Os biscoitos realmente eram melhores antigamente? Entenda por que tanta gente tem essa impressão

Da inflação às novas receitas: o que mudou nos biscoitos?
A disputa entre “bolacha” e “biscoito” divide o Brasil há décadas, mas um consenso parece ter surgido entre os consumidores: a sensação de que os biscoitos de antigamente eram melhores.
Nas redes sociais, relatos de consumidores se repetem. Eles dizem perceber mudanças no recheio, na textura e até no sabor de produtos que fizeram parte da infância. Mas os biscoitos realmente pioraram?
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Especialistas em ciência dos alimentos explicam que a resposta não é tão simples. Não há evidências de que os produtos antigos eram melhores em qualidade. Mas é fato que, ao longo dos anos, houve mudanças nas receitas, nos processos industriais e no perfil dos consumidores.
Também entraram em cena fatores econômicos que pressionaram a cadeia de produção, como a alta das matérias-primas, a inflação dos alimentos e estratégias adotadas pelas empresas para manter preços e margens, como a redução do tamanho das embalagens e ajustes na formulação dos produtos. (entenda mais abaixo)
Foi essa sensação de piora que levou Henrique Lira, de 44 anos, a revisitar alguns dos biscoitos que marcaram sua infância. Personal e professor de educação física escolar, ele conta ao g1 que percebe diferenças em produtos tradicionais, principalmente na textura, no recheio e na quantidade encontrada nas embalagens.
“Muitos mudaram. Começando pela quantidade: vários produtos perderam peso e, se você perceber, parece que alguns pacotes ficaram com quatro ou cinco unidades a menos. Também sinto diferença na composição e na experiência de consumo”, afirma.
Lira cita como exemplo biscoitos que consumia nos anos 1990 e diz perceber alterações nas características sensoriais dos produtos ao longo do tempo.
“Antes, alguns recheios tinham outra textura, eram mais cremosos e tinham uma sensação diferente na boca. Hoje, em alguns casos, parecem mais secos e menos intensos no sabor”, relata.
Por trás do biscoito diferente, há novas receitas e processos
Para entender por que um biscoito pode parecer diferente mesmo mantendo a mesma marca na embalagem, é preciso olhar para o que acontece dentro da fábrica.
Cristiane Ruffi, pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), explica que alterações em ingredientes, processos de fabricação, embalagens e fornecedores podem modificar características como sabor, aroma, textura e crocância. Segundo ela, a percepção dos consumidores tem fundamento.
Biscoito recheado
Pexels
As mudanças também podem ocorrer por fatores econômicos, como redução de custos, diminuição das porções para manutenção do preço de venda ou estratégias das empresas para ampliar seus portfólios.
As diferenças percebidas pelos consumidores não significam necessariamente que os biscoitos antigos eram melhores. Elas refletem um período de transformação da indústria, com mudanças nas receitas, nos processos de fabricação e nos critérios usados para desenvolver os produtos.
A professora Fernanda Vanin, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP, explica que a indústria evoluiu junto com a ciência dos alimentos e que os produtos atuais passam por controles mais rigorosos de segurança.
Nos últimos anos, fabricantes passaram a reformular produtos para reduzir nutrientes considerados críticos, como açúcar, sódio e gordura saturada, além de atender à rotulagem nutricional frontal, conhecida pela lupa com alertas de “alto em”.
Segundo ela, ingredientes como esses ajudam a definir características como textura, aroma, cor, crocância e conservação dos alimentos. Por isso, quando esses componentes são reduzidos ou substituídos, a experiência sensorial pode mudar.
Vanin ressalta que a evolução dos alimentos industrializados também trouxe avanços na segurança. Segundo a pesquisadora, os produtos atuais passam por controles microbiológicos e químicos mais rigorosos, além de monitoramento de substâncias indesejadas.
“Tenho muito mais segurança em consumir os produtos hoje do que antigamente”, afirma Fernanda Vanin.
A professora explica que um dos avanços está no controle de substâncias que passaram a ser monitoradas pela ciência dos alimentos. Um exemplo é a acrilamida, uma substância química que pode se formar naturalmente durante o aquecimento de alimentos ricos em carboidratos, como biscoitos, pães e batatas, principalmente em temperaturas elevadas.
A preocupação com a acrilamida existe porque estudos apontam que a exposição a níveis elevados da substância está associada ao desenvolvimento de câncer em animais. Por isso, órgãos internacionais de segurança alimentar recomendam o monitoramento e a redução da sua formação nos alimentos.
Segundo Vanin, esse tipo de controle mostra uma diferença importante entre os produtos atuais e os antigos. Embora os biscoitos de décadas atrás também estivessem sujeitos à formação da substância, hoje a indústria trabalha com processos mais controlados para reduzir sua presença nos alimentos.
Na esteira desses novos cuidados, Cristiane Ruffi explica que o desafio da indústria passou a ser equilibrar dois objetivos: criar produtos considerados mais adequados do ponto de vista nutricional sem perder características valorizadas pelo consumidor.
“Hoje, o grande desafio da indústria de alimentos é introduzir ingredientes cada vez mais saudáveis sem que o consumidor precise abrir mão do prazer em comer, da indulgência”, afirma.
Ela cita como exemplo consumidores que utilizam medicamentos da classe dos GLP-1, conhecidos como “canetas emagrecedoras”, além de pessoas que passaram por cirurgia bariátrica ou buscam maior consumo de proteínas.
A memória também pode alterar a percepção do sabor
Além das mudanças reais nas receitas, especialistas apontam outro fator que ajuda a explicar por que tantos consumidores sentem falta dos biscoitos antigos: a memória afetiva.
Aline Garcia, pesquisadora do Ital, explica que muitas vezes o consumidor compara o produto atual não com a fórmula original, mas com uma lembrança construída ao longo dos anos.
Ela relaciona esse fenômeno ao chamado efeito “Ratatouille”, em referência ao filme da Pixar em que um sabor desperta uma memória marcante da infância.
“Existe uma mudança real somada a uma idealização emocional na mente do consumidor”, afirma Aline.
Se o preço que não sobe…
Imagem de biscoito de gengibre.
Globo Rural
Fatores econômicos também ajudaram a transformar os produtos. Matérias-primas importantes para a indústria de biscoitos, como trigo, açúcar, óleo vegetal e cacau, passaram por períodos de alta nos últimos anos.
Segundo o economista Valter Palmieri Jr., autor de um estudo sobre inflação dos alimentos, parte desse movimento está relacionada ao conceito de “inflação invisível”.
Nesse cenário, o consumidor pode não perceber apenas um aumento direto no preço. A alteração também pode aparecer na quantidade, na composição ou na qualidade percebida do produto.
Um dos fenômenos associados é a chamada shrinkflation, conhecida no Brasil como “reduflação”. Nesse caso, a receita permanece praticamente igual, mas a quantidade do produto diminui. Um pacote que antes tinha 200 gramas, por exemplo, pode passar a ter 180 gramas, enquanto o preço permanece semelhante.
A prática passou a receber mais atenção dos órgãos de defesa do consumidor nos últimos anos. Em 2021, o Ministério da Justiça e Segurança Pública publicou uma regra específica para aumentar a transparência em casos de redução de quantidade de produtos já conhecidos no mercado.
A norma determina que, quando houver alteração quantitativa, o fabricante deve informar a mudança de forma clara ao consumidor, com destaque na embalagem ou por outros meios de comunicação, durante um período determinado após a alteração.
A medida busca evitar que produtos mantenham uma aparência semelhante nas prateleiras enquanto passam a oferecer uma quantidade menor sem que o consumidor perceba.
Outro fenômeno associado é a chamada skimpflation, quando empresas substituem ingredientes mais caros por alternativas de menor custo para preservar margens sem repassar todo o aumento ao consumidor.
Há ainda a cheapflation, caracterizada pelo crescimento de produtos mais simples e baratos para o consumo cotidiano, enquanto versões premium concentram ingredientes considerados de maior valor agregado.
Reformulações acompanharam ‘novas demandas’
Questionada pelo g1, a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi) afirma que as alterações nas receitas ocorreram principalmente para atender novas exigências regulatórias e acompanhar mudanças no comportamento dos consumidores.
Segundo a entidade, fabricantes reduziram níveis de açúcar e sódio, substituíram aditivos e ampliaram o portfólio com produtos enriquecidos com fibras, proteínas e versões voltadas para pessoas com restrições alimentares
Sucesso de vendas
Apesar das transformações percebidas pelos consumidores, os biscoitos continuam entre os alimentos mais presentes na rotina dos brasileiros. Segundo a Abimapi, a categoria está presente em 99% dos lares do país.
A entidade afirma que o avanço das embalagens menores acompanha mudanças no perfil das famílias e nos hábitos de compra. Pacotes de até 150 gramas já representam cerca de 42% do mercado.
Ao mesmo tempo, cresce um comportamento chamado pelo setor de “efeito ampulheta”: consumidores economizam em produtos básicos do dia a dia, mas continuam dispostos a pagar mais por itens considerados especiais em momentos de indulgência.

'Bons pagadores' do Fies criticam o Desenrola e cobram no Congresso descontos iguais aos de inadimplentes

‘Bons pagadores’ do Fies cobram descontos iguais aos de inadimplentes
O Novo Desenrola Brasil voltou, neste ano, a incluir formalmente os estudantes com dívidas atrasadas no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). A medida reacendeu um antigo debate entre beneficiários do programa.
Enquanto estudantes inadimplentes tiveram acesso a descontos de até 99% para renegociar as dívidas, além de parcelamento em até 180 meses, os “bons pagadores” ficaram sem benefício equivalente.
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A MP nº 1.373/2026, voltada aos estudantes que estão em dia com as parcelas, prevê desconto de apenas 12% para a quitação da dívida à vista e criou o Fies Empreendedor, uma linha de crédito para que egressos do programa abram ou ampliem negócios, com empréstimos de até R$ 80 mil para pessoas físicas e R$ 180 mil para empresas.
Com isso, estudantes adimplentes passaram a pressionar o Congresso por condições semelhantes às oferecidas aos inadimplentes.
Na Câmara, a principal proposta é o PL 1.306/2024, da deputada Dayany Bittencourt (União-CE), que prevê igualdade de tratamento entre beneficiários que mantiveram as parcelas em dia e aqueles que renegociaram dívidas em atraso.
A proposta foi aprovada por unanimidade na Comissão de Educação e recebeu parecer favorável na Comissão de Finanças e Tributação (CFT), mas ainda aguarda inclusão na pauta do colegiado. Outros quatro projetos sobre o tema tramitam em conjunto. (saiba mais abaixo)
Como funciona o Desenrola Fies
O Fies é um programa do Ministério da Educação (MEC) que financia cursos de graduação em instituições privadas. Para participar, o estudante precisa atender aos critérios de renda, ter média mínima de 450 pontos no Enem e nota superior a zero na redação.
Depois de concluir o curso, o beneficiário começa a quitar o financiamento. Nos contratos assinados até 2017, há cobrança de juros. Já no Novo Fies, voltado a estudantes de menor renda, a taxa real de juros é zero. (Confira respostas para essas e outras dúvidas sobre o programa)
O Desenrola Fies, segundo o governo, tem potencial para regularizar a situação de mais de 1 milhão de estudantes com contratos assinados até 2017 e que estavam na fase de amortização em maio de 2026. Contratos firmados a partir de 2018 não fazem parte do público-alvo desta etapa do programa.
💰 Segundo dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que atua como agente operador do Fies, até o fim de julho, o programa havia realizado 113.444 renegociações, envolvendo R$ 5,92 bilhões em dívidas. Após a aplicação dos descontos, o saldo dos débitos caiu para R$ 1,28 bilhão, uma redução superior a R$ 4,65 bilhões.
Adimplentes cobram igualdade
O advogado Nathã Balbinot recorreu ao Fies para concluir a graduação em Direito e manteve o contrato em dia.
Segundo ele, o movimento de estudantes surgiu depois que as renegociações iniciadas em 2023, ainda no primeiro Desenrola, concederam descontos de até 99% aos inadimplentes.
🔎 Em dezembro de 2023, o Governo Federal lançou o Desenrola Fies, uma iniciativa específica para renegociar dívidas de estudantes do financiamento, separada do Desenrola Brasil. O programa permitiu a regularização de contratos firmados até 2017 e com parcelas em atraso até 30 de junho daquele ano, com descontos de até 99% do saldo devedor para inscritos no Cadastro Único ou beneficiários do Auxílio Emergencial de 2021.
Três anos depois, o grupo reúne mais de 2 mil participantes no WhatsApp e quase 9 mil seguidores no Instagram. O movimento reivindica condições semelhantes de renegociação para estudantes que mantiveram os pagamentos em dia.
Movimento Adimplentes do Fies reúne estudantes que defendem condições iguais de renegociação para quem manteve os pagamentos em dia.
Reprodução/Instagram
“O pessoal não quer fazer um novo financiamento. Queremos nos livrar do financiamento estudantil”, afirma Nathã. “Queremos os mesmos descontos, de 77% a 99%, e o parcelamento do saldo remanescente após o abatimento.”
Na avaliação do movimento, as renegociações criaram uma “sensação de injustiça” entre os estudantes que continuaram pagando as parcelas.
‘Ainda moro com meus pais’
Lucas Garcia, formado em Engenharia da Computação, paga uma parcela mensal de R$ 767 do Fies
Arquivo Pessoal
O programador Lucas Garcia, de 28 anos, de Belém (PA), integra o movimento Adimplentes do Fies. Formado em Engenharia da Computação em 2019, ele ainda tem cerca de oito anos de financiamento pela frente e paga uma parcela mensal de R$ 767.
“Quem deixou de pagar ganhou até 99% de desconto e ainda pôde parcelar o restante da dívida. Já quem honrou os compromissos recebeu apenas 12% de desconto para pagamento à vista.”
Ele afirma que não pretende aderir ao Fies Empreendedor. “O governo ofereceu uma nova dívida para quem já está pagando uma.”
Garcia diz que se esforçou para não atrasar as parcelas porque tem uma fiadora e não queria transferir a ela a responsabilidade pelo contrato. Durante a pandemia, logo após o fim da carência de 18 meses do financiamento, ficou desempregado.
“Eu não trabalhava. Tive que pedir dinheiro emprestado para não ficar em débito com o Fies. Depois consegui arrumar um emprego e continuei honrando as parcelas.”
Segundo ele, foram cerca de seis meses até conseguir uma nova oportunidade profissional. Hoje, há quatro anos empregado como programador, afirma que o financiamento continua limitando seus planos.
“Ainda moro com meus pais. A parcela compromete uma parte importante da minha renda e atrasa objetivos como comprar um imóvel.”
‘A parcela compromete minha renda’
A médica Flávia Raiane Ottobelli, de 31 anos, moradora de Medianeira (PR), também integra o grupo de estudantes que defendem condições semelhantes de renegociação para quem manteve o Fies em dia.
“Muita gente imagina que, depois de formado, a situação financeira se resolve rapidamente, mas a realidade é diferente. A parcela do Fies compromete uma parte importante da renda.”
Atualmente, Flávia paga cerca de R$ 2,8 mil por mês pelo financiamento. Desse total, aproximadamente R$ 1,2 mil correspondem à amortização da dívida e R$ 1,6 mil, aos juros. Ela se formou em 2019, mas o contrato vai até 2044.
Segundo Flávia, o saldo devedor atualizado com juros supera R$ 650 mil. Ela afirma que o valor considera a atualização contratual do financiamento ao longo dos anos. Já a proposta para a liquidação antecipada da dívida é de cerca de R$ 451 mil.
“Entendo que quem passou por dificuldades graves precisa de apoio. O que considero injusto é que quem fez sacrifícios para pagar em dia não receba tratamento semelhante.”
Pressão no Congresso
Além do PL 1.306/2024, que tramita na Câmara, o senador Jayme Campos apresentou uma emenda à MP nº 1.355/2026 para estender aos adimplentes as condições de renegociação oferecidas aos estudantes inadimplentes.
Já a MP nº 1.373/2026, que criou o Desenrola Adimplentes e o Fies Empreendedor, recebeu 32 emendas no Congresso. Entre as sugestões apresentadas, há propostas para alterar as condições oferecidas aos beneficiários adimplentes do Fies.
Segundo representantes do movimento, a adesão ao programa foi baixa. Em uma enquete organizada pelo grupo, com 1.356 participantes, 98% afirmaram que não pretendem aderir à medida.
Para o advogado e especialista em direito do consumidor Stefano Ribeiro, programas de renegociação podem ajudar consumidores que enfrentam dificuldades financeiras, mas não resolvem o problema estrutural do endividamento.
“Muitas vezes as pessoas acham que estão resolvendo a vida, mas, na verdade, estão só trocando uma dívida por outra. É importante entender que isso não substitui o planejamento financeiro.”
Segundo Ribeiro, a criação de condições mais vantajosas para estudantes inadimplentes, por outro lado, também pode gerar uma percepção de desequilíbrio entre os beneficiários que mantiveram os pagamentos em dia. “Isso desestimula quem honra os compromissos.”
Sobre o Fies Empreendedor, o especialista afirma que os estudantes devem avaliar com cautela a contratação de uma nova linha de crédito, considerando não apenas as condições oferecidas, mas também a capacidade de pagamento e o custo total do empréstimo.
O movimento “Adimplentes do Fies” reúne mais de 2 mil participantes em grupos de WhatsApp
Reprodução
Governo descarta novos descontos para adimplentes
Em nota ao g1, o Ministério da Fazenda afirma que a diferença entre as condições oferecidas aos estudantes inadimplentes e aos adimplentes decorre da natureza dos contratos.
Segundo a pasta, dívidas com longo período de inadimplência já são tratadas pelas instituições financeiras como perdas esperadas.
🔎 Nesses casos, a recuperação de parte dos valores por meio de programas de renegociação representa a entrada de recursos para a União. Já os contratos que seguem em dia fazem parte da receita prevista pelo governo.
“Descontos ou perdões maiores do que os concedidos sobre essas dívidas configurariam renúncia de receita, com impacto direto no resultado primário”, informou o ministério.
A Fazenda afirmou, porém, que o governo buscou criar, por meio do Fies Empreendedor, um benefício específico para os estudantes que mantiveram o financiamento em dia.
Segundo a pasta, a linha de crédito terá juros inferiores a 1% ao mês e oferecerá financiamento de até R$ 80 mil para pessoas físicas e de R$ 180 mil para pessoas jurídicas vinculadas a egressos adimplentes do programa.
De acordo com o ministério, a economia proporcionada pelas condições da linha de crédito pode chegar a cerca de R$ 145 mil em relação a financiamentos equivalentes disponíveis no mercado.
“Assim, por exemplo, o dentista recém-formado pode abrir seu consultório, o veterinário pode investir em equipamentos: demanda real de milhares de jovens que estão agora dando o primeiro passo na vida profissional”, diz a pasta.
O Ministério da Educação afirmou que o Fies Empreendedor é uma iniciativa inédita voltada a estudantes que concluíram a graduação com apoio do Fies e mantiveram os pagamentos em dia.
Segundo a pasta, o programa busca incentivar o empreendedorismo, ampliar a geração de renda e facilitar a inserção profissional dos egressos.
O MEC informou que a linha de crédito terá orçamento de até R$ 1 bilhão e poderá beneficiar entre 50 mil e 125 mil pessoas. Os empréstimos serão oferecidos pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal para a abertura, expansão ou fortalecimento de negócios.
Setor defende equilíbrio
Ao g1, a ABMES afirmou que considera positivas as iniciativas de renegociação de dívidas para estudantes inadimplentes, por permitirem que pessoas em dificuldade financeira reorganizem a vida econômica.
A entidade, porém, defendeu que eventuais mudanças no Fies também considerem os estudantes que mantiveram os contratos em dia.
“O pagamento regular das parcelas não deve ser interpretado como uma penalização, mas como um dos pilares que garantem a continuidade do Fies e a possibilidade de que novas gerações também tenham acesso ao financiamento estudantil.”
Segundo a associação, o desafio é equilibrar o apoio aos inadimplentes com mecanismos que valorizem os estudantes que conseguiram honrar seus compromissos.
Prazo para renegociar dívidas no Desenrola Brasil termina nesta segunda (20)
Luis Lima Jr./Fotoarena/Estadão Conteúdo
Leia na íntegra:
Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)
“A ABMES avalia de forma positiva as iniciativas governamentais de renegociação de dívidas de pessoas em situação de inadimplência. Políticas públicas dessa natureza cumprem um importante papel social ao permitir que indivíduos que enfrentam dificuldades financeiras possam reorganizar sua vida econômica.
É preciso considerar que, na maioria dos casos, a inadimplência não decorre de uma escolha, mas de circunstâncias que comprometem a capacidade de pagamento.
No caso específico do Fies, também é importante reconhecer que muitos dos estudantes financiados possuem perfil socioeconômico que, idealmente, deveria ser atendido pela política de bolsas, ou seja, pelo ProUni.
Entretanto, limitações no número de vagas ou no atendimento aos critérios de acesso fazem com que parte desses estudantes recorra ao financiamento estudantil como única alternativa para realizar o sonho de ingressar na educação superior.
Ao mesmo tempo, a ABMES entende que o compromisso assumido pelos estudantes que mantiveram seus contratos em dia é fundamental para a sustentabilidade do programa.
O pagamento regular das parcelas não deve ser interpretado como uma penalização, mas como um dos pilares que garantem a continuidade do Fies e a possibilidade de que novas gerações também tenham acesso ao financiamento estudantil.
Contudo, somos favoráveis que eventuais aperfeiçoamentos na política de financiamento estudantil busquem equilibrar o necessário apoio aos inadimplentes com mecanismos de valorização daqueles que conseguem honrar seus compromissos, preservando a justiça e a sustentabilidade do programa”.
Ministério da Fazenda
“É prática consolidada no sistema financeiro que créditos com longo período de inadimplência sejam classificados como perda esperada e baixados do balanço das instituições — deixando de compor o ativo.
Nesse cenário, qualquer recuperação de valores, ainda que parcial, representa entrada líquida de recursos ao credor.
Situação distinta é a dos contratos adimplentes, cujos pagamentos futuros integram a receita projetada da União. Descontos ou perdões maiores do que foram concedidos sobre essas dívidas configurariam renúncia de receita, com impacto direto no resultado primário.
Ainda assim, o governo federal reconhece e valoriza o histórico de bom pagador dos adimplentes do Fies. Por essa razão, foi estruturado o Fies Empreendedor como o passo seguinte da política pública na vida do estudante que se graduou com apoio do Fies: os egressos que honraram seus contratos passam a ter acesso a uma das linhas de crédito mais competitivas do mercado, com juros abaixo de 1% ao mês, financiamento de até R$ 80 mil para pessoa física e R$ 180 mil para pessoa jurídica vinculada a um egresso adimplente do Fies.
A linha pode representar uma economia de cerca de R$ 145 mil em relação a equivalentes de mercado – mais que o triplo do desconto médio concedido aos inadimplentes.
Assim, por exemplo, o dentista recém formado pode abrir seu consultório, o veterinário pode investir em equipamentos: demanda real de milhares de jovens que estão agora dando o primeiro passo na vida profissional.
Neste momento, não estão previstos novos benefícios relacionados aos contratos do Fies para esse público. A adesão ao Desenrola Fies tem apresentado resultados positivos, e o Fies Empreendedor tem previsão de iniciar suas operações no começo de agosto”.
Ministério da Educação
“O Fies Empreendedor é uma iniciativa inédita do Governo Federal que amplia as oportunidades para estudantes que concluíram sua graduação com apoio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e mantêm seus pagamentos em dia.
Voltado aos egressos adimplentes que estão na fase de amortização do financiamento, o programa oferece uma nova linha de crédito para incentivar o empreendedorismo, apoiar a consolidação da trajetória profissional e ampliar a geração de renda e empregos no país.
Com orçamento previsto de até R$ 1 bilhão, a iniciativa poderá beneficiar entre 50 mil e 125 mil brasileiros, permitindo que recém-formados tenham acesso a recursos para abrir, expandir ou fortalecer seus negócios.
As operações serão realizadas pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal, com condições específicas para pessoas físicas e jurídicas.
Além de estimular a atividade empreendedora, a medida também contribui para promover a educação financeira, ampliar a inclusão produtiva e apoiar jovens profissionais que, após conquistarem o acesso ao ensino superior, passam a contar com melhores condições para desenvolver seus projetos e contribuir para o crescimento econômico e social do país”.

O Brasil tem margem para negociar o tarifaço de Trump?

Lula e Trump se encontraram pela última vez na Casa Branca em maio
Ricardo Stuckert / PR
Em uma cerimônia na última quarta-feira (22/07) o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi categórico ao afirmar que o Brasil seguia na mesa de negociação para tentar reverter as tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos sobre uma série de produtos brasileiros.
“A gente não vai sair da mesa de negociação. Eles que digam que não querem negociar, porque nós vamos estar lá sentados na mesa, fazendo proposta toda vez e desafiando eles a provarem que eles tinham alguma razão de taxar o Brasil porque são deficitários conosco”, disse Lula durante evento no Palácio do Planalto, lembrando que há décadas os EUA acumulam superávit com o Brasil.
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Mas analistas apontam que a questão vai muito além da balança comercial. Em um momento em que os Estados Unidos buscam rever acordos multilaterais, combater o avanço da influência chinesa e se impor economicamente de forma mais agressiva, especialistas salientam que o Brasil não deveria encarar as tarifas somente como uma discussão puramente técnica. Haveria mais em jogo.
Reino Unido, Japão e a União Europeia assinaram acordos bilaterais com os Estados Unidos nos últimos meses, por exemplo.
Agora no g1
Eles fizeram concessões importantes em troca de mais estabilidade na relação comercial com os americanos, mas ainda enfrentam incertezas, como o anúncio recente de tarifas sobre combate ao trabalho forçado.
Já o Canadá, que assinou um amplo acordo comercial com os EUA de Trump em 2025, também foi alvo neste mês de um novo tarifaço por parte da Casa Branca, levando os canadenses a acusarem Washington de violar o tratado.
Ainda assim, o premiê do Canadá, Mark Carney, disse que pretende “intensificar” as negociações comerciais com Trump.
Com tudo isso em jogo, o Brasil deveria seguir pelo mesmo caminho?
A natureza das tarifas
Para o professor de Daniel Vargas, da FGV Direito Rio, o primeiro passo é estabelecer as diferenças das negociações com os Estados Unidos durante o segundo mandato do presidente Donald Trump.
Segundo ele, as tratativas agora também envolvem aspectos referentes à influência americana na região e a relação política entre os dois países.
“Esse não é apenas um diálogo negocial em sentido estrito. É uma disputa muito mais profunda que envolve tanto questões econômicas e políticas, mas sobretudo questões geopolíticas que se tornaram prioridade para os Estados Unidos”, afirma Vargas.
Ele explica que o caráter político da medida seria a construção de uma afinidade ideológica entre os dois países através de um possível impacto nas eleições brasileiras. O segundo, seria a utilização das tarifas para desincentivar que países mantenham uma relação comercial próxima à China.
“Não é uma tarifa cujo cálculo carrega consigo a esperança de ter um retorno econômico amanhã. É uma tarifa cujo cálculo tem a expectativa de afirmar a autoridade americana e a sua influência geopolítica sobre a região”, diz.
A posição é corroborada pelo professor de relações internacionais do Berea College Carlos Gustavo Poggio.
“É difícil negociar porque não se trata de uma questão técnica. A abertura da investigação no Brasil foi política. Ela começa quando Trump envia uma carta falando sobre Jair Bolsonaro, sobre o Supremo Tribunal Federal”, explica Poggio, em referência a primeira rodada de tarifas anunciadas pelo governo americano em julho de 2025.
A investigação aberta naquela ocasião visava responder a medidas econômicas de países que restringissem o comércio americano e foi encerrada com o anúncio recente de taxação de 25% de produtos brasileiros.
Para Poggio, porém, a aplicação de tarifas estaria mais ancorada em uma visão ideológica do governo Trump, encabeçada pelo Secretário de Estado Marco Rubio, do que uma estratégia de longo prazo que visa afastar a influência chinesa de parceiros comerciais estratégicos.
“O governo Trump não pensa dessa forma porque não existe estratégia, existem impulsos e emoção. Não é algo coerente”, afirma.
Rubio, que é filho de cubanos, é considerado integrante da ala mais ideológica do governo americano e tem tido papel central na relação do governo Trump com países da América Latina.
Houve tentativa de negociar?
O Brasil não se absteve de negociar com os Estados Unidos, segundo o professor Daniel Vargas, mas a posição do governo brasileiro não tem levado em consideração os componentes políticos da medida.
“Acho que o governo está tentando negociar, mas de maneira muito estreita, mais do que de qualquer outra negociação em curso ou que aconteceu entre outros países e os Estados Unidos. A negociação com a Europa também envolveu um conjunto de componentes valorativos”, afirma.
Já Gustavo Blum, que é analista geopolítico e pesquisador convidado no Geneva Graduate Institute, defende que o país tentou negociar com os Estados Unidos, mas o processo não avançou por conta da lógica “maximalista” do governo Trump, onde há pouca ou nenhuma margem para concessões.
“O Brasil não fez uma abertura total e completa, o governo buscou encontrar soluções sem prejudicar setores estratégicos da economia brasileira”, afirma.
Blum defende que o tarifaço ocorre num contexto em que os Estados Unidos buscam aumentar sua influência na América Latina, mas questiona a efetividade da medida.
“Existe uma lógica neste processo, mas que é pautada pela inconstância”, afirma. Ele menciona que o recente telefonema entre Lula e o líder chinês Xi Jinping, onde um possível acordo entre o Mercosul e a China foi discutido, mostra como o tarifaço pode produzir um efeito reverso ao buscado pelos americanos.
O professor Carlos Poggio destaca que não é possível fazer uma comparação direta entre as outras negociações bilaterais dos Estados Unidos e um possível acordo com o Brasil, já que elas envolviam países com uma relação geopolítica e econômica muito mais importante com os americanos.
“Além disso, no caso de negociações com a Europa e Japão, por exemplo, não havia o componente político, que há no caso brasileiro”, ressalta.
Para Poggio, o país não tem margem de negociação, considerando que as tarifas são utilizadas pelo governo americano para conseguir concessões unilaterais e um alinhamento quase incondicional de outros países, além de serem pouco efetivas para manter as relações comerciais estáveis.
“Qualquer negociação com Trump é muito efêmera. Qualquer governo futuro pode anulá-la porque não tem nada que passa pelo Congresso”, explica.