrecadação.
O arcabouço também criou um intervalo de tolerância para a meta fiscal, que é o quanto o governo se compromete a obter de resultado final das contas. Com isso, o governo consegue cumprir a meta mesmo quando o desempenho fiscal fica aquém do esperado.
No fim do mês passado, o ministro da Fazenda anunciou que o governo enviará ao Congresso Nacional um projeto de lei para estabelecer expressamente o compromisso de atingir o centro da meta fiscal em 2027.
Ao mirar o centro da meta, em tese, o governo pode precisar bloquear mais recursos ao longo de 2027, limitando os gastos dos ministérios.
A meta central proposta pelo governo para 2027 prevê um superávit primário de R$ 73,2 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB, com uma margem de tolerância de 0,25 ponto percentual para cima ou para baixo. O governo pode, assim, cumprir formalmente a meta mesmo com um superávit menor que o valor central, desde que alcance pelo menos R$ 36,6 bilhões.
Além disso, R$ 64,7 bilhões em despesas com precatórios — dívidas que o governo é obrigado a pagar por decisão judicial — e projetos nas áreas de defesa, saúde e educação podem ficar fora dos limites fiscais. Essas exceções foram aprovadas pelos parlamentares nos últimos anos.
Além da redução de despesas, por meio de cortes maiores no orçamento dos ministérios, a área econômica também tem dito que buscará reduzir benefícios fiscais no quarto mandato de Lula.
Durigan tem lembrado que uma medida aprovada no fim de 2025 instituiu uma redução de 10% ao ano nos benefícios fiscais que não estão previstos na Constituição Federal.
No vocabulário da atual equipe econômica, porém, benefícios fiscais não equivalem, propriamente, a medidas listadas pela Receita Federal na proposta de orçamento. Aumentos de impostos para offshores, fundos exclusivos e alta na tributação de juros sobre capital próprio, por exemplo, já foram classificados pelo Ministério da Fazenda, por exemplo, como redução de benefícios fiscais.
O ministro também tem citado, em suas falas, a necessidade de continuar com medidas de reforço ao chamado arcabouço fiscal. Com esse objetivo, o governo já limitou, no passado, o formato de reajuste aumento do salário mínimo e incluiu um gatilho na regra que reduz repasses à Educação.
Fora do radar
Ao mesmo tempo, algumas propostas citadas por economistas para cortar gastos e diminuir a pressão sobre os juros e a dívida não aparecem entre as medidas sinalizadas pelo governo.
É o caso do fim do aumento real do salário mínimo, da desvinculação de benefícios previdenciários do piso nacional, e da formulação de metas para os juros, com uma redução gradual da taxa e da dívida hoje atrelada à Selic.
O governo também descarta cortar programas e benefícios sociais.
Durante a campanha, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que a atual fórmula que prevê aumento acima da inflação para o salário mínimo (limitada a 2,5% de alta real) seria mantida em um eventual novo mandato de Lula.
O presidente e o ministro da Fazenda têm dito que não haverá desvinculação de benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo. Com isso, as aposentadorias continuarão atreladas ao valor do salário mínimo, ou seja, não poderão ser menores do que esse valor.
“Será dada continuidade ao processo de ajuste fiscal iniciado em 2023, que reduziu o déficit em, aproximadamente, 2% do PIB, preservando a fórmula de reajuste do salário mínimo, com ganho real, conforme proposta apresentada e aprovada, bem como as vinculações aplicáveis aos benefícios previdenciários”, informou o ministro Durigan, durante a campanha presidencial deste ano.
Mais recentemente, Durigan negou que esteja em avaliação para o quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propostas como a de estabelecer metas para os juros para reduzi-los gradualmente, diminuindo assim o tamanho da dívida pública, hoje atrelada à Selic.
Um dos riscos apontados da proposta é a desvalorização do real. Isso ocorreria porque uma redução da Selic tornaria aplicações em reais menos atraentes, o que, por sua vez, poderia provocar uma saída de recursos do país.
Nesse caso, segundo a sugestão, as reservas cambiais do Brasil, estimadas em US$ 350 bilhões, poderiam ser utilizadas para conter mudanças bruscas no câmbio.
A manifestação do ministro ocorreu após interlocutores de Lula comentarem a possibilidade de o presidente se reunir com o economista André Lara Resende, um dos criadores do Plano Real e defensor da proposta.
Por fim, tanto o presidente Lula quanto o ministro da Fazenda têm negado publicamente, reiteradamente, a possibilidade de cortar programas sociais para promover o ajuste das contas públicas.
“Sempre muito atento aos compromissos e ao que foi o resultado da eleição, a gente nunca vai propor medidas que prejudiquem as pessoas mais pobres. Ao contrário, Quando a gente vai fazendo ajustes graduais, vai implementando medidas, olhando para corte de privilégio, retomada de uma série de revisões de benefícios, revisões de gasto primário, a gente dá as condições para que o orçamento seja superavitário e passemos a discutir quais as condições necessárias outras para que a taxa de juros diminua”, disse Durigan.

Mega-Sena 3083 pode pagar R$ 60 milhões neste domingo; g1 transmite ao vivo

Como funciona a Mega-Sena?
O concurso 3.082 da Mega-Sena pode pagar um prêmio de R$ 60 milhões para os apostadores que acertarem as seis dezenas. O sorteio ocorre às 11h deste domingo (8), em São Paulo.
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No concurso da última sexta-feira (6), nenhuma aposta acertou a faixa principal e o valor acumulou.
O g1 transmite todos os sorteios das Loterias Caixa, ao vivo. A transmissão começa momentos antes de cada dia de concursos, no site e no canal do g1 no YouTube.
Acompanhe os sorteios no site do g1
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A aposta mínima para a Mega-Sena custa R$ 6 e pode ser realizada também pela internet – saiba como fazer a sua aposta online.
Volante da Mega-Sena
Ana Marin/g1
Para apostar na Mega-Sena
As apostas podem ser realizadas até as 20h (horário de Brasília) em qualquer lotérica do país ou por meio do site e aplicativo Loterias Caixa, disponíveis em smartphones, computadores e outros dispositivos.
Já os bolões digitais poderão ser comprados até as 20h30, exclusivamente pelo portal Loterias Online e pelo aplicativo.
Ainda segundo a Caixa, para os sorteios realizados aos domingos as apostas simples podem ser efetuadas até as 22h de sábado por meio das unidades lotéricas, pelo Portal Loterias Caixa e do aplicativo Loterias Caixa.
A comercialização dos Bolões Caixa nos canais eletrônicos, nesse caso, acontece até às 10h45 do domingo, quinze minutos antes da realização dos sorteios.
O pagamento da aposta online pode ser realizado via PIX, cartão de crédito ou pelo internet banking, para correntistas da Caixa. É preciso ter 18 anos ou mais para participar.
Probabilidades
A probabilidade de vencer em cada concurso varia de acordo com o número de dezenas jogadas e do tipo de aposta realizada. Para um jogo simples, com apenas seis dezenas, que custa R$ 6, a probabilidade de ganhar o prêmio milionário é de 1 em 50.063.860, segundo a Caixa.
Já para uma aposta com 20 dezenas (limite máximo), com o preço de R$ 232.560,00, a probabilidade de acertar o prêmio é de 1 em 1.292, ainda de acordo com a instituição.

Ele transformou malabarismo com limões em negócio de R$ 2 milhões, quebrou e recomeçou

De malabarista a fabricante: empreendedor cria negócio para o circo
Uma tentativa despretensiosa de lançar três limões para o alto acabou definindo o rumo da vida de Juan Pablo Stäger.
O que começou como curiosidade pelos malabares se transformou em uma fábrica de equipamentos circenses que hoje desenvolve cerca de 80 produtos, vendidos para todo o Brasil, com preços que variam de R$ 20 a R$ 2 mil.
Com produção própria, vendas exclusivamente online e projeção de 20% de crescimento em 2026, o empreendedor construiu um negócio especializado em um mercado pouco explorado: o de equipamentos profissionais para circo.
Antes de fabricar equipamentos, Juan foi usuário deles.
O interesse surgiu quando ainda aprendia os primeiros movimentos de malabarismo. Sem acesso aos materiais adequados, improvisou os treinos com o que tinha à mão.
“O momento que a gente consegue lograr esse truque por primeira vez, uma satisfação que não dá pra explicar muito bem. Ou seja, é uma conquista completamente nova que qualquer pessoa pode ter”, afirma.
Com o crescimento das festas de música eletrônica no Brasil, ele começou a se apresentar utilizando fogo e malabares. Como tinha dificuldade para encontrar equipamentos no mercado, passou a produzir os próprios acessórios.
Sem perceber, estava dando os primeiros passos como empreendedor.
Inicialmente, os equipamentos eram feitos para uso pessoal e para as aulas que ministrava. A demanda, porém, começou a surgir de forma espontânea.
Mais tarde, ele se associou a um amigo e ampliou a produção. O catálogo incluía pernas de pau, bolinhas, fitas e outros acessórios utilizados por artistas e praticantes do universo circense.
O crescimento acelerado veio impulsionado por uma febre que ganhava espaço em diversos países: o diabolô, brinquedo de origem oriental que se popularizou entre artistas de circo e praticantes de malabarismo.
O negócio cresceu rapidamente. A empresa chegou a ter 19 funcionários e registrou faturamento anual de cerca de R$ 2 milhões durante o auge da demanda.
Mas a moda perdeu força tão rápido quanto surgiu. Sem previsão para a queda nas vendas, a empresa ficou com estoque acumulado por anos.
“Experiência a gente ganha assim, né? Errando. Nós ficamos com o estoque para mais de três anos, o estoque na mão de diabolô”, lembra o empreendedor.
Após deixar a sociedade, Juan decidiu recomeçar sozinho.
Com investimento inicial de R$ 30 mil, passou a desenvolver novos equipamentos, desenhados por ele mesmo dentro de casa e fabricados em uma oficina instalada no terraço do imóvel.
Hoje, são cerca de 80 produtos próprios, voltados tanto para profissionais quanto para iniciantes do universo circense.
Uma das decisões estratégicas foi concentrar a operação no comércio eletrônico.
Segundo ele, a aposta nas vendas online começou antes da pandemia, o que permitiu que o negócio atravessasse o período já preparado para operar digitalmente, com logística e sistema de entregas estruturados.
O empreendedor Juan Pablo Stäger projeta crescer 20% em 2026 com sua fábrica online de equipamentos circenses. O negócio oferece cerca de 80 produtos para todo o Brasil.
Globo/ Reprodução
Circo, projetos sociais e impacto além das vendas
Além de atender artistas e escolas, a empresa também fornece equipamentos para iniciativas sociais.
Juan afirma que parte importante das vendas em atacado é destinada a projetos que utilizam o circo como ferramenta de transformação.
“Minhas vendas de atacado normalmente são para projetos sociais. É claro, um monte de criança usando o meu equipamento. Como é que você não vai gostar?”, diz. “Isso é um orgulho.”
O trabalho ajuda a abastecer iniciativas como o Unicirco, no Rio de Janeiro, que utiliza atividades circenses para desenvolver crianças e jovens.
Segundo o coordenador do projeto, Luiz Frota, o sonho dos alunos é o que impulsiona o aprendizado.
“Mas o propósito da criança e o sonho dela é o motor e o gatilho inicial”, afirma.
Crescimento continua nos planos
Depois de passar pelos altos e baixos de um mercado impulsionado por tendências, Juan afirma que o foco agora está na expansão sustentável.
A expectativa é encerrar 2026 com crescimento de 20%, apoiado na produção própria, nas vendas digitais e na diversificação do catálogo.
A trajetória, construída entre oficinas, apresentações e muitos malabares, mostra como uma paixão pode se transformar em um negócio de nicho capaz de atender artistas, escolas e projetos sociais em todo o país.

Como uma falsa entrevista de emprego levou ao roubo de R$ 34 bilhões em criptomoedas; veja iscas usadas por hackers

Hackers roubam US$ 6 bilhões em criptomoedas
O maior roubo financeiro já registrado pode ter começado de uma forma surpreendentemente comum: uma entrevista de emprego.
A invasão que resultou no desvio de US$ 6,3 bilhões (cerca de R$ 34 bilhões) da Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, teve origem em uma falsa vaga de trabalho que levou um funcionário a baixar arquivos maliciosos em um computador corporativo, segundo a própria empresa.
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O caso chamou atenção não apenas pelo prejuízo bilionário, mas pela forma como os criminosos conseguiram invadir uma das maiores plataformas de criptomoedas do planeta.
Para especialistas ouvidos pelo g1, o episódio expõe uma ameaça que vem crescendo silenciosamente nos últimos anos: o uso de processos seletivos, propostas de trabalho freelance e contatos profissionais aparentemente legítimos como porta de entrada para ataques cibernéticos.
Segundo a Binance, a invasão foi resultado de uma operação planejada ao longo de meses. O objetivo dos criminosos era chegar a funcionários que ocupavam cargos estratégicos e possuíam acesso privilegiado aos sistemas da empresa.
Essa estratégia tem nome: engenharia social.
“Os criminosos criam perfis falsos, principalmente no LinkedIn, se passando por recrutadores ou headhunters. Eles oferecem oportunidades de emprego, vagas exclusivas ou até a possibilidade de inclusão em bancos de talentos para futuras contratações”, explica Hiago Kim, presidente da Associação Brasileira de Segurança Cibernética.
A abordagem costuma ser direcionada a profissionais de tecnologia, do mercado financeiro ou a pessoas que ocupam cargos de liderança.
De acordo com Kim, criminosos preferem alvos que combinam duas características valiosas: conhecimento técnico e acesso privilegiado dentro das empresas.
Em determinado momento, o recrutador pede que o profissional participe de um teste técnico. O exercício pode ser apresentado como uma planilha, um software, um ambiente de programação ou um simples arquivo para download.
É nesse momento que o golpe acontece. Ao executar o material recebido, a vítima pode acabar instalando um programa capaz de abrir uma conexão secreta entre o computador e os hackers.
“É como se a máquina virasse uma marionete. O criminoso passa a controlar remotamente aquele equipamento e consegue agir usando os acessos e permissões do próprio funcionário”, diz Kim.
O resultado é que, quando a empresa analisa os registros da invasão, tudo parece ter sido feito pelo próprio empregado.
Ao longo desta reportagem, veja ainda:
💣 Como aconteceu o roubo bilionário da Binance
🎣 Como hackers transformam ofertas de trabalho em iscas
🔓 Por que os criminosos conseguiram chegar tão longe?
👀 Até onde a empresa pode monitorar computadores corporativos?
⚖️ Funcionário que cai em golpe pode responder na Justiça?
🚨 Cair em um golpe pode levar à justa causa?
💰 A empresa pode cobrar os prejuízos do trabalhador?
🛡️ Como trabalhadores e empresas podem se proteger
Logo da Binance.
Unsplash/Kanchanara
💣 Como aconteceu o roubo bilionário da Binance
A Binance afirmou que os primeiros passos da invasão aconteceram ainda em junho.
Segundo a empresa, um integrante da equipe responsável pelo desenvolvimento das carteiras digitais baixou uma ferramenta de inteligência artificial adulterada. A companhia identificou o problema, substituiu o dispositivo comprometido e alterou credenciais de acesso.
Mesmo assim, os invasores conseguiram coletar informações importantes sobre a estrutura da equipe e sobre as funções desempenhadas por funcionários do setor.
Meses depois, em setembro, um segundo engenheiro de software que buscava novas oportunidades profissionais participou de um processo seletivo que acreditava ser legítimo.
A seleção incluía até mesmo uma reunião virtual com quem se apresentava como CEO de uma empresa. Durante o processo, o profissional baixou um repositório de código malicioso em seu computador corporativo.
A partir daquele momento, os hackers passaram a ter uma porta de entrada para avançar dentro da estrutura da corretora.
🧑‍💻 Em 20 de outubro, os criminosos utilizaram o equipamento comprometido juntamente com uma ferramenta interna de inteligência artificial para assumir o controle dos sistemas usados por dois desenvolvedores da equipe responsável pelas carteiras de criptomoedas.
💸 Nove dias depois, em 29 de outubro, ocorreu o roubo bilionário.
O FBI atribuiu o ataque a um grupo de hackers ligado à Coreia do Norte, hipótese que também foi apontada por empresas especializadas em rastreamento de criptomoedas, como TRM Labs e Chainalysis. A Coreia do Norte nega envolvimento.
🎣 O golpe da entrevista é apenas uma das armadilhas
Embora a falsa vaga de emprego tenha ganhado os holofotes após o ataque à Binance, Kim afirma que os criminosos utilizam diversas variações da mesma estratégia.
Uma das modalidades que mais crescem envolve trabalhos pontuais, freelances e pedidos de ajuda publicados em comunidades profissionais.
Segundo ele, é comum que criminosos se passem por gestores, coordenadores de equipes ou desenvolvedores que precisam resolver um problema técnico específico. A abordagem costuma ocorrer em fóruns especializados, grupos de Telegram e Discord, redes profissionais e plataformas de contratação de serviços.
O golpista publica uma dúvida ou relata uma falha em determinado sistema. Quando um profissional experiente se oferece para ajudar, inicia-se um contato privado.
Em seguida, pode surgir uma proposta remunerada para analisar um código, corrigir um bug ou revisar um projeto.
“O profissional acredita que está fazendo um trabalho legítimo. Então recebe um script, um ambiente de testes ou um arquivo para analisar. Quando executa esse material, pode acabar instalando mecanismos que dão acesso aos criminosos”, afirma.
Esse modelo de ataque tem crescido porque muitos profissionais conciliam empregos formais com projetos paralelos, consultorias ou atividades de freelancer.
Cybercrime; hacker; crimes digitais; crimes virtuais
Kevin Horvart/Unplash
🔓 Por que os criminosos conseguiram chegar tão longe?
Para Kim, participar de processos seletivos, preencher planilhas ou realizar testes técnicos faz parte da rotina profissional e não deveria representar uma ameaça existencial para uma empresa.
“O foco não deveria estar em impedir que alguém participe de uma entrevista de emprego. A questão é por que uma única conta comprometida tinha potencial para causar um prejuízo dessa dimensão”, questiona.
Na avaliação do especialista, o caso expõe uma falha de governança comum em muitas organizações: o excesso de privilégios concedido a determinados funcionários. Muitas vezes, profissionais acumulam autorizações para acessar sistemas críticos simplesmente por ocuparem cargos elevados.
Quando uma conta desse tipo é comprometida, os criminosos herdam as mesmas permissões.
Segundo Kim, ferramentas corporativas de segurança normalmente registram páginas acessadas, programas executados, credenciais utilizadas, arquivos baixados e diversas outras atividades realizadas em dispositivos da empresa.
⚠️ O problema é que nem sempre esses registros são tratados como sinais de alerta.
“Muitas vezes a informação está lá. O acesso aparece nos logs. Mas aquele profissional já possui autorização para realizar determinadas ações e aquilo acaba sendo interpretado como uma atividade normal.”
A situação também levanta outro tema: o monitoramento corporativo.
👀 Os limites do monitoramento de aparelhos corporativos
De acordo com Luiz Fernando Plastino, especialista em Direito da Informática, é comum que organizações acompanhem conexões de rede, histórico de navegação, downloads realizados, programas instalados e o uso de ferramentas corporativas, como e-mail e aplicativos internos de comunicação.
Também podem ser identificados acessos considerados incomuns ou incompatíveis com a atividade exercida pelo funcionário.
A polêmica começa quando medidas invasivas passam a ser aplicadas. É o caso de gravação permanente de tela, captura de teclado ou monitoramento detalhado dos movimentos do mouse.
Plastino alerta: “qualquer medida de vigilância ou monitoramento precisa ser informada previamente e de forma clara aos empregados”.
Embora a CLT não exija expressamente um aviso prévio para esse tipo de fiscalização, os princípios de transparência previstos na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) tornam essa comunicação indispensável na prática.
⚖️ Funcionário que cai em golpe pode responder na Justiça?
Do ponto de vista jurídico, a resposta depende das circunstâncias.
“A responsabilidade pelos danos causados requer um ato ilícito praticado com dolo ou culpa, como negligência, imprudência ou descuido”, explica Plastino.
Segundo ele, um funcionário pode ser responsabilizado em situações nas quais fique demonstrado que descumpriu procedimentos de segurança ou adotou comportamentos inadequados.
Por outro lado, se estava seguindo corretamente as políticas da empresa e ainda assim foi enganado por um golpe sofisticado, a responsabilização pode não ocorrer.
Juliana Mendonça, especialista em Direito do Trabalho, destaca que a responsabilização não é automática.
Na análise do caso, fatores como treinamentos oferecidos, existência de políticas formais de segurança da informação, ferramentas de proteção adotadas pela empresa e a função exercida pelo trabalhador costumam ser levados em consideração.
“Um erro comum diante de um golpe sofisticado dificilmente gera condenação. O que costuma pesar é o descumprimento de regras de segurança que o trabalhador conhecia e para as quais recebeu treinamento.”
🚨 Cair em um golpe pode levar à justa causa?
Em regra, não. Segundo Juliana Mendonça, um erro isolado e sem intenção dificilmente seria suficiente para justificar a punição mais severa prevista na legislação trabalhista.
“A justa causa exige falta grave capaz de romper a confiança entre empregado e empregador.”
A situação pode ser diferente quando o trabalhador descumpre, de forma reiterada ou consciente, regras de segurança que conhecia e sobre as quais já havia sido treinado ou advertido.
Sobre a Binance, Plastino acrescenta que o uso de computadores, sistemas e recursos corporativos normalmente é regulado por normas internas e políticas de tecnologia da informação, que podem prever penalidades para violações específicas.
💰 A empresa pode cobrar os prejuízos do trabalhador?
Juliana Mendonça explica que, se houver intenção comprovada de causar prejuízo, a empresa pode buscar o ressarcimento dos danos e até realizar descontos relacionados ao prejuízo causado.
Já nos casos em que houve apenas culpa, como negligência ou imprudência, o desconto normalmente exige previsão contratual específica.
Além disso, eventuais pedidos de indenização dependem de análise da Justiça, que tende a considerar fatores como a extensão do dano, a razoabilidade da cobrança e a situação financeira do trabalhador.
🛡️ Como trabalhadores e empresas podem se proteger
Especialistas afirmam que episódios como o da Binance demonstram que ataques modernos dificilmente dependem apenas de uma falha tecnológica.
Cada vez mais, criminosos exploram relações de confiança, rotinas de trabalho e comportamentos profissionais para obter acesso a sistemas corporativos.
Por isso, entre as medidas consideradas mais importantes estão:
verificação da autenticidade de recrutadores e contratantes;
cuidado ao executar arquivos recebidos em processos seletivos ou trabalhos temporários;
comunicação imediata de qualquer atividade suspeita.
Do lado das empresas, os especialistas defendem a adoção de políticas de confiança zero, revisão periódica de permissões de acesso, autenticação em múltiplos fatores, monitoramento contínuo e treinamento frequente dos funcionários.

Renault Kwid 2027 muda visual, mas custa até R$ 91 mil; vale mais que um seminovo? Veja teste

Renault Kwid 2027.
Divulgação / Renault
O Renault Kwid passou por uma grande renovação, mas segue com uma tarefa difícil pela frente. Apesar dos bons números de vendas, cerca de dois terços das unidades comercializadas são destinados a empresas.
É um fenômeno comum entre modelos de entrada, como Volkswagen Polo, Fiat Mobi e Hyundai HB20. Por ser o carro mais barato do Brasil, o Kwid chama a atenção de quem busca o primeiro zero km, mas será que as atualizações recebidas desde 2017 foram suficientes para elevar o patamar do modelo?
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Como mostrou o g1, o efeito China derrubou os preços dos carros usados e aumentou a pressão sobre os preços dos modelos de entrada.
Para entender como o Renault se sai nessa disputa, o g1 testou o Kwid e fez uma comparação rápida com três modelos que custam entre R$ 82 mil e R$ 91 mil, faixa de preço em que também se encontram algumas versões do compacto.
Agora no g1
Visual melhorou
As atualizações externas aproximam o Kwid da identidade visual adotada em modelos como Kardian, Boreal e Koleos.
O para-choque dianteiro foi redesenhado e ganhou uma nova grade com acabamento preto brilhante em todas as versões, além do novo logotipo da Renault.
Na traseira, as lanternas também ganharam um novo desenho. A tampa passa a exibir o novo emblema da fabricante e a inscrição “Kwid” com outra tipografia.
Nas configurações equipadas com câmera de ré, o dispositivo fica integrado ao logotipo.
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Todas as versões recebem novas rodas de 14 polegadas e antena de teto do tipo barbatana de tubarão. As luzes de circulação diurna em LED são de série a partir da versão Evolution.
A Outsider tem mudanças próprias. A versão ganha grafismos nas laterais das portas, novo acabamento na parte inferior do para-choque dianteiro e rodas de liga leve com pintura preta brilhante e superfície diamantada. Também oferece a opção de teto em cor diferente da carroceria.
Cabinde do Renault Kwid 2027 na versão Techno.
Divulgação / Renault
Por dentro
Na cabine, a principal alteração é o painel de instrumentos digital de 7 polegadas, oferecido a partir da versão de entrada. A tela tem uma animação de boas-vindas, e o conjunto adota um desenho inspirado nos Renault R5 e R4.
Nas versões com central multimídia, as duas telas formam um conjunto integrado, com aparência suspensa sobre o painel. Os acabamentos ao redor variam de cor conforme a configuração.
A nova central Media Evolution tem tela de 10,1 polegadas e está presente nas versões Techno e Outsider. O sistema permite usar Apple CarPlay e Android Auto sem fio, além de conectar o celular por Bluetooth para chamadas e reprodução de músicas.
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A tela também exibe informações do veículo, sobre o consumo e o modo de condução. Os comandos de áudio ficam no volante multifuncional, que passa a trazer o novo emblema da Renault. Os bancos receberam novos revestimentos.
Em segurança, todas as versões têm quatro airbags, sendo dois frontais e dois laterais. O pacote inclui controle eletrônico de estabilidade, assistente de partida em rampa, monitoramento da pressão dos pneus e alerta de cinto de segurança para todos os ocupantes.
Há um esforço claro da Renault para fazer o Kwid acompanhar a evolução dos preços cobrados pelo modelo ao longo dos anos.
Para o consumidor, ainda é difícil assimilar que um carro que custava R$ 29 mil na versão de entrada Life, em 2017, hoje seja vendido por mais de R$ 90 mil na versão Outsider.
Na cabine, esse desafio aparece no trabalho das equipes de design e de cores e acabamentos. Mesmo com materiais comuns aos carros populares, a tentativa é transmitir a sensação de estar em um modelo mais moderno.
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O painel de instrumentos, com um pequeno mostrador quadrado no centro, cumpre seu papel. Nessa faixa de preço, não seria razoável esperar uma tela digital de 10 polegadas para essa função.
A central multimídia melhorou bastante em relação à anterior. A Renault vem evoluindo na organização dos comandos e nos elementos gráficos dos seus sistemas, algo já observado no Kardian e no Boreal.
Algumas características, porém, não se resolvem com retoques. O Kwid continua pequeno em suas proporções, com uma ergonomia que tenta transmitir a ideia de um mini SUV. A posição de dirigir elevada parece um pouco artificial nessa tentativa de aproximar o motorista da experiência de um utilitário esportivo.
Apesar de ser bem resolvido dentro de sua proposta, o conjunto ainda transmite a sensação de um carro de entrada, por maior que seja o esforço da Renault para posicioná-lo acima disso.
Motor
O Kwid 2027 tem motor 1.0 de três cilindros e bloco de alumínio. Ele entrega 71 cv com etanol e 68 cv com gasolina. O torque chega a 10,0 kgfm com etanol e 9,4 kgfm com gasolina.
Segundo o Inmetro, os números de consumo são:
Na cidade: 14,4 km/l com gasolina e 10,4 km/l com etanol;
Na estrada: 15,4 km/l com gasolina e 10,7 km/l com etanol.
Quem inclui o Renault Kwid na lista de opções de compra dificilmente coloca o desempenho e uma direção afiada entre suas prioridades. Não há problema nisso: existem carros para diferentes perfis de consumidores.
O Kwid foi desenvolvido originalmente para o mercado indiano e recebeu diversas adaptações para ser vendido no Brasil, em 2017, e atender às expectativas do consumidor.
Renault Kwid 2027.
Divulgação / Renault
Assim como ocorre na cabine, o acerto da suspensão mostra o esforço da equipe da Renault para aproveitar o que o projeto permite. O resultado revela um trabalho competente dentro das limitações de preço e de tecnologia do modelo.
Ainda assim, o Kwid transmite muita leveza ao volante. Em velocidades mais altas, essa característica fica evidente e reforça sua vocação urbana.
Pelas características do motor e pelas dimensões, a proposta do Kwid está concentrada na economia de combustível, na relação custo-benefício e na durabilidade, buscando evitar dores de cabeça ao proprietário.
E o prazer ao volante? Parece ser um aspecto ao qual o consumidor brasileiro dá cada vez menos atenção.
Seminovos
O desafio do Kwid também está fora das concessionárias de carros novos. Dados recentes mostram que os preços dos seminovos caíram e estão bem abaixo dos valores da Tabela Fipe.
Parte desse movimento está ligada ao avanço das marcas chinesas e às promoções feitas pelas montadoras tradicionais para enfrentar a concorrência.
Por isso, o g1 selecionou algumas opções de seminovos que podem concorrer diretamente com o Renault Kwid zero quilômetro.
Hyundai HB20 Limited 1.0 manual 2026/2027: R$ 89 mil
O HB20 tem 4,02 m de comprimento, 1,72 m de largura e 1,47 m de altura. A distância entre-eixos é de 2,53 m, contra 2,42 m do Kwid, uma diferença de 10,7 cm.
No porta-malas, porém, os dois ficam próximos: o Hyundai acomoda 300 litros, apenas 10 litros a mais que o Renault.
O motor 1.0 aspirado do HB20 entrega 80 cv com etanol e 75 cv com gasolina, enquanto o Kwid tem 71 cv e 68 cv, respectivamente.
A diferença de torque é menor: são 10,2 kgfm com etanol e 9,6 kgfm com gasolina no Hyundai, contra 10,0 kgfm e 9,4 kgfm no Renault. Na versão Limited, o HB20 usa câmbio manual de cinco marchas.
Entre os equipamentos de série, o Limited manual traz ar-condicionado, direção elétrica e central multimídia de 8 polegadas com Android Auto e Apple CarPlay sem fio.
Também há câmera de ré, chave presencial, partida por botão, vidros elétricos nas quatro portas, piloto automático e rodas de liga leve de 15 polegadas. Entre os equipamentos de segurança estão seis airbags, controles de estabilidade e tração e assistente de partida em rampa.
Para quem procura um seminovo mais equipado na mesma faixa de preço, o HB20 Platinum Safety da linha 2025 é uma opção, com motor 1.0 turbo e câmbio automático de seis marchas.
Ele reúne ar-condicionado digital automático, bancos de couro sintético, carregador de celular por indução e central multimídia de 8 polegadas.
O pacote também inclui frenagem autônoma de emergência, assistentes de permanência e centralização em faixa, além de alertas de ponto cego e de tráfego cruzado traseiro.
Volkswagen Polo Track 1.0 manual 2026/2027: R$ 90 mil
O Polo Track tem uma distância entre-eixos de 2,57 m, 14,3 cm a mais que o Kwid. A largura é de 1,75 m e a altura, de 1,47 m.
Apesar da diferença no entre-eixos, a vantagem no porta-malas é pequena: o Volkswagen oferece 300 litros de capacidade, contra 290 litros do Renault.
Com motor 1.0 MPI e câmbio manual de cinco marchas, o Polo entrega 84 cv com etanol e 77 cv com gasolina. São 13 cv e 9 cv a mais do que o Kwid, respectivamente.
O torque chega a 10,3 kgfm com etanol e 9,6 kgfm com gasolina, ante 10,0 kgfm e 9,4 kgfm do Renault. Portanto, a diferença entre os motores aparece mais na potência do que no torque.
O Polo Track tem ar-condicionado, direção elétrica, volante multifuncional, banco do motorista com ajuste de altura e sensor de estacionamento traseiro.
O sistema de som de série é o Media Plus II, com quatro alto-falantes e entradas USB-C, mas sem a central multimídia VW Play oferecida nas versões superiores.
Também fazem parte do pacote quatro airbags, controles de estabilidade e tração e assistente de partida em rampa.
Na linha 2025, o Polo Highline oferece uma lista mais ampla de equipamentos por um preço semelhante. Há ar-condicionado digital, central multimídia VW Play de 10,1 polegadas, painel de instrumentos digital de 10,25 polegadas e carregador de celular por indução.
A versão também traz bancos de couro sintético, câmera de ré, sensores de estacionamento dianteiros e traseiros, faróis de LED e chave presencial com partida por botão.
Chevrolet Onix Plus 1.0 manual 2026/2027: R$ 89.900
O Onix Plus apresenta a maior vantagem em capacidade de porta-malas entre os três concorrentes: são 500 litros, ou 210 litros a mais que o Kwid.
O sedã mede 4,48 m de comprimento, 1,75 m de largura e 1,47 m de altura. A distância entre-eixos chega a 2,60 m, 17,7 cm a mais que os 2,42 m do Renault.
Na versão 1.0 manual, o Onix Plus vem com ar-condicionado, direção elétrica e central multimídia MyLink de 8 polegadas, com Android Auto e Apple CarPlay sem fio.
A lista inclui câmera de ré, chave presencial, partida por botão, vidros elétricos nas quatro portas e retrovisores com regulagem elétrica. Na segurança, são seis airbags, além de controles de estabilidade e tração e assistente de partida em rampa.
Entre os seminovos da linha 2025 com preços mais acessíveis, o Onix Plus Premier turbo automático oferece ar-condicionado digital automático, central MyLink de 8 polegadas, carregador de celular sem fio e controlador de velocidade de cruzeiro.
A versão também conta com alerta de ponto cego, câmera de ré, sensores de estacionamento dianteiros, laterais e traseiros, além de assistente de estacionamento automático e rodas de liga leve de 16 polegadas.
O futuro do Kwid
O compacto atende a uma necessidade bastante específica: a de empresas que compram veículos para suas frotas ou de consumidores que buscam a tranquilidade de um carro novo, querem aproveitar as facilidades de financiamento de um zero quilômetro e não colocam desempenho ou espaço entre suas prioridades.
Se o mercado brasileiro continuar crescendo nos próximos anos, talvez ainda haja espaço para esse tipo de produto. Mas, com a concorrência cada vez mais intensa e o setor de seminovos pressionado a manter as vendas, enfrentar os usados pode se tornar o maior desafio da Renault com o Kwid.
Equipamentos do Renault Kwid por versão (nov/2026)
Evolution / R$ 82.790
Principais itens de série:
-Painel de instrumentos digital TFT de 7”;
Ar-condicionado;
Direção elétrica;
4 airbags (2 frontais e 2 laterais);
Controle eletrônico de estabilidade (ESP);
Assistente de partida em rampa (HSA);
Sensor de estacionamento traseiro;
Sistema de monitoramento da pressão dos pneus (TPMS);
Alerta visual e sonoro de não utilização do cinto de segurança de todos os ocupantes;
Luzes de circulação diurna (DRL) em LED;
Antena Shark;
Computador de bordo;
Tacômetro;
Indicador de temperatura externa;
Sistema Start & Stop;
Vidros dianteiros elétricos;
Travas elétricas das portas.
Techno / R$ 85.890
Entre os equipamentos da versão estão:
Sistema multimídia com tela de 10.1″ com espelhamento de smartphone sem fio;
Controles de áudio no volante;
2 USB-C;
Câmera de ré;
Chave tipo canivete;
Retrovisores elétricos;
Retrovisores em preto brilhante;
Maçanetas externas na cor da carroceria;
Lanternas obscurecidas com assinatura em LED;
Roda de aço biton de 14”.
Outsider / R$ 91.190
Além dos equipamentos da Techno, acrescenta:
Bancos exclusivos com revestimento em tecido e eco-leather;
Rodas de liga leve diamantadas 14” bíton com NBI;
Sensor crepuscular;
Barras de teto com nova decoração de cor;
Skis frontais e traseiros;
Molduras de proteção lateral e frontal.
A Renault também oferece quatro kits de acessórios para o Kwid 2027. O Play reúne barras de teto, moldura de lanterna e friso vazado. Já o Smart inclui soleiras, bandeja de porta-malas e tapetes têxteis.
O Secure acrescenta alarme e antifurto de roda. Para o transporte de animais, o Pet traz assento específico, adaptador de cinto e rede protetora.

Galinhas usando óculos? Acessório previne canibalismo e brigas em galinheiros

Galinhas de óculos: isso existe?
À primeira vista, a ideia de uma galinha usando óculos pode parecer brincadeira ou até uma imagem criada por inteligência artificial. Mas o equipamento existe e é utilizado em algumas criações de aves.
Apesar do nome, os chamados “óculos para galinhas” não melhoram a visão dos animais. Na verdade, eles fazem justamente o contrário: limitam o campo de visão frontal das aves para tentar evitar comportamentos como bicadas, brigas, quebra de ovos e canibalismo, conta o zootecnista Aécio Prado, da Emater-DF, o acessório é uma espécie de protetor anti-bicada.
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O canibalismo ocorre quando uma ave bica e fere outra. O comportamento pode provocar lesões e, em situações mais graves, levar à morte do animal.
Segundo o especialista, os óculos dificultam que a galinha enxergue diretamente o alvo da bicada. A cor vermelha do equipamento também teria a função de reduzir a reação das aves à presença de sangue.
Óculos para galinhas previnem canibalismo e brigas em galinheiros.
Reprodução/Globo Rural
A colocação, no entanto, exige que cada animal seja capturado e manejado individualmente. Além disso, como o bico das aves é resistente e está em constante movimento, elas podem se adaptar ao acessório ou até retirá-lo.
Prado ressalta que o uso do equipamento não é considerado uma prática ideal do ponto de vista do bem-estar animal, porque pode causar desconforto.
Por isso, os óculos costumam ser empregados apenas em situações específicas, como na introdução de um novo reprodutor em um plantel de aves de maior valor comercial. Nesse caso, o objetivo é reduzir as brigas durante o período de adaptação.
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Uso é inviável em grandes granjas
Cada protetor custa, em média, R$ 2. Embora o valor unitário seja baixo, o uso do equipamento pode ser inviável em granjas comerciais, que chegam a reunir milhares de aves.
Além do custo, há uma dificuldade operacional: seria necessário pegar cada animal individualmente para instalar e conferir o acessório.
“Em plantéis grandes, o manejo fica muito difícil, porque é preciso pegar uma ave por vez e colocar o equipamento. Além disso, ele pode se soltar”, afirma o zootecnista.
Corte do bico ainda é utilizado, mas enfrenta restrições
Em criações maiores, uma das práticas usadas para evitar ferimentos provocados por bicadas é a debicagem, procedimento que consiste na retirada de uma parte do bico da ave durante as primeiras semanas de vida.
Segundo Prado, o método deve ser realizado apenas por profissionais capacitados e no período adequado. Ainda assim, a prática é questionada por causa dos impactos que pode provocar sobre o bem-estar dos animais.
Por esse motivo, alguns produtores têm deixado de adotar o procedimento e buscado outras formas de reduzir a agressividade, como melhorias no espaço, na alimentação e no manejo das aves.
Os óculos, portanto, existem, mas estão longe de ser um acessório comum. Seu uso é pontual e depende das características da criação, do comportamento dos animais e da avaliação dos impactos sobre o bem-estar das galinhas.

'Meu medo é o governo Lula buscar atalhos e brigar com o mercado': por que professor em Cambridge defende ajuste fiscal 'suave'

Por que professor de Cambridge defende ajuste fiscal ‘suave’
REUTERS via BBC
Não há “atalhos” para equilibrar as contas públicas e cortar os juros no Brasil, defende o economista Tiago Cavalcanti, brasileiro professor titular da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Na sua visão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa anunciar rapidamente medidas críveis para um ajuste fiscal gradual ao longo dos próximos anos.
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A primeira delas seria anunciar sua nova equipe econômica, com nomes comprometidos com o equilíbrio das contas públicas, e garantir apoio político ao grupo.
“Você pode fazer o compromisso de longo prazo. Então, não precisa cortar [de uma vez], vamos suavizar isso ao longo dos anos”, propõe, em entrevista à BBC News Brasil.
Agora no g1
Para Cavalcanti, o controle dos gastos não é incompatível com a promessa de Lula de não cortar programas sociais. Por outro lado, ele considera que é necessário mudar a regra que garante reajuste de salário mínimo acima da inflação sempre que há crescimento da economia — algo que Lula prometeu manter.
Na sua visão, enquanto as contas públicas não estiverem equilibradas, o governo deveria garantir apenas a reposição da inflação. O reajuste do salário mínimo tem impacto importante nas despesas porque é o piso para as aposentadorias e pensões do INSS e de benefícios como o BPC — essas despesas representam mais de 40% dos gastos primários da União.
“Eu acho que recuperar o poder de compra [reajustando o salário mínimo pela inflação] é possível. Agora, quando você promete, além de recuperar o poder de compra, dar aumentos acima da inflação, e isso vai ter repercussões em todos os salários, aposentadorias, etc, já acho que começa a não ser mais compatível [com o ajuste fiscal]”, disse.
Para Cavalcanti, o equilíbrio das contas públicas não é incompatível com a promessa de Lula de não cortar gastos sociais
DIVULGAÇÃO via BBC
Com sólida formação acadêmica, Cavalcanti tem doutorado e mestrado em Economia pela University of Illinois, nos Estados Unidos. Além de atuar em Cambridge, é professor da Fundação Getúlio Vargas. No início do ano, foi cotado para assumir uma das duas diretorias que estão vagas no Banco Central desde janeiro. Passada a eleição, há expectativa de que Lula anuncie seus indicados.
À BBC News Brasil, Cavalcanti critica a proposta de rápida redução da taxa básica de juros (Selic) apresentada por André Lara Resende, economista conhecido como um dos pais do Plano Real, que acabou com a hiperinflação nos anos 90.
Resende diz que os juros altos são o principal problema da economia brasileira, já que boa parte da dívida pública brasileira é atrelada à Selic e, por isso, sobe aceleradamente quando o Banco Central eleva a taxa. Ele propõe um novo Conselho Fiscal e Monetário Nacional que definiria metas fiscais e monetárias para um período de quatro a cinco anos à frente. O objetivo seria levar à Selic para 7,5% ao ano em 12 meses.
André Lara Resende defende queda rápida da taxa Selic
GERALDO MAGELA/AGÊNCIA SENADO via BBC
A proposta tem dividido economistas no país, entre críticas e apoios. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, porém, descartou a proposta e negou que Lula fosse receber Lara Resende para uma reunião.
“Houve países que experimentaram isso, por exemplo a Turquia, onde teve muita pressão do [presidente] Erdogan, a taxa de juros caiu bastante em um período bem curto e o país foi para um nível de hiperinflação em pouquíssimo tempo”, afirma Cavalcanti.
“É difícil você pensar em evidência empírica [que sustente essa proposta]”, reforçou.
Em entrevista à BBC News Brasil, Resende rebateu as críticas.
“É um voluntarismo político absurdo [comparar] um ditador que impôs a queda dos juros como se ele tivesse alguma coisa [semelhante] ao que eu estou propondo intelectualmente para que seja debatido e analisado”, disse, sobre a comparação com o que fez Erdogan.
Confira abaixo trechos da entrevista do economista Tiago Cavalcanti à BBC News Brasil
BBC News Brasil – Lula se reuniu nesta quinta-feira com economistas alinhados ao PT e há a expectativa de futuras conversas com economistas de outras vertentes. Como vê essa movimentação?
Tiago Cavalcanti – Do ponto de vista político, eu acho que faz sentido. Houve todo um apoio [durante as eleições] dessas pessoas que já estão historicamente perto de Lula. Não vejo como um problema fundamental ainda. Outra questão é sobre o que vai ser feito.
BBC News Brasil – O governo precisa agir mais rápido? Seria necessária alguma resposta ao desafio fiscal?
Tiago Cavalcanti – Sim. Meu medo é o seguinte: em economia, expectativas são essenciais para várias coisas. Algumas coisas parecem distantes, que não nos afetam, mas elas afetam diretamente.
Uma delas é o câmbio. O câmbio afeta diretamente a inflação e tudo o que desencadeia sobre os custos, principalmente no curto prazo. Então ancorar as expectativas é bem importante.
Tivemos uma experiência lá em 2003, quando as expectativas foram ancoradas bem antes de o próprio governo começar, quando Lula assumiu compromissos antes de ser eleito. Ele se comprometeu com várias metas macroeconômicas do ponto de vista fiscal, monetário, de cumprimento de contratos, que foram importantes pra ancorar as expectativas e dúvidas que existiam sobre o presidente.
Meu medo é que, se essas coisas [expectativas sobre a economia] desancorarem tão fortemente, o governo acabará adotando uma estratégia não de longo prazo. Ele tentará achar alguns atalhos para brigar contra essas expectativas ou contra o mercado. Então, para isso, é fundamental tentar ancorar essas expectativas o mais rápido possível.
Isso vai evitar que os investidores comecem a apostar contra o país, tirando o dinheiro do Brasil e depreciando o câmbio, com efeitos na inflação e nos juros de longo prazo, o que afeta investimentos.
BBC News Brasil – E que tipo de sinais seriam necessários? Eu imagino que não bastaria um discurso. Precisaria haver medidas e sinalizações convincentes.
Tiago Cavalcanti – É preciso haver coisas práticas agora, não tem como fugir. Uma estratégia é você primeiro anunciar o Ministério da Fazenda, juntamente com economistas que vão fazer parte desse ministério. Eu não sei exatamente quem poderia ser, se o [governador do Piauí] Rafael Fonteles, que estão falando, ou o [vice-presidente] Geraldo Alckmin, ou um economista. Seria importante escutar o mercado, mas sem ser refém dele.
O presidente tem vários nomes e está tentando conversar com outras pessoas, com o mercado, para montar uma equipe que as pessoas acreditem que poderá dar a solidez macroeconômica que o Brasil precisa para fazer política social. É preciso tentar anunciar algo o mais rápido possível, inclusive com diretores do Banco Central, que está com duas diretorias vagas.
E o segundo momento é fazer escolhas mais de política. E aí eu acho que existem dois cenários. Um seria fazer um ajuste fiscal imediato com metas ambiciosas, mas isso seria muito custoso. A outra forma, que eu acho é a melhor, é uma coisa mais suave, de longo prazo, mas com metas críveis, que trouxesse a dívida pública do Brasil para uma trajetória sustentável.
BBC News Brasil – O governo argumenta que há muitos indicadores positivos na economia. Essa queda tão forte do mercado após a eleição se justifica?
Tiago Cavalcanti – Talvez na cabeça do presidente e dos economistas mais próximos, eles pensem assim: “poxa, o mercado disse que a gente iria ter uma crise e a gente teve quatro anos de crescimento bem razoável, de 3%, inflação nunca ficou muito acima [da meta], o desemprego bateu recorde de baixa. A gente teve vários sinais de que foi bem melhor do que o mercado dizia. Então, por que a gente vai escutar dessa vez, né?”.
Mas eu acho que [a reação do mercado] é justificada pelo fato de que a inflação está acima da meta, a inadimplência está elevada, existe uma questão sobre a recuperação judicial [de empresas] em todo o país e a taxa de juros está muito elevada no Brasil.
Essa taxa de juros é impossível. Com essa taxa de juros de 13,75% e taxa de juros real de 9% mais ou menos, é muito difícil ter investimento na economia, em que você possa ter um retorno sem risco de curto prazo.
E você tem a questão do endividamento das famílias, das empresas, porque isso também vai afetar os juros na ponta, que é uma outra questão no Brasil. Os juros bancários são elevadíssimos.
E outra questão é a dívida. Você fica numa dívida com uma trajetória totalmente insustentável quando tem uma taxa de juros real de 9%. A economia teria que crescer duas ou três vezes mais do que ela está crescendo agora para a dívida pública parar de crescer em relação à renda.
É preciso a gente abaixar essa taxa de juros de forma sustentada para a economia crescer e levar a dívida para uma trajetória sustentável. Isso é fundamental.
Bolsa de valores teve forte queda após reeleição de Lula
EPA/SHUTTERSTOCK via BBC
BBC News Brasil – O ajuste fiscal é compatível com as promessas de campanha do Lula ou um ajuste implicaria em algum estelionato eleitoral?
Tiago Cavalcanti – Eu não olhei os números com muito cuidado, então, qualquer afirmação que eu faça agora vai ser meio imprecisa. Mas, o que o Brasil gasta em proporção ao PIB, considerando todos os gastos, é muito mais do que vários países. Não gastamos muito mais em relação à educação e à saúde, mas gastamos em outras coisas. Eu acredito que dá para cortar em subsídios tributários e ajustar os loopholes [brechas] no Imposto de Renda.
Em todas essas questões, eu acho que é possível fazer ajustes, e talvez minimizar os cortes nos gastos com o social, com a educação, com a saúde que é o compromisso do governo.
Mas uma questão que precisa ser pensada é a regra do salário mínimo no Brasil.
BBC News Brasil – Lula prometeu manter o reajuste do salário mínimo acima da inflação durante a campanha. Isso é compatível com o ajuste fiscal?
Tiago Cavalcanti – Eu acho que recuperar o poder de compra [reajustando pela inflação] é possível. Agora, quando você promete, além de recuperar o poder de compra, que vai dar aumentos acima da inflação, eu já acho que começa a não ser mais compatível.
Isso poderia ser repensado: “A gente precisa fazer algum sacrifício. Vamos tirar dos mais pobres? Não, mas vamos ao menos manter um aumento que dê a inflação e mantenha o poder de compra”. Isso é totalmente compatível com a filosofia do governo.
Mas você dar aumentos além da inflação eu acho que deveria ser em situações em que o governo pudesse fazer isso. E o governo vem aumentando o salário mínimo acima da inflação nos últimos anos.
BBC News Brasil – Após a reeleição de Dilma Rousseff em 2014, havia um cenário de desequilíbrio fiscal que foi seguido de forte crise econômica. O cenário atual lembra 2014, ou é diferente?
Tiago Cavalcanti – Eu quero acreditar que lembre mais 2003 [quando Lula assumiu a Presidência pela primeira vez]. Você pode fazer o compromisso de longo prazo. Então, não precisa cortar [de uma vez]. Vamos suavizar isso ao longo dos anos. Por exemplo, no caso do salário mínimo, vamos primeiro recuperar o poder de compra [reajustando apenas pela inflação]. Daqui a pouco, se a gente tiver um superávit maior, faz um ajuste acima da inflação.
É assim que se faz, por exemplo, no Reino Unido. Anualmente, faz um orçamento. Você não tem uma regra de indexação dessa forma, uma regra dura. Tem uma regra em que você olha a situação econômica do país, vê onde vai cortar e qual vai ser o orçamento do próximo ano dentro das possibilidades.
O que eu até acho engraçado no Brasil é que tem toda essa briga de heterodoxos e ortodoxos, dos desenvolvimentistas com os neoclássicos liberais. Eu acho que políticas sociais são fundamentais para uma sociedade muito desigual como a do Brasil. Mas, quando você vai conversar em economia, aqui [no Reino Unido] existe muito mais homogeneidade de quais são os passos que devem ser seguidos do que no Brasil, onde há quase duas visões completamente dicotômicas.
Aqui, a gente ensina a economia de uma forma em que os preços são endógenos, respondem a mecanismos de demanda e oferta. As taxas de juros vão responder a mecanismos de expectativas de retorno e risco, às demandas e ofertas por títulos, etc., em um mundo globalizado, em que o capital pode sair de um lado para o outro.
Essa briga no Brasil acho que atrapalha um pouquinho.
Houve países que experimentaram isso, por exemplo a Turquia. Teve muita pressão do [presidente] Erdogan, a taxa de juros caiu bastante em um período bem curto, e o país foi para um nível de hiperinflação em pouquíssimo tempo.
Não estou dizendo que isso vai acontecer no Brasil, porque acho que o Banco Central tem mecanismos muito mais sólidos de proteção do que na Turquia, mas são experiências que a gente pode trazer para o Brasil.
A gente teve o exemplo aqui da Liz Truss, que ficou pouquíssimo tempo como primeira ministra do Reino Unido. Ela anunciou um pacote em que você tinha a dívida pública crescente, déficit crescente, e ela anunciou cortes nos impostos, com a perspectiva de que a economia iria crescer e isso ia aumentar a arrecadação, conseguindo gerar receita para pagar as dívidas no futuro.
Houve uma reação negativa muito forte do mercado. Ela tentou voltar atrás, mas já era tarde demais e teve que renunciar.
BBC News Brasil – Quando você falou sobre a taxa de juros de 7% estava se referindo a proposta do André Lara Resende para redução da Selic?
Tiago Cavalcanti – Sim. É difícil você pensar em evidência empírica [que sustente essa proposta]. Vamos dizer que existe um modelo econômico em que a taxa de juros, quando cai, possa diminuir a inflação por um fator de prêmio de risco, porque a dívida fica menos pressionada. Vamos olhar a evidência empírica.
Me mostre evidências empíricas em que isso realmente aconteceu, de forma sólida, com economistas que publicam nos periódicos que têm pareceres anônimos, que acreditam que a metodologia é válida e os dados são válidos.
Existem experiências bem sucedidas nesses casos? É difícil para mim pegar algum exemplo de que isso tenha acontecido de forma sólida.

Brasil pode perder seu maior comprador de soja? Entenda os planos da China e a disputa com os EUA

Transportadora subcontratou motorista para entregar carga de soja, porém veículo foi furtado
Divulgação
Quando se trata de soja, Brasil e China têm uma relação de interdependência: o Brasil é o maior fornecedor do grão para o país asiático, enquanto a China é a principal compradora da soja brasileira.
Mas essa relação pode estar ameaçada por três motivos, segundo especialistas ouvidos pelo g1:
Após anos de guerra comercial com os Estados Unidos, a China voltou a comprar soja norte-americana, o que pode reduzir o espaço do produto brasileiro no mercado chinês;
O país asiático quer depender menos das importações de soja, ampliando a produção interna e reduzindo o consumo do grão;
A população chinesa deve diminuir nos próximos anos, o que pode reduzir a demanda por alimentos ricos em proteínas e, consequentemente, por soja.
Uma contração da demanda chinesa traz o risco de quedas simultâneas nos preços e nas receitas de exportação. De acordo com relatório da consultoria Systemiq, isso pode gerar efeitos em cascata sobre a renda dos produtores rurais, a valorização das terras, o emprego no campo e a infraestrutura de processamento.
Por isso, os especialistas recomendam que o setor se prepare para uma possível redução das exportações, evitando ampliar a área plantada de soja ou investindo no processamento do grão para agregar valor à produção.
Como milho e soja vêm tomando área de arroz e feijão há 19 anos
Concorrência entre EUA e Brasil pela China
A China assumiu o compromisso de comprar 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos anualmente entre 2026 e 2028. Além disso, os chineses se comprometeram a adquirir pelo menos US$ 17 bilhões (R$ 86,1 bilhões) por ano em produtos agrícolas norte-americanos.
A medida foi anunciada em maio, após Trump retornar de uma cúpula em Pequim, onde buscou amenizar o impacto da guerra comercial que ele mesmo iniciou no ano passado com o tarifaço.
Em resposta às tarifas americanas, a China impôs um imposto adicional de mais de 20% sobre uma série de produtos, incluindo a soja. Segundo a Associação de Soja dos EUA (ASA, na sigla em inglês), a medida tornou o grão norte-americano consideravelmente mais caro que o produzido na América Latina.
Como consequência, as exportações de soja norte-americana para a China caíram 50% em um ano. A redução também contribuiu para uma queda de 40% nos preços do produto.
Brasil X EUA: o quanto cada país vende de soja para a China
Arte / g1
O cumprimento do acordo para a compra de 25 milhões de toneladas pode aumentar a concorrência com a soja brasileira. Ainda assim, para Larissa Wachholz, especialista em China, é um sinal positivo que os dois países não tenham firmado novos acordos.
Em setembro, EUA e China concordaram em reduzir as tarifas sobre US$ 60 bilhões (cerca de R$ 311 bilhões) em mercadorias importadas um do outro. A soja ficou de fora do acordo e manteve uma tarifa de 13%, estabelecida após negociações sobre o tarifaço.
“[Manter] essa tarifa acaba também sendo uma sinalização de cautela, de que a relação está estável, mas que ela não está totalmente normalizada”, afirma Wachholz.
A tarifa favorece a competitividade do Brasil, já que a soja brasileira é taxada em apenas 3%. “Essa diferença de 10 pontos percentuais ajuda a preservar a competitividade brasileira, pelo menos no curto prazo, mesmo com a aproximação bilateral”, afirma Patrícia Ellen, líder global de Natureza e Sistemas Alimentares da Systemiq.
Ainda assim, a China vem comprando soja norte-americana para cumprir o compromisso. A especialista explica que o volume de 25 milhões de toneladas está dentro dos patamares que o país já havia adquirido dos EUA em anos anteriores.
Desde 2017, o Brasil se consolidou como o principal fornecedor de soja da China.
No passado, a participação dos dois países nas importações chinesas era mais equilibrada. Em 2016, por exemplo, os EUA forneceram 41% da soja comprada pela China. Naquele ano, o Brasil respondeu por 45%.
Compare as vendas de soja dos EUA e do Brasil para a China em 10 anos
Arte/g1
Mas, desde o primeiro governo Trump, iniciado em janeiro de 2017, China e EUA enfrentam disputas comerciais que levaram os chineses a ampliar as compras de soja brasileira.
Durante a disputa, os agricultores norte-americanos perderam US$ 27 bilhões (aproximadamente R$ 104 bilhões, na cotação da época) em exportações, segundo a agência de notícias France Presse (AFP). Na época, o governo Trump concedeu US$ 23 bilhões em subsídios ao setor.
“Os Estados Unidos tiveram maior dificuldade nas negociações, o que fez com que os prêmios pela soja brasileira fossem maiores”, afirma Beber.
O prêmio da soja é a diferença entre a cotação internacional do grão, negociado na Bolsa de Chicago, e o preço pago pelo produto físico nos portos brasileiros.
“Haveria espaço para eles crescerem essa demanda dos EUA, se eles assim entendessem pertinente. Mas eu acho que o principal elemento dessa mudança estrutural em relação ao fornecedor tem a ver com a construção de confiança e entrega”, afirma Wachholz.
De acordo com a especialista, o Brasil tem capacidade para ampliar sua participação no fornecimento de soja à China e mantém uma relação comercial baseada na confiança. Isso fortalece a posição brasileira no mercado chinês.
Para Wachholz, o risco para o Brasil está na possibilidade de a China ampliar as compras de soja norte-americana para além das 25 milhões de toneladas previstas no acordo.
“Aí sim poderia nos prejudicar, porque toda a nossa cadeia foi construída para atender aquele mercado”, afirma.
“A relação da China com os Estados Unidos é a relação geopolítica mais importante que existe hoje. Sempre será uma carta na manga o fato de a China ser um mercado tão demandante. Então, ela pode sempre usar isso como instrumento de negociação”, diz Wachholz.
Já o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, considera difícil que os EUA voltem a exportar mais de 30 milhões de toneladas de soja para a China. Ele também avalia que a posição do Brasil está consolidada.
No ano passado, o Brasil bateu recorde de exportações de soja para a China. Em 2026, já enviou quase 64 milhões de toneladas, segundo a Aprosoja.
O crescimento das vendas beneficiou a economia, afirma Wachholz. “Foi isso que criou renda nas cidades do interior do Brasil. Isso é ótimo, porque eleva o nível de desenvolvimento do país como um todo. A soja está compondo uma boa parte do PIB brasileiro”, diz.
As exportações de soja também contribuem para que o Brasil mantenha um superávit comercial com a China, o que é raro, segundo a especialista.
Saiba também: El Niño pode provocar perdas de R$ 33 bilhões na safra de soja do Brasil; entenda os riscos
China autossuficiente
A China quer reduzir sua dependência de produtos importados. Essa é uma das prioridades do Plano Quinquenal, documento que estabelece as principais metas econômicas e sociais do país para um período de cinco anos.
O plano atual prevê aumentar a produção chinesa de alimentos dos quais o Brasil é um dos principais fornecedores, como soja, milho e carne.
Segundo o relatório da Systemiq, os investimentos e as políticas públicas elevaram a produtividade da soja na China em 80% nos últimos 40 anos. Para Patrícia Ellen, as metas chinesas representam um risco maior para o Brasil do que a concorrência comercial com os EUA.
Segundo projeções da consultoria, as importações chinesas de soja podem cair cerca de 25% até 2030. Ellen explica que a redução seria provocada por uma queda na demanda pelo grão. A participação do farelo de soja, por exemplo, deve diminuir de 14,5% para menos de 10% até 2030.
“Basicamente, esses 23,5 milhões de toneladas de redução projetada equivalem a praticamente todas as exportações americanas de soja para a China em 2024 ou a um terço das exportações brasileiras destinadas ao país naquele ano”, afirma.
Além de reduzir o consumo de farelo de soja, a China pretende tornar a alimentação de bovinos e frangos mais eficiente e incentivar o consumo de outras fontes de proteína, como os pescados. “São grandes apostas que envolvem investimento em muita tecnologia, políticas públicas e transições bastante significativas”, diz Ellen.
A China também pretende aumentar o uso de aminoácidos sintéticos e proteínas produzidas por bactérias na alimentação animal, diminuindo a necessidade de farelo de soja nas rações.
Para Larissa Wachholz, é importante acompanhar a velocidade com que a China conseguirá colocar essas medidas em prática. “O Brasil precisaria acompanhar se o nível de produtividade da soja vai aumentar ou não. Se passar a usar o transgênico, ela consegue ter algum ganho de produtividade.”
A especialista defende que o setor brasileiro acompanhe anualmente os avanços da China para avaliar se vale a pena continuar aumentando a produção de soja. Outra alternativa seria estimular a demanda por produtos derivados do grão, como os biocombustíveis.
Já Beber, da Aprosoja, ressalta que a China nem sempre consegue cumprir suas metas e tem ampliado o uso de outros grãos, como o sorgo, na alimentação animal. “Ele é muito utilizado e muito consumido na China. E o farelo do sorgo acaba competindo com o de soja”, explica.
Ele também afirma que a produção de aminoácidos sintéticos utiliza derivados de soja e milho. Por isso, mesmo com a redução do consumo de farelo, o uso desses componentes poderia abrir novas oportunidades para os grãos.
Para ele, porém, o maior risco está na baixa taxa de natalidade da China, que pode reduzir a população e, consequentemente, a demanda por soja.
Saídas para o Brasil
Para Larissa Wachholz, essa dependência das compras chinesas de soja representa um risco para o Brasil. Ainda assim, a especialista avalia que a China também oferece oportunidades de parceria para o agronegócio brasileiro.
“Trazendo tecnologia tanto na parte de biotecnologia, de sementes, de insumos para a agropecuária, produtos de maquinário. Como o Brasil é um grande mercado, a gente pode usar o nosso tamanho para atrair investimentos de setores que vão ajudar a gente a ficar mais competitivo”, diz.
Patrícia Ellen afirma que o setor de soja precisa repensar sua estratégia de produção e evitar a expansão da área agrícola, para que a oferta não cresça além da demanda.”Você não cria um excedente produtivo que não vai ser consumido em outros mercados.”
Ela também defende ampliar os usos da soja, como na produção de biocombustíveis e óleo, e buscar acordos comerciais com outros mercados, especialmente na Ásia.
Lucas Beber, da Aprosoja, também vê oportunidades na abertura de novos mercados, como a Índia, onde o crescimento populacional pode aumentar a demanda por proteínas e, consequentemente, por soja.
A busca do país por alternativas de menor emissão de carbono, como os biocombustíveis, também pode beneficiar os produtores de soja e milho. “Está tendo uma mudança na cultura mundial também do aumento e da importância do consumo maior de proteínas, isso é uma grande oportunidade para o Brasil”, diz.
O presidente da Aprosoja também defende incentivos fiscais para ampliar o consumo de biocombustíveis no Brasil. Segundo ele, a medida ajudaria a aumentar a demanda interna por soja e milho e estimular a indústria nacional.
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