A invasão de vídeos feitos com IA para 'hipnotizar' crianças no YouTube: 'Pode impactar pelo resto da vida'

Personagens que mudam de nome, de voz e até de aparência ao longo da história, sem qualquer explicação, aparecem em vídeos de IA no Youtube
Bloomberg via Getty Images
Um urso panda reencontra um antigo cuidador e reage com surpresa, quase como se fosse um ser humano. A imagem é extremamente realista.
Um avatar de Jesus aparece em uma praia construindo estátuas de si mesmo.
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Músicas infantis que não têm refrão claro, trazem letras incompreensíveis e misturam trechos em mais de um idioma.
Personagens que mudam de nome, de voz e até de aparência ao longo da história, sem qualquer explicação.
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Estes são alguns dos vídeos aparentemente criados com inteligência artificial e sugeridos pelo algoritmo do YouTube, inclusive após buscas relacionadas ao universo infantil.
Em um teste da BBC News Brasil, bastaram cerca de 15 minutos navegando pelos vídeos curtos da plataforma para que clipes desse tipo aparecessem. A busca inicial havia sido por temas como os jogos Roblox, Minecraft e vídeos de animais.
Produzidos em escala e replicados por diferentes canais, muitos desses conteúdos acumulam dezenas ou centenas de milhares de visualizações.
Criadores chegam a recomendar o nicho infantil como uma oportunidade de negócio e afirmam ser possível obter renda com esses vídeos.
Já especialistas ouvidos pela BBC News Brasil alertam que esse material pode levar as crianças a confundir realidade e ficção e afetar de forma significativa e permanente sua capacidade de atenção e seu desenvolvimento cognitivo e social.
O que explica essa invasão de vídeos gerados por IA no YouTube, o maior serviço de streaming do mundo?
Um dos fatores é econômico, segundo pesquisadores ouvidos pela reportagem.
O YouTube, por sua vez, diz priorizar o combate a conteúdos de IA de baixa qualidade e adotar regras mais rígidas para vídeos destinados a crianças.
Como são os vídeos infantis feitos com IA
Pesquisadores identificaram músicas, conteúdo religioso e cópias de personagens com direitos autorais em vídeos gerados por IA no Youtube
Reprodução/André Mintz/Youtube
Ainda não é possível dimensionar com clareza o tamanho e alcance deste fenômeno.
A reportagem tentou estimar a frequência com que vídeos feitos com IA aparecem para o usuário, com base no alerta visual exibido pelo YouTube para conteúdos deste tipo.
A maioria, porém, não apresentava qualquer aviso, mesmo quando havia fortes indícios do uso da tecnologia, como vozes que não correspondiam aos personagens, desenhos que mudavam de forma entre uma cena e outra e gestos ou movimentos incomuns.
Pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que o YouTube não identifica automaticamente vídeos feitos com IA e que muitos criadores não informam quando recorrem à tecnologia.
Uma análise do jornal The New York Times feita manualmente e também com uma ferramenta de detecção ajuda a ilustrar a frequência com que esses vídeos aparecem.
Em uma sessão de 15 minutos realizada após a exibição de um vídeo do canal infantil CoComelon, mais de 40% dos vídeos assistidos pareciam conter imagens geradas por IA.
Mesmo com dificuldades na coleta de dados, um estudo conduzido por André Mintz, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e pela estudante de graduação em Cinema de Animação e Artes Digitais Juno Bozzi buscou identificar a presença desse tipo de conteúdo em vídeos infantis em português e inglês no YouTube.
A pesquisa partiu de uma base com cerca de 17 mil vídeos encontrados por meio de buscas com palavras-chave relacionadas à inteligência artificial e conteúdo infantil.
Em seguida, os pesquisadores aplicaram novos filtros para identificar apenas vídeos efetivamente voltados às crianças.
Os vídeos infantis gerados por IA analisados apresentavam diferentes níveis de uso desta tecnologia. Alguns pareciam ter sido produzidos quase integralmente desta forma. Outros incorporavam apenas alguns elementos, como cenários das animações.
A maior parte dos conteúdos era musical, com imagens geradas por IA acompanhadas de canções infantis. O estudo também encontrou adaptações de histórias, vídeos educativos, como lições sobre o alfabeto, e conteúdos religiosos.
Uma categoria que chamou a atenção dos pesquisadores foi a dos vídeos de “transformação”, nos quais personagens de desenhos animados são recriados por IA em versões com aparência de crianças. A pesquisa aponta que esses vídeos tendem a repetir imagens genéricas e estereotipadas.
“O que chama a atenção é um certo desprezo pelo espectador infantil, de colocar qualquer coisa e confiar que a criança vai aceitar”, diz o professor André Mintz à BBC News Brasil.
‘Crianças pequenas não conseguem distinguir fantasia de realidade’
Rachel Franz, diretora do programa Young Children Thrive Offline (Crianças pequenas se desenvolvem melhor longe das telas, em tradução livre) da organização americana Fairplay, explica que esse tipo de vídeo se enquadra no chamado “AI slop”
Essa expressão é usada para definir vídeos de baixa qualidade, produzidos em massa com o uso de softwares de inteligência artificial.
Segundo Franz, a preocupação é maior em relação aos efeitos disso nas crianças pequenas, em um período da vida em que o cérebro ainda passa por intenso desenvolvimento.
“O cérebro das crianças atinge cerca de 90% do tamanho adulto até os 5 anos, e o que elas encontram nesse período molda seu desenvolvimento e pode impactá-las pelo resto da vida”, afirma Franz.
“Crianças pequenas não conseguem distinguir fantasia de realidade. Assistir a AI slop pode condicionar o cérebro delas a acreditar que algo é real quando não é.”
Franz afirma que muitos desses vídeos são produzidos para capturar a atenção infantil, não para ensinar.
Segundo ela, a sucessão de imagens confusas também pode sobrecarregar a quantidade de informações que uma criança consegue processar de uma só vez.
“Quando o cérebro é sobrecarregado com informações, a criança não consegue aprender tão bem quanto ao vivenciar situações reais, no seu próprio ritmo e usando todos os sentidos.”
Ela também relaciona o consumo prolongado desses vídeos ao tempo que deixa de ser dedicado a atividades como brincar, dormir e interagir com outras pessoas.
“Vídeos hipnotizantes de músicas infantis gerados por IA, por exemplo, podem moldar o cérebro das crianças no longo prazo, afetando sua capacidade de atenção, sua resiliência e sua habilidade de regular as emoções mais tarde na vida.”
Especialistas sugerem que YouTube deixe de recomendar vídeos gerados por IA
AFP via Getty Images
Os possíveis efeitos do consumo deste tipo de vídeo gerado por IA já são percebidos em atendimentos, segundo Telma Pantano, fonoaudióloga e psicopedagoga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP).
“Há crianças que estão vindo com muitos medos, com muita dificuldade de definir o que acontece e o que não acontece.”
Pantano afirma que a maturação das áreas pré-frontais do cérebro, relacionadas à capacidade crítica, à autorregulação e ao automonitoramento, começa por volta dos 6 anos e se estende até a vida adulta.
Segundo ela, a distinção entre realidade e fantasia começa a se consolidar por volta dos 7 ou 8 anos, enquanto habilidades como tomada de decisão e resolução de problemas se desenvolvem mais tarde.
“Até os 10 anos, é uma idade de muito risco, porque a criança ainda não sabe separar a realidade da fantasia e não tem capacidade de tomada de decisão, organização e planejamento para resolver problemas.”
Para a especialista, há ainda um custo no contato constante com imagens prontas, que exigem pouco da imaginação infantil.
“Sabe aquela sensação de quando a gente vai ver um filme depois de ler o livro? Normalmente não gostamos do filme porque ele vai contra a nossa imagem mental”, diz.
“O que estamos fazendo com essa construção de vídeos? Estamos permitindo que crianças e adolescentes entrem em contato com a imagem sem antes fazer essa construção mental. As imagens vêm prontas, e a criatividade fica bastante restrita.”
‘Quanto menor a criança, mais atrativo aquilo fica’
Pantano afirma que também não se pode esperar que as próprias crianças identifiquem e rejeitem vídeos de baixa qualidade.
Conteúdos com cores, movimentos e mudanças rápidas podem capturar a atenção mesmo quando não apresentam uma narrativa coerente ou informação confiável, diz.
“Mesmo conteúdos sem significado, sem base científica ou sem conhecimento vão atrair a criança da mesma forma. E, quanto menor a criança, mais atrativo aquilo fica.”
André Mintz avalia que esse tipo de vídeo se aproveita da dificuldade de muitas famílias em controlar o consumo de conteúdo infantil online.
“Geralmente, quando você vê crianças que assistem muito conteúdo online, é essa situação do pai ou da mãe sem tempo para ficar com a criança, precisando entretê-la enquanto cuida da casa, trabalha ou faz outra coisa.”
Para ele, o problema não está apenas na existência dos vídeos, mas na forma como esse tipo de conteúdo se encaixa no modelo das plataformas.
“Se tem gente assistindo, para o YouTube está bom. Vai ser recomendado, vai aparecer”, diz Mintz.
Rachel Franz concorda que o impacto sobre as crianças é agravado pelo próprio modo de funcionamento das plataformas.
“Elas são projetadas para fisgar as crianças e mantê-las engajadas pelo maior tempo possível. Elas usam táticas deliberadas, como reprodução automática e recomendações algorítmicas, para alimentar as crianças com um vídeo atrás do outro”, afirma.
“Quando acrescentamos AI slop, que hipnotiza ainda mais as crianças, essa se torna uma batalha perdida. Isso não apenas impacta o desenvolvimento infantil, como torna impossível exercer o papel de pai ou mãe quando a própria tela luta contra você.”
YouTube diz que combater vídeos de IA de baixa qualidade é prioridade
O YouTube afirma que, embora seja permitido conteúdo gerado por IA, a plataforma tem padrões mais rígidos para o conteúdo voltado para espectadores mais jovens.
“Combater o conteúdo de baixa qualidade gerado por IA é uma prioridade máxima para nós, e isso inclui esforços contínuos para remover conteúdo de IA marcado como ‘feito para crianças’ quando ele não atende aos nossos princípios de qualidade”, diz a plataforma em nota à BBC News Brasil.
A empresa afirma que canais que usam IA continuam qualificados para monetização, ou seja, para exibir propaganda e serem pagos por isso, “desde que o produto final seja uma criação original que adicione uma perspectiva autêntica, siga nossas diretrizes de comunidade e de monetização, e divulgue adequadamente quando o conteúdo for alterado ou sintético”.
Em uma entrevista ao canal Creator Inside, em julho, o vice-presidente de confiança e segurança do YouTube, Matt Halprin, disse que são considerados problemáticos vídeos em que o conteúdo seja genéricos ou repetitivo, que busquem manipular as emoções dos espectadores ou criem peronsagems com IA para abordar temas considerados mais sensíveis, como finanças, questões legais ou saúde.
Para João Victor Archegas, coordenador de direito e tecnologia do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), é positivo que o YouTube sinalize ao público o que caracteriza como um conteúdo que não seja autêntico, e que isso possa impedir sua monetização.
Isso permite que os criadores de conteúdo compreendam melhor os limites estabelecidos pela plataforma.
Para uma empresa que opera uma das maiores máquinas publicitárias do mundo, ressalta Archegas, é importante dar sinais claros a parceiros e anunciantes de que há uma preocupação com o uso dessa tecnologia, e que há alguma forma de controle pela própria plataforma.
Mas Archegas avalia que há uma contradição: o YouTube incentiva ativamente a adoção de ferramentas de IA para a criação de vídeos, enquanto tenta frear o “AI slop” (conteúdo de baixa qualidade) que essas mesmas tecnologias permitem escalar.
Isso tem, na prática, um efeito limitante sobre a capacidade do YouTube de conter a disseminação destes vídeos.
“A plataforma segue tendo o desafio imenso de identificar conteúdos gerados por IA e atuar quando eles são identificados”, diz Archegas.
“Essas novas categorias podem ajudar o moderador a entender o que a plataforma considera prioritário, mas não dizem o que, de fato, o YouTube classifica como conteúdo gerado por IA ou quais são os parâmetros técnicos usados nessa moderação.”
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Por que cada vez mais jovens dizem não a cargos de liderança

Para jovens, crescer financeiramente e assumir um cargo de gestão deixaram de ser sinônimos
Christin Klose/dpa-tmn/picture alliance
Crescer na carreira, ganhar mais e conquistar bons benefícios é o sonho de praticamente todo trabalhador. Mas, para os mais jovens, esse caminho nem sempre passa por um cargo de liderança. É o que apontam pesquisas globais, como o levantamento da consultoria Deloitte, realizado em 2025.
Apenas 6% dos entrevistados da Geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) e dos millennials, ou geração Y (nascidos entre 1978 e 1994), disseram que seu principal objetivo profissional era chegar a uma posição de chefia.
Por outro lado, o mesmo estudo revela uma preocupação crescente com as finanças. Entre os participantes, 48% da Geração Z e 46% dos millennials afirmaram não se sentir financeiramente seguros.
Em 2024, esses índices eram de 30% e 32%, respectivamente, o que representa uma piora expressiva em apenas um ano.
Nesse cenário, ganhar mais dinheiro e assumir um cargo de gestão deixaram de ser objetivos necessariamente interligados. Trata-se de uma tendência global que também já se reflete no Brasil.
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Liderança, sim — mas sob certas condições
A rejeição à liderança está longe de ser uma regra geral. Para Lina Nakata, professora e pesquisadora da FIA Business School e autora do estudo Lugares Incríveis para Trabalhar, é um mito dizer que as gerações mais novas não querem liderar.
No recorte do primeiro semestre deste ano da pesquisa que coordena, os jovens apresentam uma propensão 32% menor de desejar cargos de liderança em comparação à média dos profissionais. Entre os entrevistados de 18 a 22 anos, liderar é prioridade para 15%. Já entre aqueles de 33 a 39 anos — faixa etária que registra o maior interesse por cargos de gestão — o percentual sobe para 23%.
“À medida que avançamos na carreira dentro das empresas, essa expectativa de liderança aumenta”, afirma. Segundo ela, no início da trajetória profissional, ocupar um cargo de gestão nem sempre está entre as principais ambições dos trabalhadores.
Para Nakata, os jovens não deixaram de querer liderar; eles apenas desejam fazê-lo sob determinadas condições. “Eles vão querer a liderança à medida que se identificam com a organização. Quando percebem que estão de acordo com aquilo que a empresa propõe e que o discurso institucional está alinhado às práticas da companhia”, analisa.
A pesquisadora também lembra que rotular os mais jovens como “desinteressados” pela liderança está longe de ser uma novidade. A mesma crítica, afirma, foi direcionada aos millennials quando eles ingressaram no mercado de trabalho.
“Quando cada grupo jovem chega ao mercado de trabalho, ele vai se adaptando. Estar naquele ambiente muda percepções e avaliações, e as pessoas passam a enxergar outras possibilidades. No início da carreira, pode haver menos interesse pela liderança, mas isso se altera com o tempo. Quando a geração Y chegou ao mercado, falava-se exatamente a mesma coisa”, diz.
Embora situação financeira seja uma preocupação dos jovens, pesquisadora aponta que há uma preferência maior por benefícios e qualidade de vida
Viorel Kurnosov/Zoonar/picture alliance
Mudança de prioridades, não falta de ambição
Atualmente, segundo a pesquisa, 15% dos jovens veem a liderança como um fator de realização profissional, o que, para a professora, relativiza a ideia de que existe uma rejeição generalizada aos cargos de chefia.
“Não quer dizer que nenhum jovem queira ser líder. Significa apenas que existe uma proporção menor de jovens que busca essa liderança.”
O primeiro ponto a entender, segundo Nakata, é que a queda no interesse por cargos de gestão não reflete falta de ambição, mas uma mudança nos critérios de sucesso.
“Não diria que é falta de ambição. São expectativas e crenças diferentes sobre o que é sucesso na vida. Décadas atrás, havia um modelo mais padronizado de sucesso profissional, baseado em alcançar cargos mais altos e salários mais elevados. Hoje, vemos que a percepção de realização e do que é considerado satisfatório para a vida e para a trajetória profissional mudou”, explica.
A professora afirma que os jovens tendem a questionar as premissas que o próprio mercado de trabalho estabelece como sinônimo de sucesso. Para ela, isso é positivo porque evita a naturalização de ideias como a de que “ser workaholic é legal” ou de que “viver estressado faz parte da rotina”. Além disso, temas como saúde mental passaram a ser discutidos mais abertamente.
O social media Mateus Araújo, de 28 anos, faz parte desse grupo. Ele recusou uma proposta para coordenar sua equipe por considerar que o novo cargo exigia um perfil diferente do seu.
“Eu não imaginava que fosse ser cotado como o próximo nome da sucessão. Apesar de desempenhar um bom trabalho, acredito que os perfis sejam diferentes.”
Segundo ele, o principal motivo para recusar a proposta foi ter discernimento de que as responsabilidades do cargo oferecido eram bastante distintas das que exercia até então. Além disso, a mudança significaria abrir mão de uma rotina que já considerava consolidada e sob controle.
Hoje, suas prioridades profissionais incluem estabilidade, qualidade de vida e flexibilidade para realizar trabalhos como freelancer “em uma rotina tranquila”. Ainda assim, ele não descarta assumir uma posição de liderança no futuro.
Jovens hoje em dia tendem a avaliar mais os prós e contras de assumir um cargo mais alto do que gerações anteriores
Channel Partners/Zoonar/picture alliance
O impacto da longevidade
Segundo Nakata, essa mudança também está relacionada ao aumento da expectativa de vida. A pesquisa da Deloitte mostrou que cerca de 40% da Geração Z e dos millennials se preocupam com a possibilidade de não conseguir se aposentar com conforto financeiro.
Com as pessoas vivendo mais — e, consequentemente, trabalhando por mais tempo — a qualidade de vida passou a influenciar as decisões de carreira desde cedo.
“Hoje temos uma expectativa de vida muito mais alta. Isso faz com que saibamos que teremos de trabalhar por mais tempo, independentemente do motivo. E também percebemos que os jovens querem uma carreira mais equilibrada, não necessariamente centrada na busca por um cargo de liderança. É uma tendência global”, afirma.
Mudança nas necessidades de competências no mercado de trabalho também impulsiona crescimento de carreira mais horizontalizado
Benis Arapovic/Zoonar/picture alliance
O cálculo que os jovens fazem
Para a professora, os jovens avaliam mais cuidadosamente os prós e contras de assumir posições de gestão do que as gerações anteriores.
“Eles estão analisando o que é mais vantajoso, o que traz maior satisfação e o que compensa mais. Pensam nas suas demandas e obrigações e, ao mesmo tempo, no que recebem em troca.”
Um dos fatores centrais desse cálculo é a remuneração.
“Quando comparamos a remuneração da base com a da liderança, muitas vezes compensa menos ser líder. São mais responsabilidades, mais riscos, mais recursos e orçamentos para gerenciar. Isso faz com que o jovem prefira buscar equilíbrio, qualidade de vida e flexibilidade, elementos que costumam ser mais difíceis de conciliar com a liderança”, afirma.
Esse foi um dos motivos que pesaram na decisão de Araújo.
“Ao aceitar a proposta, eu teria de lidar com demandas mais imprevisíveis, uma rotina presencial mais intensa e mais interações com colaboradores e parceiros. E, provavelmente, por uma remuneração que eu não considerava suficiente. Minha paz e uma rotina mais previsível têm muito mais peso para mim”, diz.
A professora acrescenta que as prioridades variam conforme o momento da carreira. Dependendo da fase, fatores como propósito e busca por novos desafios podem ser mais relevantes — e nem sempre estão associados a um cargo de liderança.
Os dados da Deloitte reforçam essa percepção: para 89% da Geração Z e 92% dos millennials, ter propósito é importante para a satisfação e o bem-estar no trabalho.
A modernização do mercado também contribui para essa mudança. Com novas carreiras e especializações surgindo constantemente, cresce o interesse por trajetórias horizontais, nas quais é possível evoluir profissionalmente sem necessariamente subir na hierarquia corporativa.
Ainda assim, Nakata ressalta que muitas pessoas continuam desejando liderar.
“A liderança acaba sendo uma escolha para quem busca essa ascensão, que normalmente está associada a salários maiores, benefícios, privilégios e acesso a decisões mais complexas.”
Por outro lado, ela avalia que a mudança de expectativas obriga as empresas a repensarem seus planos de carreira e estratégias de retenção. Em conversas com profissionais de recursos humanos, diz ouvir com frequência que integrantes da Geração Z valorizam cada vez mais benefícios e qualidade de vida, e não apenas aumentos salariais.
Para que os jovens se interessem por cargos de gestão, conclui a pesquisadora, as empresas precisam demonstrar que a liderança realmente vale a pena.