Brasil está entre os 10 países com mais azeites premiados do mundo em 2025

Azeitonas verdes e pretas: nascem na mesma árvore? O gosto é diferente? Veja curiosidades
O Brasil está entre os 10 países com mais azeites premiados do mundo e tem a terceira empresa mais reconhecida pelo setor na edição de 2025 da Evoo World Ranking, divulgada na sexta-feira (14).
O ranking classifica os azeites, as fazendas e os países que mais ganharam prêmios em concursos, ao longo de um ano.
Na lista de 2025, o Brasil aparece em 6º lugar na classificação por país, resultado de 264 prêmios em 21 concursos, ficando atrás de grandes produtores como Itália, Espanha, Turquia, Grécia e Portugal.
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Lista da Evoo World Ranking é referente a 2025.
Arte/g1
Em 2024, o Brasil havia entrado, pela primeira vez, no Top 5, mas, neste ano, perdeu a posição para Portugal.
Apesar do reconhecimento, o Brasil não é um grande produtor de azeite. Cerca de 99% do consumo nacional é atendido por produtores estrangeiros, principalmente por portugueses e espanhóis. Por outro lado, a pouca produção nacional que existe tem se destacado pela alta qualidade.
Fazendas premiadas
O Brasil também foi destaque na lista por empresas. A fazenda gaúcha Estância das Oliveiras conquistou o 3º lugar, atrás da turca Nova Vera Gida ve Tarim San. Tic e da portuguesa Gallo Worldwide.
Lista de 2025 da Evoo World Ranking.
Arte/g1
“Se alguém me dissesse, há 25 anos, quando plantei as primeiras oliveiras para ter um azeite honesto na mesa da família, que um dia estaríamos no pódio mundial, seria muito difícil de acreditar”, afirma Lucídio Goelzer, fundador da Estância das Oliveiras.
Em 2023, o g1 visitou a fazenda premiada para mostrar o passo a passo da produção de azeite (veja vídeo abaixo).
Caroço da azeitona também tem azeite e oliveira só dá frutos quando passa frio
Ranking por tipo de azeite
Na classificação por tipo de azeite, a Estância das Oliveiras também foi destaque e teve sete dos seus produtos classificados entre os 100 melhores do mundo.
Em seguida, está a Essenza Agroecológico, em Santo Antônio do Pinhal (SP), que teve três azeites ranqueados, e as Fazendas do Azeite Sabiá, na mesma cidade, que apareceu com um produto na lista.
Nenhum deles apareceu entre os dez primeiros lugares, somente da 22ª colocação para a frente. Os oito primeiros lugares ficaram com azeites da Espanha, seguidos por um de Portugal, no 9º lugar, e um da Turquia, em 10º.
Lista de 2025 da Evoo World Ranking.
Arte/g1
Sobre o ranking
A Evoo World Ranking foi criada pela Associação Mundial de Jornalistas e Escritores de Vinhos, Licores e outros (WAWWJ) para promover os melhores azeites extravirgens do mundo.
Para montar o ranking, a WAWWJ classifica as marcas de azeite que mais ganharam prêmios em concursos ao longo de um ano.
Classificações de livros ou revistas que não sejam competições internacionais, bem como concursos realizados parcial ou totalmente de forma virtual, não são incluídos.
As competições são classificadas por continente e país, sendo o Mario Solinas, do Conselho Internacional do Azeite, a mais importante. Elas também são organizadas por continente (ou sub-região do mundo), número de amostras e países participantes.
A Evoo World Ranking foi criada pela Associação Mundial de Jornalistas e Escritores de Vinhos, Licores e outros (WAWWJ) para promover os melhores azeites extravirgens do mundo.
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A proposta ambiciosa que fez o 'pai do Pix' deixar o Banco Central

Pix completa cinco anos
Depois de 23 anos no Banco Central (BC), Carlos Eduardo Brandt, que liderou o time que desenvolveu o Pix, resolveu há três meses deixar a instituição — e o Brasil. Trocou Brasília por Washington.
A carreira no BC era coisa de família. O pai e o avô de Brandt também foram servidores da instituição. Mas, nessas duas décadas em que ele esteve na autarquia, criada em 1964, o Banco Central do Brasil assumiu um protagonismo inédito.
E Brandt também. Em 2021, foi o único brasileiro na lista da Bloomberg das 50 pessoas que definiram os rumos dos negócios globais naquele ano. O Pix havia acabado de completar um ano e tinha dobrado a base de usuários, de 56 milhões para 113 milhões de pessoas, chamando atenção do mundo.
Desde então, o modelo de pagamentos instantâneo brasileiro, que completa cinco anos em funcionamento neste domingo (16), se tornou referência internacional e, hoje, é o elemento mais visível de um grande ecossistema que o país desenvolveu no segmento de pagamentos digitais.
Hoje, o Pix tem 161,7 milhões de usuários pessoas físicas e 16,3 milhões de pessoas jurídicas. Nestes cinco anos, movimentou R$ 85 trilhões, ou sete vezes o Produto Interno Bruto brasileiro, mostra estudo da fintech Ebanx com base em dados públicos.
A análise aponta que o sistema de pagamento já é mais popular que o cartão de crédito e é usado por 93% da população adulta do país.
A estimativa é que o sistema atinja ainda neste ano 7,9 bilhões de transações por mês ainda neste ano e que o valor total movimentado por ano chegue a R$ 35,3 trilhões, um aumento de 34% em relação a 2024.
Os números que atestam o sucesso estrondoso do Pix e a onda de inovação brasileira que que ele representa levaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) a oferecer uma vaga para Brandt na área de pagamentos e infraestruturas de mercados, onde ele atua desde agosto.
Pix como referência internacional
O FMI é uma organização global com 191 países, mais conhecido na América Latina pelos empréstimos com contrapartidas amargas, como cortes de gastos públicos, feitos no passado a países em apuros financeiros.
Mas ele também tem entre as atribuições oferecer assistência técnica aos membros e promover cooperação entre eles. E foi com essa perspectiva em mente que Brandt considerou a proposta interessante.
“A minha percepção foi de que eu poderia contribuir com outros países e numa escala global”, diz ele à BBC News Brasil.
A ideia era usar o conhecimento acumulado com a experiência brasileira para ajudar a melhorar o sistema financeiro internacional — por exemplo, buscando soluções para simplificar a realização de pagamentos instantâneos entre países, assunto sobre o qual o brasileiro tem se debruçado desde que assumiu o novo trabalho.
Esse é um mundo labiríntico, com obstáculos que vão desde a operação com moedas diferentes até as particularidades da regulamentação financeira de cada país e questões de segurança internacional.
“Cada país tem sua legislação, mas também existem os padrões internacionais que todos têm que seguir. É um quebra cabeça um pouco mais complexo”, ele ressalta.
Brandt tem observado de perto iniciativas como o projeto de interligação financeira dos 16 países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e o Nexus, do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), que propõe interligar sistemas de pagamentos de diversos países e permitir transações entre eles de forma instantânea.
O Nexus já foi apelidado de “Pix internacional” e está sendo implementado inicialmente em cinco nações asiáticas: Índia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia.
O objetivo, segundo ele, é “tentar apoiar na medida que for possível essa agenda de pagamentos entre países”, para facilitar tanto as trocas entre pessoas quanto as trocas comerciais.
Nessa seara, também está incluída a nova fronteira das finanças globais, as chamadas Central Bank Digital Currencies (CBDC), ou moedas digitais dos Bancos Centrais, que estão sendo desenvolvidas em dezenas países com tecnologia semelhante à das criptomoedas com a promessa de simplificar ainda mais as transações financeiras.
Pix se tornou referência internacional de sistema de pagamento digital
Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo via BBC
Big techs vs. Pix
Os efeitos de iniciativas como essas seriam parecidos com os do Pix, mas em escala maior: redução de custo para consumidores, desburocratização, aumento de eficiência.
Em uma fala recente sobre as CBDCs, o diretor do departamento de mercados monetários e de capitais do FMI, Tobias Adrian, comentou que imigrantes que enviam dinheiro para a família em seus respectivos países hoje pagam tarifas altas às empresas que fazem remessas de recursos entre países, desembolsando em média 6,5% do valor enviado em taxas.
“Para fazer o sistema financeiro global dar certo, precisamos nos unir e fazer os pagamentos globais darem certo. Parte dos US$ 45 bilhões de dólares pagos anualmente aos provedores de remessas poderiam voltar para os bolsos dos pobres”, afirmou na ocasião.
Como no exemplo citado pelo diretor do FMI, a simplificação do sistema global de pagamentos implica na perda de bilhões de dólares por quem hoje ganha com a intermediação financeira, como bancos e, mais recentemente, as grandes empresas de tecnologia.
Esse efeito é potencializado em um cenário de popularização do modelo brasileiro construído em torno do Pix, em que o Banco Central, e não uma empresa privada, desenvolveu, implantou e opera o sistema.
Essa é, aliás, uma das grandes particularidades do sistema de pagamentos brasileiro. Como apontou a BBC News Brasil em reportagem recente, o modelo adotado em países como a Índia, apesar do sucesso, também inspira preocupação.
No exemplo do UPI indiano, a participação de empresas privadas como operadoras do sistema acabou levando à concentração da etapa final da cadeia de pagamentos instantâneos nas mãos de multinacionais como Google e Walmart.
O modelo brasileiro, por outro lado, favoreceu o fortalecimento do mercado doméstico e garantiu autonomia ao país, objetivos que, como contou Brandt à reportagem, já estavam na perspectiva do Banco Central quando a equipe desenhou o Pix.
“Uma das coisas que norteou muito a definição do Banco Central como orquestrador foi a visão de que, para se alcançar um ecossistema de pagamentos que fosse realmente inclusivo, o mais apropriado seria ter um agente neutro”, Brandt argumenta.
“E o agente neutro por excelência, no caso brasileiro, é o Banco Central, que é o regulador e não tem nenhum tipo de objetivo de lucro.”
É um exemplo prático do que ficou conhecido como “infraestrutura pública digital”, a ideia de que algumas soluções na área de tecnologia — como a digitalização da economia — são de interesse público e, por isso, não deveriam ser controladas pela iniciativa privada.
Em 2023, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou uma campanha para impulsionar a adoção dessa infraestrutura em diversos países.
O Brasil aderiu à iniciativa e compartilhou suas experiências, entre elas, a da nova carteira de identidade nacional (CIN), vinculada à plataforma gov.br, e da Rede Nacional de Dados de Saúde, que objetiva reunir e compartilhar os dados do setor de saúde em todo o país.
“O Pix entra como essa infraestrutura pública digital, ou seja, é um bem público de que a sociedade precisa e que não pode estar dependente de uma solução privada”, diz Brandt.
“O Brasil é uma referência mundial, mas vários outros países também têm essa visão e incorporaram essa iniciativa [das infraestruturas públicas digitais]”, comenta.
A ideia tem ganhado tração internacionalmente, mas parece não agradar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O Pix recentemente entrou na mira do governo americano, que em julho o colocou na lista de assuntos que seriam investigados pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) como prática comercial desleal.
Uma das razões apontadas para a investida seria o impacto do sistema de pagamentos brasileiro no bolso das big techs, as grandes empresas de tecnologia, que deixam de ganhar dinheiro por conta da forma como ele foi desenhado.
Questionado sobre o assunto pela reportagem, Brandt evita polêmicas e diz que, em sua visão, “as infraestruturas digitais públicas são um jogo de ganha-ganha”.
“Porque, à medida que você tem um processo de digitalização da economia, você tem um processo de digitalização amplo, em diversos segmentos”, ele argumenta, emendando que essa dinâmica também pode abrir novas oportunidades de negócios para as empresas de tecnologia.
Sobre a investigação contra o Pix, que ainda está em curso, o brasileiro afirma que “cada governo é livre para tentar identificar e formar sua convicção em relação a cada configuração” no setor de pagamentos.
E completa: “O que eu tenho a dizer é que o Banco Central do Brasil foi muito convicto naquilo que foi feito, sempre foi muito baseado em objetivos públicos que pudessem se traduzir em benefícios à sociedade brasileira”.
‘Laboratório global’ de finanças digitais
O Pix é a ponta mais visível de uma grande rede de inovação na área de finanças digitais construída no decorrer da última década que acabou tornando o Brasil referência internacional no segmento de finanças digitais.
Em um relatório recente, o fundo de investimento em capital de risco Valor Capital Group, que atua nos EUA e na América Latina, se dedicou a analisar a experiência brasileira nesse sentido, destacando que “o Brasil oferece um exemplo concreto de como uma infraestrutura digital coordenada e inclusiva pode acelerar o progresso”.
Referindo-se ao país como um “laboratório global de finanças digitais”, o texto lista, além do Pix, iniciativas como o Open Finance, o sistema desenvolvido para permitir o compartilhamento seguro de dados financeiros de clientes entre diferentes instituições financeiras e o sistema unificado de identificação digital do governo federal, o gov.br.
Ex-funcionário de carreira do Banco Central, Carlos Eduardo Brandt liderou time que desenvolveu o Pix
Reprodução/LinkedIn via BBC

O turismo rural feito no ritmo das pedaladas

Grupo de ciclistas percorre estradas rurais entre Cabreúva (SP) e Itupeva (SP).
TV TEM/Reprodução
Entre estradas de terra e fazendas centenárias, um grupo de amigos de Cabreúva (SP) transforma o ciclismo em uma viagem pela história do interior paulista. As rotas, traçadas com a ajuda de imagens de satélite, cruzam propriedades rurais, rios e vilarejos que ainda guardam lembranças do ciclo do café.
Um dos pontos preferidos do grupo é o Armazém do Limoeiro, construído em 1901. Hoje, o espaço funciona como café, mas mantém balcões e estruturas originais da antiga fazenda. “Era um lugar de encontro da comunidade, com capela e farmácia”, lembra o gerente Ivan Diniz.
O trajeto segue até Itupeva (SP), passando por subidas e trechos de mata. No vilarejo conhecido como Quilombinho — onde antes se escondiam pessoas escravizadas fugidas — funciona um café mantido por ciclistas da região. O local fica próximo a áreas ligadas à artista Tarsila do Amaral, o que reforça o caráter histórico do pedal.
De São Paulo, ciclistas como a médica Márcia Cardinari viajam aos fins de semana para participar dos percursos. “São até 80 quilômetros só por terra, cercados de paisagem e história”, conta.
Entre o esforço das subidas e o som das rodas na terra batida, o grupo encontra no ciclismo uma forma de desacelerar, contemplar e se reconectar com o que o interior tem de mais genuíno.
Veja a reportagem exibida no programa em 16/11/2025:
O turismo rural feito no ritmo das pedaladas
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Falta de mão-de-obra no campo preocupa produtores rurais

Falta de mão de obra no campo afeta produtores do interior de SP
TV TEM/Reprodução
Parte da fazenda administrada por Ione Gomes é composta por um mar de seringueiras. São 80 mil pés espalhados pela propriedade, que exigem intensa mão de obra durante o período de safra.
No entanto, de uns anos pra cá, Ione enfrenta o mesmo desafio que tem atingido produtores de diferentes regiões: a falta de mão de obra no campo.
A propriedade também cultiva laranja e, para a colheita, uma empresa será contratada. Mas, a manutenção do laranjal é feita pelos próprios funcionários da fazenda.
O mesmo problema enfrentado por Ione também preocupa o produtor rural Mário Santesso. Ele cultiva 5 mil pés de tomate e colhe de 200 a 300 caixas por semana. A lavoura, porém, é mantida por apenas seis trabalhadores, um número abaixo do ideal.
Com a escassez de profissionais, muitos produtores têm apostado na tecnologia para driblar o problema. Em uma indústria de cabines e vidros agrícolas de Ibirá (SP), máquinas de última geração estão ajudando a reduzir os impactos da falta de funcionários.
Veja a reportagem exibida no programa em 16/11/2025:
Falta de mão-de-obra no campo preocupa produtores rurais
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Mercado de tuias e ciprestes aquece no final do ano

Pés de ciprestes italianos cultivados na propriedade de Mara Regina Stangari, em Herculândia (SP)
Reprodução/TV TEM
Os pés de ciprestes italianos transformam qualquer lugar em uma cena de filme. Em Herculândia (SP), são mais de 30 mil árvores cultivadas com muito cuidado pela produtora Mara Regina Stangari, que há mais de 30 anos trabalha com a espécie de planta. Além de bonito, o cipreste é muito usado em projetos de paisagismo e também serve como quebra-vento em áreas rurais.
O processo de cultivo também exige atenção para que a planta chegue até o cliente em bom estado. “A gente vai trocando de embalagem conforme a planta cresce, tudo para garantir que ela chegue bonita e firme na casa do cliente, do jeitinho que sai daqui, toda enraizada. É só cortar a embalagem, colocar na cova e ela segue linda, sem problema nenhum”, comenta Mara.
Para manter tudo saudável, o cuidado precisa ser diário. A área onde as plantas ficam é sempre limpa, adubada e irrigada por gotejamento, que deixa a terra sempre molhada, para isso, Mara explica que todas as plantas contam com um sistema que libera dois litros de água por hora.
“Cipreste não gosta de muita água, só de umidade. E tem que manter limpo, porque o mato rouba o que a planta precisa para crescer. Acabou um talhão, a gente já vai pro outro”, explica Mara.
Em uma outra propriedade, Márcio Sérgio Longhi cultiva tuia holandesa, uma espécie de pinheiro usado para árvores de Natal. Ele consegue vender mais de duzentas mudas por mês e complementa a renda da família.
“O pessoal quer enfeitar e muita gente tá voltando pro natural, que tem mais vida. Depois do Natal, é só colocar no sol e cuidar direitinho, que ela dura muitos anos”, diz.
Empresário Márcio Sérgio Longhi cultivando tuia holandesa em sua propriedade
Reprodução/TV TEM
Veja a reportagem exibida no programa em 16/11/2025:
Mercado de tuias e ciprestes aquece no final do ano
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Pecuária que preserva, cacau que refloresta: como o dinheiro do clima chega ao campo

Os guardiões do campo nativo: como pequenos pecuaristas estão regenerando o Pampa
“A gente vê essas catástrofes que estão ocorrendo… muitas vezes é (por) não preservar a natureza”, diz o pecuarista familiar Antônio Bonoto, que vive no Pampa gaúcho, em Alegrete (RS).
A mais de 3 mil km dali, no meio da Mata Atlântica, em Ilhéus (BA), a mesma ideia ecoa na voz do cacique Tupinambá Alicio Francisco: “Não desmata a cabeceira de água, que é a nossa vida. A gente, sem água, como é que nós vamos viver?”.
Os dois fazem parte de comunidades rurais que conseguiram recursos para preservar o meio ambiente, mostrando, na prática, como o financiamento climático está chegando no campo brasileiro.
➡️Esta reportagem faz parte do quinto episódio da série “PF: Prato do Futuro”, onde o g1 mostra soluções para desafios da produção de alimentos no Brasil.
O financiamento climático é o dinheiro investido em projetos que ajudam a diminuir as emissões de gases poluentes e a preparar territórios e sistemas produtivos para lidar com os impactos do aquecimento global, como secas e enchentes.
Esse é um dos temas centrais da COP30, a Conferência do Clima da ONU, em Belém. No evento, o foco dos países tem sido o financiamento para a conservação de florestas.
Mas, no Brasil, investir na agropecuária sustentável também é essencial para atingir metas climáticas. Afinal, ela responde por 28% das emissões de poluentes no país, depois do desmatamento.
Para isso, um dos desafios é fazer com que o “dinheiro do clima” chegue a pequenos produtores, grupo que hoje tem mais dificuldades para acessar recursos, seja por meio de incentivos e doações ou empréstimos.
No Sul e no Nordeste, o g1 conheceu alguns caminhos. Nas cidades de Alegrete e Lavras do Sul (RS), pequenos pecuaristas recebem assistência técnica gratuita para recuperar a vegetação do Pampa, a partir de recursos de uma lei ambiental do estado (veja no vídeo acima).
Em Ilhéus, a comunidade da Aldeia Tupinambá do Acuípe de Cima conseguiu um empréstimo pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), do governo federal, para cultivar cacau reflorestando a Mata Atlântica (veja no vídeo abaixo).
Como indígenas usam financiamento do governo para montar agroflorestas
Recuperando o Pampa Gaúcho
Imagem de uma propriedade em Lavras do Sul (RS) que teve o apoio do projeto de Recuperação de Biomas, que ensina pequenos pecuaristas a regenerarem a vegetação do Pampa.
Giaccomo Voccio/g1
O projeto que o g1 conheceu no Sul foi criado pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura do RS (Fetag-RS), em 2018, com o objetivo de ensinar técnicas de regeneração do Pampa a pecuaristas familiares.
🔎 Entre 2015 e 2024, o Pampa perdeu 13.000 km² de vegetação nativa. Isso é praticamente nove vezes a cidade de São Paulo.
O projeto recebe recursos por meio de uma lei estadual de Reposição Florestal Obrigatória (RFO), que determina que empresas que desmatam compensem o impacto com o plantio de mudas, a compra de unidades de conservação para doação ao estado, etc.
Mas há uma opção específica para as empresas que constroem obras de interesse público, como estradas e aeroportos: a de investir em projetos de sustentabilidade aprovados pelo governo do RS. Um deles é justamente a iniciativa da Fetag.
Uma das empresas com dívidas ambientais que financia o projeto é a companhia de energia CPFL. “Para fazer a manutenção das nossas redes elétricas e implantar novos empreendimentos, a gente precisa, muitas vezes, suprimir vegetação”, diz Robson Tanaka, gerente de meio ambiente da companhia.
A CPFL libera recursos para a Fetag, normalmente, a cada três meses, mediante prestação de contas.
O projeto começa com um pagamento inicial, mas as próximas parcelas são pagas após o envio de relatórios à CPFL e ao governo estadual que comprovem como o dinheiro foi usado no trimestre anterior.
A empresa também faz vistorias nas propriedades, enquanto o governo estadual emite o laudo final comparando o antes e o depois da área.
Nessa última etapa, a propriedade precisa ter tido um aumento no número de espécies nativas e na qualidade do solo.
“Se tu identificou 20, 30 espécies naturais do bioma Pampa na primeira visita, o projeto, no mínimo, vai ter que sair com 40 espécies”, explica José Mário Araújo Mafaldo, engenheiro agrônomo da Fetag/RS.
Desde 2019, o projeto já recuperou 7.070 hectares de campo nativo.
Veja fotos do Pampa gaúcho
O que a pecuária familiar tem a ver com preservação? 🐂
Boa parte da vegetação nativa que foi destruída no Pampa nos últimos 10 anos deu lugar a plantações de soja, segundo a rede MapBiomas.
Muitos produtores rurais têm sido atraídos para essa atividade em busca de maior rentabilidade, abandonando atividades tradicionais, como a pecuária familiar.
O Pampa, inclusive, tem uma peculiaridade quando se trata de pecuária porque ele é um bioma formado por pastos naturais, ou seja, por espécies de gramíneas e leguminosas que servem de alimentação para os animais, explica o pesquisador da Embrapa Marcos Borba.
É por isso que é menos comum que o pequeno pecuarista da região desmate uma grande área, como acontece no cultivo da soja.
Mas a pecuária também pode degradar o solo e eliminar espécies nativas se o produtor não cuidar da terra. Um exemplo prático é que as plantas mais consumidas pelo gado tendem a desaparecer ou diminuir no Pampa, explica Borba.
Com o tempo, as espécies que não servem de alimento acabam se sobressaindo no campo, e o pecuarista passa a enxergá-las como indesejadas, o que é um erro, destaca o pesquisador.
“Muitas plantas que os produtores costumam considerar como ‘invasoras’ no Pampa têm funções estratégicas. Muitas ajudam na entrada da água no solo e reciclam nutrientes por meio de suas raízes profundas”, exemplifica Borba.
É por isso que, durante o projeto, os técnicos fazem um trabalho de conscientização dos produtores sobre a importância de cada planta no bioma.
O Pampa abriga mais de 3 mil espécies de plantas, cerca de 450 gramíneas e aproximadamente leguminosas. Da esquerda para à direita: orelha de rato; pega pega, boiadeira da coxilha.
Giaccomo Voccio/g1
Além disso, eles ensinam as formas corretas de rotação do gado para o descanso do solo e técnicas de adubação para recuperar espécies.
“Faz dois anos e meio que a gente está no projeto. Antes, a gente via o solo se degradando. Hoje a gente pode observar o campo com mais vigor”, diz o pecuarista familiar Anderson Soares Ribeiro.
Indígenas que plantam para preservar
Agrofloresta na aldeia Tupinambá do Acuípe de Cima
Rafael Peixoto / g1
A aldeia indígena Tupinambá do Acuípe de Cima, na Bahia, reuniu 11 famílias que, juntas, conseguiram cerca de R$ 50 mil para plantar cacau com melhoramento genético.
O cultivo realizado pelos indígenas é o cabruca, em que o fruto se desenvolve na sombra da Mata Atlântica.
A técnica preserva a floresta, que é o bioma mais devastado do Brasil, segundo a Fundação SOS Mata Atlântica. De acordo com a instituição, atualmente, restam apenas 24% da mata nativa.
Os indígenas da aldeia Tupinambá também pretendem ampliar o plantio de agroflorestas, que unem diversas espécies produtivas, como o cacau, bananeiras, coqueiros, feijão e mandioca. Com isso, eles vão recuperar áreas que foram desmatadas para pastagem.
Tudo isso será possível por causa do financiamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), uma linha de crédito do governo que oferece condições especiais, como juros mais baixos e prazos maiores para pagamento do empréstimo.
“A gente pensava que não tinha como indígenas pegarem um projeto bom desse”, conta Alberto Lopes, um dos beneficiários do programa.
Indígenas da aldeia Tupinambá do Acuípe de Cima, em Ilhéus, juntamente do ativador de crédito Rodrigo Figueiredo e representante dos cursos técnicos na Bahia.
Rafael Peixoto / g1
O crédito rural é a principal fonte de recursos para financiar práticas sustentáveis na agropecuária, no Brasil, segundo a Climate Policy Initiative.
Mas pequenos produtores e comunidades tradicionais ainda têm dificuldades para acessá-lo.
Isso acontece inclusive com o Pronaf, por diversos motivos. Por exemplo, produtores que não sabem que ele existe, não têm documentos ou até mesmo por não entenderem realmente o que é.

Como levar crédito para mais gente
Pensando na dificuldade que os produtores têm, o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) criou a iniciativa CredAmbiental. Foi por meio dela que o grupo de indígenas Tupinambá conseguiu o empréstimo.
O projeto treina moradores das próprias comunidades para ajudar os produtores na solicitação do crédito. Essas pessoas, que são chamadas de “ativadores de crédito”, explicam as regras do financiamento, reúnem documentos, negociam com o banco e elaboram o projeto que mostra como o dinheiro será usado e devolvido.
“Os produtores pegavam o crédito e diziam que era algo que vinha do governo e não precisava pagar. Até hoje a gente atua muito em desconstruir essa informação”, explica Josué Castro, ativador de crédito.
“Não é para pegar o dinheiro e gastar com carro velho, como antes se fazia. Ele tem que ser investido naquela atividade”, diz.
Castro explica que os ativadores de crédito também visitam os produtores, os orientam e escrevem laudos atestando a efetividade daquele crédito. “Com isso, o produtor vai produzir mais e melhor”, afirma.
Os ativadores de crédito recebem uma bolsa de 18 meses, para começar o trabalho com os beneficiários. Depois desse período, cada banco define com a Conexsus o valor a ser pago por contrato efetivado do Pronaf.
Esse dinheiro é usado para pagar os ativadores e manter os cursos de capacitação, explica Fernando Moretti, líder de crédito da Conexsus.
A Conexsus também trabalha com instituições locais que oferecem aulas sobre plantio sustentável e ensinam os agricultores como manter um negócio para gerar renda.
“A gente não quer que o crédito seja um fator de endividamento. Ele precisa ser um fator de empoderamento”, afirma Fabíola Zerbini, diretora executiva da Conexsus e integrante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
Com essa metodologia, 98% dos produtores assessorados pela Conexsus estão com os pagamentos em dia, segundo o instituto.
No momento, 1.054 estão com o empréstimo do Pronaf, adquirido por meio da Conexsus.
Cacau plantado na agrofloresta da aldeia Tupinambá do Acuípe de Cima
Rafael Peixoto / g1
O governo federal lançou no ano passado o programa “Florestas Produtivas”, com proposta semelhante à da Conexsus.
O programa do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) oferece capacitação em técnicas sustentáveis em lavouras experimentais e atendimento personalizado. Os agentes ajudam desde o diagnóstico da propriedade até a elaboração do projeto de crédito.
“Quando eu financio uma agrofloresta, estou fazendo financiamento climático”, diz Moises Savian, secretário de Governança Fundiária, Desenvolvimento Territorial e Socioambiental do MDA.
O projeto ainda está na fase inicial e atua em municípios do Pará, do Maranhão, do Amapá e do Acre.
Veja fotos da Aldeia Tupinambá do Acuípe de Cim

Quanto custa conter o aquecimento global e quem banca sustentabilidade no campo

Financiamento climático: quem banca o agro sustentável
O preço para conter o aquecimento global é gigantesco: US$ 8 trilhões por ano, até 2035. Este é o valor que o mundo precisa para impedir que a temperatura do planeta aumente mais de 1,5 °C até lá.
Ele leva em consideração o investimento necessário para produzir alimentos de forma mais sustentável, recuperar florestas, criar fontes de energia limpa e uma série de outras ações para reduzir a emissão de gases poluentes à atmosfera.
➡️Esta reportagem faz parte do quinto episódio da série “PF: Prato do Futuro”, onde o g1 mostra soluções para desafios da produção de alimentos no Brasil.
O valor foi calculado pelo Grupo de Especialistas Independentes de Alto Nível em Financiamento Climático, da London School of Economics. Ele foi apresentado na Conferência do Clima da ONU (COP) de 2024, no Azerbaijão.
Agora, o tema do financiamento climático volta à mesa de debates da COP 30, em Belém, e um dos grandes desafios é como os países vão conseguir esses trilhões.
Enquanto isso não é definido, o Brasil já vem criando os seus próprios caminhos. No campo, o investimento em práticas agropecuárias sustentáveis tem sido impulsionado, em grande parte, pelo crédito rural — ou seja, por empréstimos bancários.
E um dos grandes desafios é fazer com que esse dinheiro consiga chegar a pequenos produtores e comunidades tradicionais.
O g1 foi à Bahia e ao Rio Grande do Sul para mostrar dois exemplos onde essas barreiras foram superadas.
Na reportagem a seguir, saiba mais sobre:
quanto as nações estão dispostas a pagar;
quem financia a agricultura sustentável no Brasil;
as barreiras que pequenos produtores enfrentam;
qual é a participação da filantropia e dos fundos climáticos.
Quanto as nações estão dispostas a pagar
Os especialistas da London School não têm um cálculo sobre o quanto o Brasil precisa para fazer a transição climática, mas eles estimam que nações emergentes e em desenvolvimento vão precisar, juntas, de cerca de US$ 3,5 trilhões por ano, até 2035.
Uma das discussões mais antigas das Conferências do Clima é como países ricos, como Inglaterra, França, Alemanha, Estados Unidos, vão ajudar os mais pobres a cumprir metas de despoluição.
Isso porque eles são considerados “devedores climáticos” por terem se industrializado primeiro e enriquecido a partir do uso intensivo de combustíveis poluentes, como carvão e petróleo.
💵Um dos acordos firmados após a COP 2024 é que os países ricos direcionem, pelo menos, US$ 300 bilhões para as nações em desenvolvimento, até 2035.
No mesmo período, todos os países devem fazer um esforço para que esse volume chegue a US$ 1,3 trilhão, explica o sócio-diretor da Agroicone, Rodrigo Lima, que participa dos debates de financiamento nas conferências da ONU.
Ele ressalta que há um consenso entre as lideranças mundiais de que esse dinheiro não virá apenas de doações, mas, principalmente, de empréstimos.
“A grande discussão agora é como esses recursos vão chegar aos países com juros menores que os praticados no mercado”, diz Paulo Camuri, gerente de Ciências do Clima do Imaflora.
Um exemplo dessa tendência do financiamento climático é so Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), proposto pelo Brasil, que pretende usar um modelo de investimento de renda fixa para gerar recursos destinados à conservação de florestas tropicais (entenda aqui).
Quem financia agricultura sustentável no Brasil
Enquanto o mundo ainda discute como vai financiar as nações em desenvolvimento, dados da ONG Climate Policy Initiative (CPI) mostram que o Brasil tem bancado a maior parte das ações climáticas voltadas para o uso da terra, ou seja, na agropecuária sustentável e na preservação de florestas (veja os números abaixo).
“Na ausência de uma ação climática global mais contundente, grande parte do investimento acaba acontecendo a nível nacional. Isso mostra que o mundo não tem conseguido criar estruturas adequadas para atacar a crise climática”, diz Juliano Assunção, diretor-executivo da CPI.
O relatório da ONG também detalha os dados por tipo de instrumento financeiro. Nele, o crédito rural aparece como a principal fonte dos recursos, respondendo por 58% do total.
O que mostra que a maior parte do financiamento climático voltado ao uso da terra no Brasil tem sido bancada por empréstimos contratados por produtores rurais.
Esse dinheiro tem sido direcionado para técnicas de baixo carbono – como plantio direto, integração de lavoura-pecuária-floresta, agroecologia, agrofloresta –, além de recuperação de pastagens degradadas.
Brasil ainda tem pouco crédito para sustentabilidade 🌱
Hoje é o governo federal quem define a quantidade de dinheiro e os tipos de empréstimos voltados para os produtores rurais. Essas informações são atualizadas todos os anos por meio do Plano Safra.
Ele tem algumas linhas diretamente voltadas para agropecuária sustentável, como o RenovAgro, que, por muitos anos, foi chamado de Plano ABC.
Tem também modalidades específicas dentro do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) – que atende pequenos produtores – como o Pronaf Floresta, Bioeconomia e Agroecologia.
No entanto, alguns estudos mostram que essas linhas representam pouco dentro de todo o crédito rural liberado no Brasil.
Um levantamento da consultoria Agroicone aponta que os empréstimos contratados para investimentos em sustentabilidade chegaram a R$ 69,2 bilhões na safra 2024/25, o que representou apenas 23,2% de todo o crédito rural liberado no período.
Gustavo Lobo, pesquisador da consultoria, explica que esse valor inclui tanto os empréstimos direcionados para práticas de baixo carbono, como outros que não têm esse objetivo, mas que foram aplicados neste fim. A consultoria rastreou os dados pelo Banco Central.
As barreiras que pequenos produtores enfrentam
Um dos maiores desafios para destravar o financiamento climático no Brasil é ampliar o acesso ao crédito para pequenos produtores e comunidades tradicionais.
“A maior parte do crédito rural ainda não chega aos pequenos produtores, extrativistas, pescadores, quilombolas e povos indígenas — justamente os que mais cuidam dos territórios e produzem com base na sociobiodiversidade”, afirma a diretora-executiva do Fundo Casa Socioambiental, Cristina Orpheo.
As linhas do Pronaf, que atende esse público, têm juros menores que os empréstimos convencionais, mas respondem por 17% do crédito subvencionado pelo governo federal. O restante vai para médios e grandes produtores, segundo dados do Banco Central.
Travas para acessar os bancos 💰
Além de menos recursos, os pequenos também esbarram na própria indisposição dos bancos, diz Paulo Camuri, do Imaflora.
“Os bancos, em geral, priorizam grandes projetos, como aqueles que envolvem empréstimos de R$ 200 milhões, onde o custo para ele ir lá na propriedade verificar como o dinheiro está sendo usado vai compensar para ele”, exemplifica Camuri.
“[Os agricultores] brincam que você chega no banco, só tem um cardápio: que é boi, palanque e cerca”, diz Moises Savian, secretário de Governança Fundiária, Desenvolvimento Territorial e Socioambiental do MDA.
Mas existem ainda barreiras bem anteriores à ida ao banco.
Isso porque muitos pequenos produtores não sabem nem mesmo o que é crédito rural ou não têm nem conta bancária ou documentos básicos, como RG ou CPF, conta Fabíola Zerbine, diretora-executiva do Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus).
A ONG tem, inclusive, uma iniciativa chamada CredAmbiental que ajuda agricultores familiares e povos tradicionais a acessarem o Pronaf.
➡️O projeto treina moradores das próprias comunidades para se tornarem “ativadores de crédito”, ou seja, pessoas que entendem das regras de financiamento, que reúnem documentos, negociam com os bancos e elaboram projetos sobre como o dinheiro será usado e devolvido.
O g1 foi conhecer de perto a iniciativa em uma comunidade indígena Tupinambá, em Ilhéus (BA), que conseguiu acessar o Pronaf Floresta para cultivar cacau e reflorestar a Mata Atlântica.
Indígenas da aldeia Tupinambá do Acuípe de Cima, em Ilhéus (BA), com ativadores de crédito e assistência técnica.
Rafael Peixoto / g1
O projeto também dá suporte a comunidades sobre o uso consciente do dinheiro, o que tem dado resultado. Segundo Zerbini, 98% das pessoas que participam do CredAmbiental estão em dia com os empréstimos.
“A gente não quer que o crédito seja um fator de endividamento. Ele precisa ser um fator de empoderamento”, diz Zerbini.
O que vem da filantropia e de fundos climáticos
A diretora-executiva do Fundo Casa Socioambiental, Cristina Orpheo, afirma que o crédito rural é importante, “mas ele tem limites quando se fala em inclusão e justiça socioambiental”.
Para ela, é muito importante que povos tradicionais e pequenos produtores recebam mais investimentos diretos, que não exijam reembolso, como doações e incentivos públicos e privados.
“Isso é importante para que eles possam construir uma capacidade mínima de produção, de gestão, para depois, mais estruturados e confiantes, entrarem em um financiamento”, diz Orpheo.
Dados da Climate Policy Initiative mostram que a filantropia representa cerca de 0,06% das fontes de financiamento climático em agropecuária e florestas.
O Fundo Casa Socioambiental capta, por exemplo, recursos de fora do Brasil, principalmente de fundações filantrópicas, para investir em projetos de sustentabilidade.
“O ideal seria combinar esses dois mecanismos financeiros: crédito acessível, sim, mas também recursos diretos, flexíveis e de longo prazo”, acrescenta.
Alguns fundos climáticos também oferecem recursos que não exigem devolução para projetos de sustentabilidade. Hoje, eles representam cerca de 0,2% de todo o financiamento para o uso da terra.
Um exemplo é o Fundo Amazônia, do governo federal, que capta doações para investimentos não reembolsáveis no combate ao desmatamento e à conservação da Amazônia Legal, e que também tem apoiado projetos que envolvem a produção de alimentos de comunidades tradicionais.
Criado em 2008, o Fundo Amazônia foi paralisado em 2019. E a sua retomada, em 2023, foi um dos fatores que contribuiu para a queda do desmatamento no bioma este ano.
O governo também tem o Fundo Clima, que foi criado em 2009, com o objetivo de financiar projetos de mitigação e adaptação climática.
➡️As ações de mitigação têm o objetivo de reduzir emissões de gases poluentes, enquanto as de adaptação, de preparar territórios para extremos climáticos, como secas e enchentes.
No entanto, menos de 1% do Fundo Clima é formado por recursos não reembolsáveis, segundo dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop), consolidados pelo Observatório do Clima.
Esse dinheiro, que gira em torno de R$ 4,5 milhões, é gerido pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).
Já o restante dos recursos, que correspondem a R$ 24 bilhões, são administrados pelo BNDES e direcionados para empréstimos. A maior parte vai para a indústria (57%) e infraestrutura (38%), e o restante para o comércio (4%) e a agropecuária (1%).
As empresas de grande e médio porte recebem 98% desses empréstimos.

Funcionários do Nubank divulgam manifesto contra fim do home office; entenda

Funcionários relatam impactos do fim do remoto no Nubank
Funcionários do Nubank divulgaram um manifesto na última quarta-feira (12), afirmando que a mudança para o modelo híbrido vai exigir uma reorganização profunda na vida pessoal e profissional de cada um.
De acordo com os relatos, muitos teriam aceitado as vagas no banco por conta do regime de home office, e organizaram a vida familiar e financeira em outras cidades, inclusive comprando imóveis e assinando contratos de aluguel.
Trabalhadores alegam que a exigência de retorno presencial pode dificultar a rotina familiar, especialmente para quem cuida de filhos, pais ou outros familiares, tornando mais difícil cumprir os novos requisitos da instituição.
Esses pontos dominaram a plenária virtual organizada pelo Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, realizada na última quarta-feira (12), que reuniu quase 300 participantes. O encontro trouxe críticas à forma como a mudança foi comunicada, questionamentos sobre falta de diálogo e preocupação com demissões por justa causa.
O manifesto também cita estudos e aponta impacto maior sobre cuidadores de pessoas com deficiência. Além disso, afirma que deslocamentos para grandes centros urbanos podem reduzir a renda disponível e afetar a qualidade de vida.
Entenda o caso
A plenária foi realizada após o Nubank anunciar que vai adotar o modelo híbrido de trabalho. O plano prevê dois dias presenciais por semana a partir de julho de 2026 e três dias a partir de janeiro de 2027.
A medida valerá para cerca de 70% do quadro e substituirá o formato atual, que exige apenas uma semana presencial por trimestre.
A mudança gerou reação imediata. No mesmo dia do anúncio, em reunião com o CEO David Vélez, 12 funcionários foram demitidos por justa causa . Em comentários feitos por meio do LinkedIn, Vélez teria indicado que esses colaboradores teriam sido desligados por terem extrapolado os limites aceitáveis do ambiente profissional.
Durante a plenária, trabalhadores afirmaram que as demissões impactaram principalmente pessoas de grupos minorizados, o que aumentou a mobilização.
Em nota oficial enviada ao g1, o Nubank afirmou que mantém “canais e rituais abertos para o livre debate entre seus funcionários, mas não tolera desrespeito ou violações de conduta”. “O Nubank não comenta casos individuais de desligamento”, completou o banco.
Logo do Nubank na Bolsa de Valores de Nova York.
Brendan McDermid/ Reuters
O que dizem os funcionários?
Segundo relatos ao sindicato, a mudança para o modelo híbrido não foi negociada e há receio entre trabalhadores, que temem demissões caso não aceitem o aditivo contratual.
Outro ponto recorrente foi o formulário de exceções, usado pelo Nubank para analisar casos específicos. Segundo relatos, o processo só está disponível para cargos com certo nível de senioridade, e algumas áreas não têm acesso à ferramenta.
Entre as reivindicações dos trabalhadores está a reversão da política de retorno ao presencial e uma maior transparência sobre os critérios para concessão de exceções.
Os funcionários também pedem a suspensão de advertências e punições aplicadas após manifestações contrárias à decisão. A reintegração dos 14 demitidos é considerada condição mínima para iniciar negociações.
Os trabalhadores ainda defendem a construção de um acordo coletivo com regras claras e estáveis, garantindo previsibilidade para quem foi contratado em regime remoto.
Defender home office nas redes custou o emprego deles
O que acontece agora?
O sindicato orientou trabalhadores a registrarem denúncias pelos canais oficiais, com garantia de sigilo, e anunciou que uma nova reunião será feita com a direção do Nubank em 19 de novembro.
A entidade informou que pode entrar com ação judicial caso não haja avanço nas negociações, além de pleitear novas plenárias, consolidar relatos para envio ao RH e, se necessário, buscar mediação em órgãos públicos.
O que diz o Nubank?
Segundo o Sindicato, o Nubank ainda não apresentou um posicionamento sobre as demissões e os temas discutidos na plenária.
Em nota enviada ao g1, no entanto, o Nubank afirmou que mantém o diálogo “aberto e transparente”.
“O Nubank esclarece que mantém diálogo aberto e transparente com todas as entidades representativas apropriadas”, afirmou em nota.
A instituição também afirmou que a transição para o modelo híbrido foi planejada para combinar “o melhor do presencial e do remoto”, reiterando que as alterações terão implementação gradual.
Ainda segundo o banco, a mudança busca “fortalecer a cultura, aumentar colaboração e acelerar inovação, com base em estudos internos e comparações com empresas de alta performance”.
O Nubank informou que oferecerá suporte à realocação e analisará exceções para casos específicos, mas reforçou que o trabalho presencial será o novo padrão para a maior parte das equipes, destacando que continua a avaliar todos os feedbacks recebidos pelos funcionários.
O banco ainda afirmou que está investindo em novos escritórios no Brasil e no exterior e reiterou que o período de transição permitirá ajustes individuais antes da implementação completa.
Por que tantos profissionais preferem se demitir a deixar o home office?
A sede do Nubank em São Paulo.
Getty Images via BBC

'Piorou para o Brasil', dizem exportadores de café após redução de tarifas globais dos EUA; setores de carnes e frutas veem avanço

Tarifa de 40% sobre o café ‘continua proibitiva’, diz presidente do Cecafé.
Após comemoração inicial, exportadores brasileiros de carne, café e frutas adotaram um tom mais cauteloso e até pessimista em relação à redução das tarifas de importação pelos Estados Unidos.
Na sexta-feira (14), os EUA reduziram a taxa global de 10% para cerca de 200 produtos, mas mantiveram a sobretaxa de 40% ao Brasil.
“Melhorou para os nossos concorrentes e piorou para o Brasil”, disse o diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcos Matos, ao g1.
O café brasileiro estava sendo taxado em 50% nos EUA. Com o anúncio de sexta, a tarifa caiu para 40%, mas grandes concorrentes, como a Colômbia e o Vietnã, tiveram a sua tarifa zerada, explicou Matos.
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“Muitos já tinham acordo bilateral formado, outros estavam com 10% como a Colômbia e a Etiópia”, disse o diretor.
À GloboNews, o presidente do Cecafé, Márcio Ferreira, reafirmou a preocupação do setor.
“[A taxa de] 40%, se ficar, continua proibitiva e não muda nada. O Brasil continua totalmente fora do jogo”.
Os Estados Unidos são o principal comprador de café do Brasil e respondem por cerca de 16% de tudo o que o país exporta, segundo o Ministério da Agricultura.
Com o tarifaço, as importações americanas de café brasileiro caíram pela metade (51,5%) entre agosto e outubro – meses de vigência da taxa de 50% –, em relação ao mesmo período de 2024, informou o Cecafé.
LISTA: veja todos os produtos com redução de tarifas pelos EUA
Repercussão: exportadores de carne comemoraram
A Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) se pronunciou neste sábado (14) lamentando que a decisão de Trump não incluiu a sobretaxa de 40%.
“Tal situação amplia as distorções no comércio e tende a intensificar, no curto prazo, a queda nas exportações de cafés especiais aos Estados Unidos”, afirmou a entidade.
Entre agosto a outubro, as exportações de cafés especiais caíram cerca de 55% em quantidade, em relação a igual período de 2024.
Casa Branca anuncia suspensão de tarifa de 10% sobre o Brasil
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a medida de Trump se aplica a 80 itens agrícolas vendidos pelo Brasil aos Estados Unidos. Porém, somente quatro produtos – três tipos de suco de laranja e castanha do pará – ficaram isentos de taxas.
Carnes e frutas
Já o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, afirmou que a decisão dos EUA é “uma boa sinalização para o mercado brasileiro”.
“Os Estados Unidos são o nosso segundo maior mercado para a exportação de carne bovina e estava fazendo falta”.
“É um motivo de comemoração comedida, mas com uma perspectiva muito positiva para que a gente possa ter a retirada total das tarifas”, disse Perosa.
A Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) viu a medida como “um avanço relevante para o setor”, mas disse que se preocupa com o fato de a uva, segunda fruta brasileira mais exportada para os EUA, ter ficado de fora da lista das exceções.
“Mais de US$ 40 milhões foram enviados no ano passado só para os Estados Unidos, de uva. Então vai afetar”, disse o diretor-executivo da Abrafrutas, Eduardo Brandão.
O Brasil exporta uva para os EUA a partir de setembro, quando a colheita começa.
Segundo a associação, as exportações da fruta para o país caíram 73% em valor e quase 68% em quantidade, no terceiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2024.

Repercussão no governo
O embaixador Celso Amorim, assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, classificaram a medida como uma boa notícia, mas ressaltaram estarem atentos também a itens que entraram no tarifaço e ainda não foram flexibilizados.
Ao g1, Celso Amorim destacou que a decisão possui “uma racionalidade própria” relativa à situação da inflação americana, mas viu influência do bom clima entre Lula e Trump.
Em uma rede social, o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, disse que a decisão “reforça a força do nosso país no cenário internacional”.
Para a GloboNews, o ministro Carlos Fávaro afirmou que se reuniu com sua equipe do ministério da Agricultura para avaliar a nova decisão de Trump.
“Voltamos à boa diplomacia, ao diálogo, à amizade de 200 anos. O diálogo voltou”, disse.
Segundo o ministro, o governo ainda está observando na minúcia o que foi suspenso de fato e estão atentos também para madeira e mel. Caso não tenham sido incluídos ainda, o ministro que vai ficar para outro momento próximo.
Trump diz não considerar novos cortes
Brasil e os EUA vinham articulando, nas últimas semanas, uma flexibilização do “tarifaço”. A negociação ganhou força com um encontro entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em outubro, na Malásia.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, se encontraram na última quinta para discutir o assunto.
Após a reunião, Vieira disse que esperava uma resposta dos EUA sobre um “mapa do caminho” para nortear negociações.
No fim desta sexta, porém, Trump afirmou que não acredita que sejam necessários novos cortes de taxas.
“Acabamos de fazer um pequeno recuo”, disse a repórteres “Os preços do café estavam um pouco altos; agora, em muito pouco tempo, eles estarão mais baixos.”
Pressão da inflação sobre Trump
O Brasil é o maior fornecedor de café para os EUA e um dos principais de carne, e ambos os produtos enfrentam forte alta nos preços no mercado norte-americano, o que pressiona o governo Trump.
Sem dar detalhes, Trump adiantou que reduziria a tarifa sobre o café, em entrevista à Fox News, na última terça-feira (12).
Dias antes, determinou uma investigação sobre frigoríficos que atuam nos EUA, acusando-os de subir o preço da carne artificialmente.
Na ordem executiva desta sexta, Trump não se referiu especificamente a nenhum país.
Ele afirmou que recebeu informações de autoridades que, sob sua orientação, monitoram as circunstâncias da ordem que estabeleceu o tarifaço.
“Depois de considerar as informações e recomendações que esses funcionários me forneceram, o andamento das negociações com vários parceiros comerciais, a demanda interna atual por determinados produtos e a capacidade doméstica atual de produzi-los, entre outros fatores, determinei que é necessário e apropriado modificar ainda mais o escopo dos produtos sujeitos à tarifa recíproca.”
A redução vale para mercadorias importadas e retiradas em armazém desde a quinta-feira (13).
Ao divulgar a medida, a Casa Branca atualizou a lista de produtos que têm algum grau de redução de tarifas, acrescentando carne e café, entre outros.
Até então, a relação incluía somente itens já tinham recebido o benefício em julho, como o suco de laranja, que também tem peso nas vendas do Brasil para os EUA.
Grão de café
Mike Kenneally/Unplash

Apartamentos na praia, fazendas, conta bancária: os bens de quem morre sem herdeiros e ficam com o governo federal e as prefeituras

Saiba quais são os bens que prefeituras e união incorporam de quem não tem herdeiros
Apartamentos a poucos metros da praia, fazendas e residências de várias regiões do país passaram a fazer parte do patrimônio público depois que seus donos morreram sem deixar herdeiros. Levantamento do g1 mostra que, entre 2020 e 2025, ao menos 179 imóveis nessa situação passaram à administração da União ou de prefeituras de cidades em 14 estados. Juntos, os bens identificados pelo g1 somam cerca de R$ 219 milhões.
🔎 A herança é chamada de “vacante” quando não há herdeiros até o quarto grau de parentesco — pais, filhos, tios, sobrinhos e primos de primeiro grau — e, após esgotadas as buscas, o patrimônio é transferido para o poder público.
📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça
Os imóveis foram identificados pelo g1 a partir de pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação (LAI) à União e às 27 capitais das unidades federativas. As respostas permitiram mapear bens localizados em 14 estados: Alagoas, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Roraima, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
Segundo a procuradora e advogada Priscilla Paoliello de Sarti, autora do livro “A Herança Jacente e Vacante”, o fenômeno deve se tornar mais comum.
“A gente verifica um aumento desses casos decorrentes do envelhecimento da população, da queda na taxa de natalidade e das famílias unipessoais, de uma pessoa só, que não deixam herdeiros. É um contexto que tende a aumentar essas hipóteses de herança vacante”, afirma.
Veja a seguir alguns dos casos identificados pela reportagem:
Castelinho da Rua Apa, apartamentos na praia, fazendas: os imóveis sem herdeiros encoporados pela União ou estados.
Reprodução
Dois apartamentos em Copacabana e R$ 431 mil no banco
A aposentada Yvonne Martins Gurjão, funcionária pública da Caixa Econômica Federal, morreu em setembro de 2016, aos 93 anos, sem deixar herdeiros nem testamento. O inventário revelou dois apartamentos em Copacabana, ambos a cerca de 600 metros da praia — um na Rua Barata Ribeiro e outro na Rua Cinco de Julho — e R$ 431 mil em conta bancária.
Apartamentos da Rua Cinco de Julho, em Copacabana (RJ), incorporados ao patrimônio da cidade
Reprodução
O processo judicial se arrastou por quase nove anos. A disputa começou quando Juliana Ribeiro do Nascimento, filha da ex-empregada doméstica da família, alegou ter sido criada por Yvonne “como se fosse neta”. Nos autos, disse ter recebido da idosa apoio financeiro e afetivo por toda a vida.
Outra mulher, Léa Espíndola de Almeida, identificada como prima distante, também se manifestou no processo, mas, segundo a Justiça, não comprovou vínculo familiar. Em 2020, a Prefeitura do Rio de Janeiro foi nomeada curadora dos bens, e, após a publicação de editais, a Justiça declarou a herança vacante em outubro de 2024.
A Prefeitura do Rio informou ao g1 que os dois apartamentos — localizados na Rua Barata Ribeiro e na Rua Cinco de Julho, em Copacabana — estão em fase de avaliação para licitação de alienação, ou seja, serão leiloados. Não há informações sobre o uso atual dos imóveis. O g1 não localizou Léa e tentou contato com Juliana, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Entenda como o patrimônio de quem morre e não deixa herdeiros vai para o poder público
Disputa por imóveis de polonesa termina com bens incorporados ao Rio
Apartamentos da Rua Barata Ribeiro, em Copacabana (RJ), incorporados ao patrimônio da cidade
Reprodução
A polonesa Grazyna Rokicka, falecida em 1998, deixou quatro imóveis em Copacabana — três na Rua Barata Ribeiro e um na Rua República do Peru. Após a morte, o locatário Eliseu Bandeira Sobrinho permaneceu nos endereços e, anos depois, entrou na Justiça alegando posse dos bens desde 2008, em tentativa de usucapião. A Justiça, porém, rejeitou o pedido, reconheceu que ele não era herdeiro legítimo e determinou a transferência dos imóveis ao município em 2022. O g1 não localizou a defesa de Sobrinho.
Fazenda visitada por Dom Pedro II é incorporada à União no Paraná
Fazenda Baronesa, em Palmeiras (PR)
José Fernando Ogura/AEN – Casa Civil do PR
Em Palmeira (PR), a Fazenda Baronesa, com 17 km², foi incorporada ao patrimônio da União após a morte de Moisés Erichsen. Avaliada em R$ 17,2 milhões, a área passou à administração da 2ª Companhia do 5º Batalhão de Suprimento (2ª Cia Sup/5º B Sup), unidade do Exército sediada na cidade. Em 1880, a fazenda recebeu a visita do imperador Dom Pedro II durante uma viagem oficial pelo Paraná, conforme descrito pelo Exército em seus acervos históricos.
Casarão centenário no Recife
No Recife, dois imóveis da professora aposentada Maria da Conceição Guedes Pereira, morta aos 102 anos em 2013, foram incorporados ao patrimônio da cidade e da União. Um deles, na Avenida Rosa e Silva, está sendo reformado pela prefeitura para se tornar um Centro de Convivência para Idosos.
Fachada do Casarão de Recife (PE), imóvel particular que foi incorporado ao patrimônio público
Edson Holanda/Prefeitura do Recife
Segundo o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), Maria da Conceição havia manifestado em vida o desejo de que o local fosse usado para acolhimento de idosos.
“Ela confidenciou o desejo de que o imóvel fosse transformado em ambiente para o acolhimento e assistência de idosos”, afirmou a promotora Luciana Dantas, da 30ª Promotoria de Justiça da Capital.
As obras começaram em maio de 2025, e a entrega está prevista até o fim do ano. O outro imóvel, a 260 metros da Praia de Pina, está incorporado ao patrimônio da União.
Casa à 260 metros da Praia de Pina (PE) incorporado ao patrimônio da União
Reprodução/Google Maps
O ‘Castelinho’ da Rua Apa, em São Paulo
Em São Paulo (SP), o histórico Castelinho da Rua Apa, avaliado em cerca de R$ 3 milhões, também foi incorporado ao patrimônio público. Construído em 1912 por arquitetos franceses, o imóvel ficou marcado pelo assassinato de mãe e dois filhos em 1937.
Abandonado por décadas, o prédio foi cedido à ONG Clube de Mães do Brasil, que oferece assistência a moradores em situação de rua e pessoas em vulnerabilidade social.
Castelinho da Rua Apa foi restaurado
Rogério de Santis/Futura Press/Estadão Conteúdo
Quem fica com o patrimônio e o que é feito dele?
Arte – Como um bem sem herdeiros vira patrimônio público
Arte/g1
Quando alguém morre sem deixar testamento nem herdeiros, a Justiça abre um processo de herança jacente. Um curador é nomeado para administrar os bens e buscar possíveis familiares.
“Esse curador vai até o local, conversa com vizinhos, consulta bancos e até redes sociais, para tentar identificar possíveis herdeiros”, explica a professora Déborah Lambach, da PUC-SP
Se em um ano ninguém se habilitar, a herança é declarada vacante. Cinco anos após a morte, os bens são incorporados definitivamente ao poder público — à União, ao Distrito Federal ou ao município, conforme o local onde estão
Nos municípios, a administração é feita por procuradorias ou secretarias de patrimônio, que decidem o destino dos bens: podem ser usados em programas públicos, cedidos, alugados ou vendidos em leilão.