Como funcionam as bancas que avaliam candidatos às cotas raciais em concursos e universidades

UnB foi uma das primeiras universidades a adotar o sistema de cotas
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Criadas para evitar fraudes no sistema de cotas raciais, as chamadas bancas de heteroidentificação são responsáveis por atestar a legitimidade da autodeclaração feita por candidatos aprovados em concursos públicos para essas vagas.
Nessas bancas não importam certidão de nascimento ou relato pessoal. Para determinar quem é ou não apto a concorrer a uma vaga por cota racial, essa avaliação foca na aparência física dos candidatos inscritos nas vagas reservadas para negros (pretos ou pardos).
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Usado por instituições federais, o método surgiu como uma espécie de fiscalização da Lei de Cotas. Em um país tão miscigenado como o Brasil, no entanto, avaliações desse tipo envolvem subjetividade, o que pode gerar controvérsias. A seguir, entenda como funciona uma banca de heteroidentificação.
Por que existe a banca
Sancionada em 2012, a Lei de Cotas é uma política afirmativa que busca reduzir as desigualdades sociais do país. No caso das cotas raciais, a lei determina que parte das vagas de concursos públicos federais seja destinada a pessoas pretas, pardas, indígenas e quilombolas.
Para evitar fraudes na autodeclaração de candidatos, o governo federal regulamentou em 2018 o procedimento de heteroidentificação para as candidaturas negras, argumentando que a política era uma demanda da sociedade civil e de movimentos negros.
Essa portaria normativa estabeleceu as regras para a atuação dessas bancas. A norma visava ainda garantir a padronização e igualdade de tratamento entre os candidatos que passariam por esse procedimento.
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O que é heteroidentificação
As bancas de cota racial trabalham com a ideia de heteroidentificação, ou seja, o olhar do outro. Por isso, os comitês não levam em consideração a maneira como a pessoa se identifica (autodeclaração), mas sim a forma como ela é vista socialmente.
“Uma banca é como o olho da sociedade”, afirma Rodrigo Ednilson de Jesus, professor e coordenador de Políticas de Ações Afirmativas e Inclusão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “A banca não está avaliando grau de mestiçagem, mas sim se a pessoa é lida ou não como negra.”
O governo institui que essas análises devem considerar somente o fenótipo do candidato. Isso significa que são observadas apenas características físicas – como tom de pele, traços faciais e textura de cabelo.
Já aspectos como árvore genealógica, laudos dermatológicos ou tradições culturais ficam de fora da avaliação da banca.
De acordo com Rodrigo Ednilson de Jesus, isso ocorre porque o racismo brasileiro se expressa sobretudo diante de fenótipos, e as cotas raciais foram justamente pensadas como reparação à população afetada por essa discriminação.
Quem compõe a banca
Não existe um único órgão responsável pelas bancas. Cada instituição estabelece suas próprias regras sobre a composição dessas comissões. Algumas mobilizam candidatos internamente, outras optam por recrutar pessoas de fora.
No caso de universidades, essas comissões são compostas principalmente por professores, estudantes e funcionários públicos. Todos os membros devem participar de cursos sobre questões raciais e de enfrentamento ao racismo antes de integrarem as bancas.
Geralmente, a banca é composta por cinco pessoas. É importante que o número seja ímpar para não haver empate no resultado.
No processo, cada membro faz seu próprio julgamento e, depois, o grupo chega a uma deliberação coletiva, baseada no olhar da maioria.
A banca deve ser diversa, conforme prevê a legislação. “É preciso que uma comissão tenha homens, mulheres, brancos, negros”, explica o professor da UFMG. “Para que as pessoas olhem [para o mesmo candidato] de diferentes ‘lugares’.”
Como funciona a banca
Embora não exista uma regra sólida, na maioria das vezes, as bancas acontecem após o processo seletivo. Ou seja, quando a pessoa já passou no vestibular ou concurso público. Daí, sim, ela é considerada apta ou não para a vaga cotista.
Como a ideia é justamente avaliar apenas o fenótipo da pessoa, a banca não faz entrevistas. O que vale ali é a análise visual, que dura cerca de 3 minutos, segundo Rodrigo.
A recomendação do governo é que esse processo seja realizado de forma presencial. Análises por vídeos ou fotos até são permitidas, mas podem dificultar o trabalho da comissão, já que fatores como luz, filtro e ambiente podem afetar a nossa percepção de imagem.
Além disso, independentemente do formato, o encontro entre o candidato e a banca é gravado — a filmagem pode ser solicitada depois, caso haja necessidade.
Todo candidato tem o direito de contestar a decisão da banca que o julgou. Nesse caso, haverá uma segunda comissão (composta por outros analistas). Se a pessoa considerar que o erro persiste, ela pode então entrar com uma ação na Justiça.
Casos controversos
Flavia Medeiros, servidora do Itamaraty exonerada por ‘reprovar’ em banca racial
Emanuelle Sena/ AscomAGU
Por não seguirem critérios objetivos concretos, há polêmicas envolvendo decisões dessas comissões. Em maio, o caso da internacionalista Flávia Medeiros virou notícia. Ela foi exonerada do Itamaraty, dois meses após assumir o posto de oficial da chancelaria.
Autodeclara negra, ela foi barrada pela banca de heteroidentificação. Flávia contestou a decisão e, nesta segunda-feira (15/06), firmou um acordo com a Advocacia-Geral da União (AGU) para reassumir o cargo. A decisão ainda precisa ser homologada pela Justiça Federal.
Um dos casos mais emblemáticos aconteceu em 2007, quando as cotas raciais ainda não eram uma política pública nacional, mas já eram aplicadas em algumas instituições.
Naquele ano, os irmãos gêmeos univitelinos Alex e Alan Teixeira da Cunha concorreram às vagas cotistas da Universidade de Brasília (UnB). A banca de heteroidentificação da faculdade aprovou a candidatura de Alan, mas barrou a de Alex. Após a repercussão do caso, a instituição voltou atrás e autorizou o outro irmão na disputa cotista.
Itamaraty exonera mulher por reprovar em banca racial
A subjetividade
O uso da heteroidentificação no sistema de cotas raciais gera discussões devido à sua subjetividade. O olhar de quem está ali na banca não representa necessariamente o de outras pessoas, e isso pode levar a eventuais falhas na avaliação.
“No Brasil, existem pessoas claramente lidas como brancas, outras ‘escuramente’ lidas como negras. Mas existem pessoas em um lugar de ‘ambiguidade racial’, quando podem ser lidas em alguns contextos como negras, e em outros, não”, afirma o professor da UFMG.
Coautor do livro “A raça que os olhos veem: como controlar a subjetividade dos procedimentos de heteroidentificação racial”, Rodrigo continua: “A leitura de uma banca é subjetiva, mas é possível controlar essa subjetividade.” Para haver esse controle, segundo ele, é essencial garantir aprofundamento técnico nos estudos anteriores à formação das bancas.
Já Márcia Lima, organizadora da coletânea “O Impacto das Cotas: duas décadas de ação afirmativa no ensino superior brasileiro”, critica o modelo atual. Para a socióloga, a heteroidentificação é, por si só, inadequada à política afirmativa. Em sua visão, deveria haver maior foco na autodeclaração.
“Tratar todo reprovado numa comissão como fraudador é cruel. Ninguém deve definir a identidade de cada um, muito menos em nome do Estado”, argumenta. A socióloga defende que, em caso de denúncias de fraude ou má-fé, haja uma investigação à parte.
Os desafios
De acordo com a professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Afro-Cebrap Flavia Rios, os ministérios da Educação e da Igualdade Racial discutem atualmente possíveis padronizações das bancas para deixá-las mais certeiras. Mas ela reforça que, desde o surgimento dos comitês, várias mudanças já foram feitas.
“As comissões foram evoluindo, aprendendo com os próprios erros e problemas. Foram também percebendo que é preciso ter processos formativos, padronizar tamanhos, fazer reuniões seminários e eventos. Mas isso não significa que eventuais erros não aconteçam”, acrescenta.
Para Flavia, o principal desafio de hoje está em garantir que haja diversidade regional nas bancas, pois o próprio entendimento do que é ser negro está atrelado às referências regionais de cada avaliador. “[A compreensão do que é] ser pardo no Norte do Brasil é muito diferente do que é no Centro-Sul, por exemplo. Em algumas regiões do país, o fenótipo tem maior variação do que em outras.”

Tarifaço de Trump: reunião no G7 é aposta para reduzir ameaça comercial, arma antiga do presidente dos EUA

Lula e Donald Trump em foto de família da cúpula do G7 em Evián, na França, em 16 de junho de 2026.
Evelyn Hockstein/ Reuters
A negociação das novas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no início de junho está entre as principais prioridades do governo brasileiro na reunião do G7 — grupo das sete maiores economias do mundo —, realizada na França nesta semana.
Segundo apuração da GloboNews, diplomatas brasileiros apostam em um encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Trump para destravar as negociações. A reunião bilateral, porém, ainda não foi confirmada. Além disso, o fato de os dois líderes não terem interagido ao posarem para a foto oficial do grupo pode ser um mau sinal.
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🔎 O G7 reúne algumas das principais economias desenvolvidas do mundo e discute temas globais, como economia, conflitos, clima e segurança. O Brasil não faz parte do grupo, mas pode ser convidado para participar de reuniões, como ocorreu na atual cúpula.
O Brasil tenta negociar a retirada das tarifas desde o ano passado, quando Trump anunciou as primeiras taxas de importação sobre produtos brasileiros. Houve um avanço em novembro de 2025, quando a Casa Branca decidiu eliminar a tarifa de 40% aplicada a diversos itens exportados pelo país.
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As novas tarifas de 25% anunciadas neste mês, segundo avaliação do governo brasileiro, é uma medida de caráter mais político do que comercial. Segundo integrantes do governo, a decisão também ignora argumentos técnicos apresentados por representantes comerciais brasileiros nos últimos meses.
Mas a medida segue um padrão adotado por Trump em outras ocasiões: utilizar tarifas como instrumento de pressão em negociações comerciais e diplomáticas.
Estratégia em favor dos EUA
Como o g1 já mostrou, a ameaça tarifária é uma estratégia antiga do presidente americano em disputas comerciais e diplomáticas. O objetivo é obter vantagens em negociações bilaterais.
Em seus dois mandatos, Trump deixou claro que uma de suas prioridades é fortalecer a atividade econômica doméstica, limitando a concorrência estrangeira.
Em 2018, por exemplo, Trump anunciou tarifas sobre as importações de aço e alumínio, produtos exportados pelo Brasil para os EUA. Pouco depois, os dois países negociaram um sistema de cotas que permitia a venda com isenção ou redução de tarifas até determinado limite.
No episódio mais recente, o governo americano afirmou que uma investigação do Escritório de Comércio (USTR, na sigla em inglês) concluiu que o Brasil adota práticas consideradas “irrazoáveis” por onerar ou restringir o comércio com o país. Como resultado, propôs uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
Por que o Brasil virou alvo da investigação?
Em um decreto posterior, Trump citou 60 países — entre eles o Brasil — que falharam em proibir e fiscalizar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Como consequência, propôs uma tarifa adicional de 12,5%, elevando a taxação potencial sobre produtos brasileiros para 37,5%.
Nos dois casos, porém, os EUA divulgaram uma extensa lista de exceções. No caso brasileiro, os produtos excluídos das medidas representam cerca de 60% das exportações para o mercado americano.
“Em nossa avaliação, o impacto econômico direto tende a ser limitado, uma vez que a lista de isenções permanece extensa e abrange parcela significativa das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos”, afirmaram os analistas Luiza Paparounis e Francisco Lopes, do BTG Pactual, em relatório recente.
Outros exemplos pelo mundo e os efeitos para os EUA
O Brasil não é o único parceiro comercial dos EUA atingido por tarifas. União Europeia, China, Canadá, México e outros países também foram alvo de medidas semelhantes adotadas por Trump.
Além de alegar que esses países mantêm relações comerciais injustas com os EUA, Trump também recorreu a diferentes justificativas para defender as tarifas, incluindo combate ao narcotráfico, crime organizado, imigração ilegal, segurança de fronteira, comércio digital, corrupção e até o PIX brasileiro.
“Trump usa essa questão tarifária como uma arma, e já vimos isso várias vezes. No Brasil, quando houve o choque com o nosso judiciário, ou na Índia, que continuava a comprar petróleo russo”, avalia a diretora da Faculdade de Relações Internacionais da PUC-Campinas, Kelly Ferreira.
“E mesmo que a Suprema Corte americana já tenha tentado derrubar as tarifas globais impostas em 2025, o Trump está sempre buscando novas formas de usar essas taxas a seu favor”, completa a especialista.
Ela acrescenta que até a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas teria um componente econômico, ao dar mais flexibilidade para Trump adotar novos embargos.
Em vários dos casos, a estratégia foi semelhante: o republicano anunciou tarifas, estabeleceu prazos para negociação e buscou obter vantagens competitivas, além de maior abertura dos mercados para a indústria americana.
Trump também afirmou, em diversas ocasiões, que as tarifas serviriam como fonte de receita para o governo, ajudariam a reduzir a dívida pública e fortaleceriam a economia americana.
O republicano não conseguiu cumprir essas promessas. Dados do Tesouro dos EUA mostram que o déficit orçamentário — quando as despesas superam as receitas — cresceu 2% e atingiu US$ 164 bilhões (R$ 827,1 bilhões) em março.
A inflação ao consumidor subiu 0,5% em maio, sétimo avanço consecutivo. Em 12 meses, o índice acumulado chegou a 4,2%, mais que o dobro da meta do banco central americano. Já o PIB do país cresceu 1,6% no primeiro trimestre, abaixo da expectativa do mercado, de 2%.
A sensação de deterioração da economia americana também já se reflete na popularidade de Trump, que vem caindo desde o início do ano passado.
O que explica a crise de popularidade do presidente dos EUA
O que esperar adiante?
Mesmo sem uma definição sobre as tarifas, o governo brasileiro afirma que pretende manter as negociações. Pela legislação americana, a investigação formal ainda precisa ser concluída e consultas públicas devem ocorrer antes de qualquer medida entrar em vigor.
O presidente Lula afirmou que enviaria uma nova carta a Trump para tratar do assunto.
“A nossa luta é para que esse país não seja tratado em nenhum momento como se fosse uma republiqueta insignificante. Nós temos muita história e não podemos aceitar o tratamento que os EUA deu ao Brasil nesta semana. Não é possível”, afirmou o petista após o anúncio das novas taxas.
Com uma agenda extensa e diversos temas relevantes em debate no G7, a reunião entre Lula e Trump pode não ocorrer. Ainda assim, a expectativa é que o presidente brasileiro aproveite o encontro para estreitar relações com outras grandes economias e fortalecer os laços do Brasil com a União Europeia.

Na 'Copa das Carnes', Brasil supera o bife de chorizo da Argentina com fraldinha e alcatra

Imagem de cortes de fraldinha.
Reprodução/Instagram
Na Copa das Carnes, o Brasil saiu na frente. Os cortes brasileiros fraldinha e alcatra conquistaram o 1º e o 2º lugar no ranking do TasteAtlas dos melhores pratos com carne bovina do mundo, de 2026.
Os dois superaram o tradicional bife de chorizo argentino, que ficou na 3ª posição. A picanha, por outro lado, foi desbancada pelos vizinhos e apareceu logo atrás, em 4º lugar.
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Ao todo, o Brasil emplacou 12 posições na lista, contra sete da Argentina. Além de fraldinha, alcatra e picanha, outros cortes e preparações brasileiras que figuram no ranking são:
9º lugar: bife à parmegiana;
13º lugar: maminha;
22º lugar: vaca atolada, prato típico da culinária mineira;
62º lugar: cupim;
67º lugar: filé Oswaldo Aranha, um clássico carioca;
75º lugar: estrogonofe;
77º lugar: carne de sol;
91º lugar: carne de onça, prato tradicional de Curitiba;
99º lugar: barreado, típico do Paraná.
Além do bife de chorizo, a Argentina também marcou presença com outros seis pratos: a milanesa napolitana (28º lugar), a tira de asado (34º), a milanesa (40º), o vacío (53º), a milanesa a caballo (68º) e a milanesa de peceto (94º).
O TasteAtlas é uma enciclopédia gastronômica criada pelo jornalista croata Matija Babić, em 2018.
Os rankings são baseados em avaliações dos usuários da plataforma, mas, segundo a empresa, há mecanismos para identificar usuários reais, ignorar votos de bots ou motivados por patriotismo local e dar mais peso às avaliações de pessoas consideradas mais conhecedoras.
Confira as 10 primeiras posições do ranking.
Fraldinha – Brasil
Alcatra – Brasil
Bife de chorizo – Argentina
Picanha – Brasil
Bistecca alla Fiorentina – Itália
Beyti kebab – Turquia
Châteaubriand – França
Tagliata di manzo – Itália
Lomo vetado – Chile
Costata – Itália
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Picanha brasileira ficou em 4º lugar do ranking.
Nadin Sh/Pexels e Pedro Furtado/Pexels

O país vizinho do Brasil onde empregados passaram a trabalhar menos e a ganhar mais (com desemprego na mínima histórica)

Algumas empresas, como supermercados, passaram a fechar mais cedo na Colômbia
Jair F. Coll/Bloomberg via Getty Images
Enquanto o Brasil discute mudanças na sua jornada de trabalho, países vizinhos da América do Sul estão concluindo ou começando a implementação de leis aprovadas nos últimos anos que apontam para a mesma direção: trabalhar menos.
No próximo dia 15 de julho, os trabalhadores assalariados da Colômbia passam a trabalhar por no máximo 42 horas semanais — uma conclusão da redução de seis horas feita ao longo de cinco anos, desde que a lei foi aprovada em 2021.
Diferentemente do Brasil, que discute a redução de 44 para 40 horas junto com o fim da escala 6×1, a Colômbia não estabeleceu a obrigatoriedade de ao menos duas folgas na semana.
Mas a redução das 48 para 42 horas, aprovada no governo de direita do ex-presidente Iván Duque (2018-2022), somou-se à reforma trabalhista aprovada em 2025, já no governo de esquerda de Gustavo Petro, que aumentou em 23,7% o salário mínimo no país e turbinou ganhos dos trabalhadores ao ampliar o período considerado para pagamento de adicional noturno.
Somadas as duas mudanças, entidades empresariais colombianas têm relatado dificuldades para empresas manterem planos de contratação e que adaptações foram necessárias, como fechar lojas mais cedo e aumentar automação dos serviços.
Mesmo assim, o cenário do mercado de trabalho no país não é de terra arrasada, bem longe disso, explica à BBC News Brasil o economista Stefano Farné, diretor do Observatório do Mercado de Trabalho e Seguridade Social da Universidade Externado, em Bogotá.
“Não há dúvidas de que aumentaram os custos unitários por trabalhador na Colômbia”, diz Farné, que participou de discussões no Congresso no país sobre as mudanças.
“Mas o que observamos é que não houve efeitos negativos sobre o mercado de trabalho. Além disso, o emprego assalariado do setor privado segue crescendo há muitos meses.”
Segundo Farné, não houve ainda no país nenhum estudo de “avaliação de impacto”, isso é com métodos científicos sólidos, com análise comparada e processamento de dados. Sua opinião é baseada na percepção geral do mercado de trabalho no país, que tem mostrado resiliência com uma taxa de desemprego na baixa histórica.
Uma análise da Corficolombiana, uma das maiores corporações financeiras do país, apontou que a redução da jornada de trabalho está impulsionando as contratações de maneira geral. A estimativa é que 787 mil novos trabalhadores foram contratados entre 2022 e 2025 apenas para compensar a diminuição das horas trabalhadas.
Mas a empresa aponta que a produtividade caiu, já que o mesmo volume de trabalho está sendo distribuído entre mais pessoas.
“Se mais pessoas precisam trabalhar para produzir a mesma quantidade, e cada trabalhador produz menos por jornada, a economia se torna menos eficiente”, diz a análise da Corficolombiana.
Já a Fenalco (Federação Nacional de Comerciantes e Empresários), equivalente a uma Confederação Nacional do Comércio (CNC) no Brasil, produziu um levantamento ouvindo 610 empresários, em 25 cidades, para demonstrar o impacto do aumento dos custos trabalhistas de maneira geral.
O levantamento aponta que 51% das empresas começaram a fechar mais cedo, reduzindo operações noturnas, 25% aceleraram o processo de automação de serviço e 23% aumentaram os preços de seus produtos.
Os setores mais afetados são os que operam em horários estendidos, como varejo, bares, restaurantes, hotelaria e vigilância privada.
“Muitas empresas já estão enfrentando maiores custos operacionais, o que reduz sua capacidade de expandir operações e contratar novo pessoal. Também existe um ambiente de incerteza que leva os empresários a agir com prudência”, disse a Fenalco à BBC News Brasil.
A federação também afirma que 64% dos empresários entrevistados reduziram o número de empregados e que 80% modificaram os planos de contratação para o futuro.
A classe empresarial disse não ter números consolidados ano sobre fechamento de empresas, mas dados preliminares mostram “redução na abertura de novas empresas” em 2026.
“Felizmente, a Colômbia continua contando com uma grande capacidade empreendedora”, diz a Fenalco.
Diferenças para o Brasil: mais flexibilidade e com escala 6×1
Sindicatos foram às ruas defender a reforma trabalhista na Colômbia
JOAQUIN SARMIENTO/AFP via Getty Images
Segundo o professor Stefano Farné, comparar o caso colombiano com o do Brasil é difícil, porque a redução da jornada no país caribenho veio acompanhada de outras mudanças trabalhistas. Ainda assim, ressalta, algumas lições internacionais podem ser úteis.
A primeira é a importância da gradualidade, como os cinco anos de adaptação na Colômbia.
“A recomendação é não fazer de um dia para o outro, mas aos poucos. Isso é bom para qualquer coisa em geral”, diz o pesquisador.
No Brasil, a proposta para a redução da jornada de 44 horas semanais para 40 horas entraria em vigor em duas etapas. Primeiro, haveria a redução para 42 horas, após 60 dias. O limite de 40 horas seria alcançado após mais um ano.
O economista Bruno Ottoni, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), avaliou à BBC News Brasil que o tempo previsto para transição é curto para a adaptação de empresas.
Farné também ressalta que, na Colômbia, a diminuição da jornada veio acompanhada por flexibilidade nos horários de trabalho e sem obrigatoriedade de dois dias de descanso.
Ficou permitido que empresas e trabalhadores façam acordos para trabalhar mais em um dia e menos no outro, por exemplo.
Com a redução, a lei colombiana também passou a permitir que o empresário possa escolher o dia da folga semanal do funcionário, não sendo mais preferencial o sábado ou domingo.
Essa medida é considerada especialmente positiva para empresas do comércio, um dos setores mais afetados pelas mudanças. “É uma forma de flexibilizar a diminuição do horário de trabalho. Por isso, não tivemos tantos efeitos na economia, porque a queda das horas de trabalho tem sido compensada por outras medidas”, diz Farné.
Na Colômbia, as empresas ainda deixaram de ser obrigadas a fornecer uma folga extra por semestre aos trabalhadores no chamado “dia da família”. Também deixou de ser obrigatório às empresas maiores terem duas horas de atividades culturais ou de formação por semana.
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O caso chileno
No Chile, o governo de esquerda de Gabriel Boric conseguiu aprovar uma reforma trabalhista em 2023 que, entre outras coisas, estipulou a redução da jornada máxima de 45 horas para 40 horas semanais no país. A transição começou em 2024 e vai até 2028.
Mas, antes mesmo dessa nova mudança, o país já era estudado internacionalmente devido a outra redução. Em 2005, após quatro anos de transição, os chilenos eliminaram a jornada de 48 horas para uma máxima de 45.
“De modo geral, os estudos empíricos encontram que os efeitos dessas reduções foram muito pequenos e marginais. Ou seja, os efeitos tendem a ser negativos, mas são pequenos e nem sempre estatisticamente significativos”, diz Farné, que participa de discussões na Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre o tema.
O estudo do economista chileno Rafael Sanchéz concluiu também que a redução nos anos 2000 não teve “efeitos diretos significativos” no mercado de trabalho chileno nem pela criação nem pela redução de vagas — e que as horas de trabalho passaram a ser melhor remuneradas, já que não houve redução salarial.
O pesquisador acompanhou as trajetórias de milhares de trabalhadores entre os anos de 2002 e 2005 (pré e pós-reforma), comparando o destino profissional daqueles diretamente atingidos pela nova lei com um grupo composto por funcionários que já trabalhavam em horários próximos ao novo limite.
Segundo Sanchéz, as empresas chilenas utilizaram o período de transição para ajustar seus processos produtivos e redistribuição de tarefas. Isso é apontado como fundamental para evitar demissões em massa.
Em resumo, as empresas chilenas reagiram absorvendo o aumento do custo por hora sem reduzir o quadro de funcionários de forma expressiva.
Os exemplos na América e em muitos países, especialmente na Europa, mostram que “trabalhar menos é uma tendência à qual não podemos nos opor”, diz Ferné.
“Isso não quer dizer que a América do Sul tem que seguir os países europeus que já estão com jornadas de 36 horas e pronto. Vamos com calma, mas isso é um caminho mundial.”