Projeto de 'avião-arraia' promete tornar voos mais baratos; veja como ele será

Fabricante americana JetZero está projetando o avião Z4
Divulgação/JetZero
O projeto de uma nova aeronave tem atraído investidores com um visual que integra a área central às asas em um único componente. A promessa é de que a mudança ajudará companhias aéreas a economizarem combustível em voos.
Com um visual comparado ao de uma arraia, o avião Z4 está sendo desenvolvido pela americana JetZero. A empresa planeja realizar o primeiro voo de um protótipo em escala real em 2027 e iniciar o uso comercial no início da década de 2030.
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Baseada na Califórnia, a JetZero anunciou em julho um acordo de US$ 3 bilhões com o governo dos Estados Unidos para financiar a construção de sua fábrica na Carolina do Norte.
A fábrica servirá para acelerar a criação do avião que foge do padrão usado há décadas e pode representar a maior transformação no design de aeronaves desde o antigo Concorde, que deixou de operar em 2003.
Agora no g1
O Z4 está sendo projetado para transportar cerca de 250 passageiros distribuídos em seis seções dentro da cabine e oferecer um compartimento de bagagens para cada assento.
Em vez das janelas ao lado dos assentos, passageiros terão telas que oferecerão uma visão externa com um sistema de câmeras de alta definição. A iluminação natural virá de duas claraboias que ficarão perto das primeiras fileiras.
A JetZero afirma que o avião poderá fazer voos de até 5.000 milhas náuticas, cerca de 9.200 km – para se ter uma ideia, a distância de voos entre São Paulo e Madri, na Espanha, é de cerca de 8.400 km.
A fabricante diz que o estilo “arraia” aumentará a aerodinâmica do Z4 e fará com que a aeronave reduzirá o consumo de combustível em 30% a 50% em relação a modelos como o Boeing 787.
Avião Z4 terá telas no lugar das janelas ao lado dos assentos
Divulgação/JetZero
Segundo o Wall Street Journal, críticos do projeto apontam que passageiros próximos às asas poderão ter mais desconforto durante curvas da aeronave e que a falta de janelas poderá aumentar a sensação de enjoo.
Outra preocupação é a saída de passageiros, já que as portas serão posicionadas em locais diferentes do padrão, o que dificultaria a adaptação em aeroportos projetados para aviões convencionais.
Ainda de acordo com o jornal, a JetZero espera desenvolver o Z4 mais rapidamente ao usar componentes usados em outros aviões e que, por isso, já foram aprovados pela Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA), que regula o setor de aviação no país.
A fabricante tem acordos com companhias aéreas como a United Airlines, que planeja comprar 200 unidades do Z4. Empresas como a Delta e a Alaska Airlines também estão apoiando o projeto.
Z4, projeto de avião em desenvolvimento pela americana JetZero
Reprodução/JetZero
Z4, projeto de avião em desenvolvimento pela americana JetZero
Divulgação/JetZero

'Presenteísmo': por que tantos profissionais continuam trabalhando mesmo doentes?

‘Presenteísmo’: por que tantos profissionais continuam trabalhando mesmo doentes?
Trabalhar mesmo doente, ignorar sintomas e seguir a rotina apesar da recomendação médica é uma realidade para muitos brasileiros.
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André Cabral, de 45 anos, é um deles. Com 25 anos de atuação no setor de bares e restaurantes, enfrentou jornadas de até 15 horas por dia e colocou o trabalho acima da própria saúde, mantendo as atividades mesmo quando estava doente — comportamento que caracteriza o “presenteísmo”.
🤔 Mas o que é presenteísmo? É o fenômeno em que o trabalhador continua exercendo suas funções mesmo sem condições físicas ou mentais adequadas. Embora esteja presente no ambiente de trabalho — ou conectado durante o expediente —, não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
Durante sete anos, André atuou como gerente-geral de uma rede de restaurantes e açougues em São Paulo, em que era responsável por cerca de 100 funcionários. As jornadas frequentemente ultrapassavam 12 horas por dia e, em algumas ocasiões, chegavam a 36 horas seguidas.
“Eu passei praticamente seis anos trabalhando loucamente, no mínimo 12 a 15 horas por dia, muitas vezes sem folga”, relata. Mesmo quando adoecia, evitava se afastar porque acreditava que sua ausência comprometeria a operação.
Após ficar internado por 21 dias em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por causa da Covid-19, voltou ao trabalho apenas quatro dias após receber alta da UTI. Também adiou por anos uma cirurgia para tratar uma hérnia por receio de se afastar do trabalho.
A sobrecarga e os conflitos no ambiente corporativo acabaram afetando sua saúde mental. Com o tempo, recebeu o diagnóstico de burnout, passou a tomar antidepressivos, ansiolíticos e medicamentos para dormir e, mais tarde, desenvolveu hipertensão.
“Minha saúde ficou em segundo plano. Eu achava que, se parasse por 15 dias, a operação não iria funcionar”, diz.
Pouco tempo depois de sofrer um acidente de trabalho e torcer o pé durante o expediente, André foi demitido em uma chamada de vídeo. Atualmente, move uma ação na Justiça contra a antiga empregadora.
André Cabral, de 45 anos, colocou o trabalho acima da própria saúde, mantendo as atividades mesmo quando estava doente.
Arquivo Pessoal
Hoje, em um novo emprego, com jornada reduzida e menos responsabilidades, André afirma ter recuperado parte da qualidade de vida, embora ainda faça acompanhamento médico. A experiência mudou sua forma de enxergar o trabalho.
A gente se sacrifica demais por um CNPJ. No fim, nenhum CNPJ vale o nosso CPF. Trabalho a gente recupera. Saúde, muitas vezes, não.”
O presenteísmo nas empresas
Levantamentos recentes mostram que o presenteísmo tem se tornado uma preocupação crescente no mercado de trabalho brasileiro, impulsionado pela sobrecarga, pelo medo da demissão e pelo aumento dos problemas relacionados à saúde mental.
Uma pesquisa da Heach Recursos Humanos mostra que 70,3% dos entrevistados afirmaram já ter trabalhado mesmo acreditando que deveriam descansar por motivos de saúde. Entre eles, o principal motivo foi evitar sobrecarregar colegas de equipe (35,4%), seguido pela percepção de que o problema de saúde não era grave (27,9%).
O comportamento trouxe consequências: 39,7% disseram que o quadro de saúde piorou, enquanto 32% afirmaram que demoraram mais para se recuperar.
Além disso, apenas 26,4% consideram que suas empresas incentivam claramente o afastamento quando necessário, e 89,4% acreditam que trabalhar doente aumenta o risco de erros ou acidentes. (saiba mais abaixo)
Trabalhar doente é realidade para a maioria dos brasileiros
Arte g1
Os números vão ao encontro dos resultados do Censo de Saúde Mental 2025, da Vittude. O estudo identificou um índice de presenteísmo de 32% entre os trabalhadores avaliados.
Pesquisas da Pluxee também apontam a sobrecarga como parte da rotina de muitos trabalhadores. Apenas 40% conseguem fazer pausas regulares durante o expediente, enquanto outros 40% interrompem as atividades apenas quando encontram tempo.
Os 20% restantes afirmam não conseguir fazer pausas ao longo da jornada. O levantamento mostra ainda que 28% já mudaram de emprego por questões relacionadas à saúde mental.
Para a diretora de Recursos Humanos (CHRO) da Flash, Isadora Gabriel, o presenteísmo é um dos desafios mais silenciosos enfrentados pelas organizações porque nem sempre é percebido.
“O profissional está presente, participa das reuniões e cumpre sua jornada. Mas estar no escritório ou online não significa estar em condições de entregar o melhor desempenho”, explica a especialista.
Segundo a executiva, à medida que o desengajamento aumenta, cresce também a perda de produtividade.
Quando colaboradores continuam trabalhando mesmo emocionalmente esgotados, aumentam os riscos de erros, queda de eficiência e agravamento do quadro de saúde.”
Na avaliação de Isadora, investir em saúde mental e preparar lideranças para identificar sinais de esgotamento são estratégias para reduzir perdas e construir ambientes de trabalho mais saudáveis.
Para Elcio Paulo Teixeira, CEO da Heach Recursos Humanos, os resultados das pesquisas reforçam a necessidade de uma mudança cultural para que os trabalhadores possam cuidar da própria saúde sem receio de prejudicar a carreira ou a imagem profissional.
Os males invisíveis do trabalho remoto para a saúde mental
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Impactos de trabalhar doente
Para o médico do trabalho Ricardo Pacheco, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Segurança e Saúde no Trabalho (Abresst), o presenteísmo é um fenômeno silencioso e mais difícil de identificar do que o absenteísmo, que corresponde à ausência do trabalhador.
“É o corpo presente e a mente ausente. A pessoa está no posto de trabalho, mas com a capacidade de entrega comprometida”, diz o especialista.
Na avaliação de Pacheco, o presenteísmo aumenta o risco de acidentes. Segundo o médico, trabalhadores com febre, dores intensas ou sob efeito de medicamentos podem apresentar perda de reflexos, dificuldade de concentração e maior probabilidade de cometer erros, especialmente em atividades como transporte, indústria e agronegócio.
Um profissional experiente que começa a esquecer procedimentos básicos ou comete erros repetidos pode estar sofrendo com exaustão física ou mental.”
Os impactos também são sentidos pelas empresas. Pacheco afirma que o presenteísmo pode gerar custos superiores aos do absenteísmo por provocar retrabalho, acidentes, queda de produtividade e até a disseminação de doenças entre colegas.
A pandemia de Covid agravou o problema, diz o especialista. O trabalho remoto impulsionou o chamado “presenteísmo digital”, quando profissionais continuam trabalhando mesmo doentes em frente ao computador.
Ao mesmo tempo, setores como indústria, logística e agronegócio enfrentam uma pressão crescente por produtividade, o que dificulta o afastamento para cuidados médicos.
Assédio moral no trabalho pode causar consequências na saúde mental e física da vítima
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O que diz a legislação
Para a advogada trabalhista Elisa Alonso, o presenteísmo pode trazer consequências tanto para o trabalhador quanto para a empresa.
Segundo ela, quando o empregador recebe um atestado médico, não deve permitir que o funcionário continue trabalhando, já que a finalidade do afastamento é justamente garantir sua recuperação.
Autorizar ou exigir a continuidade das atividades pode agravar o quadro de saúde e gerar consequências trabalhistas para o empregador, especialmente quando houver prejuízos ao trabalhador.”
A especialista explica que a aptidão para o retorno ao trabalho é uma decisão médica e que o empregador não pode determinar que o funcionário volte antes do prazo indicado pelo profissional de saúde.
Ela acrescenta que contatos pontuais sobre questões administrativas podem ocorrer durante a licença, mas o trabalhador não deve ser cobrado para executar tarefas, cumprir metas ou participar normalmente das atividades da empresa durante o período de afastamento.
Segundo Elisa, trabalhar durante a licença médica pode retardar a recuperação, agravar a doença e aumentar o risco de enfermidades ocupacionais, além de comprometer a produtividade e elevar as chances de erros e acidentes.
A advogada orienta que trabalhadores pressionados a continuar trabalhando mesmo doentes comuniquem formalmente o afastamento ao empregador, guardem mensagens, e-mails e outros documentos que comprovem eventuais cobranças e, se necessário, busquem orientação jurídica.
Segundo a especialista, é possível recorrer à Justiça do Trabalho em casos de:
Exigência de trabalho durante o afastamento médico;
Pressão para que o empregado trabalhe mesmo sem condições de saúde;
Descontos indevidos por faltas justificadas;
Punições pelo exercício de direitos trabalhistas;
Assédio relacionado à condição de saúde;
Demissão discriminatória em razão da doença ou do afastamento;
Prejuízos decorrentes de condutas ilícitas do empregador.
Antes de recorrer à Justiça, a recomendação é reunir provas que demonstrem os fatos e que a empresa tinha conhecimento da condição de saúde do trabalhador.
“Caso o trabalhador sofra ameaças, constrangimentos, pressão para trabalhar durante a licença ou uma dispensa possivelmente discriminatória, a situação poderá ser avaliada pela Justiça do Trabalho”, completa a especialista.
Ela também destaca que transtornos como ansiedade, depressão e síndrome de burnout merecem a mesma atenção que doenças físicas e podem justificar afastamentos quando houver indicação médica.
Para a advogada, combater o presenteísmo exige uma mudança cultural nas empresas, com ambientes de trabalho mais saudáveis, respeito aos períodos de recuperação e compreensão de que o afastamento médico faz parte do tratamento e não deve ser encarado como falta de comprometimento.
NR-1: veja o que muda com a nova regra sobre saúde mental no trabalho

Álcool, cigarro e home office: caso de juiz afastado expõe limites da postura no trabalho remoto

Juiz vira garrafa de vinho durante sessão de julgamento em MG; TJMG investiga caso
Bastaram alguns segundos de uma sessão virtual para desencadear uma investigação disciplinar no Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
O juiz Milton Lívio Lemos Salles apareceu diante da câmera bebendo vinho e fumando durante um julgamento. Um dia depois, foi afastado pela Corregedoria-Geral de Justiça, que também abriu uma sindicância para apurar os fatos. Os processos sob sua relatoria serão redistribuídos.
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O episódio chamou atenção pela conduta do magistrado. Mas outro detalhe também passou a fazer parte das discussões nas redes sociais: ele participava de uma sessão virtual fora do tribunal.
E é justamente aí que surgem dúvidas cada vez mais comum com a expansão do trabalho remoto: quando o expediente acontece dentro da própria residência, as regras continuam as mesmas? O home office dá mais liberdade do que o trabalho presencial?
Afinal, uma pessoa pode beber álcool durante uma reunião porque está em casa? O que aparece em uma videoconferência pode ser usado como prova em uma investigação ou processo disciplinar? E as consequências mudam quando quem está do outro lado da tela é um trabalhador contratado pela CLT ou um magistrado responsável por julgar processos?
Especialistas em Direito do Trabalho e em Direito da Magistratura ouvidos pelo g1 explicam quais regras se aplicam a cada caso e quais condutas podem gerar consequências profissionais durante o trabalho remoto.
Veja abaixo:
O que dizem as regras para magistrados e trabalhadores CLT?
E quando o trabalho é remoto?
CLT estabelece punições ou pode dar direta à justa causa?
Há punições ou consequências estabelecidas para magistrados?
Empresas podem estabelecer regras próprias?
Juiz foi afastado após beber e fumar em sessão virtual
g1
O que dizem as regras para magistrados e trabalhadores CLT?
Para trabalhadores contratados pela CLT, o consumo de álcool durante a jornada pode ter consequências disciplinares, mas a resposta depende das circunstâncias de cada caso.
A advogada trabalhista Gabriela Dell Agnolo de Carvalho explica que o empregador pode considerar fatores como o impacto da conduta sobre o trabalho, as regras internas da empresa e eventuais prejuízos causados pela situação.
O contexto também é importante para diferenciar o simples consumo de álcool de situações de embriaguez ou de comprometimento da capacidade de trabalho.
🔎 Há ainda uma diferença importante quando existe dependência alcoólica. O Tribunal Superior do Trabalho (TST) reconhece que o alcoolismo pode ser tratado como doença, e não simplesmente como falta disciplinar.
O cigarro é tratado de forma diferente. Apesar de poder contrariar regras internas das empresas ou ser considerado inadequado em determinadas situações profissionais, o consumo de cigarro, isoladamente, costuma resultar em medidas mais brandas, como advertências.
Segundo a advogada, isso ocorre porque o álcool pode afetar diretamente a capacidade de trabalho, enquanto fumar costuma ser tratado como descumprimento das regras da empresa.
No caso dos magistrados, a discussão vai além do simples ato de beber ou fumar. A especialista em direito da magistratura Daniela Poli Vlavianos explica que a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman) estabelece o dever de o juiz manter “conduta irrepreensível na vida pública e particular”.
O Código de Ética da Magistratura também prevê deveres ligados à dignidade, ao decoro, à prudência e à integridade da função jurisdicional.
Por isso, segundo ela, o consumo de bebida alcoólica durante um julgamento pode ser visto de forma diferente do consumo na vida privada, já que ocorre enquanto o magistrado exerce uma função pública e participa de decisões que afetam os direitos das pessoas.
E quando o trabalho é remoto?
A resposta dos especialistas à ideia de que o trabalho remoto dá mais liberdade durante o expediente é praticamente unânime: não.
No caso dos CLTs, a residência passa a funcionar como local de trabalho durante o expediente. Por isso, as regras de comportamento continuam valendo normalmente.
“A pessoa está trabalhando. O fato de estar em casa não muda essa condição. É perfeitamente possível o estabelecimento de regras de comportamento, mesmo para o empregado que está em formato de trabalho remoto”, afirma Gabriela.
Isso significa que o trabalhador continua sujeito às políticas internas da empresa mesmo quando está em casa.
Para os magistrados, a lógica é semelhante. Segundo os especialistas, uma das principais confusões geradas pelo trabalho remoto é acreditar que estar em casa transforma uma atividade profissional em uma atividade privada.
No caso dos juízes, o entendimento é justamente o contrário. “O ambiente físico pode ser particular, mas o espaço jurídico é público e institucional”, afirma Vlavianos.
O CNJ possui normas que determinam que audiências e julgamentos realizados por videoconferência sigam regras semelhantes às dos atos presenciais. As resoluções também exigem vestimenta adequada para magistrados durante atividades oficiais remotas.
O também especialista em direito da magistratura Thiago Massicano lembra que uma videoconferência pode servir como elemento de prova.
No ambiente corporativo, gravações e registros de reuniões podem embasar procedimentos disciplinares. No Judiciário, a própria gravação da sessão pode ser analisada em uma apuração administrativa.
“Há ainda um agravante prático: a sessão virtual é gravada e transmitida, de modo que a conduta se torna documentalmente incontroversa e alcança projeção pública imediata, ampliando o dano à imagem institucional do Judiciário”.
” O magistrado que julga de casa não transforma o ato estatal em ambiente doméstico: ele leva a solenidade do Estado para dentro de sua residência. As normas específicas sobre videoconferência, tanto do CNJ quanto do TJMG, foram editadas justamente para impedir a informalização do rito, exigindo vestimenta adequada, ambiente neutro e dedicação exclusiva ao ato”, reforça Massicano.
CLT estabelece punições ou pode dar direta à justa causa?
Dependendo das circunstâncias, sim. Gabriela explica que a comprovação de que um empregado consumiu bebida alcoólica durante o trabalho pode justificar até mesmo a demissão por justa causa, desde que não se trate de um quadro de alcoolismo reconhecido como doença.
A exposição diante de clientes ou parceiros comerciais e eventuais prejuízos ao empregador podem agravar o cenário.
Com o cigarro, a avaliação tende a ser diferente. A especialista afirma que fumar ou usar vape durante uma videoconferência pode gerar advertências e outras medidas disciplinares, mas normalmente não seria suficiente, por si só, para justificar uma demissão por justa causa.
Ela ressalta, porém, que cada situação depende do contexto e das regras internas da empresa.
Juiz Milton Lívio Lemos Salles apareceu em sessão do TJMG bebendo vinho e fumando
Reprodução
Há punições ou consequências estabelecidas para magistrados?
Sim. A Loman e as normas disciplinares do CNJ preveem desde advertência até punições mais severas, como remoção compulsória, disponibilidade e outras sanções previstas na legislação da magistratura.
A definição de uma eventual punição depende de fatores como a gravidade da conduta, a existência de reincidência, o eventual comprometimento da atividade jurisdicional, os prejuízos causados e os reflexos para a imagem do Poder Judiciário.
Por isso, especialistas ressaltam que não é possível antecipar o desfecho do caso envolvendo o magistrado mineiro apenas com base nas imagens que se tornaram públicas.
Vlavianos e Massicano também lembram que há precedentes de responsabilização disciplinar de magistrados por comportamentos considerados incompatíveis com os deveres do cargo e com a dignidade da função, embora não tenham identificado um caso idêntico ao episódio investigado pelo TJMG.
Antes de qualquer sanção, será preciso apurar circunstâncias como o contexto da gravação, eventual comprometimento funcional, antecedentes e outros elementos do caso.
“A responsabilização depende da apuração do contexto integral da gravação. Será necessário confirmar o conteúdo da garrafa, verificar se houve consumo de bebida, se o magistrado apresentava sinais de alteração de sua capacidade e se a conduta interferiu na condução ou na imagem de regularidade do julgamento. A gravação constitui um elemento relevante, mas a punição exige contraditório, ampla defesa e decisão fundamentada”, afirma Vlavianos.
Empresas podem estabelecer regras próprias?
Especialistas em direito trabalhista explicam que as empresas têm autonomia para criar políticas internas de conduta, inclusive para trabalhadores que exercem suas atividades remotamente.
🔎 Essas normas podem tratar de comportamento em reuniões, uso da imagem corporativa, participação em videoconferências, consumo de álcool durante o expediente e outras situações relacionadas ao desempenho profissional.
Na prática, o fato de o empregado estar em casa não impede a aplicação dessas regras. Durante a jornada, ele continua representando a empresa e exercendo suas funções normalmente.
Juiz vira garrafa de vinho durante sessão de julgamento em MG

Defesa do Consumidor do ES propõe à Fazenda que bets mostrem risco de perda para apostadores

Órgãos de defesa do consumidor do Espírito Santo querem que bets sejam obrigadas a informar risco de perda para apostadores.
Arquivo/Agência Brasil
Um grupo de trabalho formado por representantes de diferentes órgãos de defesa do consumidor do Espírito Santo apresentou, na última semana, uma proposta inédita ao Ministério da Fazenda que prevê que sites e aplicativos de bets sejam obrigados a mostrar o risco de perda para apostadores antes da realização da aposta.
Em sua justificativa, o Centro Integrado de Defesa do Consumidor do Espírito Santo (CINDEC) afirmou que sites e aplicativos de apostas praticam uma publicidade enganosa por omissão — quando um anúncio deixa de informar um dado essencial sobre um produto ou serviço.
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“Tudo aquilo que é imprescindível para a escolha do consumidor tem que ser informado. Se ele [fornecedor] omite um dado indispensável para a decisão, aquela publicidade é enganosa por omissão”, explicou a promotora de Justiça Sandra Lengruber da Silva, coordenadora do Núcleo de Atendimento ao Superendividado do Ministério Público do Espírito Santo.
Segundo ela, a obrigatoriedade de apresentar informações completas sobre serviços e produtos já é prevista em lei, e inclui casas de apostas. No entanto, bets não têm cumprido a regra, indicando a necessidade de uma medida direta sobre o tema.
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“A gente entende que isso já é obrigatório pelo próprio Código de Defesa do Consumidor, independentemente da atividade econômica. Só que, no caso das bets, as ofertas não trazem o risco da aposta. Acreditamos que uma normativa mais específica iria fortalecer essa obrigação”, completou.
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Cálculo padrão e mesmo destaque que ‘odds’
Para garantir que os apostadores tenham acesso a informações completas antes de finalizar a aposta e consumir o produto oferecido, a proposta do CINDEC sugere que as plataformas de bets realizem um contrabalanço de informações a partir de três pontos:
Fórmula matemática obrigatória: O ofício sugere a criação de uma fórmula padrão regulamentada pelo governo para o cálculo da probabilidade de perda. Esse cálculo deve ser feito a partir das próprias cotas (odds) oferecidas pela plataforma, garantindo que o apostador veja o percentual real de risco antes de confirmar qualquer lance.
O mesmo peso visual do prêmio: A regra exige o chamado “contrabalanço informacional”. Na prática, as bets seriam obrigadas a exibir a chance de perda com idêntico destaque espacial e gráfico das odds de ganho. Ou seja: a informação sobre o prejuízo provável deve ter o mesmo tamanho de letra, cor e visibilidade que o valor do prêmio prometido.
Alerta de confirmação acima de 80%: Para apostas onde a probabilidade de perda calculada pela fórmula padrão seja superior a 80%, a plataforma deve integrar uma mensagem de confirmação específica ao fluxo da aposta. Esse alerta deve avisar explicitamente sobre o alto risco financeiro antes que o usuário finalize a operação.
Como exemplo, o documento analisou uma aposta de odds de 17 — que promete pagar 17 vezes o valor apostado. No entanto, segundo o grupo de trabalho, o anúncio esconde o alto risco financeiro, uma vez que a probabilidade de perda é de aproximadamente 94%.
“O consumidor que aposta R$ 10 pensa: ‘Eu vou receber R$ 170. Nossa, então é um super negócio, é maravilhoso porque eu vou receber 17 vezes mais’. Só que essa mesma oferta não traz o risco. E quando buscamos uma análise técnica, ele é, na verdade, altíssimo. Nesse caso que a gente analisou , ele teria 94% de chance de perder. Isso é muito”, explicou Sandra Lengruber.
Sede do Ministério Público do Espírito Santo (MPES)
TV Gazeta
Próximos passos
O documento foi assinado por representantes do Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), do Procon-ES, da Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor (Decon), da Defensoria Pública do Estado e da Procuradoria-Geral do Estado.
Como não existe um prazo legal para que o Ministério da Fazenda responda a sugestão, o grupo trabalha para que a proposta seja analisada e, futuramente, incorporada à regulamentação nacional através de um ato normativo da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF).
O que disse o Ministério da Fazenda
Procurado pelo g1, o Ministério da Fazenda confirmou que a proposta foi recebida pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).
Por nota, a pasta informou que a Secretaria possui uma agenda voltada ao “aperfeiçoamento contínuo da regulamentação do setor de apostas de quota fixa” e que avalia permanentemente a necessidade de aperfeiçoamentos. Veja a nota na íntegra:
“A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) informa que recebeu a proposta encaminhada pelo Centro Integrado de Defesa do Consumidor do Espírito Santo (Cindec) para análise no âmbito das competências da Secretaria, juntamente com as demais manifestações eventualmente apresentadas sobre o tema.
A legislação brasileira estabelece que a exploração de apostas de quota fixa deve observar medidas de proteção aos apostadores e de promoção do jogo responsável. Nos termos da Lei nº 14.790/2023, os agentes operadores devem adotar sistemas e processos para monitorar a atividade dos apostadores desde a abertura da conta, com o objetivo de identificar sinais de dano ou de potencial dano associado ao jogo. Esse monitoramento deve considerar os valores gastos, os padrões de gastos, o tempo dedicado às apostas, os comportamentos observados, as interações do apostador com a plataforma, entre outros aspectos. A partir desses indicadores, os operadores devem ser capazes de identificar comportamentos potencialmente problemáticos e adotar medidas de prevenção e mitigação de riscos.
Já a Portaria SPA/MF nº 1.231/2024 detalha essas obrigações e estabelece uma série de mecanismos de proteção ao apostador e à promoção do jogo responsável, de forma a garantir que as práticas de jogos e apostas sejam realizadas de forma segura, saudável e consciente, prevenindo vícios e protegendo os consumidores apostadores, especialmente os mais vulneráveis.
Entre eles, estão o monitoramento do comportamento de jogo, a realização de autotestes, a disponibilização de ferramentas de autolimitação e os mecanismos de suspensão e autoexclusão da conta.
O apostador deve estabelecer limites para o tempo e os valores destinados às apostas, e podem suspender sua conta ou optar pela autoexclusão, inclusive por prazo indeterminado. Essas ferramentas foram estruturadas para ampliar a capacidade de o próprio apostador controlar sua atividade.
Ao mesmo tempo, os agentes operadores têm o dever de monitorar continuamente o comportamento de seus usuários e, diante da identificação de sinais de comportamento potencialmente problemático, adotar as medidas previstas na regulamentação, inclusive alertando o apostador e oferecendo mecanismos de alertas, suspensão ou de exclusão.
A Secretaria possui uma Agenda Regulatória voltada ao aperfeiçoamento contínuo da regulamentação do setor de apostas de quota fixa. A SPA realiza o monitoramento contínuo da implementação dessas normas e avalia permanentemente a necessidade de aperfeiçoamentos regulatórios, com base em critérios técnicos, evidências e nas contribuições recebidas”.
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Transpetro publica edital de concurso com 4.171 vagas e salários de até R$ 15 mil; veja como participar

Terminal da Transpetro em Brasília, no DF.
TV Globo
A Transpetro, empresa de transporte da Petrobras, publicou nesta quarta-feira (12) os editais de seus novos processos seletivos públicos. Ao todo, são oferecidas 281 vagas imediatas, além de 3.890 para cadastro de reserva, totalizando 4.171 oportunidades.
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Os salários iniciais podem chegar a R$ 15.034,81, além de benefícios como previdência complementar, benefício educacional e plano de saúde.
Ao todo, foram publicados quatro editais. Para o quadro de terra, há um processo seletivo para cargos de nível médio e outro para nível superior. Já para o quadro de mar, um edital é destinado a oficiais e outro a suboficiais e guarnição.
As vagas do quadro de mar são destinadas aos cargos de auxiliar de saúde, condutor bombeador, condutor mecânico, cozinheiro, eletricista, moço de convés, moço de máquinas, taifeiro, segundo oficial de máquinas e segundo oficial de náutica.
Também há oportunidades para Profissional Transpetro de Nível Médio – Júnior e Profissional Transpetro de Nível Superior – Júnior, distribuídas em diferentes ênfases. Entre elas está Advocacia, que terá uma etapa específica de prova discursiva.
Veja abaixo os editais:
➡️ EDITAL 1 – Mar (auxiliar de saúde, condutor bombeador, condutor mecânico, cozinheiro, eletricista, moço de convés, moço de máquinas e taifeiro).
➡️ EDITAL 2 – Mar (segundo oficial de máquinas e segundo oficial de náutica)
➡️ EDITAL 3 – Terra (nível médio)
➡️ EDITAL 4 – Terra (nível superior)
Agora no g1
As inscrições começam às 10h desta quarta-feira (12) e seguem até as 23h59 de 14 de setembro. As candidaturas devem ser feitas exclusivamente pela internet, no site da Fundação Cesgranrio, banca organizadora dos processos seletivos.
A taxa de inscrição varia de acordo com o cargo:
R$ 81,50 — nível médio/técnico: auxiliar de saúde, condutor bombeador, condutor mecânico, cozinheiro, eletricista, moço de convés, moço de máquinas, taifeiro e Profissional Transpetro de Nível Médio – Júnior;
R$ 117 — nível superior: segundo oficial de máquinas, segundo oficial de náutica e Profissional Transpetro de Nível Superior – Júnior.
Candidatos inscritos no CadÚnico e doadores de medula óssea cadastrados em entidades reconhecidas pelo Ministério da Saúde poderam solicitar a isenção da taxa, conforme os prazos estabelecidos nos editais.
Como será o processo seletivo?
As etapas de seleção variam de acordo com o quadro — Mar ou Terra — e o nível de escolaridade dos cargos.
Os candidatos às oportunidades do quadro de mar passarão por provas objetivas, exame de aptidão física e, quando aplicável, procedimentos de confirmação das condições declaradas para concorrer às vagas reservadas.
As provas objetivas terão questões de conhecimentos específicos e gerais. O conteúdo varia conforme o cargo e pode incluir disciplinas como Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Inglês Técnico Marítimo.
Já o exame de aptidão física, exclusivo para o Quadro de Mar, será composto por dois testes:
Corrida de 12 minutos: distância mínima de 1.800 metros para homens e 1.500 metros para mulheres;
Natação: percurso de 25 metros, em estilo livre e sem limite de tempo.
Para os cargos do quadro de terra, não haverá exame de aptidão física. A seleção será feita por meio de provas objetivas e, para os candidatos que concorrerem às vagas reservadas, por uma etapa de confirmação das condições declaradas.
No nível médio, as provas terão questões de conhecimentos específicos, Língua Portuguesa e Matemática. Já no nível superior, serão cobrados conhecimentos específicos, Língua Portuguesa e Língua Inglesa.
A única diferença é para a ênfase de Advocacia: além das provas objetivas, os candidatos também farão uma prova discursiva, de caráter eliminatório e classificatório.
Para quem concorrer às vagas reservadas, a seleção prevê avaliação de pessoas com deficiência (PcD), confirmação complementar da autodeclaração de candidatos negros e verificação documental de indígenas e quilombolas.
As provas objetivas estão previstas para 29 de novembro e serão aplicadas em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal.
Os candidatos poderão escolher o local de realização das provas entre as opções disponibilizadas pela banca, independentemente do polo de trabalho para o qual estiverem concorrendo.
Após a aprovação, os candidatos convocados ainda precisarão comprovar os requisitos exigidos para o cargo e passar por exames médicos admissionais. Para os profissionais do quadro de mar, também está previsto teste toxicológico para detecção de substâncias psicoativas.
Onde serão as vagas?
No quadro de terra, as oportunidades serão distribuídas entre os polos Norte/Nordeste, Rio de Janeiro, São Paulo e Sul. Para o quadro de mar, as vagas terão abrangência nacional.
A distribuição das 281 oportunidades por cargo e polo, assim como os requisitos, etapas de seleção, conteúdo das provas e cronograma, estão detalhados nos editais.
Segundo a Transpetro, os processos seletivos terão validade de um ano e meio, com possibilidade de prorrogação pelo mesmo período.
Editais com paridade de gênero
Os processos seletivos também terão um mecanismo de paridade de gênero na segunda fase. Segundo a companhia, a iniciativa busca reduzir a sub-representação feminina nas carreiras contempladas pelos editais.
Atualmente, cerca de 15% dos empregados da Transpetro são mulheres, enquanto os homens representam aproximadamente 85% do quadro.
A medida será aplicada apenas na composição da segunda etapa. Para chegar a essa fase, todos os candidatos precisarão atingir a nota mínima exigida na primeira etapa. A classificação final continuará considerando o desempenho dos participantes.
Cotas definidas antes dos editais
Antes da publicação dos quatro editais, foi realizado um sorteio para definir os cargos, áreas e polos aos quais serão destinadas determinadas vagas reservadas a grupos étnico-raciais e pessoas com deficiência (PcD).
De acordo com a Transpetro, 30% das vagas e do cadastro de reserva serão destinados a grupos étnico-raciais, distribuídos da seguinte forma:
25% para pessoas pretas e pardas;
3% para indígenas;
2% para quilombolas.
Outros 10% são reservados a pessoas com deficiência. Os editais estabelecem, inclusive, a aplicação da reserva de 10% também na formação do cadastro de reserva.
O sorteio foi realizado nos casos em que a quantidade de vagas por cargo, ênfase ou polo não permitia alcançar automaticamente os percentuais de reserva previstos na legislação.
O procedimento não selecionou candidatos nem interfere na classificação nas provas. Ele serviu para definir a alocação das vagas reservadas entre os cargos, ênfases e polos.
Aprovado em 1º lugar no CNU 2025 tem posse negada por divergência sobre a formação

Como estoques recordes e avanço do agro brasileiro podem reduzir impacto do 'super El Niño' no mundo

Com fenômeno El Niño, tempo seco e quente amplia alerta para doenças de pele
O sistema alimentar global está mais preparado para enfrentar os efeitos de um forte episódio de El Niño do que em eventos semelhantes no passado.
Estoques de produtos agrícolas próximos de níveis recordes, avanços tecnológicos e o crescimento de países como Brasil e Rússia entre os grandes exportadores aumentaram a capacidade de compensar eventuais perdas de produção.
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➡️ Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e análises de especialistas ouvidos pela agência de notícias Reuters, a produção agrícola mundial vem crescendo acima do consumo e do aumento da população desde a década de 1980.
O avanço foi impulsionado por variedades de plantas mais produtivas, maior uso de fertilizantes, melhorias na irrigação e técnicas mais eficientes de proteção das lavouras. Esses fatores elevaram a produtividade de culturas como arroz, trigo, milho e soja.
“Mesmo durante condições de seca, melhor manejo da irrigação e ciência das culturas significam que ainda podemos produzir rendimentos comercializáveis”, disse Andrew Whitelaw, da consultoria agrícola australiana Episode 3.
Segundo ele, ainda há riscos para a oferta e os preços dos alimentos, mas a preparação atual tende a tornar as consequências menos severas do que em décadas anteriores.
Os graves efeitos do ‘Super El Niño’ na América Latina previstos pelos cientistas
Super El Niño deve pressionar inflação dos alimentos em 2027; feijão e arroz lideram alta
El Niño ganha força e ameaça lavouras do planeta
O fenômeno climático já começa a afetar o plantio em partes da Ásia, incluindo a Índia e países do Sudeste Asiático, além da Austrália.
A falta de umidade ocorre ao mesmo tempo em que a escassez de fertilizantes e diesel provocada pela guerra no Irã aumenta os riscos para a produção agrícola mundial.
A Índia enfrenta uma temporada de monções abaixo do esperado. Na Austrália, há preocupação com o clima mais seco nas principais regiões produtoras de trigo. Indonésia e Tailândia também registram impactos da falta de umidade.
A situação pode se agravar nos próximos meses. Segundo Chris Hyde, meteorologista da empresa americana SkyFi, o El Niño, que já é considerado forte, deve ganhar intensidade no quarto trimestre e no início de 2027.
O fenômeno ocorre quando há um aumento anormal da temperatura da superfície do oceano no Pacífico central e oriental. Em geral, provoca condições mais secas em grande parte da Ásia e aumenta as chuvas em regiões das Américas.
Episódios severos registrados entre 1997 e 1998 e entre 2015 e 2016 reduziram a produção de culturas importantes e contribuíram para a escassez de alimentos, a inflação e a perda de atividade econômica em diferentes países.
Estoques ajudam a criar uma reserva contra perdas
Desta vez, o cenário da oferta é diferente. Estoques elevados de grãos, sementes mais resistentes à seca, previsões meteorológicas mais precisas, agricultura de precisão e sistemas de irrigação mais eficientes formam uma espécie de colchão contra perdas provocadas pelo clima.
Na Índia, por exemplo, a semeadura das principais culturas está próxima do ritmo normal após um atraso no início da temporada. As chuvas de agosto e setembro, porém, serão importantes para o desenvolvimento das lavouras.
Lavoura de café no Sul de Minas
AME/Divulgação
O país também possui grandes reservas de arroz. Segundo a Reuters, os estoques indianos equivalem a mais de um ano das exportações globais do cereal.
A China concentra quase metade dos estoques mundiais de trigo. Essa reserva pode ajudar a reduzir a necessidade de importações caso uma eventual seca prejudique a produção da Austrália, uma das principais fornecedoras do mercado internacional.
Os estoques globais de óleo de palma também estão próximos de níveis recordes. O produto responde por cerca de 60% das exportações mundiais de óleos comestíveis.
Brasil ganhou peso na oferta mundial
Além dos estoques, outra mudança importante nas últimas décadas foi o crescimento de novos grandes exportadores agrícolas.
O Brasil é um dos principais exemplos. O país se tornou o maior fornecedor mundial de soja, e suas exportações cresceram mais de 13 vezes desde o El Niño de 1997 e 1998.
A Rússia também ganhou espaço no mercado agrícola global. As exportações russas de trigo chegaram a 48 milhões de toneladas no ano passado, ante cerca de 1 milhão de toneladas em 1997 e 1998.
A maior participação desses países significa que uma eventual quebra de safra em determinadas regiões pode ser parcialmente compensada pela produção de outros grandes fornecedores.
Tecnologia aumenta resistência das lavouras
A agricultura também passou a contar com ferramentas que praticamente não existiam durante os grandes episódios de El Niño do passado.
Híbridos de milho tolerantes à seca foram amplamente adotados na África e nas Américas desde 2015. Variedades de trigo resistentes ao calor e à falta de água também ganharam espaço na Índia e na Austrália.
No Sul e no Sudeste Asiático, variedades de arroz de ciclo mais curto ajudam os agricultores a lidar com períodos de chuva mais irregulares.
Os produtores também passaram a utilizar satélites, previsões climáticas sazonais, mapas de umidade do solo e sistemas de aplicação de fertilizantes orientados por GPS.
Essas ferramentas permitem identificar áreas mais vulneráveis e direcionar água e insumos de maneira mais eficiente.
“Os governos têm informações muito melhores do que no passado e conseguem se preparar mais cedo”, disse Maximo Torero, economista-chefe da FAO, à Reuters.
Agricultores também começam a utilizar plataformas baseadas em inteligência artificial que combinam previsões do tempo, informações sobre o solo e dados das lavouras para recomendar períodos de plantio e irrigação, além da aplicação de fertilizantes e do controle de pragas.
Guerras e fertilizantes ainda preocupam
Apesar da maior capacidade de resposta, especialistas alertam que o sistema alimentar global continua vulnerável a choques simultâneos.
As guerras no Oriente Médio e na região do Mar Negro podem comprometer parte dos ganhos proporcionados por estoques maiores e avanços tecnológicos.
A crise no Estreito de Ormuz também afetou o fornecimento de combustíveis e fertilizantes. Antes do bloqueio relacionado à guerra no Irã, a passagem concentrava cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo bruto e gás natural liquefeito.
Para Maximo Torero, da FAO, os efeitos do El Niño dependerão principalmente da evolução das condições climáticas no segundo semestre de 2026 e dos impactos dos conflitos sobre a disponibilidade e os preços dos insumos agrícolas.
Assim, embora o mundo tenha hoje mais estoques, tecnologia e fornecedores capazes de compensar perdas, a combinação de clima extremo, conflitos e custos elevados de produção ainda pode pressionar a oferta e os preços dos alimentos.

Os trabalhadores que 'dão adeus à CLT' atrás do sonho de viver fazendo vídeos de IA

Henrique Batista, de 36 anos, deixou o trabalho de entregas para se dedicar a canais dark no YouTube e mentorias
Arquivo Pessoal
Henrique Batista, de 36 anos, estava cansado de trabalhar entregando hambúrgueres.
Ele e a mãe produziam os lanches em casa, em Paraopeba (MG), município com pouco mais de 24 mil habitantes, e Henrique cuidava das entregas de moto.
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A decisão de mudar de profissão veio há dois anos, depois de um dia de trabalho difícil. “Tomei uma chuva fazendo entrega e falei: ‘Não quero mais isso para a minha vida’. Então, peguei pesado. Três meses trabalhando pesado.”
Henrique havia encontrado um curso do youtuber Peter Jordan sobre como ganhar dinheiro criando canais com a ajuda de inteligência artificial (IA) para a maior plataforma de streaming do mundo.
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Ele conta que comprou o curso por cerca de R$ 400 e passou a criar canais dark, também conhecidos como faceless (sem rosto, em inglês), porque quem produz o conteúdo não costuma aparecer nem usar a própria voz.
“Vi como uma oportunidade de liberdade financeira”, diz Henrique à BBC News Brasil.
Com as ferramentas de IA, Henrique passou a fazer os roteiros dos vídeos, as narrações e as imagens. Para ele, é como “ter um funcionário que não gripa, que não tira férias e não dá dor de cabeça”.
Os temas são variados e acompanham tendências de conteúdos que já fazem sucesso em outros idiomas, como civilizações antigas e contos bíblicos, que ele não conhecia a fundo. É a IA que cuida de tudo.
O faturamento — ou monetização, no jargão dos produtores de conteúdo — pode vir da participação na receita de anúncios exibidos nos vídeos. O valor varia conforme fatores como visualizações, perfil e localização da audiência.
“Consegui monetizar um canal. Vi que eu poderia viver daquilo. Investi em outro. E deu certo”, diz Henrique.
Esse tipo de vídeo, feito quase totalmente com IA, virou uma dor de cabeça para o YouTube.
Henrique Batista contou que trabalhava com venda e entrega de hambúrgueres antes de se dedicar aos vídeos de IA
Arquivo Pessoal
Ao mesmo tempo em que o Google, dono da plataforma, estimula e comercializa ferramentas de inteligência artificial, há uma pressão para que deixe de remunerar criadores que publicam conteúdos considerados ruins, pouco autênticos ou mesmo nocivos para os espectadores.
Como mostrou a BBC News Brasil em reportagens recentes, há canais dark com milhões de visualizações que exploram a atenção de crianças com imagens hipnotizantes, tratam de saúde na terceira idade com soluções alarmantes e imagens de falsos médicos ou simplesmente divulgam conteúdos com informações falsas ou sem sentido.
De acordo com uma pesquisa da empresa de IA Kapwing, 20% do conteúdo exibido para um novo usuário do YouTube é, atualmente, “vídeo de IA de baixa qualidade”.
Uma outra análise, do jornal New York Times, indicou que, após uma sessão de 15 minutos realizada depois de assistir a um canal infantil, mais de 40% dos vídeos assistidos pareciam conter imagens geradas por IA.
O YouTube afirma que, embora seja permitido conteúdo gerado por IA, “combater o conteúdo de baixa qualidade gerado por IA é uma prioridade máxima” e que adota padrões mais rígidos para o conteúdo voltado para espectadores mais jovens.
“Isso inclui esforços contínuos para remover conteúdo de IA marcado como ‘feito para crianças’ quando ele não atende aos nossos princípios de qualidade”, diz a plataforma em nota à BBC News Brasil.
O Google afirma que todo o conteúdo do YouTube, inclusive o que é gerado por meio de IA, deve seguir as diretrizes da comunidade: “Isso abrange nossas políticas sobre desinformação médica, que proíbem informações incorretas a respeito de prevenção e tratamentos capazes de causar, comprovadamente, danos graves no mundo real”.
A empresa acrescenta que adiciona rótulos a conteúdos gerados por IA “para garantir que os espectadores estejam informados sobre o que estão assistindo”.
‘Quem faz sucesso é a exceção’
A antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado, professora da University College Dublin e diretora do Laboratório de Economia Digital e Política Extrema
Arquivo Pessoal
A antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado estuda este mercado.
Ela diz que as novas tecnologias potencializaram, nos últimos dois anos, uma promessa que já existia no marketing digital: trocar empregos tradicionais por uma rotina mais flexível e lucrativa.
“A IA dobra a promessa. Promete ser mais fácil, com menos esforço, que tudo vai acontecer se só deixar a inteligência artificial trabalhar por você”, diz Pinheiro-Machado, que é professora da University College Dublin e diretora do Laboratório de Economia Digital e Política Extrema.
“A promessa é sempre que você vai ter mais tempo, e isso pega sempre muito forte em pessoas que não têm tempo. É uma promessa muito cruel, sempre voltada a ver os filhos crescerem e a aproveitar a vida.”
Mas conseguir emplacar na plataforma, porém, não é simples como muitos prometem, porque, para conseguir a sonhada monetização, dá trabalho.
O YouTube exige para isso que um canal tenha ao menos 1 mil inscritos e 4 mil horas de conteúdo com exibição pública nos últimos 12 meses.
A tecnologia pode facilitar tarefas, como a produção de posts, mas está longe de trazer automaticamente os ganhos prometidos, diz Pinheiro-Machado. “Muitas pessoas vão desistindo. Quem faz sucesso é exceção.”
A criadora de conteúdo Tai Squinalli, que produz vídeos de música com IA em espanhol, conta que trabalha até 12 horas por dia
Arquivo Pessoal
Tai Squinalli, de 43 anos, se viu em dificuldade em janeiro deste ano, quando, segundo ela, o YouTube parou de remunerá-la pelos cinco canais dark que ela administrava.
“Foi uma onda de desmonetização em massa. Ninguém entendeu muito bem o que aconteceu”, conta ela à BBC News Brasil — o YouTube tem dito que não remunera conteúdo considerado inautêntico, que é muitas vezes o caso de vídeos cujo roteiro e imagem foram gerados por IA.
Dois meses antes, ela afirmou à reportagem que tinha conseguido seu maior faturamento fazendo isso desde que começou em meados do ano passado: R$ 75 mil em um único mês, dinheiro que usou para se sustentar nos meses sem receber da plataforma.
Foi um alento para quem recorreu aos vídeos de IA para ter alguma renda depois que a pousada que ela administrava em Itacaré, na Bahia, fechou na pandemia e ela voltou grávida para Caxias do Sul (RS), onde morava antes.
Ela conta que trabalhou por um tempo gravando anúncios de produtos, mas se viu de novo sem emprego quando os clientes começaram a fazer vídeos com IA. “Pensei: ‘Meu Deus, mais uma vez tenho que me reinventar.”
Pagou cerca de R$ 1 mil por um curso sobre canais dark. Depois de seis meses quase sem renda, investiu mais R$ 600 em uma mentoria e passou a criar histórias fictícias em diferentes idiomas.
Tai conta que hoje mantém outros canais dark de músicas e também conteúdo sobre desenvolvimento pessoal, ambos em espanhol e gerados por IA.
“Mudei de nicho. Os canais de história perderam a monetização. Foi o nicho mais prejudicado.”
Ela diz que ganha hoje entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por mês com os vídeos e que prefere essa rotina a um emprego na sua área de formação, administração de empresas.
“Eu gosto dessa liberdade, de não precisar ficar pedindo permissão para fazer as coisas.
Ela conta que chega a trabalhar por até 12 horas por dia ou mais, inclusive à noite e aos finais de semana, mas acha que vale a pena.
“Apesar de eu trabalhar muito, faço isso produzindo para mim”, afirma.
“Minha filha me pergunta: ‘Mamãe, você nunca tira férias?’ Não, mamãe não consegue.”
‘É um mercado dominado por gurus que são apresentados como os casos de sucesso’
Canal Riqueza com IA associa tecnologia à renda extra, mas criador reconhece que nem todos conseguirão monetização
Reprodução/YouTube
A popularização dos vídeos feitos com IA impulsionou um outro segmento igualmente importante deste mercado: o das pessoas que ensinam a fabricar canais dark, muitas vezes junto com a promessa de que, assim, pode-se faturar alto, sem sair de casa ou ter complicações.
Os cursos e mentorias são anunciados como “como fazer vídeos curtos e dizer adeus à CLT” ou “o prompt que vai te deixar milionário”.
A pesquisa liderada por Rosana Pinheiro-Machado acompanha influenciadores e alunos que participam de cursos sobre marketing digital e IA, no Brasil e em outros países.
A pesquisadora aponta que uma das estratégias dos mentores é criar grupos de WhatsApp e listas de email para os alunos e disparar ofertas de métodos exclusivos para usar IA e ganhar dinheiro.
“Você fica sendo bombardeado com promoções, com a ideia de dizer que você está perdendo a chance da sua vida”, diz Pinheiro-Machado.
“Apesar de prometer ser democrático, é um mercado dominado por gurus que chegaram primeiro e vendem sua fórmula. São esses que acabam sendo mostrados como casos de sucesso.”
Um dos canais que ensinam o método com IA é de Arthur Diniz, que se apresenta dizendo que “faturou seu primeiro milhão antes do primeiro beijo” e que já ensinou milhares de alunos “a transformar a internet em renda”.
Em seu canal, o Nova Riqueza IA, que tem 160 mil inscritos, Diniz ensina estratégias de negócios digitais “para construir prosperidade real, aquela que te permite viver bem, com saúde mental e propósito, sem se tornar escravo do trabalho”.
Em um dos vídeos mais recentes, com o título “Nova IA tá fazendo gente comum ganhar R$ 17.990 com apps”, Diniz aparece à frente do computador e depois na praia, dizendo a uma IA: “Ganha dinheiro para mim”.
“Planeja, constrói, testa tudo sozinha e só me chama quando tudo terminar. Fechei o computador e fui viver a minha vida.”
Canal no YouTube promove uso de IA para obter dinheiro com vídeos
Reprodução/YouTube
Em outro, ele mostra como criou um perfil nas redes sociais que divulga mensagens bíblicas. “Nos últimos sete dias, essa estratégia secreta me gerou R$ 1109,65 só compartilhando versículos da Bíblia pelo celular. Melhor: sem aparecer, sem investir em anúncio, só usando o que eu já tenho no bolso. Você também tem, ou seja, o celular.”
Diniz argumenta no vídeo que qualquer pessoa pode copiar o método, e, “mesmo sem ter nenhuma experiência, já ter resultados financeiros”.
Ele então ensina a usar o Grok, a IA da empresa xAI, de Elon Musk, para gerar vídeos e depois gerar um texto no ChatGPT com frases bíblicas, para compartilhar junto do texto.
A ideia é usar os vídeos como gancho para vender ebooks sobre estudos bíblicos.
Diniz diz à BBC News Brasil que a mensagem que deseja passar a quem o segue é que IA reduz a barreira técnica para quem quer começar um canal dark.
Mas ele reconhece que transformar os primeiros bons resultados em um negócio sustentável é outra história.
“É justamente nessa etapa que a maioria das pessoas desiste. Por isso, não vejo contradição entre dizer que qualquer pessoa consegue começar e reconhecer que nem todas conseguirão construir um negócio de longo prazo”, afirma Diniz.
Apesar dos títulos provocativos, ele diz que não recomenda que seus seguidores abandonem o emprego. Já sobre os ganhos elevados que cita em seus títulos, ele afirma que “são baseados em casos reais”.
“Reconheço que um título, isoladamente, pode gerar expectativas diferentes do conteúdo completo”, afirma Diniz.
“Quando utilizo um valor mais alto, ele representa o melhor resultado daquele caso específico, que depois é explicado no próprio vídeo. Também faço questão de deixar claro que se trata de exemplos, que os resultados variam conforme a execução e que não existe promessa de ganho.”
Ele diz que, quando fala que IA faz o trabalho sozinha, isso diz respeito somente à parte técnica e não a todo o trabalho envolvido em um canal assim.
“Isso não significa que um negócio funcione sozinho. O próprio vídeo dedica uma parte importante justamente às atividades que continuam sendo humanas: encontrar clientes, definir preços, vender, atender e acompanhar o trabalho.”
Ele também afirma que um criador deve ser transparente sobre o uso da IA e que a tecnologia “não substitui estratégia, responsabilidade nem bom julgamento”.
‘Tem roteiro que tem erro. Mas a gente não liga’
Peter Jordan, empresário e youtuber brasileiro, é uma das vozes mais influentes no mercado de produção de canais dark no Brasil
Reprodução/YouTube
O youtuber Peter Jordan — que inspirou o entregador Henrique Batista, do início desta reportagem, a trocar de trabalho — é um dos mais influentes gurus dos canais dark no Brasil.
Ele é criador e apresentador do canal Ei Nerd, que se apresenta como “o maior canal de cultura pop” brasileiro, com mais de 14,6 milhões de inscritos e 10 mil vídeos sobre celebridades, desenhos, curiosidades e afins. Tem mais de 4,5 bilhões de visualizações acumuladas desde que entrou no ar, em 2013.
Jordan também está à frente do Nerd de Negócios, uma espécie de desdobramento empresarial do seu primeiro canal, onde ensina sobre marketing digital “de forma clara e simples, para que qualquer pessoa possa começar a empreender na internet”.
É ali que ele se apresenta como o dono de vários canais dark voltados para diferentes nichos e públicos e ensina como fazer sucesso e ter uma “renda passiva” com isso.
Jordan diz que a velocidade de produção é uma das principais vantagens desse modelo de negócio.
“Canal sem aparecer, a gente faz uma linha de produção tão rápida que chega a um ponto em que, estou falando da nossa equipe, a gente não se preocupa mais com roteiro. É um dos modelos mais lucrativos que existem”, diz em um dos seus vídeos.
Ele também diz que, para não comprometer o faturamento, não é possível corrigir os erros que a IA venha a cometer, e defende que eventuais falhas não necessariamente impedem um vídeo de ter bom desempenho.
“Tem roteiro nosso que tem erro. Mas a gente não liga mais. A gente vai fazendo. O máximo que vai acontecer é o vídeo não ter view [visualização]”, diz ele em um vídeo publicado em junho deste ano no YouTube, com mais de 200 mil visualizações.
“Não vale você se preocupar a ponto de perder tempo na sua linha de processo de criação de vídeo. Isso é algo que ninguém vai te falar. Mas eu falo.”
Para ele, o público não se importa com esses erros, como falhas nas imagens geradas por IA.
“A galera não quer saber disso. A galera quer só história, quer entrar, quer imergir. E não liga para esse tipo de coisa. As pessoas não comentam mais sobre esses erros. Elas estão curtindo esses vídeos.”
A BBC News Brasil pediu entrevista a Peter Jordan, mas ele não respondeu.
‘Falsificação de conhecimento especializado’
A falta de supervisão e checagem é um dos riscos dos vídeos produzidos de forma automatizada, segundo pesquisadores ouvidos pela reportagem.
Outro ponto questionado por especialistas é a responsabilidade sobre o conteúdo divulgado, especialmente quando é gerado por IA, sem revisão.
Shuo Niu, professor associado de Ciência da computação da Clark University, nos Estados Unidos, e outros pesquisadores analisaram, em estudo publicado em março, 377 vídeos de 47 canais em inglês que ensinavam a usar IA para ganhar dinheiro.
“Os criadores pareciam menos preocupados com autoria ou credibilidade e mais interessados em construir linhas de produção eficientes, capazes de gerar conteúdos com potencial para viralizar”, afirma Niu.
A facilidade de produzir vídeos em grande escala, avalia o pesquisador, pode reduzir a qualidade geral do conteúdo disponível nas plataformas.
Um dos riscos é o que ele chama de “falsificação de conhecimento especializado”: pessoas sem experiência em determinado assunto podem usar a IA para escrever roteiros e se apresentar como autoridades.
É o caso, por exemplo, dos diversos perfis nas redes sociais de falsos médicos gerados por IA, como mostrou a BBC News Brasil.
“Observamos muitos criadores afirmando que a IA sabe quase tudo e pode permitir que muitos usuários se apresentem como especialistas em nichos em alta, mesmo quando possuem pouco conhecimento relevante”, diz Niu.
Isso pode diminuir o alcance de criadores que investem tempo, conhecimento e trabalho na produção de conteúdo original, avalia o pesquisador.
Niu também alerta que transformar informações geradas por IA em vídeos pode dar a elas uma aparência de autoria humana e de credibilidade.
“Os espectadores podem presumir que uma história ou afirmação é confiável porque parece ter sido comunicada por uma pessoa real na internet.”
O risco seria maior para crianças e idosos, que podem ter mais dificuldade para reconhecer conteúdos sintéticos ou enganosos, avalia.
Para João Victor Archegas, coordenador de Direito & Tecnologia e GovTech do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), o fato de um conteúdo atrair visualizações não elimina a responsabilidade ética de quem o publica.
“Não é uma pessoa qualquer fazendo conteúdo para três, quatro pessoas que estão na rede de amigos. É um canal com milhares ou até milhões de seguidores, que está fazendo conteúdo que vai chegar a milhares ou milhões de pessoas”.
O professor Shuo Niu avalia que o YouTube tem responsabilidade direta sobre esse fenômeno, porque seus sistemas de recomendação e monetização podem incentivar a produção em massa de vídeos de baixa qualidade que atraem cliques.
Para ele, a solução não é eliminar todo conteúdo feito com IA, que também pode reduzir tarefas trabalhosas e permitir novas formas de criatividade.
O desafio, avalia, é diferenciar esses usos de práticas que imitam o trabalho alheio, fabricam conhecimento especializado ou enganam o público.
O YouTube afirma que canais que usam IA continuam qualificados para monetização, ou seja, para exibir propaganda e serem pagos por isso, “desde que o produto final seja uma criação original que adicione uma perspectiva autêntica, siga nossas diretrizes de comunidade e de monetização, e divulgue adequadamente quando o conteúdo for alterado ou sintético”.
Em uma entrevista ao canal Creator Inside, em julho, o vice-presidente de confiança e segurança do YouTube, Matt Halprin, disse que são considerados problemáticos vídeos em que o conteúdo seja genérico ou repetitivo, que busquem manipular as emoções dos espectadores ou criem personagens com IA para abordar temas considerados mais sensíveis, como finanças, questões legais ou saúde.
Eduardo Rico, especialista em desenvolvimento de canais no YouTube, afirma que a IA não reduz necessariamente a credibilidade de um vídeo. O problema, diz, é usar a tecnologia sem controle ou preocupação com a veracidade, especialmente em temas como saúde e conteúdo infantil.
“O que eu sou contra é usar de forma desenfreada, sem um mínimo de crivo, sem a mínima preocupação com a verdade do que está acontecendo naquele vídeo.”
Rico diz que a velocidade de produção não substitui a necessidade de criar algo que interesse ao público.
“Você pode ter os melhores recursos e os melhores roteiros. Se a audiência não gostar do seu conteúdo, não tem estratégia que vá funcionar”, diz.
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Austrália cria proteção inédita para entregadores de aplicativo

Motoristas e entregadores por aplicativo na Austrália terão condições mais justas no trabalho
Rafael Ben Ari/Avalon/IMAGO
Entregadores de alimentos e compras na Austrália receberão pelo menos 31,30 dólares australianos (cerca de 115 reais) por hora e terão seguro contra acidentes durante o trabalho, de acordo com novas regras aprovadas pelo tribunal de relações trabalhistas do país.
A remuneração por hora, estabelecida em uma decisão emitida pela Comissão de Trabalho Justo (Fair Work Commission, FWC) nesta terça-feira (12/08), está acima do salário mínimo australiano de 26,44 dólares.
A decisão da FWC, que pode servir de precedente para outros países, foi comemorada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Transportes (Transport Workers Union, TWU) como “um momento histórico para a economia de aplicativos na Austrália”. O sindicato classificou as novas regras como “um conjunto de padrões pioneiros no mundo”.
‘Sou meu próprio patrão, mas nunca sei quanto vou ganhar’: o retrato de quem vive das entregas por aplicativo
Quais direitos e proteções terão os entregadores por aplicativo?
A remuneração mínima por hora será paga pelo tempo “ativo”, ou seja, o período entre a aceitação de uma entrega e a conclusão do serviço.
A decisão, que entra em vigor em 17 de agosto, também exige que as empresas ofereçam um “nível mínimo razoável de cobertura” por seguro contra acidentes pessoais durante o trabalho, sem especificar exatamente qual deve ser o valor dessa cobertura.
Os trabalhadores, no entanto, continuarão responsáveis por manter o seguro contra danos a terceiros dos veículos utilizados nas entregas.
Sindicatos e trabalhadores na Austrália há muito tempo defendem reformas em benefício dos profissionais que atuam por meio de aplicativos.
Até agora, eles não estavam cobertos por muitas das proteções concedidas a outros empregados, já que eram classificados como “prestadores de serviços independentes”.
As novas regras devem afetar cerca de 250 mil trabalhadores.
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ONU avança para proteger trabalhadores de aplicativos
A decisão da FWC foi anunciada após a Organização Internacional do Trabalho (OIT), agência das Nações Unidas, adotar em junho um novo tratado global voltado à garantia de condições dignas de trabalho na economia de aplicativos.
Os padrões estabelecidos pelo tratado, o primeiro do gênero em âmbito global, ainda precisam ser ratificados pelos governos de cada nação.
Na Austrália, o Parlamento aprovou leis em 2023 e 2024, sob o governo trabalhista de centro-esquerda, que concederam aos trabalhadores de aplicativos mais direitos de negociação sobre remuneração mínima e condições de trabalho.

Crise no campo: pedidos de recuperação judicial saltam entre produtores rurais

Crise no campo: pedidos de recuperação judicial saltam entre produtores rurais
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Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio somaram 474 no primeiro trimestre deste ano, alta de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025.
O avanço foi impulsionado pelo aumento das solicitações feitas por produtores rurais que atuam como pessoa jurídica, em um cenário de crescimento das dívidas e dos custos no setor, informou a Serasa Experian nesta quarta-feira (12).
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O indicador, que reúne pedidos feitos por produtores rurais que atuam como pessoa física e jurídica, além de empresas da cadeia produtiva, também registrou alta na comparação com o quarto trimestre de 2025, quando foram contabilizadas 408 solicitações de recuperação judicial.
Ainda assim, o total ficou abaixo do pico registrado no terceiro trimestre de 2025, quando houve 628 pedidos.
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“O ambiente de crédito mais seletivo, combinado à manutenção dos altos custos de produção e ao maior nível de alavancagem dos produtores, continuou afetando o fluxo de caixa no campo”, afirmou, em nota, o head de agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta.
Segundo ele, a evolução desse cenário até o fim do ano dependerá da capacidade de geração de receita, do comportamento das margens e das condições de renegociação das dívidas.
“Por isso, reforçamos que renegociar dívidas e manter um planejamento financeiro devem ser prioridades, enquanto a recuperação judicial precisa permanecer como o último recurso”, afirmou.
Mato Grosso concentra maior número de solicitações
Mato Grosso, principal produtor de grãos, oleaginosas e gado do país, registrou o maior número de pedidos de recuperação judicial entre os Estados, com 135 registros.
Na sequência aparecem Goiás (73), Paraná (50) e Mato Grosso do Sul (38), também importantes produtores de grãos.
Entre as atividades, o cultivo de soja, principal cultura agrícola do país, concentrou 137 pedidos, seguido pela criação de bovinos, com 42, segundo a Serasa.
Os pedidos de recuperação judicial de produtores rurais que atuam como pessoa jurídica cresceram 73,5% em relação ao primeiro trimestre de 2025, chegando a 196. Foi o maior avanço anual entre os três perfis analisados.
Já os produtores rurais classificados como pessoa física “sem propriedades”, categoria que pode incluir arrendatários, concentraram 60 pedidos.
Os pequenos proprietários registraram 44 solicitações, os grandes, 41, e os médios, 37. Ao todo, o segmento de pessoas físicas somou 182 pedidos, uma queda de 6,7% em relação ao mesmo período de 2025.