VÍDEO: SpaceX faz novo voo de teste da Starship, nave criada para futuras missões à Lua e Marte

Nave Starship, da SpaceX, faz decolagem em 13ª missão de testes
A SpaceX, do bilionário Elon Musk, fez nesta sexta-feira (24) um novo lançamento de sua Starship, a nave mais poderosa do mundo e projetada para futuras missões para a Lua e Marte.
Este é o 13º voo de teste do veículo espacial da empresa e, como nos outros experimentos, não houve passageiros a bordo. O lançamento aconteceu após dois adiamentos causados por conta de falhas na nave e do mau tempo.
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O último lançamento da supernave aconteceu maio e terminou com uma queda brusca do propulsor, Super Heavy, o estágio inferior, que deveria fazer um pouso controlado no Golfo do México. Não houve relatos de feridos ou danos materiais.
Depois do acidente, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) suspendeu os voos temporariamente até que as investigações fossem concluídas. O órgão concluiu sua análise e abriu caminho para o novo teste.
Decolagem em 13º voo de teste da Starship
Reprodução/SpaceX
No voo desta sexta, a nave liberou pela primeira 20 unidades da nova geração de satélites da Starlink. O objetivo da SpaceX era conectar os equipamentos com a rede que já opera no espaço por alguns minutos, antes deles serem destruídos em sua reentada na atmosfera.
“O teste de hoje fornecerá dados críticos enquanto nos preparamos para expandir nossa constelação Starlink”, disse a empresa.
A companhia disse que a causa do incidente em maio foram problemas de acionamento em 5 de 33 motores do propulsor Super Heavy, o que fez a manobra de retorno ser interrompida antes da hora. Para evitar que isso se repita, o veículo recebeu ajustes.
Entre as novidades estão mudanças na estrutura e no sistema do propulsor para solucionar problemas do voo anterior. A configuração de partida dos motores, por exemplo, teve ajustes para oferecer mais confiabilidade e fazer com que mudanças de direção do veículo sejam mais estáveis.
O estágio superior também recebeu alterações em seu sistema de propulsão. Apesar de ter concluído o voo anterior, a cápsula perdeu um de seus três motores logo após se separar do propulsor, o que exigiu as mudanças.
A SpaceX também usou o voo para testar o escudo térmico da Starship, proteção necessária para a nave não ser tomada por chamadas no retorno à Terra. Segundo a empresa, o foco é avançar em um projeto de reutilização rápida da nave.
Lançamento da Starship, em 24 de julho de 2026
Reprodução/SpaceX
Starship, nave da SpaceX, em foto divulgada em 23 de julho de 2026
Divulgação/SpaceX

Tarifa dos EUA pode agravar trabalho forçado que diz combater, alertam especialistas

EUA justificam novas tarifas ao Brasil com suposto trabalho forçado; entenda
Os Estados Unidos justificaram a nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros como uma forma de combater o trabalho forçado nas cadeias globais de produção.
Segundo o governo americano, o Brasil e outros 85 países não possuem mecanismos suficientes para impedir a entrada, em seus mercados, de mercadorias produzidas sob esse tipo de exploração.
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Mas especialistas, o governo brasileiro e organismos internacionais fazem um alerta que parece contradizer a lógica da medida: dependendo da forma como são aplicadas, as restrições comerciais podem acabar agravando justamente o problema que pretendem combater.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a explicação está na relação entre pobreza, vulnerabilidade e exploração.
“Em alguns casos, inclusive, a restrição do acesso a mercados pode piorar, porque aí você aumenta a pobreza, e a pobreza é uma das principais causas por trás desse tipo de violação”, afirma o diretor do escritório da OIT no Brasil, Vinícius Pinheiro.
A avaliação também aparece na manifestação enviada pelo governo brasileiro ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), responsável pela investigação que deu origem à nova tarifa.
No documento, o Brasil afirma que barreiras comerciais não fortalecem a fiscalização, não ampliam a rastreabilidade das cadeias produtivas e podem até dificultar a cooperação internacional necessária para enfrentar o problema.
Quando a punição é direcionada a empresas específicas ou a mercadorias comprovadamente produzidas com trabalho forçado, ela pode gerar incentivos para mudanças de comportamento, aumento da fiscalização e maior controle das cadeias produtivas.
Já medidas amplas, que atingem países inteiros ou setores econômicos sem distinguir empresas que cumprem ou não as regras, tendem a produzir efeitos menos previsíveis. O novo tarifaço dos EUA se enquadra nessa categoria.
“A experiência internacional mostra que a efetividade dessas medidas não deve ser generalizada. Onde ela tem sido mais efetiva é quando ocorre de forma individualizada. Por exemplo, se uma empresa específica foi flagrada, ela deveria ser penalizada.”
A explicação é econômica:
🔎 Quando as exportações diminuem, empresas podem reduzir investimentos, cortar empregos ou diminuir a renda. Em regiões marcadas por pobreza, informalidade e baixa proteção social, isso amplia justamente as condições que favorecem o aliciamento de trabalhadores para situações degradantes.
“Nós não queremos diminuir o comércio, mas queremos que esse comércio ocorra sobre bases justas, com respeito aos direitos fundamentais”, resume o diretor da OIT.
Na manifestação enviada ao USTR, o Itamaraty afirma que a medida pode gerar consequências econômicas amplas sem enfrentar as causas do problema.
“Medidas tarifárias não aumentam a capacidade de fiscalização, não incentivam diligência adicional nem atacam casos reais de trabalho forçado. Pelo contrário, elas podem desviar fluxos comerciais e impor custos econômicos amplos (inclusive para indústrias e consumidores dos EUA) sem tratar das questões centrais de direitos trabalhistas. Tarifas unilaterais também podem desestimular a cooperação entre governos, que é justamente necessária para combater o trabalho forçado de forma eficaz”, diz a carta divulgada.
Para o governo brasileiro, combater o trabalho forçado exige cooperação entre países, troca de informações, fortalecimento da rastreabilidade das cadeias produtivas e atuação coordenada dos órgãos de fiscalização.
Trabalho Forçado/ Escravidão Moderna/ Trabalho Análogo à Escravidão
Organização Internacional do Trabalho/ Kazi Salahuddin Razu/ Getty Images
Problema real
A crítica à tarifa não significa negar a existência do problema. Segundo a OIT, cerca de 28 milhões de pessoas vivem hoje em situação de trabalho forçado em todo o mundo.
O próprio Brasil convive com essa realidade. Desde 1995, mais de 65 mil trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão. Nos últimos anos, porém, o combate deixou de se concentrar apenas nos empregadores flagrados e passou a alcançar toda a cadeia produtiva.
É justamente essa lógica que orienta iniciativas como o projeto Reação em Cadeia, do Ministério Público do Trabalho (MPT), que rastreia relações comerciais entre grandes empresas e fornecedores envolvidos em violações de direitos humanos.
O programa já identificou mais de R$ 48 bilhões em negócios envolvendo fornecedores ligados a casos de trabalho escravo em setores como pecuária, café, soja, carvão vegetal, etanol, construção civil e indústria têxtil.
A iniciativa se soma a outros mecanismos do Brasil, como os grupos móveis de fiscalização e a chamada Lista Suja do Trabalho Escravo, que divulga empregadores responsabilizados.
Essas ferramentas colocam o Brasil como referência global no enfrentamento ao trabalho escravo contemporâneo, segundo Pinheiro. Para ele, um dos diferenciais brasileiros é justamente reconhecer a existência do problema e manter mecanismos permanentes de fiscalização, transparência e responsabilização.
“O Brasil é referência internacional em termos de combate ao trabalho escravo. Primeiro, por reconhecer e dar transparência ao tema, porque a atitude de outros países, por exemplo, é negacionista. Eles dizem que não existe.”
O reconhecimento internacional, porém, não significa que não existam desafios. Segundo Luciano Aragão Santos, coordenador nacional de combate ao trabalho escravo (Conaete) do Ministério Público do Trabalho (MPT), há uma lacuna justamente na área utilizada pelos EUA para justificar a nova tarifa: o controle de produtos importados e o monitoramento de fornecedores estrangeiros.
🔎 Hoje, o Brasil não possui uma legislação específica que obrigue empresas a verificar se fornecedores internacionais utilizaram trabalho forçado na produção das mercadorias importadas. É justamente essa lacuna regulatória relacionada às importações — e não à capacidade do país de combater o trabalho escravo internamente — que está no centro da discussão levantada pelos EUA.
As contradições da medida
Segundo o USTR, essa lacuna regulatória cria um ambiente de concorrência considerado desleal para empresas americanas, especialmente em setores expostos à competição internacional.
Dados da Walk Free, no entanto, mostram que os próprios EUA não mantêm um controle rigoroso sobre o histórico dos produtos que importam. O país lidera o ranking mundial de importações potencialmente expostas ao risco de trabalho forçado, movimentando cerca de US$ 169,6 bilhões por ano.
EUA lideram o ranking mundial de importações potencialmente expostas ao risco de trabalho forçado,
g1
Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que o objetivo de impedir a circulação de produtos associados ao trabalho forçado é legítimo, mas questionam se esse é, de fato, o real objetivo da medida. Diversos elementos da própria investigação apontam em outra direção.
O relatório não apresenta casos concretos de mercadorias brasileiras produzidas sob essas condições que tenham chegado ao mercado americano.
Outro ponto que alimenta críticas é o desenho das tarifas. Produtos como carne bovina, café e suco de laranja permaneceram fora das sobretaxas, apesar de esses setores aparecerem com frequência em registros oficiais brasileiros relacionados ao trabalho escravo contemporâneo.
Thiago de Aragão, CEO da Arko International, afirma que os setores mais relevantes da pauta exportadora brasileira para os EUA ficaram de fora das medidas. Para ele, se a preocupação fosse realmente combater o trabalho forçado nas cadeias globais de produção, o desenho da política seria diferente.
“Uma política coerente trataria a questão como um padrão horizontal e usaria critérios técnicos, como due diligence [diligência prévia] de cadeia, rastreabilidade e certificação. O que se vê é uma medida que escolhe setores em função do impacto doméstico americano”, afirma.
Também pesa o contexto em que a investigação foi aberta. Analistas apontam que o processo ocorreu em um momento em que Washington buscava novas bases legais para sustentar sua política tarifária e ampliar sua capacidade de pressão comercial sobre parceiros estratégicos.
Brasil passa a ser o segundo país mais tarifado pelos Estados Unidos, atrás apenas da China
Jornal Nacional/ Reprodução
O que está por trás da nova tarifa?
A investigação do USTR foi aberta após dificuldades enfrentadas pelo governo americano para sustentar judicialmente outras medidas comerciais e acabou servindo como alternativa para manter instrumentos de pressão sobre parceiros econômicos.
“Não vejo um núcleo genuíno de preocupação com trabalho forçado, especialmente porque o timing da investigação coincide com a expiração das tarifas horizontais de 10% da Seção 122”, lembra José Pimenta, diretor de comércio internacional da BMJ.
Pimenta aponta que a própria estrutura adotada pelo USTR indica que a discussão não se limita aos direitos humanos. Isso porque países que já possuem acordos ou compromissos comerciais específicos com os EUA também foram alvo das medidas tarifárias.
“É pouco crível que o USTR considere sinceramente todos esses países como violadores relevantes em matéria de trabalho forçado. O que eles têm em comum não é o problema, mas a concorrência econômica ou industrial com os Estados Unidos”, afirma.
📎 Ou seja, o tarifaço pode estar funcionando, ao mesmo tempo, como instrumento de pressão comercial, mecanismo de negociação diplomática e ferramenta para ampliar a influência americana sobre as regras que regem o comércio internacional.
Há ainda uma dimensão geopolítica. Segundo Aragão, o mecanismo pode ajudar os EUA a expandir internacionalmente regras semelhantes às que já utilizam para restringir produtos associados a determinadas regiões da China.
Na prática, isso aumentaria a pressão para que outros países adotem sistemas mais rigorosos de rastreamento e bloqueio de mercadorias ao longo das cadeias globais de fornecimento.
“Direitos humanos são o enquadramento. O motor é outro: reconstruir a política tarifária após a derrota na Suprema Corte, ganhar alavancagem bilateral e cercar a China por interposta pessoa”, conclui Aragão.
O que diz o governo brasileiro?
O governo brasileiro rejeita as conclusões da investigação americana e afirma que não existe base factual para a aplicação da nova tarifa.
Em documento encaminhado ao USTR, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, argumenta que os EUA não conseguiram apontar um único caso em que uma ação ou omissão do Brasil tenha permitido a entrada de produtos feitos com trabalho forçado no mercado americano.
A defesa também sustenta que a investigação ignorou parte das informações apresentadas pelo país sobre seu sistema de combate ao trabalho escravo, incluindo mecanismos de fiscalização, punição de empregadores e rastreamento de cadeias produtivas.
Outro ponto destacado pelo governo é que os EUA mantêm superávit comercial com o Brasil há anos, o que, na avaliação do Itamaraty, enfraquece a tese de que práticas brasileiras estariam causando prejuízos à economia americana.
Para o governo brasileiro, medidas tarifárias também não representam uma solução eficaz para enfrentar o problema do trabalho forçado.
A posição brasileira é que o combate ao trabalho escravo exige cooperação internacional, troca de informações e fortalecimento dos mecanismos de rastreabilidade das cadeias produtivas, e não a adoção de barreiras comerciais unilaterais.
Desde março de 2025, o governo brasileiro realizou mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone, nos níveis presidencial, ministerial e técnico, com autoridades americanas na tentativa de evitar a escalada tarifária e buscar uma solução negociada.
Para o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, a decisão anunciada por Washington extrapola a discussão sobre trabalho forçado e reflete divergências mais amplas nas negociações entre os dois países.
“Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações”, disse.

Como é feito o foie gras, alimento que foi proibido por Lula e reacendeu a tensão comercial com a França

Método para produção de foie gras, com tubo enfiado na garganta da ave, é considerado cruel
Bebeto Matthews/Arquivo/AP Photo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta sexta-feira (24) o projeto de lei que proíbe a produção e a venda de produtos obtidos por meio da alimentação forçada de animais. Entre eles, está o foie gras, produto da culinária francesa feito com fígado gordo de pato ou ganso.
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A norma, publicada no Diário Oficial da União, especifica que a proibição inclui a produção e a comercialização de foie gras, tanto in natura como enlatado.
Quem descumprir a regra poderá ser punido com prisão de três meses a um ano, além de multa, conforme prevê a Lei de Crimes Ambientais para casos de maus-tratos a animais.
Como é feito o foie gras
Traduzido como “fígado gordo” em português, a produção do foie gras envolve uma técnica conhecida como gavage, na qual patos ou gansos recebem grandes quantidades de alimento por meio de um tubo metálico introduzido no esôfago.
O procedimento é realizado nas últimas semanas de vida das aves e tem como objetivo provocar o aumento do fígado. O processo costuma durar de duas a três semanas, com duas ou três sessões diárias.
“Isso gera uma série de lesões na garganta, no esôfago ou até na face e no bico do animal”, explica George Sturaro, diretor de políticas públicas da ONG Mercy For Animals.
Segundo Sturaro, o fígado pode crescer até dez vezes além do tamanho normal, o que pode causar dor, alterações no metabolismo e estresse térmico nas aves.
Gavage, técnica de alimentação forçada
Mercy for Animals / divulgação
Além disso, há outro agravante: muitas vezes o processo não é feito corretamente, o que provoca ainda mais ferimentos nos animais.
“Você vê que as aves já até fogem quando chega o funcionário, porque já vira um manejo violento, não toma cuidado na hora de fazer a sondagem”, afirma Patrycia Sato, presidente e diretora técnica da Alianima.
Embora seja tradicionalmente consumido como uma iguaria em países como a França, o método de produção é alvo de críticas de entidades de proteção animal, que apontam sofrimento e impactos ao bem-estar das aves.
Foie Gras é proibido no Brasil.
REUTERS/Aline Massuca
A volta da tensão comercial França-Brasil
A nova medida do governo brasileiro reacendeu a tensão entre os governos do Brasil e da França. Isso porque os franceses são os principais produtores mundiais de foie gras.
Segundo o Comitê Interprofissional de Aves Aquáticas para Foie Gras (Cifog), o Brasil representa um mercado anual de aproximadamente 1 milhão de euros, concentrado em restaurantes de alto padrão e importadores de grandes cidades.
Antes mesmo da sanção presidencial, a entidade francesa havia pedido uma intervenção diplomática da União Europeia (UE) para tentar barrar a medida. Em maio, o Cifog classificou a futura proibição como uma “primeira violação” do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, firmado em dezembro após 25 anos de negociações.
Mais do que o impacto econômico imediato, os produtores franceses temem o precedente que a decisão pode criar para outros produtos agrícolas europeus. O setor argumenta que o foie gras integra uma lista de indicações geográficas protegidas reconhecidas pelo acordo entre os dois blocos.
A controvérsia se torna ainda mais sensível porque toca em um tema frequentemente defendido pelos próprios agricultores europeus: as chamadas “cláusulas-espelho”, que exigem que produtos importados respeitem padrões ambientais, sanitários ou de bem-estar animal semelhantes aos adotados pela União Europeia.
Brasil proíbe foie gras após classificar técnica como maus-tratos

Alvo de tarifaço, Brasil é há décadas fonte de superávit recorde para os EUA

Governo brasileiro rechaça decisão dos EUA em impor tarifa de 12,5% e volta a falar em Reciprocidade
Novamente na mira de tarifas impostas pelo governo Donald Trump, o Brasil acumula um déficit de 144 bilhões de dólares (R$ 734 bilhões) em quatro décadas de comércio de bens com os Estados Unidos.
Ou seja, a balança entre os dois parceiros favorece Washington, que registrou saldo positivo em 26 dos 41 anos da série histórica disponibilizada pelo Departamento do Censo dos EUA.
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Ao incluir bens e serviços, os EUA chegaram a lucrar 480 bilhões de dólares (R$ 2,4 trilhões) com o Brasil entre 2000 e 2025, mostram dados do Departamento de Análise Econômica (BEA) dos EUA, o que não impediu a imposição de uma nova tarifa de 25% contra as exportações brasileiras ou de uma taxa de 12,5% por suposta falha no combate ao trabalho escravo.
Questionado durante sabatina no Senado americano sobre esse desequilíbrio que favorece os americanos, o indicado para a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez, reconheceu nesta semana que seu país mantém um superávit expressivo.
Contudo, evitou justificar a nova sanção. “Essa tarifa foi implementada quando eu estava dormindo. Vou me informar melhor nas próximas semanas”, afirmou.
Jamieson Greer, chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), também contornou o argumento de que o superávit americano deslegitimaria a medida tomada por seu órgão.
“Temos superávit nessa relação. Mas há muitas barreiras aos Estados Unidos, sejam tarifárias, regulatórias ou não tarifárias”, disse ao Atlantic Council em dezembro do ano passado.
Conta acumulada há quatro décadas
Sem acordo com Brasil, EUA impuseram tarifas de 25% contra alguns produtos
Joao Oliveira/Zoonar/picture alliance
As declarações das autoridades são sintoma da evolução das trocas entre os dois países ao longo do último século, uma relação marcada por oscilações e que se tornou mais intensa nas últimas quatro décadas.
“Essas oscilações independem, do lado americano, de ser um governo democrata ou republicano. O que elas vão levar em conta é o nível de autonomia do Brasil”, diz a cientista política e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Cristina Pecequilo.
“Porque o Brasil, sendo autônomo e não se alinhando com os Estados Unidos, vai buscar muitas vezes objetivos de reforma da ordem mundial e também um reposicionamento regional. E isso afeta o interesse americano”, continua.
Entre 1985 e 1995, por exemplo, Brasília chegou a registrar saldos positivos nas trocas comerciais com os EUA.
Trocas comerciais entre Estados Unidos e Brasil
Deutsche Welle
O cenário muda gradualmente durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), período marcado pela ampliação das compras de aeronaves, veículos, equipamentos eletrônicos e aparelhos de telecomunicações americanos.
A balança comercial passa então a alternar momentos de superávit e déficit nos anos seguintes. O Brasil retoma vantagem em 2002 e atinge um lucro recorde em 2005, impulsionado pelas vendas de minério de ferro, ouro, petróleo e café.
A inflexão definitiva ocorre em 2008, ano da crise financeira americana. Desde então, os Estados Unidos não voltaram a registrar déficit no comércio de bens com o Brasil.
O saldo positivo alcançou recordes de 16,5 bilhões de dólares (R$ 81 bilhões) em 2014 e de 15,75 bilhões de dólares (R$ 80 bilhões) em 2021, considerados valores nominais.
O padrão se repete nos últimos dois anos. Em 2025, o déficit brasileiro chegou a 14,4 bilhões de dólares (R$ 73,4 bilhões), mais que o dobro do ano anterior.
Já no setor de serviços, a balança favorece os americanos ao menos desde 1999. Em valores nominais, 2025 marcou o maior superávit dos EUA dos últimos 26 anos: foram 27,4 bilhões de dólares (R$139 bilhões) obtidos com o mercado brasileiro.
Os dados para 2026, considerados apenas cinco meses, indicam que este ano os valores devem ser ainda maiores. Se considerado o mês de maio, o país se tornou o sexto maior gerador de superávit para os Estados Unidos.
Ainda assim, figura como o segundo parceiro comercial mais taxado pela Casa Branca, com tarifa média de 18,2%, atrás apenas da China.
Sanções extrapolam trocas comerciais
Superávits dos EUA no comércio bilateral
Deutsche Welle
“A balança comercial, assim como o comércio exterior, não se trata somente do produto em si. Não é sobre os bens, mas sobre os ganhos relativos dessa relação comercial”, afirma o economista Tomás Marques, pesquisador do German Institute for Global and Area Studies (GIGA), em Hamburgo.
Para o pesquisador, o superávit dos EUA mostra que as tarifas não visam corrigir um déficit inexistente, mas reorientar os fluxos comerciais em meio à perda de competitividade de Washington em vários setores, como o de tecnologia.
“Os percentuais [tarifários] são arbitrários. O objetivo é mexer no jogo e renegociar a partir da posição dos Estados Unidos como grande importador. […] Tarifas e comércio exterior são instrumentos para tentar reorganizar a indústria e recuperar competitividade”, completa.
Isso se traduz na lista de exceções elaborada pelo USTR, por exemplo, que inclui cerca de 2.100 itens, como commodities agrícolas, minerais e metais. Trata-se de produtos cuja demanda interna os EUA não conseguem suprir e que não têm relação com as práticas sob investigação.
Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, isso faz com que apenas 18% das exportações destinadas aos Estados Unidos sejam efetivamente atingidas pela nova medida.
“O comércio é o que está menos em jogo”, diz Pecequilo, da Unifesp. “Os Estados Unidos usam o ambiente comercial para pressionar o Brasil em outros setores. […] Conter o Brasil no campo dos organismos multilaterais, das alianças de geometria variável com os outros países emergentes.” Disputas políticas também alimentam as sanções.
Etanol e novos mercados na mira
A justificativa apresentada pelo USTR para taxar o Brasil também é representativa dessa equação. Na investigação contra práticas brasileiras, o escritório cita temas que extrapolam o comércio de mercadorias e a balança comercial.
Entre eles, o sistema de pagamentos Pix, a regulação das plataformas digitais e questões ligadas à corrupção.
Já entre os produtos, parte das disputas alfandegárias recai sobre automóveis, autopeças e minerais. Na avaliação americana, acordos firmados pelo Brasil favorecem concorrentes como México e Índia, por exemplo.
Mas é o etanol concentra maior esforço da investigação americana. O USTR acusa o Brasil de interromper seu tratamento tarifário especial ao combustível importado dos EUA em 2017.
As importações só voltaram a crescer em 2023. Nas contribuições enviadas durante a consulta pública, representantes da indústria americana defendem que a tarifa de 25% ajuda a recuperar participação de mercado perdida ao longo dos últimos anos.
Com outras tarifas genéricas acumuladas, o etanol brasileiro deve entrar nos EUA com taxas acima de 30%.
Para o historiador e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing Leonardo Trevisan, o etanol é rotula de um problema mais amplo. “Eles gostariam de entrar aqui no Brasil, que é um consumidor forte de etanol, mas [o problema] não é o etanol. O ‘xis’ da história é o brutal crescimento do agronegócio brasileiro”, diz.
“A agricultura norte-americana está sentindo fortemente a concorrência da agricultura brasileira. Nos Estados Unidos, isso tem um peso político enorme”, conclui.
Em entrevista ao Atlantic Council, o chefe do USTR, Jamieson Greer, não escondeu esse interesse. “Eles [Brasil] são concorrentes dos Estados Unidos, especialmente na agricultura. Sempre que tentamos vender nossas commodities no exterior, competimos com os brasileiros”, disse.
Especialistas também contestam a crítica à abertura comercial brasileira para outros mercados. Com a ascensão da China e outros parceiros dos Brics nas cadeias globais de valor, alguns segmentos passaram a competir com áreas tradicionalmente dominadas por americanos e europeus.
No caso brasileiro, porém, o aumento das exportações ocorreu para diferentes destinos.
“Não houve substituição dos Estados Unidos pela China. Houve crescimento dos dois lados”, afirma Tomás Marques. Dados do Banco Central mostram que quase um terço de todo o capital estrangeiro investido no Brasil tem origem americana.
Em 2007, produção de etanol era tratada sob ótica de parceria entre Brasil e EUA
Getty Images/AFP/A. Scorza via Deutsche Welle
Quem vai resistir mais?
Para os especialistas, o nível de vulnerabilidade do Brasil nas negociações é maior, mas ambos saem prejudicados com as sanções.
Importação brasileira de etanol dos EUA
Deutsche Welle
“O Estado brasileiro não tem uma capacidade ampla de barganha com os Estados Unidos”, destaca Marques, considerando amplo controle da economia brasileira por empresas estadunidenses.
Por outro lado, o país é atualmente o principal fornecedor de pelo menos 11 produtos para o mercado americano, destaca Trevisan.
“Esse ponto é essencial para entender essa relação. O Brasil compõe cadeias produtivas integradas. São produtos que começam a ser feitos aqui, porque têm uma série de vantagens, e terminam lá. São 6 mil empresas americanas que têm essa relação com o Brasil, algumas delas imensas”, conclui.
“Quem vai resistir mais? Os Estados Unidos, do ponto de vista interno, têm um custo alto ao perder um parceiro importante com o qual mantêm superávit e ao aumentar a autonomia política e econômica do Brasil”, questiona Pecequilo. Mas o impacto no mercado brasileiro também é evidente, diz.

Vinho europeu deve ficar até 20% mais barato com acordo UE-Mercosul, mas redução ainda é tímida

Preço do vinho europeu caiu pouco após acordo UE-Mercosul, mas pode recuar 20% até 2034, diz executiva da World Wine
Kelsey Knight/Unplash
O preço do vinho europeu ainda não registra uma queda expressiva após a entrada em vigor, em caráter provisório, do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia.
A expectativa é que essa redução se intensifique nos próximos anos e alcance cerca de 20% até 2034, quando a tarifa de importação será totalmente eliminada.
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Na World Wine, uma das maiores importadoras de vinhos do Brasil, os preços para o consumidor caíram entre 2% e 2,5% em maio, quando a alíquota de importação dos vinhos europeus recuou de 27% para 24%.
O acordo prevê uma redução gradual da tarifa de importação. A próxima etapa reduzirá a alíquota para 21% em 1º de janeiro de 2027. (veja o cronograma abaixo)
“O que o acordo fez foi criar uma trajetória clara de redução, o que é muito bom porque nos permite planejar a precificação ao longo do tempo”, afirma Juliana La Pastina, CEO do Grupo La Pastina, dono da World Wine.
Veja como ficam as taxas de importação de vinhos europeus e de champanhe até 2034.
Arte/g1
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Efeito ‘tímido’
Felipe Galtaroça, CEO da Ideal.BI, consultoria especializada no mercado de vinhos, avalia que a redução da alíquota de importação de 27% para 24% ainda tem impacto limitado sobre os preços.
Segundo ele, a reposição dos estoques com a tarifa de 21%, prevista para janeiro, deve tornar a redução de preços mais perceptível para o consumidor.
“O mercado brasileiro enfrenta atualmente um cenário de estoques elevados, compostos por produtos adquiridos sob uma taxa de câmbio significativamente superior à atual”, afirma.
Galtaroça afirma ainda que as margens de lucro de importadores, distribuidores e varejistas já não têm espaço para novos reajustes.
Segundo ele, o alto volume de estoques, a ampla oferta de marcas e a redução dos investimentos do varejo, em razão do alto custo do crédito, aumentaram a concorrência entre fornecedores e dificultam novos cortes de preços.
Crescimento do interesse por vinhos europeus
Apesar dos desafios enfrentados pelo setor, Juliana La Pastina afirma que os dados da World Wine mostram um aumento do interesse dos brasileiros por vinhos europeus.
“Na Europa, no nosso caso, a gente tem a França como a origem de maior volume de importação, mas temos sentido cada vez mais um interesse maior por vinhos da Espanha, Itália, Portugal”, afirma.
A World Wine atua tanto na venda direta ao consumidor quanto no abastecimento de restaurantes e supermercados.
Produção de uva cresce em Goiás com a fabricação de vinhos e espumantes

Tarifaço: diplomacia vê possível recurso à OMC como ‘simbólico’ e para ‘marcar posição’ do Brasil diante dos EUA

Mauro Vieira publica artigo sobre tarifaço dos EUA
Integrantes da diplomacia do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que um eventual recurso do Brasil à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra o tarifaço aplicado pelo governo americano a exportações brasileiras seria “simbólico” e para “marcar posição” diante dos Estados Unidos.
Na última quinta (23), o governo de Donald Trump anunciou a aplicação de um segundo conjunto de tarifas contra produtos brasileiros.
O primeiro, de 25%, tem relação com o entendimento da Casa Branca de que o Brasil adota práticas desleais na economia contra empresários americanos.
O mais recente, de 12,5%, foi tomado com base na conclusão dos Estados Unidos de que dezenas de países, incluindo o Brasil, falharam ao proibir ou fiscalizar a importação de mercadorias produzidas em locais onde há trabalho forçado.
Em resposta, o Palácio do Planalto disse que a medida tem “caráter completamente arbitrário e injustificado” e, por isso, o governo iniciará “imediatamente” os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade e levará o tema à Organização Mundial do Comércio (OMC).
Diplomatas disseram, conteúdo, que o recurso à organização teria caráter “simbólico”, isto é, sem efeito prático.
“Mostra que é um recurso à mão. Simbólico, hoje em dia. Para marcar posição”, resumiu um integrante do governo a par da estratégia acerca do tarifaço.
Governo diz que tarifaço é injusto e prepara Lei de Reciprocidade
Entenda o que é a OMC
Criada em 1995 para reduzir barreiras e estabelecer regras claras para o comércio internacional, a OMC busca garantir que países disputem o mercado global em condições justas, oferecendo um espaço para diálogo e solução de conflitos comerciais.
A OMC foi crucial para resolver conflitos no passado. Em 2004, o Brasil venceu uma disputa contra os subsídios recebidos por produtores de algodão dos EUA, ficando com o direito de impor sanções contra produtos norte-americanos no valor de US$ 830 milhões.
Prédio da OMC em Genebra
Denis Balibouse/Reuters
Desde 2019, porém, o órgão de apelação do principal mecanismo de resolução de disputas da OMC está paralisado, justamente por conta de Trump, que, ainda no seu primeiro mandato, barrou a nomeação de novos juízes.
Assim, as chances de se chegar a um entendimento sobre as tarifas por meio da OMC são quase nulas.
Entidades são contra reciprocidade
Desde que o governo divulgou a nota de referindo à OMC e à Lei de Reciprocidade, entidades empresariais passaram a defender que o Brasil insista nas negociações em vez de uma retaliação, para não “escalar” a tensão com o governo de Donald Trump.
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), por exemplo, divulgou uma nota na qual afirmou que vê a decisão americana com “preocupação”, mas que confia na capacidade da diplomacia brasileira para “construir soluções”.
“A entidade ressalta que não apoia a adoção de medidas de retaliação comercial nem a aplicação da Lei de Reciprocidade como resposta às iniciativas adotadas pelos Estados Unidos”, afirmou a Abimaq.
Especialistas avaliam que, assim como no tarifaço de 2025, existe espaço para o Brasil negociar nesta nova ameaça tarifária dos EUA
Jornal Nacional/ Reprodução
“O momento exige a retomada do diálogo e o fortalecimento dos canais diplomáticos e institucionais entre Brasil e Estados Unidos, de modo a evitar a escalada de medida que possam agravar o ambiente”, completou a entidade.
Na mesma linha, a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) divulgou um comunicado afirmando que a decisão dos EUA “agrava” as condições de acesso das exportações brasileiras ao mercado norte-americano, mas que não concorda com a reciprocidade.
“A AmCham Brasil reitera que medidas de reciprocidade não contribuem para superar as divergências atuais e apresentam elevado risco de provocar uma escalada política e comercial, agravando os impactos econômicos para empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros”, afirmou a entidade.

Da ostentação ao endividamento: a nova conversa sobre dinheiro entre jovens nas redes

Dívida e juros: por que deixar para pagar depois custa tão caro?
Aos 23 anos, a empreendedora Camila Cordeiro acumulava uma dívida de mais de R$ 100 mil depois de um negócio que não deu certo. Em vez de manter o problema em segredo, ela decidiu documentar nas redes sociais o processo de reorganizar as finanças e voltar a ter o nome limpo.
“Eu estou um pouco receosa de fazer esse vídeo e começar a postar a minha jornada para pagar essas dívidas porque sei que tem família e amigos que vão ver, gente que me conhece, mas é sobre isso. Eu comprei uma franquia, mas eu quebrei”, explica ela em um vídeo publicado no Tiktok que soma mais de 1,5 milhão de visualizações.
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O relato de Cordeiro é parte de um movimento mais amplo: depois de anos associadas à ostentação financeira, redes como TikTok e Instagram vêm sendo usadas por jovens para expor o oposto — estratégias de economia, relatos de dívidas e o esforço para conquistar objetivos como a casa própria.
O fenômeno não é exclusivo do Brasil: em vários países, movimentos semelhantes ganham força, como a trend “debt payoff journey”, que significa em português “jornada de quitação de dívidas”.
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O que é o ‘loud budgeting’
Esse compartilhamento de vulnerabilidades econômicas e metas financeiras ganhou até um nome no meio acadêmico: “loud budgeting”, ou “orçamento em voz alta” em português.
A tendência incentiva as pessoas a declararem abertamente seus limites de gastos e suas prioridades financeiras seja nas redes sociais ou fora delas.
David Spohn, professor da Lynn University, nos Estados Unidos, e pesquisador do tema, observa que os jovens de hoje rejeitam o consumo de luxo como aspiração e comunicam abertamente suas restrições em relação ao dinheiro para evitar pressões sociais.
Em vez de sentir vergonha por não poder gastar ou ir a algum lugar, ele diz que essa geração trata a limitação financeira como algo natural: algo que simplesmente não está (ou não cabe) no orçamento.
“Muita gente vê as redes sociais como o centro da questão, mas, nesse contexto específico, elas não são o foco. O que importa é que a Geração Z as usa para obter informação e tomar decisões mais acertadas”, afirma Spohn.
Pesquisas que ele participou apontam que metade da educação financeira dos entrevistados vinha da escola, e a outra metade, da família.
Quando a família não aborda o tema, Spohn diz que a Geração Z busca preencher essa lacuna na internet, onde assuntos como salários, dívidas, desigualdade de gênero e investimentos são discutidos abertamente.
A realidade financeira dos jovens
Para o professor, isso também reflete o cenário econômico herdado pelos mais jovens: “O mundo está muito caro. Para sobreviver e ganhar dinheiro, eles passaram a se envolver nessa conversa entre si e com qualquer pessoa disposta a conversar, de outras gerações inclusive, para aprender a navegar por essas águas turbulentas”.
É o que também aponta a planejadora financeira Priscilla Mundim. Para ela, no país, a migração da ostentação digital para conteúdos mais autênticos é motivada, sobretudo, pelo cenário de endividamento das famílias brasileiras.
“A superexposição, o luxo, carro, casas, viagens, não têm combinado com o padrão de vida do brasileiro”, afirma Mundim.
“Estamos no momento de maior endividamento de toda a história, e isso é um fator real dentro das famílias. Mesmo quem está em dia com todos os contratos tem um comprometimento elevado do orçamento mensal. Por isso, aquele consumismo hoje gera menos identificação entre os jovens”, completa.
“Quando encontramos vozes reais e genuínas, a conexão e a empatia com quem está do outro lado com certeza vai ser maior e isso acaba aproximando as pessoas”, acrescenta a planejadora.
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Uma geração com menos perspectiva de ascensão social
Enquanto os jovens usam as redes para desabafar sobre a própria situação financeira, pesquisas apontam o peso da crise do custo de vida sobre as gerações mais novas — e a percepção de que dificilmente atingirão o mesmo patamar social dos pais, seja na compra da casa própria, do carro ou em outras conquistas.
Um levantamento da consultoria Deloitte com mais de 22 mil pessoas da geração Z e da geração millennial em 44 países mostrou que o custo de vida é a principal preocupação de ambos os grupos, à frente de temas como criminalidade, desemprego e geopolítica.
Segundo a mesma pesquisa, 51% da geração Z e 40% dos millennials afirmam não ter condições financeiras de comprar um imóvel.
Um estudo de 2026 do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, conduzido pelos pesquisadores Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento, comparou as condições econômicas e sociais da geração X (nascidos entre 1965 e 1980) e da geração millennial (1981–1996) aos 30 anos de idade.
O levantamento mostrou que a geração millennial chega à vida adulta com renda maior e mais acesso à educação do que a geração anterior teve na mesma idade, mas esse avanço não se traduziu em melhoria real nas condições de vida.
Os autores chamam esse fenômeno de ausência de “mobilidade intergeracional plena”, indicador que mede a probabilidade de os filhos superarem a renda real dos pais.
O fim do tabu sobre o ‘fracasso financeiro’?
Para a parcela dos jovens que escolhem compartilhar os relatos, mostrar vulnerabilidades financeiras virou uma forma de trocar o sentimento de culpa pelo endividamento por um caminho para a resolução e até para encontrar jovens em situações similares.
A ideia é mostrar “a vida real”, que inclui contratempos financeiros, e não mais a ideia de ostentação ou vida inatingível.
“Cheguei a dever para agiota, bancos, tudo que vocês imaginarem. Juntando tudo, dava mais de R$ 150 mil. Hoje eu não devo isso tudo, mas ainda devo uma quantidade grande”, diz outro vídeo do Tiktok de uma usuária chamada Jardielly.
Dados do Mapa da Inadimplência da Serasa referentes a maio deste ano mostram que dos 83,5 milhões de brasileiros inadimplentes, 11% tinham entre 18 e 25 anos.
Embora o percentual de jovens inadimplentes nessa faixa etária tenha oscilado pouco, o valor médio das dívidas desse grupo aumentou de R$ 2 mil em maio de 2020 para R$ 3,6 mil em maio de 2026, segundo a Serasa.
Riscos e benefícios de expor as finanças nas redes
Uma pesquisa do Santander no Reino Unido com 2 mil jovens de 18 a 21 anos mostrou que quase um terço deles (31%) recorre a influenciadores digitais em busca de orientação financeira.
Embora a conversa sobre dinheiro tenha migrado das famílias para as plataformas digitais — e se ampliado para temas como endividamento e planejamento orçamentário —, especialistas alertam para os riscos de se informar sobre o tema nas redes sociais.
“Uma das coisas que me preocupa como educador é: você está seguindo o conselho correto? Algumas dessas postagens ou personalidades das redes sociais não precisam necessariamente seguir restrições porque não estão atuando como conselheiros pessoais de ninguém. Portanto, há muita informação disponível que pode ser correta para algumas pessoas, mas não para todas”, diz o professor.
Para a planejadora financeira, esse tipo de exposição tem dois efeitos. O primeiro é positivo: ajuda o público a perceber que dificuldades financeiras são um problema real. O segundo é o risco de normalizar o endividamento ou usá-lo como justificativa para negligenciar as próprias finanças.
“Já que todo mundo está nessa situação, eu também posso estar e não vou me preocupar, porque o problema é do mundo. Aí a pessoa passa a jogar a responsabilidade para todos os lados e não assume a própria responsabilidade”, explica.
Mundim também chama atenção ainda para o risco de comparações com realidades incompatíveis, já que cada pessoa tem uma situação financeira distinta, e qualquer plano para sair das dívidas ou atingir metas precisa ser individualizado.
Por outro lado, ela destaca um benefício comportamental: assumir um compromisso público — não necessariamente na internet, mas também com um amigo, um planejador financeiro ou um terapeuta — tende a aumentar o engajamento da pessoa com seu próprio plano financeiro, segundo estudos das finanças comportamentais.
O contraponto é a exposição excessiva, que pode incluir a divulgação de dados privados sensíveis e sujeitar o criador de conteúdo ao julgamento público — incluindo o chamado “cancelamento” nas redes sociais.
*Nomes de usuários nas redes sociais mencionados nesta reportagem correspondem a perfis públicos que compartilharam seus relatos online.
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Geely EX2 é bom de dirigir e barato de manter, mas precisa corrigir 7 deslizes; VÍDEO

Geely EX2 é bom de dirigir e barato de manter, mas precisa corrigir 7 deslizes
A chinesa Geely e a francesa Renault são parceiras comerciais e já confirmaram que produzirão modelos no Brasil na mesma linha de montagem, em São José dos Pinhais (PR). Um deles é o Geely EX2, vendido por R$ 123.800 na versão Pro e por R$ 136.800 na versão Max.
Mesmo importado da China, o hatch já registra bons números de vendas e é o terceiro carro elétrico mais vendido do país — atrás apenas dos BYD Dolphin Mini e Dolphin. E esse desempenho pode melhorar ainda mais quando o modelo começar a ser produzido por aqui.
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A fabricação nacional é uma ótima oportunidade para a Geely corrigir sete deslizes do modelo. O g1 testou o EX2 e mostra os pontos que precisam melhorar, além dos acertos que já ajudaram o compacto a conquistar o consumidor brasileiro.
Manutenção barata
Um dos pontos em que a Geely vai bem é o plano de manutenção. Normalmente, as revisões são feitas a cada 10 mil km, mas, no EX2, elas são realizadas a cada 20 mil km.
E os valores são mais baixos do que os de carros com bem menos tecnologia. São menos de R$ 5 mil gastos até a 7ª revisão, realizada aos 140 mil km.
O tempo de garantia também tranquiliza o consumidor. São seis anos para o carro e oito anos para a bateria.

Moderno, mas dá para melhorar
O EX2 tem um interior que passa a sensação de carro moderno, mas também comete algumas derrapadas. Já está claro que o consumidor brasileiro gosta de telas, e as marcas chinesas entenderam que esse é um caminho sem volta para o interior dos carros.
O conjunto no Geely segue a receita já conhecida, com painel de instrumentos digital e central multimídia. Porém, o cluster atrás do volante é pequeno e simplório.
A grafia e os elementos exibidos não facilitam a visualização. A dica para a Geely é aumentar a tela ou trabalhar melhor a parte gráfica, para que as informações fiquem mais rápidas e fáceis de ler.
Geely EX2
Divulgação / Geely
A central multimídia tem uma tela grande, de 14,6 polegadas. Mas a lógica de navegação não faz jus ao tamanho. Em alguns casos, é preciso executar dois ou três comandos para acessar uma função que poderia estar disponível de forma mais simples.
Ícones maiores, um menu mais intuitivo, atalhos mais bem definidos e a divisão de tela entre aplicativos deixariam a experiência melhor e reduziriam a necessidade de o motorista desviar a atenção da direção para encontrar um comando específico.
Essa é uma questão de software em que a montadora poderia investir mais. Quem sabe até pedir ajuda ao time da Renault, que resolveu isso melhor no SUV Boreal, por exemplo.
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Acabamento
Falar de um carro “nacional” nos anos 1990 e no início dos anos 2000 costumava ser sinônimo de um modelo “abrasileirado”: plásticos de qualidade inferior e simplificações adotadas por várias marcas ao adaptar veículos europeus para o mercado brasileiro.
No EX2, os plásticos são duros e não transmitem a sensação de um carro mais sofisticado.
Em comparação com o BYD Dolphin, por exemplo, o rival oferece acabamento de melhor qualidade. Há espaço para a Geely evoluir nesse aspecto — se der para manter o preço, claro.

Mais apoio
Aproveitando uma possível atualização do acabamento, vale também dar atenção ao apoio lombar dos bancos dianteiros.
O EX2 é agradável de dirigir e tem bom equilíbrio dinâmico, mas os bancos poderiam oferecer mais sustentação para o corpo. A espuma é satisfatória, porém falta apoio lombar.
Para completar, a silhueta de prédios aplicada aos painéis de porta e ao painel pode ser dispensada. O detalhe passa uma impressão infantil e não reforça a sensação de tecnologia.
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Bem equipado
A lista de equipamentos, principalmente da versão Max, é bem extensa. O principal diferencial nessa faixa de preço, de quase R$ 137 mil, é o pacote de assistências à condução (ADAS).
O EX2 oferece controle de cruzeiro adaptativo, sistema de frenagem autônoma de emergência e outros recursos que fazem diferença no uso diário.
Vale destacar também a versão Pro, que custa R$ 126 mil e já vem bem equipada. Dentro dessa faixa de preço, o EX2 oferece um bom pacote de equipamentos.
Ainda assim, há algumas escolhas da Geely que poderiam ser revistas na futura versão produzida no Brasil.
O ar-condicionado, por exemplo, tenta transmitir uma aparência mais sofisticada ao exibir comandos e animações na tela da central multimídia, mas trata-se apenas de uma interface gráfica para um sistema de ar-condicionado convencional, sem funcionamento automático.

Outro ponto pior é a conectividade. Apesar de contar com carregador de celular por indução, o Android Auto e o Apple CarPlay ainda exigem conexão via cabo. A marca poderia aproveitar a produção nacional, no Paraná, para passar a oferecer os dois sistemas sem fio.
Entre os equipamentos de segurança, o EX2 traz de série o alerta sonoro emitido em baixas velocidades, recurso comum em carros elétricos e híbridos para alertar pedestres sobre a aproximação do veículo.
Porém, por causa da calibração desse som e do isolamento acústico mais simples, o ruído acaba invadindo a cabine.
Em deslocamentos curtos, isso não chega a incomodar. Mas, em congestionamentos longos, quando o carro permanece vários minutos em baixa velocidade, o som se torna cansativo.
A sensação é semelhante à de uma orquestra afinando os violinos antes de uma apresentação. Por enquanto, a solução é aumentar o volume da música.
Diversão ao volante
O conjunto mecânico também merece elogios. Pelo preço, pela capacidade da bateria e pela potência de 116 cv, o EX2 entrega um conjunto equilibrado.
Um dos destaques é a tração traseira, que proporciona um comportamento dinâmico diferente do encontrado na maioria dos concorrentes.
A diferença é sutil, mas quem gosta de dirigir percebe que direção e suspensão foram bem acertadas. O EX2 não tem proposta esportiva, mas oferece uma condução agradável e até divertida.

O veredito
A conclusão é que o Geely EX2 é um bom produto para o mercado brasileiro. O modelo chega competitivo em preço e precisa de apenas alguns ajustes para evoluir ainda mais quando começar a ser produzido no Brasil.
No design, o carro também está alinhado ao gosto do consumidor. Tem visual moderno, iluminação em LED que transmite personalidade e características que fogem da aparência tradicional dos hatches vendidos no país.
Some a isso um bom porta-malas de 375 litros, um compartimento de carga dianteiro de 70 litros e um custo de aquisição e manutenção que certamente fará muitos consumidores pensarem duas vezes antes de escolher um hatch convencional nos próximos anos.
Geely EX2 em movimento
Divulgação / Geely