Anúncios do Instagram promovem material com abuso sexual infantil na Índia, segundo investigação da BBC

Anúncios do Instagram promovem material com abuso sexual infantil na Índia, segundo investigação da BBC
BBC
Importante: esta reportagem contém descrições de abusos.
O Instagram vem publicando anúncios pagos promovendo material que contém abuso sexual infantil na Índia, segundo concluiu investigação da BBC.
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
Os anúncios, conferidos pelo Serviço Mundial da BBC, empregam expressões como “vídeo de estupro” e “vídeo infantil” e oferecem aos usuários links para canais no aplicativo de mensagens Telegram, onde o material pode ser comprado por até 99 rúpias indianas (cerca de US$ 1, ou R$ 5,15).
Após a publicação da reportagem, o governo indiano ordenou que a Meta, empresa proprietária do Instagram, desabilitasse imediatamente os anúncios e pediu explicações, no prazo de uma semana, sobre os motivos que os levaram a serem autorizados na plataforma, segundo uma autoridade de alto escalão.
Agora no g1
Os anúncios no Instagram só são publicados depois de aprovados pela sua tecnologia de moderação.
A BBC denunciou um dos anúncios ao Instagram. A plataforma de rede social respondeu 24 horas depois, afirmando que a postagem não violava as “normas da comunidade”.
A BBC enviou posteriormente um pedido de comentários à Meta, que respondeu já ter desativado diversos anúncios e suspendido as contas responsáveis pelas postagens.
A empresa afirmou ter removido outros anúncios, desativado mais contas e bloqueado URLs (endereços na Internet) de outros conteúdos que violavam suas políticas, em resposta às descobertas da BBC.
O Telegram declarou ter removido mais de 274 mil grupos e canais relacionados a materiais contendo abuso sexual infantil em 2026.
A BBC criou uma conta com nome alternativo no Instagram, após perceber que a plataforma estava impulsionando conteúdo sexualmente sugestivo, mesmo para usuários que não buscavam este tipo de material.
Este conteúdo incluía mulheres que postavam sobre comida, o clima e o dia a dia na Índia, vestidas com roupas reveladoras e usando insinuações sexuais nas suas postagens.
Criada na Índia, a nova conta com nome alternativo começou a seguir essas mulheres e outras pessoas similares (10, ao todo) para investigar conteúdo sexualizado na plataforma.
Em menos de uma semana, o Instagram começou a mostrar anúncios no feed, com mulheres oferecendo chamadas por vídeo e mostrando casais claramente nus em atos sexuais.
Dias depois, a plataforma começou a mostrar anúncios de crianças com adultos em situações sexualmente sugestivas e links para canais no Telegram.
O juiz aposentado da Suprema Corte da Índia, Madan Lokur, declarou recear que o Instagram estivesse ‘ganhando dinheiro ao participar de atividade criminosa’
BBC
Surgiram ao todo cerca de 30 anúncios diferentes promovendo abuso sexual infantil, mas alguns deles foram compartilhados por diversas contas. Nossa conta alternativa também recebeu cerca de 20 anúncios mostrando pornografia com adultos.
A distribuição de material relativo a abusos sexuais infantis e pornografia de adultos é crime na Índia. E a política da Meta afirma que os anúncios não devem conter nudez de adultos ou genitais, nem conteúdo que explore sexualmente crianças ou as coloque em risco.
A BBC reportou todos os anúncios e os canais no Instagram para as autoridades indianas.
Um dos anúncios mostrava um menino e uma menina, ambos aparentemente com cerca de 12 anos de idade, envolvidos em um ato sexual.
Outro mostrou um homem com seu braço em torno de uma menina. O texto dizia que ele tinha 52 anos e a menina, 12. “Clique para assistir mais”, dizia o anúncio, com um link para um canal no Telegram.
A BBC reportou ao Instagram um anúncio mostrando uma menina muito jovem em lágrimas. Os dizeres indicavam que ela havia sofrido abuso sexual.
Mas, 24 horas depois, o Instagram respondeu que não havia removido o anúncio porque “nossa equipe de revisão concluiu que o anúncio não viola os padrões da nossa comunidade”.
A Meta declarou posteriormente à BBC que “nenhum sistema é perfeito e nosso processo de análise pode não detectar todas as violações da política”.
“Continuamos a aplicar tecnologia de detecção proativa aos anúncios quando são publicados e qualquer pessoa pode nos reportar um anúncio que, segundo ela, violaria nossas regras”, segundo a Meta.
A empresa destacou que, quando toma conhecimento de uma aparente exploração infantil, ela o reporta ao Centro Nacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC, na sigla em inglês), em cumprimento à legislação em vigor. O NCMEC é o sistema global centralizado de comunicação sobre a exploração sexual de crianças na internet.
A BBC reportou ao Telegram dois canais por venderem vídeos de abuso sexual infantil.
Um deles foi rapidamente derrubado em seguida e substituído por uma mensagem com os dizeres: “Este grupo não pode ser exibido porque violou os Termos de Serviço do Telegram”. O outro canal continuou a postar novos vídeos para venda por mais de duas semanas, até ser igualmente derrubado.
Críticos já haviam acusado anteriormente a plataforma de não fazer o suficiente para evitar a publicação de conteúdo criminoso.
Com sede em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, a empresa não é membro do NCMEC.
No final de 2024, ela entrou para a Internet Watch Foundation, que também trabalha com a maioria das plataformas online para encontrar, reportar e remover este tipo de material.
O Telegram declarou à BBC que a empresa utiliza moderação humana e automática para erradicar material de abuso sexual infantil do aplicativo. Com isso, o aplicativo “virtualmente eliminou a divulgação de material de abuso sexual ao público na sua plataforma”, segundo a empresa.
Anúncios do Instagram promovem material com abuso sexual infantil na Índia, segundo investigação da BBC
Reuters via BBC
Os anúncios são uma importante fonte de renda para a Meta.
Em janeiro, a empresa divulgou que quase 98% da sua receita de US$ 200 bilhões (pouco mais de R$ 1 trilhão) obtida no ano fiscal com término em 2025 vieram da publicidade. E analistas calculam que os anúncios representem mais de 90% da receita do Instagram.
As postagens padrão geralmente não são verificadas pela tecnologia da Meta antes da sua publicação. Mas a empresa afirma que todos os anúncios são analisados antes de serem autorizados nas suas plataformas.
Seu sistema de análise conta principalmente com tecnologia automática e é projetado para verificar imagens, vídeo, texto e áudio, além do público-alvo do anúncio e dos links para onde ele encaminha os usuários.
Este software rejeita ou aprova os anúncios, encaminhando casos incertos para análise humana.
Em março, a Meta anunciou estar reduzindo o emprego de moderadores humanos e aumentando o uso de inteligência artificial. A empresa afirmou que “especialistas irão projetar, treinar, supervisionar e avaliar nossos sistemas de IA”.
A BBC descreveu os anúncios observados para o juiz aposentado da Suprema Corte da Índia Madan Lokur. Ele receia que o Instagram estivesse “ganhando dinheiro ao participar de atividade criminosa”.
“Esta é uma questão séria para que a Suprema Corte da Índia tome conhecimento por iniciativa própria [o que ocorre quando um tribunal inicia processos legais sem esperar que terceiros apresentem o caso] e faça com que o governo tome ações contra qualquer plataforma de rede social”, segundo ele.
Lokur destaca que, embora a legislação indiana proteja as empresas de redes sociais para que não sejam responsabilizadas por conteúdo postado pelos usuários, “a plataforma não pode fugir da sua responsabilidade”.
O ex-vice-presidente do Facebook, Brian Boland, declarou que o algoritmo do Instagram foi projetado para manter os usuários na plataforma, mostrando ‘algo mais extremo, mais tentador’
BBC
Um ex-vice-presidente do Facebook, como a Meta era conhecida até mudar de nome em 2021, declarou que as descobertas da BBC o deixaram “horrorizado, mas não surpreso”.
Brian Boland, que trabalhou para a empresa entre 2009 e 2020 e a ajudou a construir seus negócios de marketing e publicidade, conta que saiu por acreditar que “eles não tinham nenhuma preocupação com os usuários”.
Boland declarou que o algoritmo do Instagram foi projetado para manter os usuários na plataforma, mostrando a eles “algo mais extremo, mais tentador”.
“Não é um algoritmo que diga ‘vamos transformar as pessoas em pedófilos’. Mas, como eles não o orientam e controlam de forma responsável (ele só busca os objetivos de cliques e receita), ele criará estes resultados se as pessoas não se protegerem, de forma real e agressiva, contra esses sistemas.”
Boland conta que, entre 2009 e 2010, ele liderou um projeto para remover anúncios que promovessem golpes entre os usuários. Com isso, ele “tinha permissão, na época, para suprimir uma enorme parte da receita da empresa, para o bem da segurança e da experiência do usuário”.
“Acho que foi triste e trágico que, ao longo do tempo, o equilíbrio entre o lucro e a experiência do usuário se tornasse uma parte mais central das discussões”, afirma ele.
Boland afirma ter excluído sua conta no Instagram em 2025, destacando que “se as pessoas começassem a dizer em massa ‘estou saindo, chega, acabou’, a empresa começaria a prestar atenção”.
Em declaração enviada à BBC, a Meta afirmou que “a exploração infantil é um crime horrível e a Meta trabalha agressivamente no seu combate nos nossos aplicativos”.
A empresa afirmou ser “categoricamente imprecisa” a sugestão de que a Meta apontasse deliberada e conscientemente anúncios apresentando crianças aos usuários, com interesse inadequado naquele material.
A Meta negou priorizar a receita em detrimento da segurança e afirmou que, em 2025, desativou automaticamente mais de quatro milhões de contas, por exibirem “sinais suficientes de comportamento potencialmente suspeito”.
“Criminosos determinados tentam passar sem serem detectados, mas as nossas equipes de especialistas trabalham constantemente para melhorar nossas defesas, desenvolvendo novas tecnologias para eliminar predadores, bloqueando links para websites transgressores e compartilhando inteligência com outras empresas, para que elas também possam tomar medidas”, afirma a Meta.
Boland testemunhou contra a Meta em um julgamento no Estado americano do Novo México no início deste ano. A empresa foi acusada de enganar usuários sobre a segurança das suas plataformas para as crianças.
O tribunal ordenou que a Meta pagasse US$ 375 milhões (cerca de R$ 1,9 bilhões) para o Estado do Novo México. Na época, uma porta-voz da empresa declarou que a Meta não concordava com a decisão e pretendia apresentar recurso.
Shikha Goel, do Escritório de Cibersegurança do Estado de Telangana, no sul da Índia, afirma ter recebido mais alertas das plataformas da Meta, em comparação com outras redes sociais
BBC
As empresas americanas de redes sociais são obrigadas a relatar material referente a abusos sexuais infantis na sua plataforma à linha de denúncias do NCMEC, que encaminha os relatos às agências policiais competentes de cada país onde se acredita que ocorreram os incidentes.
Em 2025, a Índia recebeu 1,9 milhão de denúncias, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, com dois milhões.
Shikha Goel é uma das principais policiais especializadas em crimes cibernéticos da Índia. Ela é diretora do Escritório de Cibersegurança do Estado indiano de Telangana, no sul do país.
Ela afirma que o Instagram e o Facebook, ambos de propriedade da Meta, foram responsáveis pela maior parte das denúncias recebidas.
“Mas isso não significa que elas sejam as maiores”, explica ela. “Se eles tiverem um bom algoritmo para rastrear material de abuso sexual infantil, obviamente serão gerados mais alertas.”
A ONG Fundação Rati, com sede em Mumbai, mantém um serviço de ajuda para crianças que enfrentam perigos na internet. A entidade também declarou que a ampla maioria dos relatos recebidos sobre material de abuso sexual infantil vem das plataformas da Meta.
A fundação colabora com as plataformas de redes sociais para a remoção de conteúdo perigoso. Mas seu diretor Siddharth Pillai, que também é um dos seus fundadores, afirma que “os criminosos fazem uso da navegação integrada entre o Instagram e o Telegram para se esquivar do nosso trabalho de moderação e continuam carregando novamente o conteúdo que ajudamos a derrubar”.
Especialistas afirmam que o material de abuso sexual infantil na Índia é normalmente criado por grupos criminosos, como traficantes de pessoas. Mas, às vezes, as famílias e membros da comunidade também são responsáveis.
Bhuwan Ribhu é o fundador do grupo Just Rights for Children, uma rede de mais de 250 organizações que trabalham para evitar a violência contra crianças na Índia. Ele afirma que o crime não recebe denúncias suficientes e a polícia ainda tenta desenvolver habilidades técnicas para combatê-lo.
E, para que este trabalho tenha sucesso, Ribhu destaca que a cooperação internacional e o compartilhamento de inteligência através das fronteiras são fundamentais.
Para “encontrar os tentáculos do crime organizado, toda a cadeia de oferta e demanda precisa ser rastreada”, declarou ele.
LEIA TAMBÉM:
O pedido de desculpas de Mark Zuckerberg a famílias de crianças prejudicadas por redes sociais
Usuários verificados do X espalham imagens de abuso sexual infantil livremente, mostra investigação da BBC
TikTok recomenda conteúdo sexual e pornografia para crianças, denuncia relatório

A grande aposta do homem mais rico da Alemanha: criar rival europeia de Google e Amazon

Com o Innovation Park Artificial Intelligence (IPAI), Heilbronn quer competir com outros centros tecnológicos, como Londres.
Nicolas Martin/DW
Quando o empresário Bernd Wagner caminha pela nova sede da empresa, fica entusiasmado e diz coisas como “sete vezes mais aço do que foi utilizado na construção da Torre Eiffel” ou “cabos suficientes para ir daqui até Nápoles”.
Wagner é o responsável pela área de computação em nuvem e vendas da Schwarz Digits. Essas enormes quantidades de aço e cabos foram empregadas na construção da nova sede, que será oficialmente inaugurada em 21 de julho de 2026.
O complexo, projetado para 3.500 funcionários e equipado com creche, restaurante e área fitness, lembra as sedes da Amazon, da Apple ou da Google: localizado numa elevação, é composto por cinco edifícios de vidro de vários andares, com formas suavemente curvas e estrutura em formato de colmeia. No centro do chamado Campus Schwarz Digits, há um pequeno lago, muito verde e bancos à sombra.
“Isso aqui é uma declaração de intenções. Não precisamos nos esconder da Google nem de ninguém”, afirma Wagner.
Agora no g1
Dos supermercados para a TI
Essa sede não fica na Califórnia, mas em Bad Friedrichshall, uma pequena cidade no sul da Alemanha, a poucos quilômetros de Heilbronn, a cidade natal daquele que é apontado por revistas especializadas como o homem mais rico da Alemanha: Dieter Schwarz, de 86 anos.
Foi a partir de Heilbronn que ele construiu o império Lidl, uma das redes de supermercados mais conhecidas da Alemanha e presente em vários países da Europa. Mais de 600 mil pessoas trabalham em empresas do Grupo Schwarz em todo o mundo.
‘Não precisamos nos esconder da Google nem de ninguém’, afirma Wagner.
Nicolas Martin/DW
O conglomerado cresceu sobretudo graças às redes de supermercados Lidl e Kaufland. Mas, como o Grupo Schwarz prefere fazer tudo por conta própria, expandiu-se para diversas áreas: produção de alimentos, gestão de resíduos, reciclagem e, agora, digitalização.
Em 2025, o Grupo Schwarz registrou um faturamento de quase 185 bilhões de euros – mais do que SAP, Mercedes ou Bayer. Só a montadora Volkswagen faturou mais entre as empresas alemãs.
Europa sem dependência tecnológica
O Grupo Schwarz sempre foi conhecido pela discrição. Quase nunca se fala sobre seu fundador, Dieter Schwarz. Há poucas fotografias públicas dele. Diz-se que ele consegue andar por Heilbronn sem ser reconhecido.
Mas agora o Grupo Schwarz está nas manchetes com uma nova narrativa, que começa com a Schwarz Digits e gira em torno da independência digital e da valorização da Alemanha como polo tecnológico.
“Se você não está sentado à mesa, acaba fazendo parte do cardápio”, diz Wagner em seu escritório climatizado.
Se nos últimos anos a Schwarz Digits cuidou sobretudo da infraestrutura de TI dos 14.500 supermercados do grupo ao redor do mundo, agora oferece seus serviços de nuvem e segurança digital também para empresas privadas e órgãos públicos.
Segundo Wagner, o objetivo é fazer com que Alemanha e Europa voltem a ter protagonismo e deixem de depender totalmente das tecnologias dos Estados Unidos ou da China. “Queremos devolver à Europa sua capacidade de agir”, afirma.
Esse posicionamento está dando resultados. Nos últimos tempos, a empresa vem conquistando grandes contratos. Entre seus clientes e parceiros estão o governo da Holanda, ministérios alemães e a Federação Alemã de Futebol (DFB).
Na região de Spreewald, ao sul de Berlim, a Schwarz Digits está construindo um centro de dados. Ao custo de 11 bilhões de euros, trata-se do maior investimento individual da história do grupo.
O valor investido na nova sede em Bad Friedrichshall não foi divulgado. O que se sabe é que a instalação foi concebida para manter os talentos de TI na Alemanha e até mesmo atrair novos profissionais. A mensagem é clara: por que se mudar para o caro Vale do Silício se é possível trabalhar num setor do futuro no sul da Alemanha?
Heilbronn se transforma
Quem passeia por Heilbronn vê claramente como a cidade está formando os seus talentos. Um exemplo é o campus educacional da Fundação Dieter Schwarz, onde diversas instituições de ensino e pesquisa alemãs formam cerca de 8 mil estudantes. A expectativa é de que o número ainda vá crescer significativamente.
Nas proximidades está o Experimenta, que se apresenta como o maior centro de ciência da Alemanha e virou símbolo da cidade e atração turística. Lá os visitantes podem vivenciar na prática tecnologias e aplicações de inteligência artificial.
O prefeito de Heilbronn, Harry Mergel, participou da iniciativa que levou à construção do Experimenta há cerca de 20 anos. Uma das principais financiadoras do projeto foi justamente a Fundação Dieter Schwarz.
Mergel é prefeito da cidade, que tem mais de 130 mil habitantes, desde 2014. Assim como muitos outros, ele evita falar muito sobre o mecenas que não deixou sua terra natal. “Toda pessoa tem direito ao anonimato”, diz.
O megaprojeto de IA
A transformação da cidade já é visível. Heilbronn, que os próprios moradores às vezes chamavam de forma autodepreciativa de “Heilbronx”, aparece hoje em alguns rankings como a cidade com o maior poder de compra da Alemanha.
O crescente número de moradores vindos da Índia e da China também indica que empregos em tecnologia da informação estão atraindo profissionais para a região.
Além disso, há um megaprojeto que deverá tornar a cidade ainda mais conhecida internacionalmente nos próximos anos: o Innovation Park Artificial Intelligence (IPAI).
Com esse parque de inovação em inteligência artificial, Heilbronn pretende competir com centros tecnológicos como Londres e Paris.
A expectativa é que até 5 mil pessoas trabalhem e pesquisem no complexo localizado nos arredores da cidade. Os primeiros edifícios serão inaugurados em 2027. Mais uma vez, tanto a Fundação Dieter Schwarz quanto o Grupo Schwarz desempenham um papel central no projeto.
Os custos não foram divulgados, mas o IPAI já opera como rede de colaboradores desde 2022, e cerca de 140 empresas e parceiros desenvolvem projetos relacionados à inteligência artificial. Mergel, cujo mandato vai até 2030, é taxativo: “O futuro está sendo construído em Heilbronn”.
Loja da rede Lidl.
Jelena Djuvic Pejic/DW
Vai dar certo?
Wagner vai na mesma linha: “A nossa região em breve se tornará o maior polo de formação em inteligência artificial da Alemanha e da Europa.” E a Schwarz Digits pretende, claro, ocupar um papel importante nesse cenário.
Mas será que a empresa realmente consegue competir com os gigantes da tecnologia? A Amazon, por exemplo, faturou 135 bilhões de dólares só no seu negócio de computação em nuvem no último ano. A Schwarz Digits, considerando todas as suas atividades, alcança cerca de 2,2 bilhões de euros em receita.
Mesmo assim, Wagner demonstra confiança. Segundo ele, as oportunidades surgem naturalmente, já que Alemanha e Europa precisam urgentemente de soluções de TI independentes.
O Grupo Schwarz também não é por acaso o maior varejista da Europa e o quarto maior do mundo. Dieter Schwarz já demonstrou diversas vezes paciência estratégica e faro para grandes oportunidades. Por isso, é perfeitamente possível que a nova grande aposta dele acabe se revelando um sucesso.

Quantos bilhões custará reconstruir a Venezuela após terremotos, e quem pagará a conta?

Passada a fase de emergência, a Venezuela terá pela frente o desafio da reconstrução
Getty Images via BBC
A Venezuela enfrenta dias trágicos desde os terremotos de 24 de junho, que deixaram milhares de mortos e feridos no norte do país.
Foram dias de muito esforço e desespero na busca por sobreviventes sob os escombros e no atendimento aos feridos em hospitais que já trabalhavam no limite antes da tragédia. Ao mesmo tempo, crescem as críticas à demora na resposta do governo venezuelano.
📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia
Mas a etapa mais difícil pode estar apenas começando.
Passada a fase de emergência, o país terá pela frente o desafio da reconstrução. Será preciso erguer novamente os prédios que desabaram e recuperar estradas e outras infraestruturas danificadas ou destruídas pelo que já é considerado o pior desastre da história recente da Venezuela.
Isso exigirá tempo e muito dinheiro. A questão agora é de onde virão esses recursos.
Agora no g1
Até o momento, os valores anunciados pelo governo venezuelano, por países e por organismos multilaterais dispostos a ajudar estão muito abaixo do que especialistas estimam ser necessário para que o país se recupere dos danos causados pelos terremotos.
A árdua batalha está apenas começando.
Quanto custará a reconstrução da Venezuela
O nível de destruição provocado pelo duplo terremoto é tão grande que ainda é difícil estimar não apenas a extensão dos danos, mas também quanto custará reconstruir as áreas atingidas: a capital, Caracas, e os estados de La Guaira, Carabobo, Miranda, Yaracuy e Aragua.
Além das vidas perdidas e dos ferimentos sofridos por milhares de sobreviventes, há os enormes prejuízos materiais. Ainda não existe um levantamento completo, mas as imagens de dezenas de prédios desabados e de estradas partidas ao meio no Estado de La Guaira dão uma dimensão da catástrofe.
As estimativas iniciais de diferentes instituições e especialistas variam, mas todas apontam que o esforço para reconstruir as áreas afetadas será gigantesco.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) estimou os danos físicos diretos em US$ 6,7 bilhões (cerca de R$ 36,2 bilhões). Com base em imagens de satélite, o órgão calculou a quantidade de estruturas nas áreas atingidas pelos terremotos e ressaltou que a estimativa pode cair para US$ 4,7 bilhões (cerca de R$ 25,4 bilhões) ou subir para US$ 8,7 bilhões (aproximadamente R$ 47 bilhões), principalmente em razão das perdas em moradias e outros bens. Ainda assim, o valor não contempla todos os danos à infraestrutura nem o custo da reconstrução de longo prazo.
Em comunicado, o Pnud afirmou que, à medida que novas informações forem reunidas, as estimativas do impacto total deverão ser revisadas. Segundo o órgão, esse impacto costuma variar entre 1,5 e três vezes o valor dos danos diretos.
Caso a estimativa de US$ 6,7 bilhões se confirme, ela equivaleria a cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país) da Venezuela, segundo o Pnud.
Mas outras projeções são ainda mais altas.
O economista venezuelano Asdrúbal Oliveros estima que o custo da reconstrução deverá ficar entre US$ 12 bilhões e US$ 15 bilhões (entre cerca de R$ 64,8 bilhões e R$ 81 bilhões), incluindo habitação, infraestrutura, comércio, transporte e logística entre os setores mais afetados.
Já Alejandro Grisanti, da consultoria venezuelana Ecoanalítica, disse à BBC News Mundo, serviço espanhol da BBC, que as suas estimativas iniciais apontam que o custo total da reconstrução ficará em torno de US$ 20 bilhões (em torno de R$ 108 bilhões).
Quando as operações de resgate terminarem, a Venezuela terá pela frente o desafio da reconstrução
Getty Images via BBC
Os desafios da Venezuela
A primeira fase da emergência exigiu uma intensa operação para resgatar pessoas presas sob os escombros e atender os feridos. Também foi preciso abrigar as milhares de pessoas que perderam suas casas, além de garantir alimentação e transporte para os desabrigados.
Outra tarefa, talvez a mais dolorosa, é identificar os mortos e dar assistência às crianças que ficaram órfãs.
Nas próximas semanas, o foco deverá se voltar para a avaliação dos danos e o início da reconstrução de estradas, da rede elétrica e das moradias. E, segundo especialistas, a ajuda internacional será indispensável.
Os terremotos agravaram a situação de um país cuja economia já enfrentava anos de dificuldades. Esse cenário contribuiu para que a Venezuela registrasse uma das maiores ondas migratórias das últimas décadas.
Segundo a Universidade Católica Andrés Bello, na Venezuela, o PIB venezuelano encolheu mais de 70% entre 2014 e 2021 por causa dos efeitos da queda da produção de petróleo, dos desequilíbrios fiscais e da hiperinflação. Antes mesmo dos terremotos, o Programa Mundial de Alimentos da ONU estimava, em seu relatório mais recente, que mais de 5 milhões de pessoas precisavam de assistência alimentar urgente no país.
Grisanti, da Ecoanalítica, disse à BBC News Mundo que, “embora seja preciso agradecer a solidariedade internacional demonstrada no primeiro momento, com o envio de equipes de resgate, os valores anunciados para ajudar a Venezuela a se reconstruir estão muito longe do que será necessário”.
Imagens aéreas mostram a dimensão da destruição em La Guaira.
Getty Images via BBC
Quais recursos já foram anunciados
A presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou que o governo destinará US$ 200 milhões (cerca de R$ 1,08 bilhão) de recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI) já alocados ao país. Ela também informou que o presidente da China, Xi Jinping, determinou o envio de US$ 17 milhões (cerca de R$ 92 milhões) para ajudar a Venezuela.
O governo dos Estados Unidos prometeu mais de US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,62 bilhão) em ajuda humanitária direta ao país sul-americano.
Já o Fundo Central de Resposta a Emergências das Nações Unidas liberou imediatamente US$ 15 milhões (cerca de R$ 81 milhões) para a Venezuela.
Outros países e organizações diversas também anunciaram ajuda.
Os limites e os obstáculos da ajuda
Mesmo somando todos os recursos anunciados até agora, o valor está muito abaixo das dezenas de bilhões de dólares que, segundo especialistas, serão necessários para reconstruir o país. “As primeiras cifras anunciadas pela ajuda internacional foram modestas”, disse Grisanti, da Ecoanalítica.
Tamara Herrera, da consultoria Síntesis Financiera, afirmou à BBC News Mundo que “o desafio da reconstrução se soma aos problemas econômicos que a Venezuela enfrenta há anos”.
Os economistas concordam que o governo venezuelano não tem condições de assumir sozinho o custo da reconstrução.
“O país não tem capacidade nem acesso ao financiamento internacional e agora se vê obrigado a buscar soluções sem saber como nem quando elas chegarão”, afirmou Herrera.
Além de insuficientes, os recursos anunciados até agora esbarram em dúvidas sobre a capacidade das autoridades venezuelanas de administrá-los e na imagem negativa do governo chavista em muitos países, o que pode desestimular doadores e investidores internacionais.
“Quando há tanta desconfiança e tantas denúncias de corrupção, é natural que a primeira reação da comunidade internacional seja de cautela”, disse Grisanti. “A falta de transparência do Estado venezuelano e as dúvidas sobre sua legitimidade dificultam a obtenção da ajuda internacional de que o país vai precisar.”
Outro obstáculo é a dificuldade da Venezuela para obter crédito.
A dívida pública do país está tecnicamente em inadimplência desde 2017, quando o governo deixou de honrar os pagamentos dos títulos que havia emitido. Desde então, a Venezuela perdeu acesso aos mercados internacionais de crédito e acumula uma dívida estimada em cerca de US$ 170 bilhões (aproximadamente R$ 918 bilhões).
As sanções impostas pelos EUA também dificultam o acesso a financiamento externo.
Nesta semana, Delcy Rodríguez afirmou que a Venezuela negocia com os EUA e com o FMI a recuperação de recursos para reconstruir as áreas afetadas, mas ainda não há datas nem valores definidos.
Em maio, o FMI anunciou a retomada das relações com o governo venezuelano e informou que iniciará conversas para restabelecer sua atividade de supervisão no país. O organismo ressaltou, no entanto, que essa reaproximação “não implica financiamento imediato” e que será “um processo”.
Durante a pandemia, a Venezuela deixou de receber os recursos extraordinários que o FMI disponibilizou a países para enfrentar a crise sanitária. Na época, o organismo afirmou que não podia determinar qual era o governo legítimo do país.
Naquele momento, os EUA e seus aliados reconheciam o líder da oposição Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela. Mas desde então muita coisa mudou.
Nicolás Maduro foi capturado em Caracas e levado para Nova York em uma operação militar dos EUA, em 3/1 deste ano. A sua vice-presidente e principal aliada, Delcy Rodríguez, assumiu a Presidência e governa agora com o apoio explícito do presidente americano, Donald Trump.
O FMI não descarta conceder ajuda ao governo de Rodríguez. Diante do histórico recente, é provável que exija um plano rigoroso de supervisão e o cumprimento de uma série de condições. E, caso os recursos sejam liberados, será necessário administrá-los com transparência e definir prioridades entre as diferentes necessidades das regiões afetadas.
“Em outras catástrofes desse tipo, foi criada uma autoridade independente para garantir uma gestão eficiente e organizada dos recursos. Essa é uma fórmula que poderia ser adotada agora”, propõe Grisanti, da Ecoanalítica.
Mesmo que isso aconteça, outro desafio será contar com profissionais qualificados para conduzir a reconstrução. “O governo enfrenta limitações de capital humano, e o país vem de anos de declínio econômico, deterioração ética e sanções”, afirmou Herrera, da Síntesis Financiera.
Para Herrera, a situação enfrentada pela Venezuela, que pode marcar os próximos anos, pode ser resumida da seguinte forma: “Estamos diante de um Estado enfraquecido e tutelado, que hoje não tem condições de responder adequadamente. Por isso, a articulação com o restante da sociedade será indispensável.”

Brasil tem 30 dias de férias por lei, mas só 1 em cada 3 trabalhadores usa todo o período, diz pesquisa

Veja como ocupar o tempo das crianças nas férias
Muitos trabalhadores brasileiros não utilizam integralmente o período de descanso garantido por lei. Apenas 33% aproveitam todos os 30 dias de férias a que têm direito — ou seja, somente 1 a cada 3 funcionários.
A mediana de dias efetivamente utilizados é de 20 dias, mesmo a legislação assegurando 30.
O levantamento da Deel, plataforma global de RH e folha de pagamento, em parceria com a Andreessen Horowitz, foi feito a partir de registros reais de solicitações de férias e licenças envolvendo mais de 1,5 milhão de trabalhadores em 150 países.
No Brasil, foram analisadas 993 solicitações de férias em empresas, principalmente dos setores de tecnologia, startups e organizações com modelo de trabalho remoto ou híbrido.
Com 30 dias de férias anuais assegurados pela legislação, o Brasil tem a segunda maior concessão entre os países analisados, atrás apenas da França, onde a média é de 34 dias.
No entanto, o aproveitamento do benefício é menor: enquanto os brasileiros utilizam 72% dos dias disponíveis, os franceses chegam a 88%.
A diferença chama atenção porque os dois países possuem políticas consideradas amplas de descanso. Mesmo com uma quantidade semelhante de dias garantidos, o Brasil registra um índice de utilização 16 pontos percentuais inferior ao francês.
Brasileiros estão entre os trabalhadores que tiram férias mais longas
Embora parte dos profissionais não utilize todos os dias disponíveis, o Brasil se destaca pelo tamanho dos períodos de descanso. De acordo com a pesquisa, 62% dos trabalhadores brasileiros tiram ao menos um período de 11 dias consecutivos ou mais de férias por ano – um dos maiores índices da amostra global.
O percentual supera o registrado em países conhecidos por políticas voltadas ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional, como Suécia (55%) e Dinamarca (51%).
O homem tinha ido de férias com a esposa e os dois filhos para Kos, na Grécia
Getty Images via BBC
Licenças médicas revelam diferença significativa entre homens e mulheres
O levantamento também identificou uma diferença relevante no uso de licenças médicas entre homens e mulheres no Brasil. Durante o período analisado, 41% das trabalhadoras registraram ao menos uma licença médica, contra 21% dos homens, uma diferença de 20 pontos percentuais.
O maior índice aparece entre mulheres de 35 a 39 anos: 54% delas tiveram pelo menos uma licença médica registrada no período, tornando esse o grupo com maior frequência de afastamentos em toda a amostra brasileira.
Férias de meio período ainda são pouco utilizadas no Brasil
Outro comportamento identificado pela pesquisa é o baixo uso de férias em períodos menores, como meio dia de afastamento. No Brasil, apenas 3% das solicitações analisadas corresponderam a esse formato, percentual bem inferior ao observado em países como França (11,5%), Reino Unido (11,3%) e Alemanha (9,4%).
Enquanto nesses mercados a flexibilização da jornada já faz parte da cultura de trabalho, no Brasil ainda predomina um modelo mais tradicional, o profissional está trabalhando ou está oficialmente afastado.

Como profissionais de IA estão inflacionando os imóveis na Califórnia — e expulsando famílias de suas casas

Apenas a parte superior da casa no meio desta foto — um apartamento de três dormitórios — estava à venda por quase US$ 3 milhões
Open Homes via BBC
Em uma rua arborizada no bairro residencial abastado de Duboce Triangle, em São Francisco, a parte superior de uma casa isolada branca, da era eduardiana, atraía visitantes, entre potenciais compradores.
O apartamento de três dormitórios, luxuosamente reformado, estava à venda por quase US$ 3 milhões (mais de R$ 15 milhões). E vinha atraindo cada vez mais atenção devido a uma forma de pagamento incomum: o vendedor aceitaria receber ações das empresas de inteligência artificial OpenAI ou Anthropic em vez de dinheiro.
📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia
“O valor [do imóvel] é questionável, mas eu gostaria de comprá-lo”, diz um jovem funcionário da OpenAI que acaba de visitar o apartamento com sua parceira.
O funcionário, que se mudou para a cidade californiana há dois anos para um cargo técnico na empresa sediada em São Francisco, está atualmente morando de aluguel. Ele planeja perguntar aos seus chefes sobre a possibilidade de transferência de ações.
Agora no g1
Bem-vindo a São Francisco em 2026, cidade que também abriga a gigante da IA, Anthropic. São Francisco é o epicentro da revolução da inteligência artificial e os preços imobiliários na cidade subiram drasticamente este ano.
“Os preços estão simplesmente astronômicos”, diz Daryl Fairweather, economista-chefe da Redfin, uma empresa imobiliária que acompanha os preços de imóveis nos EUA. “As pessoas estão com dinheiro sobrando e prontas para comprar.”
Em março, São Francisco recuperou o título de cidade mais cara para compradores de imóveis nos EUA, ultrapassando a rival São Jose, localizada a 80 quilômetros ao sul, no coração do tradicional Vale do Silício.
Naquele mês, o preço médio das casas em São Francisco subiu 19% em relação ao ano anterior, e essa tendência continuou, com altas de 14,5% e 14,1% em abril e maio, respectivamente, de acordo com dados fornecidos pela Redfin.
O preço médio de venda na cidade, em maio de 2026, atingiu o recorde de US$ 1,76 milhão, em comparação com quase US$ 400 mil nos EUA como um todo, onde os preços subiram apenas 1,4% em março e 2% em abril e maio.
A opinião de praticamente todos na cidade é que o dinheiro proveniente da inteligência artificial é o principal motor do aquecido mercado imobiliário de São Francisco.
“Chegamos a essa conclusão com base no que estamos vendo nos dados e no que ouvimos de nossos agentes”, afirma Fairweather.
Ela destaca o aumento acentuado nos preços nos endereços de luxo da região da Baía de São Francisco – que inclui o Triângulo de Duboce – desde que a OpenAI lançou o ChatGPT no final de 2022.
Isso interrompeu a recessão que São Francisco sofreu durante a pandemia de covid, quando a população diminuiu e os preços dos imóveis caíram.
Hoje, os altos salários e bônus de contratação pagos aos principais profissionais de IA na cidade podem ser extraordinários, mesmo para os padrões do Vale do Silício. Ainda mais generosas são as opções de ações que os funcionários puderam resgatar parcialmente por meio de vendas limitadas de ações.
Em outubro passado, mais de 600 funcionários atuais e antigos da OpenAI venderam ações no valor total de US$ 6,6 bilhões, uma média de US$ 11 milhões por participante, conforme relatado recentemente.
Na Anthropic, cujo principal produto é o Claude, foi divulgado recentemente que os funcionários também foram autorizados a vender ações no valor total de cerca de US$ 6 bilhões.
E com ambas as empresas prestes a realizar aberturas de capital em bolsa ainda este ano ou no próximo, criando mais funcionários multimilionários, muitos acreditam que o setor imobiliário de São Francisco vai se valorizar ainda mais.
Apartamento de três dormitórios no Duboce Triangle foi luxuosamente mobiliado
Open Homes via BBC
“A guerra de preços de hoje será vista como pechincha, e já é”, diz Rachel Swann, a corretora responsável pelo imóvel no Triângulo de Duboce.
Enrico Moretti é professor de economia na Universidade da Califórnia, Berkeley, e mora na cidade.
Ele afirma que o boom da IA ainda está no começo e destaca que, embora a população e os níveis de emprego da cidade estejam aumentando, eles permanecem abaixo dos níveis pré-pandemia.
Existem também forças contrárias que podem estar impedindo o progresso. Grandes empresas de tecnologia, como a Meta, têm registado recentemente demissões em massa.
E à medida que a indústria de IA passa de sua fase de inovação em rápido crescimento para uma de empresas consolidadas, é provável que necessite de trabalhadores menos especializados, que terão menos capacidade de exigir a mesma remuneração.
Moretti também destaca que a maior parte da riqueza proveniente das futuras ofertas públicas iniciais (IPOs) da OpenAI e da Anthropic irá para os investidores, e não para os funcionários, e que essas empresas estão localizadas em diferentes partes do mundo.
Mas, enquanto isso, o corretor de imóveis de São Francisco, Matthew Goulden, diz que a situação atual é “uma loucura”.
Goulden, que trabalha nesse mercado há mais de 20 anos, afirma que começou a notar um aumento no número de potenciais compradores – muitos do mundo da IA – no final do ano passado.
Segundo ele, a tendência de alta não se restringe apenas a imóveis de luxo, mas se estende por todo o mercado, desde casas para uma única família até apartamentos de um quarto, e embora seja mais acentuada em bairros desejáveis, está sendo sentida em quase todos os lugares.
Ele afirma que as guerras de lances — em que compradores se dispõem a pagar preços cada vez mais altos — são comuns neste momento, por vezes elevando os preços de venda milhões acima do valor pedido.
Ao mesmo tempo, ele acrescenta que as casas estão sendo vendidas mais rápido do que nunca, e o número de compras à vista parece estar aumentando consideravelmente, principalmente no segmento de alto padrão do mercado.
Danielle Lazier, outra corretora de imóveis experiente de São Francisco, descreve uma situação semelhante, mas acrescenta uma perspectiva diferente. Segundo ela, há muito tempo existe uma tendência em São Francisco de anunciar imóveis abaixo do valor de mercado para criar um efeito de leilão.
E a oferta é cronicamente limitada – São Francisco é pequena, tem uma alta proporção de inquilinos e tem tido dificuldades para construir novas moradias (mesmo que o novo prefeito da cidade, focado no crescimento e na recuperação, esteja buscando mudar isso).
“De repente, o dinheiro proveniente da IA pode ter um efeito desproporcional”, diz ela.
Enquanto isso, à medida que o novo boom da IA ganha força, a história de quem consegue ficar em São Francisco e quem não consegue é contada pelos seus moradores.
Duas famílias de São Francisco com filhos em idade escolar, que pediram anonimato para proteger sua privacidade, conseguiram recentemente comprar casas prontas para morar, atendendo à sua necessidade urgente de mais espaço – mas apenas uma delas conseguiu fazê-lo dentro da cidade.
Essa família conseguiu comprar uma casa no disputado bairro residencial onde moravam de aluguel há muito tempo, depois que um dos pais, que trabalha na OpenAI, vendeu algumas ações da empresa em outubro passado, dando à família o impulso financeiro necessário para comprar o imóvel à vista.
O casal diz se sentir “em conflito e constrangido” pelo fato de ter sido o dinheiro da inteligência artificial que tornou tudo isso possível.
“Não somos pessoas extravagantes”, dizem. “Apenas fizemos o que pudemos com a oportunidade.”
Em contrapartida, a outra família, que não obtém sua renda da IA ou do mundo da tecnologia, teve que se mudar para uma cidade mais suburbana na região da Baía de São Francisco, ao norte.
A nova casa deles, comprada em parte com um financiamento imobiliário, inclui piscina e terreno adicional.
É um tipo de vida diferente, observa a mãe de família, e eles já se adaptaram em grande parte – embora isso envolva um longo trajeto diário para o marido, que ocupa um cargo importante no governo em São Francisco.
“Não teríamos ido embora se tivéssemos condições de ficar”, reflete ela. “É meio frustrante e fico um pouco chateada ao ver todo esse dinheiro extra da IA expulsando todo mundo.”
O apartamento no Duboce Triangle foi vendido por US$ 3,2 milhões – US$ 200 mil acima do preço pedido, segundo o corretor imobiliário. Ele não disse se o negócio incluiu ações de empresas de IA.
Usamos inteligência artificial para traduzir esta reportagem, originalmente escrita em inglês. O texto foi revisado por um jornalista da BBC antes da publicação. Saiba mais aqui sobre como a BBC está usando a inteligência artificial (link para texto em inglês).

Por que a carne não deve ficar mais barata mesmo com a redução das exportações para a China?

Brasil se aproxima do limite da cota chinesa, e frigoríficos diminuem compra de bois
O Brasil esgotou a cota de exportação de carne bovina para a China e deve reduzir as vendas ao país até o fim do ano.
Isso, porém, não significa que haverá excesso de carne no mercado brasileiro. Pelo contrário: a previsão é de que o produto fique ainda mais caro no último trimestre do ano, segundo economistas ouvidos pelo g1.
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
A China, principal compradora da carne bovina brasileira, adotou uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas com tarifa reduzida de 12%. Depois que esse volume é atingido, a tarifa sobe para 55%, reduzindo significativamente a competitividade da carne brasileira.
🥩Por que a carne não deve baratear? Neste momento, os frigoríficos estão reduzindo o abate de bois, ou seja, há menos carne sendo produzida. Sem aumento da oferta, os preços nos supermercados tendem a permanecer elevados.
🥩O que vai fazer o preço crescer? A carne é enviada à China em navios, em viagens que duram cerca de 40 dias. Em janeiro, a cota será renovada, reabrindo o mercado chinês ao produto brasileiro. Por isso, no fim do ano, os frigoríficos tendem a direcionar a produção para atender à demanda chinesa de 2027. Ao mesmo tempo, o consumo no mercado interno aumenta com as festas de fim de ano, o que cria uma nova pressão sobre os preços.
Entenda mais detalhes desse cenário abaixo.
Preço dos alimentos: o que ficou mais caro e o que barateou no 1º semestre
Mais boi no pasto
Segundo Larissa Alvarez, analista de inteligência de mercado da StoneX, as cotas estabelecidas pela China mudaram a dinâmica do mercado do boi no Brasil.
Tradicionalmente, a maior demanda da China ocorria no segundo semestre, para atender às comemorações do Ano Novo Chinês. Com a criação da cota, os frigoríficos passaram a disputar quem conseguiria exportar antes de o limite ser atingido, explica a especialista.
Como consequência, o preço do boi gordo atingiu o recorde de R$ 365 em abril.
Com a redução das compras chinesas, o setor passou a diminuir o abate de bois. Na comparação entre maio de 2025 e maio de 2026, a queda foi de quase 3%. A tendência é de retração ainda maior nos próximos meses.
Apesar da redução dos abates, os animais continuam disponíveis para venda. Por isso, o preço do boi gordo está em queda e gira em torno de R$ 330, segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado.
“Como nós estamos falando de uma atividade de ciclo longo, fica mais complicado para o pecuarista brasileiro cortar a produção de uma maneira rápida. As decisões em torno disso são mais lentas”, explica.
Mas esse período de preços mais baixos deve durar pouco. No último bimestre do ano, o setor tende a preparar a carne que chegará à China em janeiro.
“O grande problema nessa história toda é que vai ter uma menor disponibilidade de gado para o abate nesse período. Tem o clima muito seco por conta do super El Niño que vem pela frente. Isso vai impactar na condição do pasto e vai reduzir ainda mais a disponibilidade para o abate”, afirma.
Segundo Iglesias, esse conjunto de fatores deve encarecer a carne no Brasil justamente em um período em que a demanda interna cresce por causa das festas de fim de ano.
Veja os países para onde o Brasil mais exportou carne bovina em 2025; exportações de carne bovina
Kayan Albertin/g1
Como fica o preço agora?
Segundo Iglesias, da Safras & Mercado, a procura por carne no Brasil está baixa e não sustenta os preços pagos ao produtor neste momento. “Até tínhamos um certo otimismo em relação à Copa do Mundo, mas a eliminação da nossa seleção brasileira prejudicou até isso”, explica.
Segundo o professor Bruno Capuzzi, do Insper Agro Global, isso deve ajudar a manter o preço do boi mais baixo, o que pode trazer um alívio temporário para o consumidor.
Além disso, segundo ele, as férias coletivas nos frigoríficos não significam redução da oferta no mercado interno, mas apenas uma manutenção do volume exportado.
Já para Alvarez, da StoneX, a tendência é de estabilidade nos preços ao consumidor.
Leia também: Veto à carne brasileira: governo responsabiliza setor produtivo por adequação às exigências da UE
China pode ser substituída?
Na previsão de Iglesias, perder o mercado chinês no segundo semestre representaria um prejuízo de até US$ 2 bilhões. Na prática, porém, o impacto deve ser menor, já que as exportações não serão totalmente interrompidas, embora devam cair de forma relevante.
A tendência também é que os exportadores busquem novos mercados. Segundo o analista da Safras & Mercado, o Brasil já ampliou as vendas para países como Argentina e Uruguai.
Outros países que ainda exportam para a China com tarifa reduzida também podem ampliar as compras de carne brasileira, seja para consumo interno ou para revenda ao mercado chinês. Isso ocorre porque, diferentemente do Brasil, muitos deles não conseguem atender simultaneamente à demanda doméstica e à chinesa.
As cotas foram criadas pela China para estimular a produção local de carne bovina. Atualmente, os pecuaristas chineses não conseguem atender à demanda interna, e os preços permanecem elevados no país.
“A China entende que, nesse momento, para ter essa recuperação do setor, vai precisar oferecer preços mais altos para a sua população. Sem alta do preço, não vai acontecer a alta do boi”, explica Iglesias.
Por outro lado, Capuzzi, do Insper, avalia que, se os preços continuarem subindo na China, o país poderá rever a restrição para ampliar as importações do Brasil. Outra possibilidade, segundo ele, é utilizar cotas de outras nações para atender ao consumo interno.
Quando a medida foi anunciada, o Brasil tentou negociar pegar fatias de países concorrentes. No entanto, o pedido foi negado.
LEIA TAMBÉM
Do café ao arroz: El Niño ameaça produção e pode elevar preços dos alimentos
‘Não existe mais ano normal’: agricultores dos EUA mudam horários de colheita e protegem mudas para enfrentar calor extremo
Preço dos alimentos: o que ficou mais caro e o que barateou no 1º semestre