Banco Central deve cortar juro básico da economia pela 4º vez seguida, para 14% ao ano

Raphael Ribeiro/BCB
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil se reúne nesta quarta-feira (5) e deve promover o quarto corte seguido na taxa básica de juros da economia — de 14,25% para 14% ao ano. Essa é a expectativa da maior parte do mercado financeiro.
🔎A taxa básica de juros da economia é o principal instrumento do BC para tentar conter as pressões inflacionárias, que tem efeitos, principalmente, sobre a população mais pobre.
Confirmada em 14% ao ano, a Selic atingirá o menor nível desde março de 2025, ou seja, em pouco mais de um ano. O anúncio do Banco Central será feito após as 18h.
Mesmo com o corte, em termos reais (descontada a inflação projetada para os próximos doze meses), a taxa ainda é uma das mais altas do mundo.
Para o fim do ano, a aposta do mercado financeiro é de que o juro básico fique em 13,75% ao ano — o que embute uma nova queda em novembro.
A projeção de corte nos juros vigora apesar da retomada da guerra no Oriente Médio, que elevou o preço do petróleo, com potencial de pressionar a inflação brasileira (via aumento dos combustíveis).
Neste domingo (2), porém, o presidente norte-americano, Donald Trump, prometeu novas rodadas de negociações com Irã.
Miriam Leitão: IPCA-15 assegura queda dos juros
Como as decisões são tomadas
Para definir os juros, a instituição atua com base no sistema de metas. Se as projeções de inflação estão em linha com as metas, é possível baixar os juros. Se estão acima, o Copom tende a manter ou subir a Selic.
Desde o início de 2025, com o início do sistema de meta contínua, o objetivo foi fixado em 3% e será considerado cumprido se a inflação oscilar entre 1,5% e 4,5%.
Com a inflação ficando seis meses seguidos acima da meta em junho, o BC teve de divulgar uma carta pública explicando os motivos.
Ao definir a taxa de juros, o BC olha para o futuro, ou seja, para as projeções de inflação, e não para a variação corrente dos preços, ou seja, dos últimos meses.
Isso ocorre porque as mudanças na taxa Selic demoram de seis a 18 meses para ter impacto pleno na economia.
Neste momento, por exemplo, a instituição já está mirando na meta considerando o primeiro trimestre de 2028.
Para 2026, 2027 e 2028, respectivamente, as estimativas de inflação do mercado financeiro estão em 5,03%, 4,22% e 3,80% – todas acima da meta central de inflação.
Especialistas comentam
Para o economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles, o atual cenário da economia, mesmo com as estimativas de inflação do mercado acima da meta central neste e nos próximos anos, permite a continuidade do ciclo gradual de corte de juros nesta reunião do Copom, para 14% ao ano, “mas recomenda cautela na comunicação e menor comprometimento com os passos futuros da política monetária”.
“O Comitê deve justificar a continuidade da calibração dos juros diante da projeção de inflação ao redor da meta no horizonte relevante. No entanto, as expectativas de inflação acima da meta, o mercado de trabalho aquecido e a resiliência da atividade econômica exigem ainda uma política monetária contracionista. A ausência de resolução do conflito no Oriente Médio e o ambiente externo muito incerto reforçam a necessidade de prudência adicional na condução dos juros”, avaliou Felipe Salles, do C6 Bank.
O economista Marco Antonio Caruso, do Santander, observou que os dados de inflação nos últimos meses têm sido favoráveis. Para ele, o IPCA-15 de julho surpreendeu significativamente para baixo, “apresentando uma composição mais benigna e sinais encorajadores nos indicadores de núcleo”.
“Os dados não resolvem o problema da inflação, nem eliminam o fato de que a inflação de núcleos e a de serviços permanecem acima dos níveis compatíveis com a meta. No entanto, eles reduzem a urgência de uma mudança para uma postura mais restritiva (hawkish) e reforçam a visão de que a deterioração qualitativa da inflação pode ter deixado de se acelerar”, concluiu Marco Antonio Caruso, do Santander, em comunicado.

O sobe e desce das ações: por que a bolsa é uma aposta no futuro — e não um retrato do presente

Como o mercado financeiro reage às notícias?
Manchetes sobre guerra, inflação, PIB, decisões do Banco Central e tarifas anunciadas pelos Estados Unidos podem movimentar bilhões de reais na bolsa de valores em poucos segundos. Isso acontece porque o mercado financeiro não reage apenas aos fatos, mas também ao impacto que eles podem ter sobre os lucros futuros das empresas e a economia.
Ao comprar uma ação, o investidor adquire uma pequena parte de uma empresa. O preço desse ativo reflete a expectativa sobre a capacidade da companhia de gerar resultados no futuro. Em geral, o crescimento da economia, a queda dos juros e o aumento dos lucros tendem a favorecer a valorização das ações.
O fator decisivo, porém, é a diferença entre a expectativa e a realidade. Quando um resultado supera o que o mercado esperava, as ações podem subir. Se os números apenas confirmam as projeções ou ficam abaixo delas, os papéis podem cair, mesmo diante de um lucro recorde. Por isso, a bolsa é vista como uma aposta no futuro, e não como um retrato do presente.
Toda semana, o g1 Explica descomplica a economia, o mercado financeiro e a educação financeira, mostrando o impacto de tudo isso no seu bolso.

Veto da UE atinge carne e mel brasileiros enquanto ganhavam espaço no mercado europeu

Exportações para União Europeia cresceram entre setores que devem ser embargados pelo bloco
A carne bovina e o mel brasileiros vêm conquistando cada vez mais espaço no mercado europeu nos últimos anos. Esse cenário pode mudar com a proibição da exportação desses produtos para a União Europeia a partir de 3 de setembro.
O bloco europeu alega que o governo brasileiro não fiscaliza adequadamente o uso de antimicrobianos na produção de proteína animal. Empresários brasileiros dos setores afetados, no entanto, afirmam que a medida é protecionista.
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A carne bovina, por exemplo, registrou aumento de 19% no volume exportado no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. Foram enviadas 51,2 mil toneladas aos países do bloco europeu. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne Bovina (Abiec).
O crescimento já vinha sendo registrado nos anos anteriores. Em 2025, o Brasil exportou 7% mais carne bovina para a UE do que em 2024.
Esse aumento também se refletiu na receita das exportações do setor. Entre 2024 e 2025, o valor das vendas brasileiras de carne bovina para a União Europeia aumentou 18%, passando de US$ 895,7 milhões para US$ 1,06 bilhão.
O mel orgânico brasileiro também vem ganhando espaço no mercado europeu. Entre janeiro e junho deste ano, as exportações para o bloco renderam US$ 6,35 milhões — o dobro do registrado no mesmo período de 2025, quando somaram US$ 3,18 milhões. Os dados são da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel).
No ano passado, as vendas de mel para a UE corresponderam a cerca de 5% do total exportado pelo Brasil. No primeiro semestre deste ano, essa participação ficou próxima de 10%.
Carne bovina é produto de origem animal mais vendido para a União Europeia.
Arte/g1
Mercados substitutos
Para qualquer produto de exportação, é necessário tempo para encontrar novos mercados e negociar com compradores.
No caso da carne bovina, o bloco europeu importa principalmente cortes nobres de alto valor agregado, como filé mignon, contrafilé e alcatra. Por isso, a União Europeia lidera em preço médio pago pela carne brasileira.
O mercado asiático também está entre os destinos para os quais o Brasil ampliou as exportações de carne nos últimos anos. No entanto, esses países têm interesse em outros tipos de corte, como os miúdos.
No caso do mel, também é improvável que outros mercados absorvam todo o volume destinado à UE.
Em 2025, o Brasil foi o 7º maior exportador de mel do mundo em volume e o 8º em valor. Os principais destinos foram Estados Unidos (84%), Canadá (8%) e Alemanha (4%).
A proibição europeia preocupa ainda mais os setores diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. Apesar de a carne bovina e o mel terem ficado isentos, empresários consideram imprevisível a relação com o mercado norte-americano. Até então, a Europa era vista como um destino mais seguro.

Após trégua nos preços, azeite volta a ser ameaçado por calor extremo e incêndios na Europa

Oliveira pega fogo durante um incêndio florestal no vale de Mégara, Grécia
REUTERS/Louisa Gouliamaki
O calor extremo, a seca prolongada e os incêndios florestais vêm aumentando a pressão sobre a agricultura europeia, especialmente sobre os olivais do sul do continente.
Produtores alertam que a combinação desses fatores tem reduzido a produtividade das lavouras, comprometido a qualidade dos frutos e elevado os custos de produção, o que pode resultar em novos aumentos nos preços de alimentos como o azeite de oliva.
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Estudos climáticos mostram que o número de dias de verão com condições extremas favoráveis à propagação de incêndios, combinação de calor, seca e vento, dobrou desde 1981, reforçando a vulnerabilidade estrutural dos olivais e de outras culturas mediterrâneas.
A preocupação é compartilhada por instituições e entidades do setor agrícola. No início de julho, a Comissão Europeia apontava uma redução dos preços do azeite de oliva desde abril, devido ao excesso da produção italiana.
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Contudo, revisou sua previsão para a produção de azeite do bloco, que deve recuar 5% no ciclo 2025/26. A queda é puxada sobretudo pela Grécia, onde a produção deve encolher 18%.
O relatório alertava que as perspectivas para a próxima safra dependiam da ausência de novos eventos climáticos extremos, devido à vulnerabilidade dos olivais.
Poucas semanas depois, esse cenário de risco começou a se concretizar. Segundo o jornal britânico The Guardian, a associação agrícola espanhola ASAJA afirma que os incêndios florestais que se intensificaram no país a partir de meados de julho atingiram pomares, vinhedos, áreas agrícolas, estufas e olivais, afetando produtos como frutas cítricas, abacates, amêndoas, hortaliças e azeitonas. Milhares de hectares foram devastados.
Para a entidade, a principal preocupação não é a redução das exportações, mas o aumento dos custos de produção, que tende a ser repassado aos consumidores.
A Espanha também segue enfrentando restrições hídricas que reduzem a umidade do solo e aumentam o risco de queda prematura das azeitonas.
Além disso, antes mesmo dos incêndios de julho, a colheita de cereais no país já havia sido revista para baixo, de 24 milhões para cerca de 18,5 milhões de toneladas, ampliando a pressão sobre os preços agrícolas.
Por ser a maior produtora mundial de azeite, a Espanha tem papel central na formação dos preços globais. O portal Data España ressalta que a estabilidade do mercado continua frágil após a queda recente dos custos do azeite, que sucedeu um período de valores recordes.
No início do ano, chuvas intensas provocaram alagamentos em áreas produtoras e reduziram as previsões de colheita. Agora, a seca extrema e os incêndios voltam a ameaçar a produção.
Trabalhadores usam ramos de oliveira para tentar apagar as chamas no vale de Mégara, Grécia
REUTERS/Louisa Gouliamaki
Grécia luta contra destruição de olivais
O impacto sobre o azeite é particularmente relevante na Grécia. “É uma sensação terrível quando você constrói algo com tanto esforço, e quando dinheiro não é fácil de conseguir”, disse a produtora Anastasia Hatzoglou à Reuters sobre as queimadas no país.
As chamas, que se espalharam rapidamente, destruíram florestas exuberantes e causaram grandes danos a oliveiras poucos meses antes da colheita, um ritual anual muito aguardado em muitos lares gregos.
Ela afirmou que sua casa sofreu danos extensos e que suas oliveiras foram queimadas. “Foi tanto esforço, e quando você dedica cuidado à sua propriedade, à sua terra, ao azeite que produz todos os anos, não é nada bom”, contou.
Segundo o portal grego Neakriti, o déficit hídrico, agravado pelas ondas de calor e pelos incêndios tem reduzido a produtividade dos olivais no país.
Além dos danos provocados diretamente pelo fogo, produtores relatam prejuízos causados pela fumaça, pela piora da qualidade do ar e pela maior incidência de pragas e doenças favorecidas pelas temperaturas elevadas.
O resultado pode ser a redução do tamanho dos frutos e da qualidade do azeite produzido.
O portal italiano Dissapore descreve cenário semelhante em outros países mediterrâneos. De acordo com a publicação, incêndios atingiram olivais na Grécia, Itália e Portugal. O calor prolongado facilita também o avanço de pragas.
Helicóptero de combate a incêndios florestais em ação no Monte Kitheronas, perto de Psatha, a oeste de Atenas, Grécia
REUTERS/Louisa Gouliamaki
Produção agrícola afetada
Os impactos climáticos não se limitam às oliveiras. Segundo o jornal The Guardian, a associação francesa Légumes de France estima perdas de milhares de toneladas de hortaliças, incluindo alface, cenoura, alho, cebola e alho-poró.
Em algumas regiões, a produção pode cair até 50% devido à falta de chuva e à escassez de água. O clima extremo ainda afeta vinhedos de regiões tradicionais como Champagne, Bordeaux e Borgonha, onde o amadurecimento acelerado das uvas ameaça reduzir os rendimentos da safra.
A Europa enfrentou em junho e julho de 2026 uma das ondas de calor mais severas já registradas, com temperaturas acima de 40 °C em países como Alemanha, França, Dinamarca e República Tcheca.
O calor extremo provocou mais de 1.300 mortes apenas na última semana de junho, além de interrupções em serviços públicos, derretimento de asfalto e cancelamento de eventos em várias cidades europeias.
Cientistas afirmam que esse tipo de evento teria sido “praticamente impossível” sem o aquecimento global, e que a Europa já aquece duas vezes mais rápido que a média mundial, com temperaturas médias 2,5 °C acima dos níveis pré-industriais.
Esse conjunto de fatores consolidou 2026 como um dos verões mais extremos do continente, agravando a pressão sobre sistemas agrícolas vulneráveis.

Cachorro-quente, brigadeiro e mais: como empreendedores faturam até R$ 4 milhões por ano com ideias simples

Do cachorro-quente ao churrasco: negócios simples que viraram empresas milionárias
Cachorro-quente, brigadeiro e churrasquinho são produtos comuns. Mas, quando ganham gestão, estratégia e um diferencial, podem se transformar em negócios de sucesso.
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Foi o que aconteceu com Dona Eny Matos e o filho, Hugo Matos. O que começou como uma barraquinha de cachorro-quente em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ), virou uma rede que hoje fatura cerca de R$ 4 milhões por ano.
Em Porto Alegre, uma confeiteira criou um rodízio de brigadeiros e alcançou um faturamento de cerca de R$ 108 mil por mês. Já um ex-açougueiro começou vendendo churrasquinho na garagem de casa e hoje tem uma churrascaria que fatura aproximadamente R$ 300 mil mensais.
As três histórias mostram que o diferencial nem sempre está no produto, mas na forma como ele é vendido. Investir na experiência do cliente, manter a qualidade e executar bem a operação faz diferença no crescimento do negócio.
Para quem quer empreender, a principal lição é que a pergunta não deve ser se a ideia já existe, mas como fazer melhor do que já é feito.
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Cachorro quente
Caled Oquendo/Pexels
Leandra Winck apostou nos brigadeiros e hoje fatura R$ 108 mil por mês — Foto: Leandra Winck
Leandra Winck

'Nem para comer me chamavam': entenda o que é a solidão corporativa e como pode afetar sua carreira

Solidão corporativa: entenda o que é e como ela pode afetar a saúde mental e a carreira
Geovanna Santos, de 28 anos, acumula uma década de experiência na área administrativa. Apesar de sempre ter facilidade para fazer amizades no ambiente de trabalho e manter vínculos com ex-colegas, no ano passado ela viveu uma situação completamente diferente e descobriu, na prática, o que especialistas chamam de solidão corporativa.
Após deixar uma empresa de atuação nacional para trabalhar em um negócio familiar, Geovanna imaginava encontrar apenas uma nova rotina. Em vez disso, deparou-se com um ambiente onde se sentia completamente isolada.
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“Eu ficava literalmente olhando para a parede”, relembra. Sua mesa ficava isolada em uma sala, enquanto o gerente, único colega no ambiente, passava boa parte do dia fora. Enquanto isso, as outras três funcionárias da equipe trabalhavam juntas em outro ambiente.
Geovanna tentou se aproximar, mas as conversas não evoluíram. No horário de almoço, os grupos saíam juntos para restaurantes, deixando-a para trás. ‘”Eu ia sozinha. Nem para comer me chamavam”, lembra a trabalhadora.
A situação começou a afetar sua saúde mental. Ela passou a acordar sem vontade de ir ao trabalho, acumulou atrasos e desenvolveu crises de ansiedade, síndrome do pânico e sintomas físicos relacionados ao estresse.
A empresa também não ofereceu um processo estruturado de integração. A ausência de acolhimento aumentou a sensação de isolamento e prejudicou seu desenvolvimento profissional.
“Eu me sentia invisível. Não tinha ninguém para olhar e reconhecer o meu esforço”, conta. Depois de três meses de desgaste emocional, Geovanna pensou em pedir demissão. Antes disso, porém, foi desligada da empresa logo após apresentar um atestado médico. “Foi péssimo”, resume.
Geovanna Santos encontrou no trabalho amizades que transformaram sua rotina, mas, após mudar de emprego, passou a enfrentar a solidão e a dificuldade de criar novos vínculos no ambiente profissional.
Arquivo Pessoal
Segundo um levantamento da Pluxee com mais de 2 mil brasileiros, 47% dizem se sentir sozinhos no trabalho, seja frequentemente ou às vezes.
Outro dado chama atenção: 78% consideram essencial ter amizades verdadeiras no ambiente profissional, indicando que a qualidade das relações influencia diretamente a experiência no emprego.
As conexões ajudam a retenção de talentos. Em uma escala de 1 a 5, os entrevistados atribuíram nota média de 3,39 ao impacto das amizades na decisão de permanecer ou deixar uma empresa.
Um segundo estudo, realizado pela Vittude em parceria com o Opinion Box, reforça esse cenário. Embora o trabalho remoto integral seja desejado por muitos profissionais, o levantamento indica que esse modelo pode intensificar o isolamento social e dificultar a construção de redes de apoio.
Entre os trabalhadores que atuam 100% em home office, 11,4% apresentam níveis críticos de sofrimento mental.
Para 30,8% dos entrevistados, o senso de equipe e a interação social são os principais motivos para preferir o trabalho totalmente presencial.
Solidão no trabalho afeta quase metade dos brasileiros
Arte g1
Quase metade dos brasileiros se sente sozinha no trabalho
Arte g1
O que é a solidão corporativa?
O conceito de solidão corporativa não significa necessariamente trabalhar sozinho, mas sentir-se isolado mesmo em meio a colegas. Ela é caracterizada pela falta de vínculos significativos, de relações de confiança e de senso de pertencimento no ambiente de trabalho.
“O problema não é estar sozinho fisicamente, mas sentir-se desconectado, mesmo cercado de colegas”, explica Camilla Pádua, sócia-líder da área de consultoria em gestão de pessoas da KPMG no Brasil.
Segundo ela, esse sentimento costuma surgir quando o profissional não consegue construir relações, trabalha em ambientes excessivamente competitivos ou sente que não pode ser autêntico.
“Os líderes têm um papel central em construir ambientes em que a conexão humana não seja vista como algo secundário, mas como parte da estratégia do negócio.
Marcela Zaidem, fundadora da consultoria Cultura na Prática, afirma que o fenômeno ganhou visibilidade nas redes sociais, mas já vinha sendo identificado por pesquisas internacionais há muitos anos.
“Não estamos falando de gente ‘carente de escritório’. Estamos falando de um ambiente em que muita gente está cercadde reunião, meta, canal, call e cobrança, mas ainda assim se sente sozinha”, explica.
Muller Gomes, gerente da consultoria de recrutamento Robert Half, destaca que o isolamento também pode comprometer a carreira. “O ser humano é biopsicossocial. A gente precisa do outro. Ter com quem conversar, compartilhar e até desabafar ajuda a lidar melhor com os problemas”, explica.
Segundo ele, a falta de interação afeta a produtividade, a saúde mental e até o desenvolvimento profissional, já que o networking é fundamental para novas oportunidades de carreira. “O ser humano não foi feito para viver isolado”, afirma.
Home office ampliou o desafio
Especialistas afirmam que a expansão do trabalho remoto reduziu os momentos espontâneos de convivência entre colegas.
“Perdemos aquela conversa de corredor, o café depois do almoço ou o comentário sobre o tempo. São esses pequenos momentos que geram proximidade”, afirma Lucimara Costa, diretora de Recursos Humanos da Nexti.
Para Bruno Gonçalves, especialista em experiência do colaborador e felicidade corporativa, o problema não é o home office em si, mas a falta de adaptação das empresas. “No trabalho remoto, esses momentos precisam ser desenhados intencionalmente. Produtividade depende de pessoas conectadas de verdade, e não apenas monitoradas.”
Apesar disso, Geovanna Santos acredita que o formato de trabalho, sozinho, não explica a sensação de isolamento. Durante a pandemia, ela conta que trabalhou por um ano em home office e nunca se sentiu sozinha.
“Mesmo no home office eu tinha uma ótima conexão com o time. A gente falava o tempo todo”, conta. “O problema é a cultura, é a forma como as pessoas acolhem ou não.”
Mesmo cercados de colegas, muitos profissionais relatam sentir isolamento no trabalho.
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Cultura organizacional faz diferença
Na avaliação dos especialistas, combater a solidão corporativa depende menos de happy hours e eventos esporádicos e mais da construção de ambientes em que as pessoas se sintam acolhidas desde o primeiro dia de trabalho.
Isso passa por processos de integração mais estruturados, lideranças mais próximas das equipes, espaços para diálogo e uma cultura baseada em confiança, pertencimento e segurança psicológica.
“Quando a empresa não constrói esse contexto, a solidão aparece. E, quando aparece, ela não é um detalhe emocional. É sintoma de liderança fraca, vínculos frágeis e uma cultura insuficiente para sustentar as pessoas”, resume Marcela Zaidem.
Depois daquela experiência, Geovanna voltou a trabalhar em outro ambiente e percebeu que o problema nunca foi o modelo de trabalho, mas a forma como foi recebida.
Como perceber que você está vivendo a solidão corporativa?
Segundo especialistas, alguns sinais podem indicar que o problema está afetando sua rotina:
Você sente que não faz parte da equipe, mesmo trabalhando cercado de colegas;
Evita interações ou percebe que raramente é incluído em conversas e atividades do grupo;
Tem dificuldade para criar vínculos ou sente que não pode ser autêntico no ambiente de trabalho;
Perde a motivação para ir ao trabalho e sente que seus esforços passam despercebidos;
Apresenta sintomas como ansiedade, estresse, desânimo ou esgotamento relacionados ao trabalho.
Quando procurar ajuda?
Se a sensação de isolamento for persistente e começar a afetar sua saúde mental, seu desempenho ou sua qualidade de vida, especialistas recomendam conversar com a liderança, com o RH ou buscar apoio psicológico.
Em ambientes saudáveis, o acolhimento e o senso de pertencimento também fazem parte das responsabilidades da empresa.
NR-1: veja o que muda com a nova regra sobre saúde mental no trabalho