Mega-Sena pode pagar R$ 165 milhões neste domingo; g1 transmite ao vivo

Como funciona a Mega-Sena?
O concurso 3.042 da Mega-Sena pode pagar um prêmio de R$ 165 milhões para os apostadores que acertarem as seis dezenas. O sorteio ocorre às 11h deste domingo (9), em São Paulo.
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No concurso da última quinta-feira (6), ninguém acertou as seis dezenas.
O g1 transmite todos os sorteios das Loterias Caixa, ao vivo. A transmissão começa momentos antes de cada dia de concursos, no site e no canal do g1 no YouTube.
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A aposta mínima para a Mega-Sena custa R$ 6 e pode ser realizada também pela internet – saiba como fazer a sua aposta online.
Volante da Mega-Sena
Ana Marin/g1
Para apostar na Mega-Sena
As apostas podem ser realizadas até as 20h (horário de Brasília) em qualquer lotérica do país ou por meio do site e aplicativo Loterias Caixa, disponíveis em smartphones, computadores e outros dispositivos.
Já os bolões digitais poderão ser comprados até as 20h30, exclusivamente pelo portal Loterias Online e pelo aplicativo.
Ainda segundo a Caixa, para os sorteios realizados aos domingos as apostas simples podem ser efetuadas até as 22h de sábado por meio das unidades lotéricas, pelo Portal Loterias Caixa e do aplicativo Loterias Caixa.
A comercialização dos Bolões Caixa nos canais eletrônicos, nesse caso, acontece até às 10h45 do domingo, quinze minutos antes da realização dos sorteios.
O pagamento da aposta online pode ser realizado via PIX, cartão de crédito ou pelo internet banking, para correntistas da Caixa. É preciso ter 18 anos ou mais para participar.
Probabilidades
A probabilidade de vencer em cada concurso varia de acordo com o número de dezenas jogadas e do tipo de aposta realizada. Para um jogo simples, com apenas seis dezenas, que custa R$ 6, a probabilidade de ganhar o prêmio milionário é de 1 em 50.063.860, segundo a Caixa.
Já para uma aposta com 20 dezenas (limite máximo), com o preço de R$ 232.560,00, a probabilidade de acertar o prêmio é de 1 em 1.292, ainda de acordo com a instituição.

Por que a Alemanha quer mudar os 'minijobs', emprego parcial isento de imposto

A iraniana Anahita Abdollahi concilia o mestrado na Universidade de Colônia com um minijob em uma biblioteca, experiência que, segundo ela, ajudou na adaptação ao mercado de trabalho alemão e na prática do idioma.
Dasha Thyssen/DW
Quando inicia seu turno na biblioteca de física da Universidade de Colônia, a iraniana Anahita Abdollahi, de 26 anos, começa conferindo os e-mails para se atualizar sobre os pedidos dos usuários. Ela ajuda estudantes a encontrar livros, atende telefonemas e cuida das plantas do local.
Mestranda na instituição, Abdollahi define a função como a de uma “bibliotecária de meio período”. Ela afirma gostar de quase todas as tarefas, com exceção das mais repetitivas, como o inventário do acervo. Ainda assim, considera o trabalho tranquilo, já que atua apenas duas vezes por semana, cerca de cinco horas por dia.
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Seu emprego se enquadra na categoria conhecida na Alemanha como “minijob”, modalidade de trabalho com jornada reduzida e baixa remuneração que o governo pretende reformar.
Entre as mudanças em discussão estão o fim da isenção de contribuições previdenciárias para os trabalhadores e o aumento dos encargos pagos pelas empresas, com o objetivo de reforçar o financiamento do sistema de aposentadorias.
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As propostas despertam reações divergentes. Sindicatos apoiam a reforma por avaliarem que ela pode reduzir a precarização do trabalho e ampliar a proteção social. Já muitos trabalhadores temem uma redução da renda líquida, enquanto representantes empresariais alegam risco de aumento dos custos de contratação e perda de flexibilidade.
Modalidade é popular entre mulheres e estudantes
O minijob é um tipo de emprego de meio período com remuneração máxima de 603 euros (cerca de R$ 3.538) por mês. Quem permanece abaixo desse limite não paga imposto de renda nem contribuições regulares para a seguridade social.
Os trabalhadores também podem optar por não contribuir para a aposentadoria, e a maioria faz essa escolha.
Em geral, são necessárias cerca de 10 horas de trabalho por semana para atingir o teto de rendimentos, o que torna a modalidade atraente para estudantes, pais e mães com filhos pequenos e pessoas que exercem outras atividades. Segundo a agência federal responsável pelo setor, as mulheres representam cerca de 57% dos trabalhadores nessa categoria.
A mesma agência estima que quase 7 milhões dos 45 milhões de trabalhadores da Alemanha tenham um minijob. Parte deles exerce a atividade como complemento de renda; outros dependem exclusivamente desse tipo de contrato.
Criado nos anos 1960 para facilitar empregos de baixa carga horária e reduzir a burocracia, o modelo foi reformulado em 2003 como parte de uma ampla reforma do mercado de trabalho.
Sindicatos defendem mudanças nos minijobs por considerarem que o modelo contribui para vínculos precários.
Matt Lincoln/Image Source/IMAGO
Por que as empresas defendem os minijobs?
Empregadores normalmente pagam um imposto fixo de 2% sobre os salários, além de contribuições sociais equivalentes a cerca de 30% da remuneração bruta de um empregado contratado nesse modelo. Muitas empresas consideram o minijob vantajoso por sua flexibilidade.
“Existem situações em que faz sentido contratar alguém apenas para uma quantidade muito pequena de horas”, afirmou Holger Schäfer, economista especializado em mercado de trabalho do Instituto Econômico Alemão (IW), à DW.
Supermercados, por exemplo, precisam de mais caixas aos sábados do que nas manhãs de segunda-feira. Os minijobs permitem ajustar rapidamente a escala de funcionários. Por isso, varejo e hotelaria estão entre os setores que mais utilizam esse tipo de contrato.
O que pode mudar
No início de julho, porém, a coalizão governista anunciou planos para elevar de 2% para 5% a alíquota fixa incidente sobre os minijobs.
Além disso, o governo pretende implementar as propostas apresentadas pela Comissão de Pensões da Alemanha no fim de junho, voltadas à sustentabilidade do sistema previdenciário.
Uma das recomendações prevê o fim da possibilidade de renunciar às contribuições para a aposentadoria e a eliminação do status especial dos minijobs. Na prática, os trabalhadores passariam a recolher contribuições sociais como qualquer outro empregado, encerrando o modelo em seu formato atual.
Segundo a comissão, a medida fortaleceria os sistemas de seguridade social, reduziria o risco de pobreza na velhice e ajudaria a combater desigualdades de gênero.
Para Abdollahi, a mudança poderia representar uma perda mensal de até 130 euros (cerca de R$ 762). Ela afirma que provavelmente tentaria aumentar a carga de trabalho para compensar a redução da renda.
Quase 7 milhões de pessoas trabalham nos chamados minijobs, modalidade de emprego parcial criada para reduzir burocracia e facilitar contratações de baixa carga horária.
Michael Bihlmayer/CHROMORANGE/picture alliance
Apoio dos sindicatos e resistência das empresas
Diversos sindicatos receberam a proposta de forma positiva. Entre eles está o NGG, entidade que representa trabalhadores dos setores de alimentação, bebidas, gastronomia e hotelaria.
Em nota, o presidente da organização, Guido Zeitler, afirmou que os minijobs não se mostraram um caminho para empregos de melhor qualidade e acabaram consolidando condições de trabalho precárias para milhões de pessoas.
Enzo Weber, especialista em mercado de trabalho do Instituto de Pesquisa sobre Emprego (IAB), acredita que a reforma poderá incentivar jornadas maiores e novas trajetórias profissionais.
Segundo ele, a medida evitaria que trabalhadores ficassem presos à chamada “armadilha do minijob” e reduziria o risco de estagnação na carreira de muitas mulheres durante os anos dedicados à criação dos filhos, em razão de incentivos tributários considerados inadequados.
Representantes empresariais, porém, contestam a proposta. “O fim dos minijobs seria um erro”, afirmou Rainer Dulger, presidente da Confederação das Associações Patronais Alemãs. Para ele, a modalidade permite às empresas manter flexibilidade e contar com mão de obra adicional.
Schäfer também duvida que a mudança leve trabalhadores a ampliar significativamente suas jornadas. Na avaliação do economista, os benefícios extras gerados por contribuições sociais sobre um emprego de cerca de 600 euros seriam limitados.
“Não vale a pena mobilizar toda a máquina da seguridade social para vínculos de trabalho tão pequenos”, afirmou.
Ainda assim, ele considera que há espaço para mudanças no caso de pessoas que mantêm um minijob paralelo ao emprego principal.
“Há uma má alocação econômica quando um trabalhador qualificado prefere entregar pizzas depois do expediente em vez de fazer horas extras em sua ocupação principal”, disse. “Mas isso não significa que seja necessário acabar com os minijobs.”
Sustentabilidade do sistema previdenciário impulsiona reforma no modelo
Pond5 Images/IMAGO
Estudantes podem ficar de fora da reforma
As propostas da Comissão de Pensões preveem uma exceção para estudantes do ensino básico e médio, permitindo que continuem trabalhando sob as regras atuais.
Agora, o Partido Social-Democrata (SPD), que integra a coalizão governista, discute estender essa exceção também aos universitários.
Abdollahi considera a ideia adequada, especialmente para estudantes estrangeiros. “Eles estão entre os grupos que mais precisam desse tipo de oportunidade, sobretudo os que vêm de fora da União Europeia”, afirmou.
Segundo ela, o emprego na biblioteca facilitou sua entrada no mercado de trabalho alemão e também contribuiu para o aprendizado do idioma. “Tenho a oportunidade de praticar alemão em um ambiente sem muita pressão”, disse.
O futuro dos minijobs ainda será definido nos próximos meses. O governo alemão deve discutir formalmente as propostas de reforma ao longo deste ano.

Menos vacas, mais leite: como genética e bem-estar mais que dobraram a produção em 24 anos

Número de vacas leiteiras cai em 13 anos, mas Brasil bate recorde na produção
Durante a 21ª Megaleite, realizada em junho, em Belo Horizonte (MG), a vaca Jornada Montross FIV LPN bateu o recorde mundial de produção de leite em um único dia: foram 112,65 kg. Até então, o título pertencia a Fernanda Forbes IS Olhos D´Água, com 111,947 kg de leite em um dia.
Ao longo dos três dias de competição, Jornada produziu 337,95 kg de leite.
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Segundo o criador Rodrigo Nogueira Ferreira, a campeã recebe um manejo semelhante ao de um atleta de alto rendimento e acaba produzindo mais até do que outras vacas da mesma propriedade, que produzem cerca de 30 kg de leite por dia.
“É um número muito alto. Se há 20 anos você falasse isso, a gente chamaria a pessoa de doido, estava sonhando e hoje já é realidade”, diz Rui Verneque, chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Gado de Leite.
Claro que o animal está longe de representar a média das vacas leiteiras do país. Ainda assim, como lembra Verneque, o caso chama atenção para uma tendência no setor: as vacas brasileiras produzem bem mais leite hoje do que há 24 anos.
A explicação está nos investimentos em genética, bem-estar animal e alimentação. (veja a evolução abaixo)
Produtividade das vacas leiteiras mais que dobrou no Brasil em 24 anos
Arte g1
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Genética planejada
Verneque, da Embrapa, afirma que a seleção genética foi um dos principais fatores por trás do aumento da produtividade das vacas leiteiras no Brasil. O gir leiteiro, raça zebuína que produzia pouco, passou de uma média de 2 mil kg para 5 mil kg por lactação, período que dura cerca de 10 meses.
A própria raça girolando, da qual a Jornada faz parte, foi desenvolvida por meio do melhoramento genético. Ela resulta do cruzamento entre as raças holandesa e gir leiteiro. “Para as nossas condições de clima tropical, é uma raça altamente competitiva, com média de 7 mil kg por lactação”, diz o pesquisador.
Para Rodrigo Ferreira, proprietário da Jornada, a genética do animal foi fundamental para o recorde. “Um animal que não tem uma genética boa é praticamente impossível você conseguir chegar no resultado”, afirma.
Com 35% menos vacas, o Brasil produziu mais leite em 13 anos.
Arte g1
Animal mais ‘exigente’
Um animal que produz mais também exige mais cuidados, afirma Verneque. “As exigências dele com relação a conforto, controle de temperatura e questões ambientais têm que ser muito maiores para que ele responda”, diz.
Cada raça pode exigir condições diferentes, como temperaturas mais altas ou mais baixas. Quando essas necessidades não são atendidas, o animal sofre estresse e, como consequência, produz menos.
“Se você estiver com o ambiente com ar-condicionado, na temperatura que você gosta, está ótimo, não é isso? Agora, se você estiver em ambiente de calor extremo, você tem esse estresse térmico. O seu organismo terá que reagir para você sobreviver”, exemplifica o pesquisador da Embrapa.
O mesmo vale para o barulho de máquinas ou alterações na rotina do animal. Na propriedade onde Jornada vive, Ferreira oferece sombra para o gado descansar e áreas de pastagem. Ela também conta com uma baia exclusiva e uma equipe treinada para monitorar seu bem-estar.
Alimentação reforçada
Um rebanho pode ser alimentado com pasto, ração ou uma combinação dos dois. Atualmente, ambos evoluíram. O pasto pode incluir gramíneas e leguminosas, enquanto as rações têm formulações mais nutritivas.
“A alimentação é um dos itens mais importantes no custo de produção do leite, porque depende de uma dieta bem formulada”, afirma Verneque.
É o caso da alimentação de Jornada, que passa por análise de qualidade e acompanhamento veterinário.
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Jornada
Arquivo pessoal

Por que sistema elétrico brasileiro enfrenta risco por excesso de geração de energia

Nos últimos anos, país registrou um forte avanço da geração solar distribuída, gerando desequilíbrio entre oferta e demanda de energia, dizem especialistas
Getty Images via BBC
Quase 25 anos depois do apagão por excesso de demanda que em 2001 obrigou consumidores de 16 Estados e do Distrito Federal a desligar eletrodomésticos, e prefeituras a reduzirem a iluminação pública, o Brasil enfrenta um drama de sinal inverso.
Agora, a ameaça que ronda o Sistema Interligado Nacional (SIN) é a oferta excessiva de energia.
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Para evitar uma possível sobrecarga, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão que coordena a geração e distribuição de energia no país, acionou no dia 7 de junho um plano emergencial para frear o ingresso de eletricidade na rede.
Na prática, trata-se da redução ou do desligamento da geração de energia, geralmente de parques eólicos e solares — o que é chamado no jargão técnico de curtailment (expressão que se traduz como corte ou redução).
Foi a primeira vez que o ONS lançou mão da medida desde que um plano para lidar com o excesso de oferta de energia foi aprovado, em novembro do ano passado.
De acordo com o órgão, “trata-se de uma ação excepcional adotada para o processo de controle de frequência do sistema elétrico”, que foi necessária naquele domingo de junho para equilibrar a alta geração, combinada a um consumo menor, devido ao final de semana prolongado pelo feriado de Corpus Christi, associado a baixas temperaturas. Cortes também foram realizados em dias de jogos do Brasil na Copa.
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Segundo Joisa Dutra, diretora do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ceri), a compreensão da situação exige que se parta de uma premissa: para o sistema elétrico funcionar de forma adequada, a oferta deve ser igual à demanda.
Isso significa que a quantidade de energia gerada e transmitida tem de coincidir com a consumida.
O que há de novo é que, diferentemente do que ocorria no passado, o país já não depende unicamente da energia gerada por usinas hidrelétricas, termelétricas e nucleares ou por parques eólicos e solares de grande porte, que podem ser ligados ou desligados pelas autoridades conforme as necessidades do sistema.
Geração distribuída já abrange 5% dos consumidores no país
Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), dos cerca de 90 milhões de consumidores, 4,5 milhões (5% do total) são também micro e minigeradores de energia por meio de painéis solares, que formam a chamada geração distribuída.
Desses 4,5 milhões, 3,6 milhões são consumidores-geradores residenciais, e 400 mil, comerciais, que recebem créditos pelos quilowatts aportados ao conjunto. Os 500 mil restantes incluem categorias como poder público, serviço público, rural e outras.
A potência instalada desses consumidores-geradores é de 50 gigawatts, que equivalem a cerca de 20% da potência total instalada do país, observa Joisa.
“Não podemos normalizar a situação atual por duas razões: esse volume [50 gigawatts] é muito grande e análises do ONS indicam que é subestimado”, alerta a diretora do FGV-Ceri.
Volume de energia produzido pela geração distribuída é grande e pode estar subestimado, diz pesquisadora da FGV
Bloomberg via Getty Images/BBC
Segundo a pesquisadora, a subnotificação da geração distribuída poderia chegar a 15 gigawatts ou 30% do total.
Essa potência, classificada pelo ONS como “instalações à revelia”, configura fraude e prejuízo ao sistema, na medida em que mascara como micro e minigeradores usuários que poderiam ser enquadrados como de grande porte, diz a especialista.
Enquanto usinas convencionais e renováveis de grande porte são controladas pelo ONS, a geração distribuída não obedece a nenhum comando centralizado. Em caso de necessidade, seu desligamento da rede depende da ação das concessionárias privadas de distribuição.
“Esse volume [de energia proveniente da geração distribuída] tornou-se muito importante, e se o ONS limitar-se a desligar os recursos sob seu controle, a redução de oferta não será suficiente para fazer frente à redução de consumo”, afirma Joisa.
‘Energia de telhado’
A presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum, afirma que o excesso de produção de energia, ao forçar o curtailment, provoca prejuízo aos investidores do setor.
Ela diz que é preciso diferenciar a energia eólica e solar de grande porte, responsável por fazer da matriz energética brasileira a mais renovável do mundo, e a geração solar distribuída ou “energia de telhado”.
“Nos últimos anos, houve excesso de investimento nessa geração solar distribuída, que, como o próprio nome diz, não é de grande porte e não é controlada pelo ONS”, diz Gannoum.
Questionada sobre o papel da geração solar distribuída no atual excesso de oferta de energia, a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) afirma em nota que “os cortes de geração impostos a usinas solares e eólicas no Brasil — que vêm se intensificando nos últimos anos e meses — configuram a maior crise já enfrentada pelas fontes renováveis no país”.
A associação avalia, porém, que atribuir esse problema ao crescimento da geração solar distribuída “é uma interpretação simplista que não reflete a realidade do sistema elétrico nacional”.
Isso porque, segundo a Absolar, “o sistema elétrico brasileiro expandiu significativamente sua capacidade de geração renovável (solar, eólica, biomassa, biogás e outras fontes) sem que houvesse, na mesma velocidade, investimentos equivalentes em mecanismos de flexibilidade operativa, armazenamento de energia, modernização da infraestrutura e gestão da demanda.”
“Esse desequilíbrio não é resultado da expansão de apenas uma fonte, tecnologia ou modalidade de geração, mas da falta de política pública estrutural adequada para acompanhar essa natural expansão”, avalia a entidade representativa.
Excesso de subsídio às renováveis
Além da proliferação da geração distribuída, os desafios à gestão do sistema elétrico brasileiro incluem fatores que vão do número elevado de dias não-úteis à Copa do Mundo.
Este ano, embora o número de feriados nacionais seja o mesmo de 2025, muitos caem no início ou no final da semana, incentivando os feriadões.
Além disso, os três jogos do Brasil na fase classificatória da Copa do Mundo, quando o país tradicionalmente para, caíram em dias úteis, assim como a primeira partida do mata-mata, contra o Japão.
Com menor atividade econômica e circulação de pessoas nesses dias, o consumo de energia é reduzido, desequilibrando a balança em favor da oferta.
Apesar do excesso de oferta, a conta de luz continua assombrando os brasileiros no final do mês: no último ano, a energia elétrica residencial acumula alta de 8,79%, quase o dobro do avanço do índice geral de inflação (em alta de 4,64% no acumulado de 12 meses até junho), segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Para Nivalde Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atribuir a situação atual do setor elétrico brasileiro à falta de planejamento é equivocado.
“Durante o dia, a energia solar e eólica produzida e lançada no sistema é muito superior à demanda”, afirma o pesquisador à BBC News Brasil.
Esse fenômeno, afirma o professor do Instituto de Economia da UFRJ, não é produzido pela infraestrutura deficiente ou pela fiscalização frouxa, mas pelos subsídios oferecidos pelo Estado brasileiro às fontes renováveis.
O pesquisador cita exemplos de outros países, onde o excesso de oferta é corrigido pelo próprio mercado, com a queda do preço da energia produzida por fontes alternativas. “Ninguém vai produzir algo que tenha preço negativo”, resume.
No Brasil, o estímulo oficial à energia limpa resultou em múltiplos mecanismos de isenção tributária que provocaram uma “corrida do ouro” aos ramos eólico e solar, diz Castro.
Esses incentivos vão desde descontos nas tarifas para uso de redes de transmissão e distribuição até isenções de tributos estaduais na compra e importação de equipamentos, passando por linhas de crédito em programas e bancos oficiais.
“São jabutis [medidas estranhas ao propósito de um projeto legislativo, inseridas durante a tramitação do texto] que os lobbies desses setores patrocinam e são aprovados pelo Congresso”, afirma o coordenador do Gesel.
Se o Executivo opta por vetar a medida, acrescenta, o Congresso derruba o veto. “O governo federal perdeu o protagonismo das políticas energéticas”, avalia.
O excesso de subsídio para as renováveis provocou um aumento enorme de oferta, que se descolou da demanda.
Atualmente, a capacidade instalada de geração de energia é mais do que o dobro da demanda média, um cenário que deve persistir nos próximos anos, segundo o Planejamento Anual da Operação Energética 2026-2030 do ONS.
Frente a esse cenário, o curtailment é a única política pública adequada em curto prazo, diz o pesquisador.
Num futuro próximo, explica, o Brasil prepara-se para investir em sistemas de armazenamento químico, por meio de baterias, e em hidrelétricas reversíveis (aquelas capazes de armazenar energia excedente, bombeando água de um reservatório inferior para um superior).
Os dois recursos permitem a conservação da energia renovável gerada, sem o desperdício inerente ao curtailment, observa o pesquisador.
O avanço dos sistemas de armazenamento por baterias também é defendido pela Absolar como uma medida urgente. “Essa tecnologia permite armazenar a energia produzida nos momentos de maior geração para utilização nos horários de maior consumo, reduzindo desperdícios, aumentando a flexibilidade operativa do sistema, mitigando congestionamentos nas redes, reduzindo custos para os consumidores, postergando investimentos em infraestrutura e diminuindo a necessidade de acionamento de usinas termelétricas fósseis”, destaca a associação.
Em outro paradoxo do setor energético brasileiro, ao mesmo tempo que promove a energia renovável, o país destina subsídios a usinas termelétricas, que estão sendo desativadas em todo o mundo em razão do perfil de alto carbono.
‘Quem paga o curtailment é o consumidor’
A economista, advogada e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Elena Landau utiliza o termo “desarranjo” para definir o quadro atual do sistema elétrico.
Ela afirma que, ao fim e ao cabo, o pequeno consumidor residencial é o mais penalizado. “Quem paga o curtailment é o consumidor”, observa.
Citando um levantamento da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, a economista diz que entre janeiro de 2023 e maio de 2026 o governo federal e o Congresso aprovaram medidas que adicionarão quase R$ 985 bilhões às contas de luz até 2050.
“O estado do setor é muito complicado, mas não começou hoje. Vem de alguns anos para cá, por total falta de governança e planejamento”, afirma.
Ela elogia o governo do presidente Michel Temer (MDB, 2016-2018) por ter promovido uma consulta pública sobre a área em seus primeiros meses, mas afirma que, nos anos seguintes, houve uma sucessão de equívocos relativos à energia.
Landau critica especialmente os jabutis incluídos pelo Congresso na medida provisória (MP) que privatizou a Eletrobras, em 2021, durante o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022), como a contratação compulsória de termelétricas a gás.
“Ali, o Congresso Nacional atropela o planejamento e cria obrigações de contratação totalmente fora dos planos de qualquer planejador ou investidor.”
Na opinião da economista, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manteve as distorções no setor ao dar continuidade a subsídios à energia renovável.
“Não que os subsídios estivessem errados quando começaram. Você pode querer uma matriz mais limpa, isso tudo é correto”, argumenta.
“O problema é que os lobbies intensos e acomodados pelo ministro [Alexandre] Silveira [das Minas e Energia] mantiveram e ampliaram os subsídios.”
O resultado é o excesso de geração, diz. “A solução do problema passa por trocar a governança.”

Mais lojas, mais problemas? Entenda por que supermercados já não apostam tanto em lojas físicas

Loja do Pão De Açúcar (GPA) no Rio de Janeiro.
MAURO PIMENTEL/AFP
Quem vai às compras com frequência nos supermercados, talvez já tenha percebido algumas mudanças nos últimos anos. A principal é que aquela loja que fazia parte da rotina pode ter mudado de nome ou fechado as portas.
Foi o que aconteceu com diversas unidades do Extra. Após uma reestruturação do Grupo Pão de Açúcar (GPA), muitas lojas deixaram de operar com a marca e passaram a funcionar sob outras bandeiras do grupo, enquanto outras encerraram as atividades.
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Dono das redes Pão de Açúcar, Minuto Pão de Açúcar, Pão de Açúcar Fresh e Extra Mercado, o GPA vive uma das maiores reestruturações de sua história. Em março deste ano, a empresa botou em prática um plano de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 4,5 bilhões em dívidas.
Um dos gargalos foi a expansão desordenada de lojas físicas. Em 2020, o GPA chegou a ter cerca de 800 lojas, mas reduziu sua presença física após a venda de unidades do Extra Hiper para o Assaí, em 2021.
A operação marcou uma mudança de estratégia do grupo, que passou a concentrar esforços em formatos menores e considerados mais rentáveis, como supermercados de bairro e lojas de proximidade. Ao fim de 2025, a companhia tinha cerca de 700 lojas no país.
Agora no g1
Outras redes também passaram a rever o modelo de crescimento baseado na abertura acelerada de unidades. Empresas como Dia, St Marche e Grupo Mateus encontraram dificuldades para sustentar operações maiores em um cenário de juros elevados, crédito mais caro e consumidores mais cautelosos.
As redes passaram a priorizar a rentabilidade das unidades existentes, reduzir custos e tornar a operação mais eficiente.
O faturamento não é o problema: segundo o Ranking ABRAS 2026, as 10 maiores empresas do varejo alimentar brasileiro movimentaram mais de R$ 361 bilhões em 2025. O líder foi o Carrefour, com faturamento de R$ 123,6 bilhões, seguido pelo Assaí Atacadista (R$ 84,7 bilhões) e Grupo Mateus (R$ 31 bilhões).
O GPA continua entre os maiores, e chegou aos R$ 20,6 bilhões. Mas especialistas afirmam que o desafio para todos está no custo de manter uma operação enorme e espalhada pelo país, especialmente quando o ambiente econômico muda. (saiba mais abaixo)
Mais lojas, mais custos
Durante anos, a expansão física foi vista como um dos principais caminhos para ganhar mercado no varejo alimentar.
🏪 A lógica era simples: redes maiores tinham mais capacidade de negociar com fornecedores, ampliar a presença regional e conquistar consumidores.
Especialistas ouvidos pelo g1, porém, afirmam que esse modelo ficou mais difícil de sustentar porque cada nova unidade também aumenta a estrutura necessária para operar.
Uma loja física exige gastos com aluguel, funcionários, logística, estoque, manutenção e tecnologia. Em um setor marcado por margens de lucro apertadas, qualquer aumento relevante de custos pode prejudicar o resultado das empresas.
“Em tese, aumenta o faturamento, mas também aumenta a estrutura necessária para manter esse crescimento”, explica Ulysses Reis, especialista em varejo da Strong Business School.
Segundo ele, a estratégia da loja física só funciona quando a operação também tem ganho de eficiência. “O varejo físico ainda funciona, mas não para qualquer formato. A expansão faz sentido quando existe alta conveniência, baixo custo operacional e giro rápido de estoque”, afirma Reis.
Além dos custos operacionais, a mudança no comportamento do consumidor reduziu a vantagem de simplesmente estar mais perto do cliente.
Com mais acesso a informações de preço, comparação de produtos e compras digitais, o consumidor passou a escolher menos pela localização e mais pela combinação entre preço, conveniência e experiência. (saiba mais abaixo)
Juros altos mudaram a conta da expansão
O ambiente econômico do país também não ajudou, principalmente com o fim de um período de juros mais baixos, quando as companhias conseguiam empréstimos mais baratos para financiar as novas unidades, aumento de estoques e de operações.
Em agosto de 2020, durante a pandemia de Covid-19, a Selic, a taxa básica de juros, chegou a 2%, menor nível da história. Mas, com a inflação mais alta após a reabertura econômica, o Banco Central (BC) precisou subir novamente os juros.
Em julho de 2025, a Selic chegou a 15% ao ano, o maior nível em quase duas décadas. Empresas que dependiam de empréstimos e financiamentos passaram a gastar mais para pagar dívidas e manter as operações, além de paralisarem investimentos.
“O custo do dinheiro é muito alto. Quando o endividamento fica caro, isso ‘espreme’ a operação”, explica o advogado especializado em reestruturação empresarial e sócio fundador do Felsberg Advogados, Thomas Felsberg.
Segundo ele, o risco aumenta quando a expansão da rede é financiada por empréstimos. Nesses casos, o crescimento das vendas, por si só, não garante que a empresa esteja em uma situação financeira melhor, já que os custos e as dívidas também aumentam.
💰 Uma empresa pode vender mais e, mesmo assim, enfrentar dificuldades se a estrutura criada para sustentar esse crescimento consumir uma parcela cada vez maior do resultado.
Diante desse cenário, muitas redes de supermercados precisaram mudar de estratégia. Algumas reduziram o ritmo de abertura de novas lojas. Outras fecharam unidades que davam pouco retorno, renegociaram dívidas ou passaram a investir em formatos menores e mais eficientes.
Consumidor mais cauteloso
Um dos principais fatores por trás da transformação do setor está no comportamento do consumidor. Com o orçamento mais apertado, os brasileiros passaram a buscar preços menores, comparar mais antes de comprar e trocar marcas tradicionais por alternativas mais baratas.
A proximidade da loja deixou de ser o único fator decisivo, uma vez que preço e conveniência ganharam ainda mais peso.
Essa mudança aparece em pesquisas de mercado. Segundo levantamento da NielsenIQ (NIQ) publicado em junho deste ano, diante da pressão sobre o orçamento:
66% dos consumidores afirmam buscar opções de menor preço;
45% dizem escolher produtos mais baratos independentemente da marca;
80% afirmam planejar as compras com antecedência.
Além disso, 47% dos consumidores brasileiros pretendiam comprar mais produtos de marca própria — itens vendidos com a marca da própria rede de supermercados, que costumam ter preços mais baixos do que os de fabricantes tradicionais.
Essa nova postura do consumidor favoreceu formatos como os atacarejos, que oferecem preços menores para compras em maior volume, e aumentou a importância das marcas próprias.
Segundo dados da Abras, o varejo alimentar faturou R$ 1,145 trilhão no ano passado. Desse total, os atacarejos responderam por 29% das vendas, com R$ 327,7 bilhões, ficando atrás apenas do autosserviço, que concentrou quase metade do faturamento do setor, com R$ 563,6 bilhões (49%).
🔎 O autosserviço representa o varejo alimentar tradicional, que inclui principalmente supermercados, hipermercados e outros formatos de lojas em que o cliente entra, pega os produtos nas gôndolas e passa pelo checkout.
Também acelerou a busca por canais digitais, que permitem comparar preços e pesquisar avaliações sem depender exclusivamente da loja física.
Em 2025, o marketplace movimentou R$ 7,3 bilhões o equivalente a cerca de 1% do faturamento total do varejo alimentar. Mesmo com uma participação ainda pequena, o canal já aparece como o quinto maior formato de vendas do setor, segundo a Abras.
Essa mudança aumentou a concorrência pelo consumidor. Além dos supermercados tradicionais, empresas como Mercado Livre, Amazon, iFood e 99 passaram a disputar esse espaço, oferecendo a compra de alimentos e bebidas por meio de aplicativos, lojas online e serviços de entrega rápida.
Casal criou uma rotina de planejamento, comparação de preços e troca de marcas para reduzir gastos no supermercado.
Reprodução/YouTube
A estratégia ganha ainda mais relevância em um cenário de endividamento elevado, orçamento mais apertado e maior preocupação das famílias com os gastos.
Com menos espaço no bolso, consumidores passaram a buscar alternativas que permitam comparar preços, encontrar promoções e economizar nas compras do dia a dia.
Para Matheus Matsumoto e Thalita Brito, ambos de 25 anos e criadores do canal “Casal Ponto Com”, no YouTube, a mudança no comportamento de consumo começou dentro de casa, após os dois enfrentarem dificuldades financeiras.
“Quando começamos, estávamos ‘quebrados’ financeiramente. Foi nesse momento que passamos a pensar em formas de economizar e mudamos completamente nossos hábitos. Percebemos, então, que muitas outras pessoas poderiam estar enfrentando uma situação parecida”, conta Thalita.
O primeiro passo foi repensar a rotina de compras no supermercado. O casal passou a planejar melhor as idas às lojas, pesquisar preços, montar listas antes das compras e conferir o que já tinha em casa para evitar gastos desnecessários.
Também adotou estratégias simples, como não ir ao supermercado com fome, para reduzir as compras por impulso.
Entre as mudanças, uma das principais foi abandonar a ideia de que produtos de determinadas marcas eram sempre a melhor escolha e passar a testar alternativas mais baratas, como as marcas próprias dos supermercados.
“Antes a gente tinha o costume de pensar: ‘sabão em pó tem que ser de determinada marca, detergente tem que ser daquela outra’. Aí começamos a nos questionar: nas condições em que estávamos, precisando economizar, será que fazia sentido continuar escolhendo sempre a marca mais cara?”, afirma Matheus.
A experiência virou conteúdo. O casal passou a gravar a própria jornada de reorganização financeira, mostrando quanto gastava nas compras do mês, quais estratégias usava para economizar e como mudou seus hábitos de consumo.
Nos vídeos, eles compartilham dicas de planejamento, controle de gastos e organização financeira, além de estratégias para reduzir despesas sem abrir mão da qualidade de vida. Com a mudança de hábitos, o casal conseguiu reorganizar as finanças e financiar o próprio apartamento.
“Para a gente, virou prazeroso viver desse jeito. As pessoas acham que é um sacrifício, mas não é. A gente gosta de aprender a fazer as coisas e percebeu que dá para ter qualidade de vida gastando menos”, afirma Thalita.
GPA busca reorganizar dívidas após anos de pressão financeira
O caso do Grupo Pão de Açúcar representa um dos exemplos mais conhecidos dos desafios enfrentados por redes que construíram uma grande presença física ao longo dos anos.
A companhia apresentou em março deste ano um plano de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas.
🔎 A medida permite que a empresa negocie diretamente com credores novas condições de pagamento sem interromper as operações. Diferentemente da recuperação judicial, o processo ocorre fora da Justiça e busca reorganizar o fluxo de caixa antes de uma situação mais grave.
A crise do GPA foi resultado de uma combinação de fatores. A empresa acumula prejuízos desde 2022, pressionada pela queda no consumo, pelo aumento dos juros — que encareceu suas dívidas —, pelos custos de reestruturação e pela saída de lojas com baixo desempenho.
No fim de 2025, o grupo informou ao mercado que havia dúvidas sobre sua capacidade de manter as operações no longo prazo, diante de um déficit de aproximadamente R$ 1,2 bilhão relacionado principalmente ao vencimento de dívidas previstas para 2026.
O cenário financeiro também aparece nos resultados. No ano passado, o GPA registrou prejuízo líquido de cerca de R$ 651 milhões e encerrou o ano com dívida líquida de R$ 2 bilhões e bruta de R$ 4 bilhões.
No segundo trimestre deste ano, entre abril e junho, a companhia teve prejuízo de R$ 204 milhões. Apesar disso, a operação do supermercado melhorou, mas o resultado final foi prejudicado principalmente pelos altos gastos com juros da dívida.
Nos últimos anos, a companhia passou por mudanças na gestão e na estrutura societária. O Grupo Coelho Diniz assumiu a posição de principal acionista, com 24,6% das ações, enquanto o grupo francês Casino, antigo controlador, manteve participação de 22,5%.
Segundo o GPA, o plano de recuperação busca melhorar o perfil da dívida, reduzir a pressão sobre o caixa e criar condições para a sustentabilidade financeira da companhia. Enquanto isso, as lojas seguem funcionando normalmente e que os pagamentos a fornecedores e parceiros estão em dia.
St Marche e Dia apostam em reestruturação
Unidade da St Marche em São Paulo
Reprodução/Facebook
O St Marche, rede de supermercados voltada principalmente ao público de alta renda, entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar uma dívida de R$ 574,3 milhões. A empresa também anunciou a venda da operação para o grupo chileno Cencosud, dono do Giga Atacado no Brasil.
A companhia atribuiu parte das dificuldades ao aumento do endividamento, aos juros elevados e à redução das linhas de crédito.
Outro caso é o da rede Dia, que entrou em recuperação judicial em março de 2024 após acumular mais de R$ 1 bilhão em dívidas. Na época, a empresa anunciou o fechamento de 343 lojas e três centros de distribuição no país.
A estratégia foi concentrar a operação em São Paulo, onde estavam as unidades consideradas mais rentáveis. A rede anunciou a saída da recuperação judicial em junho.
Para Ulysses Reis, esses movimentos indicam uma mudança estrutural no setor. Segundo ele, o varejo tende a abandonar o modelo baseado apenas em grandes lojas e expansão acelerada e deve apostar em formatos menores, mais próximos do consumidor e integrados ao ambiente digital.
Redes como o Oxxo seguem essa estratégia, com lojas compactas voltadas para compras rápidas e de conveniência.
“A expansão física hoje só é viável em alguns nichos. O modelo tradicional de abrir loja em todo lugar está em decadência”, afirma.
Segundo o especialista, as unidades físicas devem funcionar cada vez mais como pontos de conveniência, retirada de produtos e apoio logístico, enquanto estoques menores e maior eficiência ganham importância.
Grupo Mateus desacelera expansão após anos de crescimento
Unidade do Grupo Mateus em Araguaína, Tocantins (TO)
Reprodução/Redes Sociais
O Grupo Mateus é um dos exemplos de expansão acelerada no varejo alimentar brasileiro. Fundada em 1986, a companhia cresceu a partir do Maranhão e avançou por outros estados do Nordeste com supermercados, atacarejos e lojas de proximidade.
Entre 2017 e 2020, o número de lojas mais que dobrou, passando de 75 para 159 unidades, impulsionado principalmente pelo crescimento do formato atacarejo.
Nos últimos anos, porém, a companhia reduziu o ritmo de abertura de unidades e passou a priorizar a eficiência operacional.
No primeiro trimestre de 2026, inaugurou quatro lojas — três atacarejos e um supermercado — e encerrou o período com 228 unidades de varejo alimentar. Em 2025, também fechou 28 lojas de eletroeletrônicos e encerrou departamentos de eletrônicos em outras 20 unidades.
O lucro líquido caiu 21,8% no primeiro trimestre, para R$ 212,9 milhões. Embora a receita tenha crescido 13%, o avanço foi impulsionado principalmente pela aquisição do Novo Atacarejo e pela abertura de novas lojas. Nas unidades já existentes, as vendas recuaram 7,3%.
Segundo a companhia, o desempenho foi afetado pela queda dos preços dos alimentos, pelo maior endividamento das famílias e pela busca dos consumidores por produtos mais baratos.
“O varejo físico ainda funciona, mas não para qualquer formato. A expansão faz sentido quando existe alta conveniência, baixo custo operacional e giro rápido de estoque”, afirma Reis.
Fechar lojas ajuda, mas não resolve imediatamente
Uma das medidas adotadas por empresas em dificuldade é o fechamento de unidades consideradas pouco rentáveis. No entanto, a estratégia não gera alívio imediato no caixa.
Segundo Thomas Felsberg, a redução da estrutura envolve custos, principalmente relacionados a contratos e funcionários.
“Você fechar uma loja tem um custo muito grande por causa dos direitos trabalhistas. O alívio no caixa não é imediato; ele aparece no médio prazo, quando a empresa reduz despesas”, afirma.
Para o advogado, reconhecer o problema rapidamente é fundamental em processos de reestruturação.
“Quanto mais demora para reconhecer que a situação é ruim, mais difícil fica a recuperação. O ideal é agir enquanto ainda existe caixa e possibilidade de negociação”, diz.
Para os especialistas, a crise atual não representa o fim das lojas físicas, mas uma mudança no modelo de crescimento.
A expansão baseada apenas na abertura de novas unidades perdeu força. O varejo passa a buscar formatos menores, mais digitais e com maior eficiência operacional.
“O futuro não é simplesmente ter mais lojas. É integrar canais, reduzir custos e oferecer conveniência ao consumidor”, afirma Reis.
O g1 procurou o Grupo Mateus, o GPA e o St Marche, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
Em nota, o Grupo Dia afirmou que o varejo alimentar continua enfrentando um “cenário desafiador”.
Segundo a empresa, a combinação de juros elevados, pressão sobre o orçamento das famílias e um consumidor “cada vez mais criterioso” exige das companhias “gestão disciplinada, eficiência operacional e capacidade de adaptação constante”.
A cautela também aparece nos indicadores de confiança. Em junho, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), ficou praticamente estável em 88,7 pontos.
Segundo a instituição, apesar de as famílias avaliarem melhor sua situação financeira atual, elas seguem mais pessimistas em relação aos próximos meses, principalmente sobre a própria condição financeira e a intenção de comprar bens duráveis.
“Nosso principal desafio é manter o equilíbrio entre competitividade, eficiência operacional e rentabilidade, sem perder de vista a experiência do cliente. Por isso, seguimos trabalhando na simplificação de processos, no ganho contínuo de produtividade, na gestão rigorosa dos custos e na evolução permanente da nossa operação”, afirmou o grupo Dia.
Leia a nota na íntegra:
“O varejo alimentar continua operando em um cenário desafiador. A combinação de juros elevados, pressão sobre o orçamento das famílias e um consumidor cada vez mais criterioso exige das empresas uma gestão disciplinada, eficiência operacional e capacidade de adaptação constante.
Ao mesmo tempo, esse contexto cria oportunidades para as empresas que conseguem compreender rapidamente as mudanças no comportamento do consumidor e responder com uma proposta de valor consistente. Hoje, o cliente está mais racional, pesquisa mais, compara preços e faz escolhas cada vez mais conscientes, buscando equilibrar economia, qualidade e praticidade.
No Dia, esse movimento reforça nosso posicionamento como o Atacadinho de Bairro, oferecendo economia, praticidade e uma experiência de compra próxima da realidade de cada comunidade onde atuamos.
Nosso principal desafio é manter o equilíbrio entre competitividade, eficiência operacional e rentabilidade, sem perder de vista a experiência do cliente. Por isso, seguimos trabalhando na simplificação de processos, no ganho contínuo de produtividade, na gestão rigorosa dos custos e na evolução permanente da nossa operação.”

Câmeras com IA prometem prever crimes antes que aconteçam, mas acendem alerta sobre privacidade

Sistemas de câmeras usam inteligência artificial e prometem se antecipar a crimes
Câmeras de monitoramento estão entre as soluções mais comuns para tentar desencorajar a ação de criminosos. Agora, em vez de apenas gravar o que acontece no local, esses equipamentos também são usados para prever roubos e outras ocorrências.
🔎 O chamado policiamento preditivo tenta identificar situações fora do padrão antes que elas resultem em delitos. Com apoio de inteligência artificial, essa tecnologia tem sido aplicada em cenários cada vez mais complexos.
Imagens de câmeras, antes analisadas por pessoas, passam a ser examinadas por sistemas capazes de emitir alertas quando alguém, por exemplo, permanece parado por muito tempo no mesmo local, em um comportamento considerado suspeito.
Esse tipo de ferramenta atrai o interesse de empresas que buscam reforçar a segurança em suas instalações, mas preocupa especialistas, que alertam para a falta de regulação e para o risco de um estado de vigilância permanente sobre pessoas que não estão praticando crimes.
Como funciona
Sistemas de monitoramento usam IA para identificar movimentações suspeitas
Divulgação/NoLeak
“O sistema se conecta à câmera, transforma a imagem em metadados e reconhece padrões. Se o padrão da imagem for alterado, ele emite um alerta”, explica Nicolau Ramalho, fundador da NoLeak, empresa que desenvolveu um sistema de policiamento preditivo para segurança privada.
🔎 Nesse contexto, metadados são o resultado da conversão de elementos do vídeo em sequências numéricas. Os sistemas são treinados com imagens de situações consideradas normais e, então, conseguem identificar quando algo foge desse padrão. (saiba mais abaixo)
No caso da NoLeak, por exemplo, o sistema não toma nenhuma ação por conta própria ao identificar uma situação suspeita. Em vez disso, recomenda que as imagens sejam revisadas por responsáveis, como chefes de segurança da empresa.
“Os alertas vão para um sistema de gestão de vídeo, e o operador toma a atitude que achar pertinente, seja acionar diretamente uma força policial ou o time de segurança privada”, afirma.
A empresa tem mais de 5 mil câmeras conectadas e 100 clientes, incluindo indústrias e condomínios. Segundo a NoLeak, o sistema reduz o cansaço visual dos operadores e permite monitorar até 10 vezes mais câmeras com o mesmo número de funcionários.
Outras empresas do setor incluem a Actuate, a AxxonSoft e a Coram, que prometem transformar câmeras de segurança convencionais em sistemas capazes de prever possíveis crimes.
Mas especialistas apontam que esse uso da tecnologia pode restringir o direito de ir e vir dos cidadãos.
“Não estamos falando somente de criminosos que vão ser efetivamente alcançados, mas também de cidadãos comuns que, a caminho do trabalho, podem passar por um sistema que levou a um erro”, alerta Fernanda Rodrigues, coordenadora de pesquisas do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS-BH).
Para Fernanda, ferramentas desse tipo demonstram a expansão do uso da inteligência artificial na segurança, apesar das dúvidas sobre sua eficácia e seus impactos.
“O que temos visto é um crescimento na busca por ferramentas e tecnologias que vão servir como a solução de um problema da segurança pública, como se existisse uma bala de prata para resolver algo histórico da nossa sociedade.”
Sistemas de monitoramento com IA podem identificar funcionários sem equipamentos de proteção
Divulgação/NoLeak
Como é feita a ‘previsão’ de crimes
Os sistemas mais avançados de policiamento preditivo usam modelos de aprendizado de máquina treinados para reconhecer padrões em imagens.
Em vez de seguir apenas regras previamente programadas, eles analisam grandes volumes de vídeos para aprender quais comportamentos são considerados normais e, então, passam a emitir alertas quando detectam situações fora desse padrão.
Ao ser treinado com imagens de uma via pública, o sistema aprende a identificar onde fica a pista e por quais faixas os veículos devem circular. Se um carro passar pela contramão ou pela calçada, por exemplo, ele pode identificar essa mudança e indicar que algo está fora do padrão.
“O sistema precisa de cerca de duas semanas de análise desses metadados para formar uma base de dados suficiente para reconhecer o padrão da imagem”, afirma Ramalho, da NoLeak.
Para identificar possíveis crimes, a ferramenta analisa apenas movimentações suspeitas de pessoas, e não suas características físicas, explica. “Ele não identifica o rosto para analisar o comportamento. O que ele faz é transformar a imagem em metadados e reconhecer padrões.”
O fundador da empresa destacou que, além de reforçar a segurança patrimonial, a solução é capaz de verificar se há erros em uma linha de produção e se funcionários estão fora do posto de trabalho. Nesses casos, a ideia é evitar paradas não programadas e aumentar a eficiência das empresas.
Sistemas podem usar inteligência artificial para monitorar nível de ocupação em esteiras industriais
Divulgação/NoLeak
Alerta sobre falta de transparência
Para Fernanda, do IRIS-BH, avaliar a precisão de um sistema de policiamento preditivo e a ausência de vieses depende de estudos independentes sobre seu funcionamento.
“A opacidade é um dos principais problemas, principalmente por a gente não saber a eficiência dessas ferramentas. Na verdade, o que sabemos é que há estudos que as apontam como significativamente falhas”, diz.
Essas limitações já foram identificadas em soluções usadas em outros países. “Há muitos exemplos nos Estados Unidos de tecnologias que buscaram usar dados sobre os locais com maior índice de criminalidade, mas que acabaram potencializando a vigilância”, afirma.
Um dos casos mais conhecidos é o do PredPol, que reunia dados históricos, como data, hora e local de crimes, para orientar onde policiais deveriam fazer rondas nos momentos sem ocorrências.
O sistema levou policiais a patrulharem ainda mais bairros com renda familiar mais baixa e menor proporção de moradores brancos. Na prática, houve um aumento de abordagens policiais indevidas a moradores de conjuntos habitacionais de baixa renda, segundo reportagem do site The Markup.
O PredPol deixou de ser usado em 2020 pela polícia de Los Angeles, nos Estados Unidos, após pressão de grupos ativistas que criticaram a falta de eficiência do programa e a vigilância excessiva em comunidades negras e latinas.
Câmeras instaladas em pontos de maior aglomeração são utilizadas para reconhecimento facial e prender foragidos da justiça no Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
O que diz a lei no Brasil
O Brasil não tem uma lei específica para regulamentar sistemas de policiamento preditivo, embora a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabeleça regras para o tratamento de informações sensíveis, como a biometria facial.
Uma portaria publicada em 2025 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública estabeleceu que as polícias podem usar inteligência artificial, mas devem realizar revisões humanas em casos de possíveis riscos a direitos fundamentais.
Um projeto de lei em discussão no Congresso também pode classificar como de alto risco os sistemas de IA usados por policiais para analisar grandes volumes de dados e identificar padrões e perfis comportamentais.
O texto, aprovado no Senado e em discussão na Câmara, prevê que ferramentas classificadas como de alto risco tenham supervisão humana, passem por avaliação de impacto, garantam o direito à explicação às pessoas afetadas e adotem medidas para evitar discriminações.