Como o super El Niño pode afetar a América Latina, principal região exportadora de alimentos do mundo

Plantação de soja pronta para colheita em Roraima
Raquel Maia/Amazônia Agro
A América Latina se prepara para o que especialistas avaliam poder ser o El Niño mais forte já registrado, o que levanta dúvidas sobre os impactos do fenômeno na maior região exportadora de alimentos do mundo.
O El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico tropical central e oriental, altera os padrões climáticos em todo o mundo. Na América Latina, o fenômeno costuma provocar chuvas mais intensas no sul e elevar o risco de seca em áreas mais ao norte, afetando a agricultura, a produção de energia, as rotas comerciais e o meio ambiente.
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Um inverno excepcionalmente chuvoso no Hemisfério Sul, alterações nos ecossistemas marinhos do Pacífico e episódios de seca já afetam partes do Caribe e da Amazônia. Pesquisadores esperam que o fenômeno ganhe força a partir de setembro e possa superar a intensidade do El Niño de 2015-2016, o mais forte já registrado.
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Veja alguns dos impactos esperados:
Irrigação de culturas
Nas férteis regiões dos Pampas argentinos, além de áreas do Paraguai, Uruguai e sul do Brasil, o El Niño costuma trazer chuvas acima da média. Apesar das preocupações com um evento particularmente intenso, analistas afirmam que o aumento da disponibilidade de água tende a beneficiar as lavouras.
Germán Heinzenknecht, meteorologista da Consultoria de Climatologia Aplicada da Argentina, afirmou que, assim como em ciclos anteriores, o El Niño pode favorecer as colheitas de soja, milho e trigo ao aumentar a umidade do solo para o plantio e ampliar a disponibilidade de água durante o verão, entre dezembro e fevereiro.
O excesso de umidade, no entanto, pode favorecer doenças causadas por fungos e reduzir nutrientes do solo em áreas fertilizadas.
Infraestrutura vulnerável
Um El Niño mais intenso também pode provocar enchentes em áreas rurais já naturalmente suscetíveis a esse tipo de evento, acrescentou Heinzenknecht.
Estradas tomadas pela lama ou por alagamentos podem dificultar o acesso dos agricultores às lavouras, atrapalhando a aplicação de fertilizantes e defensivos agrícolas, disse ele.
Muitas das estradas rurais que atravessam importantes áreas agrícolas do sul da América do Sul já apresentam condições precárias.
As fortes chuvas previstas para setembro também podem provocar inundações em cidades e nas rotas de acesso aos portos. Diante desse risco, o governo do Paraguai colocou unidades militares em alerta e mobilizou equipes de engenharia civil ainda em julho.
A costa norte do Peru enfrenta inundações, enquanto regiões mais elevadas sofrem com a escassez de água. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), esse padrão também pode se repetir no Chile e em outras áreas da costa do Pacífico.
O aumento da temperatura do mar também está levando espécies de interesse comercial a migrar para águas mais profundas, reduzindo o volume pescado.
Essa mudança já afeta a indústria pesqueira do Peru, que registrou queda de 31% na atividade nos primeiros cinco meses do ano.
Oportunidades energéticas
A distribuição desigual das chuvas pode acabar beneficiando o crescente setor de exportação de energia da Argentina.
Segundo a Organização Latino-Americana de Energia (OLADE), a previsão de tempo mais quente e seco no norte e no oeste do Brasil pode aumentar a demanda por gás natural da Argentina para abastecer usinas termelétricas.
Por outro lado, o sul do Brasil e o nordeste da Argentina devem registrar aumento significativo das chuvas, elevando o nível do rio Paraná e ampliando o potencial de geração das hidrelétricas ao longo de seu curso.
Em julho, as chuvas nas bacias hidrográficas do sul do Brasil atingiram 256% da média histórica, segundo dados do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).
“Cada El Niño conta uma história diferente”, disse Leydson Dantas, especialista do Instituto Nacional de Meteorologia do Brasil, acrescentando que o equivalente a um mês de chuva pode cair em apenas uma semana em algumas áreas do centro-oeste e sudeste do Brasil.
Secas ameaçam navegação e logística
A previsão de tempo mais seco no norte do Brasil ameaça a vasta rede fluvial da Amazônia, um corredor de transporte fundamental para o escoamento da produção do maior exportador mundial de soja.
A previsão de tempo mais seco no norte do Brasil ameaça a vasta rede fluvial da Amazônia, um corredor de transporte fundamental para o escoamento da produção do maior exportador mundial de soja.
Mais ao norte, a Autoridade do Canal do Panamá está endurecendo as restrições à carga transportada pelos navios para preservar a água doce necessária ao funcionamento da via, já que as previsões apontam para uma seca que pode ser tão severa quanto a registrada durante o El Niño de 2023-2024.
A autoridade marítima vem reduzindo gradualmente o calado máximo das embarcações, já que um novo reservatório planejado para garantir o abastecimento de água do canal e da população do país não ficará pronto a tempo.
🔎 Calado é a profundidade da parte submersa de uma embarcação. Quanto menor o calado permitido, menor é a quantidade de carga que cada embarcação pode transportar, o que encarece o frete e reduz a eficiência logística.
Com limites menores de calado, os navios precisam transportar menos carga, o que eleva os custos de transporte e aumenta o risco de interrupções no comércio.
O Panamá está entre os países mais chuvosos do mundo, o que torna qualquer redução significativa das chuvas um importante sinal de seca na região.
A autoridade responsável afirmou que não pretende reduzir o número diário de travessias pelo canal, a menos que isso se torne estritamente necessário.
A disputa por espaço no canal já está aumentando, com leilões de última hora alcançando milhões de dólares, enquanto parte das embarcações também busca rotas alternativas diante das tensões de segurança no Oriente Médio, na região do Canal de Suez.

Peixes têm 'impressão digital' que revela de onde vieram, mostra estudo; entenda

Tainha
Conservação Internacional/Átila Ximenes
Peixes também têm impressão digital. É o que mostrou uma pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), feita com a tainha brasileira.
Os pesquisadores analisaram pequenas moléculas presentes no músculo da tainha para identificar de onde o peixe veio. A combinação dessas substâncias funciona como uma “impressão digital química”.
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O estudo conseguiu diferenciar tainhas capturadas em três locais do Brasil. Os pesquisadores encontraram diferenças na composição dos músculos relacionadas ao ambiente em que os peixes vivem, à quantidade de sal na água, à alimentação e ao funcionamento do organismo.
Os cientistas também identificaram 23 compostos químicos naturais no músculo das tainhas. Essas substâncias ajudam a mostrar como o organismo dos peixes funciona, incluindo informações sobre gasto de energia, atividade muscular, alimentação e adaptação ao ambiente.
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Para fazer a análise, os pesquisadores usaram uma técnica semelhante a um “raio-X químico”: a Ressonância Magnética Nuclear de Hidrogênio. O método permite mapear a posição dos átomos de hidrogênio presentes nas moléculas.
A técnica foi associada à metabolômica, que permite analisar pequenas moléculas produzidas pelo organismo durante as reações químicas do dia a dia.
O estudo foi desenvolvido pelos pesquisadores Fabíola Fogaça, da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ), e Luiz Colnago, da Embrapa Instrumentação (SP).
Fabíola Fogaça inserindo a tainha no “raio x químico”
Divulgação/ Embrapa
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Uso na prática
A descoberta pode ajudar o setor pesqueiro e a criação de mecanismos para certificar a origem dos pescados.
Segundo os cientistas, a tecnologia pode auxiliar a combater fraudes no mercado de pescados, como a substituição de uma espécie por outra e a falsificação da origem do produto.
Além disso, a impressão digital química pode ser usada de base técnica para o pedido de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Denominação de Origem, da tainha da Lagoa de Araruama.
A Lagoa de Araruama fica no Rio de Janeiro e é considerada a maior lagoa com concentração de sais permanente do mundo. A água tem salinidade média de 52%, mais alta que a do mar. Essa característica influencia diretamente o metabolismo das tainhas que vivem na região.
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'Workslop': os trabalhos malfeitos por IA que geram retrabalho, roubam tempo e custam milhões às empresas

Workslop pode ser traduzido livremente como “trabalho desleixado”.
Pexels
A pressa das empresas em incorporar ferramentas de inteligência artificial ao dia a dia dos trabalhadores criou um novo problema: o relatório chega com tópicos organizados, linguagem técnica e aparência profissional, mas basta uma leitura mais atenta para perceber que ali não há nada de útil.
As conclusões são genéricas, faltam informações importantes sobre o negócio e uma nova rodada de análises, correções e ajustes se faz necessária. Em vez de aumentar a produtividade, a IA gera retrabalho e atrasa o desenvolvimento dos profissionais — em especial, os mais novos.
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O fenômeno já tem nome: workslop.
📎 O termo vem da junção das palavras “work” (trabalho) e “slop” (malfeito), e pode ser traduzido livremente como “trabalho desleixado”. Ele passou a ser usado para descrever tarefas geradas por IA que — na ânsia de economizar esforço ou acelerar processos — são superficiais e oferecem pouco valor prático para quem precisa utilizá-las.
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Um levantamento da BetterUp Labs, em parceria com a Stanford Social Media Lab, mostrou que 40% dos trabalhadores afirmam ter recebido algum conteúdo que se enquadra no conceito de workslop. Esse grupo estima que 15,4% de todo o material recebido se encaixe nessa categoria.
Quando esse tipo de conteúdo entra no fluxo de trabalho, cria-se um efeito em cadeia. Alguém precisa conferir informações, corrigir erros ou simplesmente refazer parte da tarefa.
💸 Esse custo já foi medido. Os trabalhadores gastam, em média, 1 hora e 56 minutos lidando com cada ocorrência de workslop, segundo a BetterUp Labs. Isso representa uma perda estimada em US$ 186 por mês para cada funcionário afetado. Em uma organização com 10 mil trabalhadores, o prejuízo anual pode ultrapassar US$ 9 milhões em produtividade desperdiçada.
Para Miguel Nicolelis, considerado um dos principais neurocientistas do mundo, há uma crença generalizada de que ferramentas de IA seriam capazes de substituir etapas importantes do pensamento humano — do trabalho ao estudo.
O resultado, afirma, é uma espécie de “atalho intelectual”: tarefas que antes exigiam construção de conhecimento passam a ser delegadas a sistemas que produzem respostas nem sempre confiáveis.
Na vida profissional, receber esse tipo de conteúdo também provoca irritação, confusão e desgaste entre os colegas. Aos poucos, o problema compromete relações de confiança e colaboração, fundamentais para o funcionamento das organizações.
Mas evitar o assunto também não é a solução. A discussão envolve como a IA está transformando a rotina de trabalho, a qualidade do que é produzido, a pressão sobre os profissionais e os riscos de uma dependência crescente dessas ferramentas.
Nesta reportagem, o g1 discute esses pontos e mostra por que a promessa de produtividade nem sempre se concretiza, quais estratégias as empresas têm adotado para reduzir riscos e por que temas como governança e pensamento crítico são importantes nesse debate.
Saiba mais sobre:
Como a IA criou o ambiente perfeito para o workslop
O preço do workslop
O que acontece quando a IA começa a pensar por nós
Como usar a IA sem cair no workslop
O que as empresas estão aprendendo na era da IA
Como a IA criou o ambiente perfeito para o workslop
Há pouco tempo, construir uma apresentação demandava horas de organização de informações e estruturação de argumentos. Hoje, pode levar apenas alguns minutos. Essa facilidade ajuda a explicar como a inteligência artificial se espalhou tão rapidamente entre os profissionais.
João Quessada, desenvolvedor de software, recorre diariamente à IA para analisar códigos, resumir documentos e acelerar tarefas que antes consumiam horas de trabalho.
“Sem sombra de dúvidas a IA agiliza muito o meu trabalho. Algo que eu faria em três ou quatro dias eu faço em um dia utilizando IA”, conta o desenvolvedor.
Mas a velocidade não garante um bom resultado. “Às vezes, ela não é 100% certeira. Em vez de ligar o ponto A ao ponto B, liga o ponto A ao ponto C e depois volta para o B”, resume.
Diogo Ferreira, profissional da área de tecnologia em uma empresa do agronegócio, também diz que a IA ajuda a organizar ideias, estruturar documentos e acelerar etapas operacionais, mas que a validação e as decisões continuam sob sua responsabilidade.
Diogo Ferreira
g1
“Quando você aprofunda, percebe que pode faltar contexto ou que a solução proposta está genérica demais. Para identificar isso, é preciso conhecer o assunto sobre o qual se está falando”, afirma.
A rápida adoção também foi impulsionada pela expectativa de ganhos de produtividade em um ambiente cada vez mais pressionado por eficiência e resultados. Mas, à medida que a IA deixou de ser novidade, o debate começou a mudar.
A discussão passou a envolver os efeitos que essas ferramentas estão produzindo no dia a dia de quem trabalha com elas.
Um estudo global do Upwork Research Institute, feito com 2,5 mil profissionais, mostra uma diferença de expectativas. Enquanto 96% dos executivos acreditam que a IA vai aumentar a produtividade, 77% dos profissionais afirmam que a carga de trabalho aumentou.
O levantamento também revela que 81% dos líderes aumentaram as expectativas sobre suas equipes após a adoção da IA, enquanto 71% dos trabalhadores relatam sinais de burnout.
Para Nicolelis, esse fenômeno está relacionado a uma antiga ambição do mundo corporativo.
“A IA nada mais é do que a combinação de um pensamento que começa lá na Idade Média. Da tentativa da automação completa do trabalho humano.”
Luciana Morilas, especialista em trabalho da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), afirma que, apesar do entusiasmo em torno dessas novas ferramentas, grande parte das organizações ainda tenta entender como incorporá-las às rotinas profissionais.
Nesse processo, muitas pessoas passaram a utilizar sistemas de IA sem treinamento adequado e sem compreender claramente quais ferramentas são mais apropriadas para cada tipo de atividade.
“Quando uma apresentação pode ser criada em poucos minutos e um relatório gerado em segundos, surge a tentação de transformar a IA em um atalho permanente. O problema é que a velocidade da entrega nem sempre acompanha a qualidade.”
Luciana argumenta que, embora esses sistemas tenham acesso a volumes gigantescos de dados e sejam capazes de organizar conteúdos, isso não significa que compreendam contexto, prioridades ou as particularidades de um negócio.
Nicolelis concorda e ressalta que a situação se torna ainda mais delicada porque grande parte das empresas ainda está aprendendo a estabelecer regras e diretrizes para esse novo ambiente de trabalho.
Um relatório da IBM indica que 87% das organizações brasileiras não possuem práticas formais de governança em inteligência artificial. Na prática, isso significa que a adoção da tecnologia tem avançado mais rapidamente do que a criação de políticas, treinamentos e mecanismos de supervisão capazes de orientar seu uso.
O preço do workslop
Quando um conteúdo superficial entra no fluxo de trabalho, alguém precisa assumir o conserto: preencher lacunas, corrigir interpretações equivocadas ou até reescrever trechos inteiros. O trabalho, portanto, não desaparece. Apenas muda de mãos.
A situação pode ser ainda mais preocupante: quanto mais sofisticado um conteúdo parece, mais difícil pode ser identificar suas falhas. E, quanto mais esses problemas passam despercebidos, maior é o risco de que os erros se espalhem pela organização.
Segundo a BetterUp Labs, receber esse tipo de conteúdo também gera desgaste entre os colegas.
Mais da metade dos trabalhadores (53%) afirma sentir irritação diante de episódios de workslop;
38% relatam confusão e até sensação de desrespeito ao perceber que precisam gastar tempo corrigindo algo que deveria ter chegado pronto.
As consequências também chegam à reputação profissional. Nas empresas, a qualidade das entregas influencia diretamente a confiança entre colegas, gestores e equipes.
Ainda de acordo com o estudo da BetterUp Labs, quem envia workslop tende a ser visto como menos criativo, competente, confiável e até menos inteligente. Em muitos casos, isso reduz a disposição dos colegas para voltar a trabalhar com essa pessoa em projetos futuros.
Para Luciana, a inteligência artificial não elimina a necessidade de conhecimento especializado. Um levantamento da Forrester Research mostrou, por exemplo, que 55% dos empregadores se arrependeram de ter demitido funcionários em função da inteligência artificial.
Uma projeção da Gartner também aponta que metade das empresas que substituíram trabalhadores de áreas como atendimento ao cliente ou operações por IA precisará recriar essas funções até 2027.
Nicolelis afirma que esse movimento evidencia uma promessa de substituição que não tem se sustentado na prática.
“Várias empresas e várias indústrias estão tendo que não só recontratar as pessoas que elas demitiram achando que iam substituí-las por essas ferramentas, como estão tendo que ter pessoas extras para tentar corrigir os erros causados por essas ferramentas”.
O que acontece quando a IA começa a pensar por nós?
Durante décadas, a tecnologia assumiu principalmente tarefas operacionais ou repetitivas. Mas a inteligência artificial generativa passou a ser usada em atividades tradicionalmente associadas ao pensamento humano.
Quessada admite que dificilmente envia um e-mail sem antes pedir que a inteligência artificial revise o texto. “Hoje eu não mando nenhum e-mail sem antes passar pela IA para refinar a escrita, a acentuação e as boas práticas”, afirma.
O mesmo acontece com Diogo. “Uso muito! Acho que principalmente para estruturar e-mail, revisar uma mensagem, uma comunicação que você vai fazer”.
Para Nicolelis, a preocupação com a substituição do pensamento vai além do ambiente corporativo. Segundo ele, a dependência crescente de tecnologias digitais já alterou a forma como as pessoas memorizam informações, se orientam no espaço e resolvem problemas cotidianos.
Na avaliação do neurocientista, a conveniência proporcionada pela tecnologia pode vir acompanhada de uma redução gradual da chamada agência humana — a capacidade de agir, decidir e refletir de forma autônoma.
“Quanto mais tarefas cognitivas são delegadas a sistemas externos, menor tende a ser o estímulo para exercitar essas capacidades. A conveniência está matando a agência humana”, afirma.
Para ele, o problema não está no uso da ferramenta, mas em transformar a exceção em regra: substituir de forma sistemática processos que antes exigiam reflexão, aprendizado e construção de conhecimento.
Embora Quessada considere a IA indispensável no trabalho, ele demonstra uma preocupação parecida. “Às vezes, um desenvolvedor estagiário já vai utilizar IA nos primeiros trabalhos dele de estágio. Ele não vai refinar a lógica nem tentar praticá-la”, afirma.
🤔 Mas quais habilidades podem deixar de ser desenvolvidas? E quais passam a ser ainda mais importantes? Luciana avalia que algumas competências tendem a perder espaço, enquanto outras se tornarão ainda mais valiosas.
“Interpretação, pensamento crítico, contextualização e capacidade de julgamento ganham importância justamente porque a informação nunca esteve tão disponível. O desafio deixa de ser encontrar respostas e passa a ser avaliar quais delas fazem sentido.”
Como usar a IA sem cair no workslop
Surge, então, a questão: como aproveitar os ganhos de produtividade sem abrir mão da qualidade, do senso crítico e da responsabilidade sobre aquilo que é produzido?
Especialistas afirmam que as ferramentas de IA funcionam melhor quando são tratadas como ponto de partida. Quanto mais contexto a ferramenta recebe, maior a chance de produzir um resultado útil.
“Quando você já tem clareza do problema, consegue economizar tempo porque ela tende a trazer um resultado melhor. Mas, se a pergunta não está bem direcionada, isso pode gerar retrabalho”, explica Diogo.
Sem informações sobre contexto, objetivos ou público-alvo, a ferramenta tende a produzir respostas amplas, superficiais e genéricas. Mas elaborar um bom prompt é apenas parte do processo. Outro erro frequente é considerar que a primeira resposta da IA já está pronta para uso.
Na rotina de desenvolvimento de software, Quessada afirma que isso raramente acontece. O processo normalmente envolve novas perguntas, ajustes e sucessivas revisões.
João Quessada
g1
“A IA realmente não é algo para o qual você pode simplesmente dar um prompt inicial e esperar um resultado 100% pronto”, afirma.
Entre os principais riscos estão as chamadas “alucinações”, situações em que a ferramenta inventa informações, apresenta dados incorretos ou chega a conclusões sem respaldo nos fatos.
Outro ponto de atenção é a segurança da informação. À medida que essas ferramentas ganham espaço nas empresas, cresce também o risco de compartilhamento indevido de dados estratégicos, financeiros ou pessoais.
Diogo afirma que essa é uma das principais preocupações em sua rotina. “O maior cuidado que a gente tem que ter quando fala de IA é a questão de inserir dados sensíveis, tanto pessoais quanto corporativos”, afirma.
Essa preocupação levou muitas organizações a estabelecer regras específicas para o uso dessas plataformas, restringindo o compartilhamento de determinadas informações e priorizando ferramentas que atendam a requisitos de segurança e conformidade.
Segundo Luciana, para evitar o workslop, é preciso orientar os trabalhadores sobre quais ferramentas utilizar, em quais situações elas fazem sentido e quais são suas limitações.
Essa diferença também aparece nas conclusões da BetterUp Labs. Os pesquisadores identificaram dois perfis de usuários: os “pilotos”, que utilizam a IA para ampliar suas capacidades, e os “passageiros”, que delegam à tecnologia tarefas que antes exigiam esforço cognitivo próprio.
💡 Ou seja: os profissionais que extraem mais valor da inteligência artificial não são necessariamente os que a utilizam com mais frequência. São aqueles que fazem perguntas melhores, questionam as respostas recebidas, conferem informações e mantêm o julgamento humano no centro das decisões.
O que as empresas estão aprendendo na era da IA
Em poucos anos, a conversa sobre IA nas empresas mudou de tom. O foco passou a ser como incorporá-la ao trabalho sem comprometer a qualidade das entregas ou criar novos riscos para profissionais e empresas.
Segundo Daniel Marques, diretor de dados e analytics da companhia, a inovação só faz sentido quando vem acompanhada de critérios para avaliar riscos, definir prioridades e identificar onde a IA realmente gera valor para a empresa. “Não dá para sair fazendo e investindo em IA sem foco e governança”, resume.
A empresa criou um comitê multidisciplinar para acompanhar projetos de IA, estabeleceu critérios de risco e definiu diretrizes sobre ética, segurança da informação e uso responsável da tecnologia. Antes de automatizar uma atividade, a orientação é avaliar se a inteligência artificial realmente melhora o trabalho.
No Itaú, a experiência levou a uma conclusão semelhante. Com mais de 56 mil funcionários utilizando ferramentas corporativas de IA generativa, o banco percebeu que ampliar o acesso à tecnologia exige mecanismos de controle tão robustos quanto os investimentos feitos nela.
Por isso, as soluções passam por avaliações de segurança, conformidade, ética e viabilidade tecnológica antes de serem liberadas para uso. A orientação é que a inteligência artificial não seja adotada apenas porque está disponível.
“A lógica é avaliar continuamente se a tecnologia gera benefícios concretos para clientes, funcionários e para o negócio. Em alguns casos, ferramentas tradicionais continuam sendo a melhor escolha”, afirma Valéria Marretto, diretora de recursos humanos do Itaú.
O Magazine Luiza chegou a uma conclusão parecida. Além de investir em equipes especializadas e desenvolver soluções próprias, a empresa criou políticas internas para orientar o uso da IA e definiu quais plataformas podem ser utilizadas pelos funcionários.
Para Patricia Pugas, diretora-executiva de gestão de pessoas, a tecnologia deve ampliar as capacidades das pessoas — e não substituí-las. “A mensagem que passamos internamente é que a IA é uma aliada, e não uma solução final”, afirma.
“Sem treinamento, orientação e processos bem definidos, aumenta o risco de uso inadequado, retrabalho e produção de conteúdos superficiais (…) a tecnologia amplia capacidades, mas não elimina a necessidade de supervisão humana”, conclui a pesquisadora Luciana Morilas.

Ele contou ao ChatGPT que queria matar o filho e foi preso — conversas com IA podem ser prova de crime no Brasil?

Getty Images/BBC
AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL: esta reportagem contém menções a violência e suicídio.
Durante cerca de dois meses, João (nome fictício), 36 anos, manteve conversas com o ChatGPT que, segundo a Polícia Civil do Espírito Santo, indicavam um possível plano para matar o próprio filho, de 8 anos, cometer ataques e tirar a própria vida.
Nas mensagens trocadas com a ferramenta de inteligência artificial, o agricultor pesquisou sobre os efeitos de determinadas substâncias tóxicas no corpo, confessou ter oferecido dinheiro para que uma pessoa matasse a criança e disse que se sentia bem ao ver pessoas sofrerem.
“Ofereci 50 mil para ele me matar e matar meu filho, mas ele não quis por se tratar de uma criança”, diz uma das mensagens ao ChatGPT às quais a BBC News Brasil teve acesso.
“Queria saber de onde vem essa vontade de matar as pessoas. Eu gosto da sensação de ver outra pessoa sofrer”, relatou o agricultor em outra mensagem.
As conversas acenderam um alerta no sistema de segurança da IA, levando a OpenAI — criadora do ChatGPT — a comunicar a interação ao FBI, que entrou em contato com as autoridades brasileiras.
O caso chegou até a Polícia Civil do Espírito Santo no dia 16 de junho, por meio do Laboratório de Operações Cibernéticas, o Ciberlab, braço tecnológico do Ministério da Justiça e Segurança Pública no combate a crimes cibernéticos.
Três dias depois — e um dia antes da data em que, segundo a polícia, o plano seria colocado em prática — o agricultor foi preso quando saía de casa na zona rural de São Gabriel da Palha, um município de pouco mais de 30 mil habitantes localizado a 200 km da capital, Vitória.
“Priorizamos esse caso em função da gravidade e por supostamente o pai planejar a execução do filho até o dia 20”, disse à BBC News Brasil o delegado Brenno Andrade, titular da Delegacia de Crimes Cibernéticos e responsável pela investigação.
João* foi preso preventivamente no dia 19 de junho. Na quinta-feira (13/8), ele foi solto após a Justiça conceder um habeas corpus apresentado pela defesa, ao entender que houve demora excessiva na conclusão da investigação policial. O agricultor ficou detido por 54 dias.
A prisão preventiva não tem prazo fixo previsto em lei. Quando o investigado está preso, porém, a investigação deve ser concluída em prazo razoável.
No caso do agricultor, a Justiça considerou que, após mais de 50 dias de prisão, o inquérito ainda não havia sido concluído pela polícia nem havia denúncia apresentada pelo Ministério Público. Mantê-lo preso poderia caracterizar constrangimento ilegal.
A Justiça também impôs medidas cautelares ao agricultor, como o uso de tornozeleira eletrônica e a proibição de se aproximar ou manter contato com o filho e com a mãe da criança.
Segundo o delegado Brenno Andrade, o suspeito não tinha relação de afeto e nem contato com a criança. Ele apenas pagava uma pensão, e esse teria sido um dos motivos para planejar o crime.
“Ele não queria mais pagar a pensão […] Em uma das conversas, ele fala em tirar a própria vida. Mas ele não queria, digamos assim, essa ‘encheção de saco’ da mãe dele, avó da criança, ser cobrada pela pensão. Então, ele pensou em também matar o próprio filho.”
A Polícia Civil do Espírito Santo informou que aguarda o resultado de laudos periciais — de objetos apreendidos na casa do agricultor — para concluir o inquérito.
Na casa do suspeito foram encontrados quatro frascos com uma substância desconhecida, além de uma corda amarrada, que, segundo a polícia, seria indicativo de uma intenção suicida.
“Tudo aquilo que a plataforma trouxe pra gente foi corroborado com a chegada da polícia ao local. Ele confirmou algumas coisas que pesquisou em relação ao filho, mas negou essa intenção de matá-lo”, disse o delegado.

Divulgação/Polícia Civil do Espírito Santo
Além dos frascos, o celular do suspeito foi recolhido para ser periciado. O objetivo é saber se o agricultor realmente entrou em contato com um pistoleiro para matar o filho, conforme contou ao ChatGPT.
“Vamos supor que no telefone dele, ele já tinha iniciado essa conversa, já tivesse até pagado o pistoleiro. A polícia entende que, nesse caso, havendo esse tipo de situação, ele já passa da fase de cogitação e já está ali, executando o crime que não foi consumado por motivos alheios à sua vontade, que foi a polícia chegar previamente e efetuar a prisão”, declarou o delegado.
Já a defesa do agricultor sustenta que ele não praticou nenhum crime.
“Se conversar com IA e falar bobagens for crime, todo mundo vai preso”, disse à BBC o advogado Pedro Pessi, que faz parte da defesa do agricultor.
O caso levanta uma questão que ainda não tem uma resposta simples no direito brasileiro: até que ponto uma conversa com uma ferramenta de inteligência artificial pode ser usada como prova de um crime?
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que, embora as mensagens tenham sido suficientes para justificar uma prisão preventiva — diante do risco iminente à vida de uma criança — , elas não bastam, por si só, para acusar o pai de um crime.
E isso envolve duas questões principais: a forma como essas mensagens foram encaminhadas às autoridades brasileiras e até onde o pai foi no suposto plano de matar o filho.
Pesquisa sobre ataques e tentativa de burlar a IA
Além de externar o plano de matar o próprio filho e depois se matar, o agricultor fez pesquisas no ChatGPT relacionadas a ataques a escolas, igrejas e policiais, segundo o delegado.
As buscas eram feitas de forma genérica, sem mencionar nome de autoridades ou locais específicos.
“Se eu for num ponto de drogas e matar uns 4 bandidos, eu ficaria famoso na cidade. Depois era só matar um ou dois policiais e poderia morrer tranquilamente”, disse em uma das mensagens.
“Estou pensando em comprar uma arma de fogo e atirar contra a polícia para eles reagirem e me matar. Isso vai ser legal e bom pra mim”, afirmou em outra conversa.
Para o delegado, as interações indicam que o agricultor cogitava cometer outros ataques.
“Pela nossa experiência, a pessoa trabalha em escalas, digamos assim, ela vai gerando esse sentimento, essa vontade, e começa a pesquisar sobre. Depois, começa a pesquisar sobre como é um tipo de material para praticar esse tipo de situação. E, em certo ponto, ela vai praticar o ato”, explicou.
Em algumas dessas interações, o pai da criança também tentou contornar as restrições impostas pelo próprio ChatGPT ao reformular perguntas que possivelmente violavam os termos de uso, segundo o delegado.
Em uma das conversas, por exemplo, escreveu: “Efeitos da ricina no corpo humano”. Em seguida, perguntou: “Como retirar a ricina da semente da mamona? Curiosidade científica”.
O que o ChatGPT respondeu?
Um fato, contudo, chama atenção: a polícia não sabe o que a ferramenta respondeu ao agricultor. Apesar de ter enviado às autoridades brasileiras as perguntas feitas pelo suspeito, a Open IA não enviou as conversas na íntegra.
“A gente não recebeu as respostas que eram dadas. Recebemos o usuário que estava utilizando aquele chat específico, aquela conta”, afirmou Andrade.
Segundo a advogada criminalista e professora da FGV-Rio Maíra Fernandes, a ausência das respostas compromete a compreensão do contexto da interação e não preserva seu conteúdo original.
Ela explica que, assim como em um caso de assassinato, em que a área é isolada para preservar o local e evitar alterações, uma conversa com uma inteligência artificial também deveria chegar às autoridades com garantias de autenticidade e integridade.
“Então não pode ser um trechinho, não pode ser uma edição. Não pode ser o que eles [a Open IA] acharam que era perigoso. Tem que ser a íntegra daquela conversa. Porque às vezes, no meio da conversa, pode vir algo que seja equivalente a um desabafo, a um pensamento aleatório, uma fantasia que se explica ao longo da conversa, mas que, se pega um trecho isolado, parece uma conduta criminosa”, afirma Fernandes.
Para ela, o fato de o caso envolver uma criança e trazer uma situação ainda nova para o direito — em que uma inteligência artificial identificou uma conversa como potencialmente perigosa e comunicou à polícia — faz com que a atuação da ferramenta seja vista de forma positiva. Mas isso deveria ser tratado com muita cautela para não correr risco de banalização.
“E aí qualquer pessoa pode ser investigada porque a inteligência artificial assim entendeu. A gente precisa saber que inúmeras questões estão envolvidas no uso dessa inteligência artificial, de todas as naturezas, inclusive políticas ideológicas”, pontua.
Procurada pela BBC News Brasil, a Open IA não respondeu aos questionamentos sobre por que apenas parte das conversas foi enviada às autoridades brasileiras.
Em nota, a empresa informou, por meio de um porta-voz: “Quando detectamos conversas que indicam um risco iminente e crível de danos a terceiros, podemos notificar as autoridades policiais. Relatos recentes no Brasil ilustram a importância dessas medidas de segurança.”
Ainda segundo a Open IA, o ChatGPT combina mecanismos automáticos de detecção, revisão especializada e supervisão humana para identificar riscos e violações de políticas. A empresa diz que pode tomar medidas quando há riscos críveis e iminentes de danos a terceiros, mas que o encaminhamento às autoridades é reservado a casos excepcionais e de alto risco.
Fernandes também chama atenção para outro ponto nesse caso: o papel exercido pela plataforma durante a interação.
Segundo ela, as respostas são importantes não apenas para entender a conduta do usuário, mas também para avaliar se a própria ferramenta forneceu algum tipo de orientação que incentivasse o suposto planejamento do crime.
“Será que a resposta foi positiva no sentido: ‘Como você prefere matar? Você prefere matar com veneno? Você prefere matar com arma?’ Isso tem uma responsabilidade gigantesca da ferramenta de inteligência artificial, o que não exclui, óbvio, a responsabilidade daquele que pergunta. Mas isso precisa estar nos autos”, afirma.
Perguntas feitas pelo pai da criança ao ChatGPT; respostas da ferramentas não foram encaminhadas às autoridades policiais
Divulgação/Polícia Civil do Espírito Santo
Essa discussão sobre o papel da inteligência artificial em planejamento de crimes apareceu recentemente em um caso nos Estados Unidos.
Em abril deste ano, o procurador-geral da Flórida abriu uma investigação criminal sobre a OpenAI para apurar se o ChatGPT contribuiu para o planejamento de um ataque que matou duas pessoas e feriu outras seis na Florida State University, em 2025.
Segundo as autoridades, o autor do ataque teria usado a ferramenta para obter informações sobre armas, munições e aspectos do planejamento da ação.
O procurador-geral afirmou que, se uma pessoa tivesse fornecido aquelas orientações, ela poderia ser responsabilizada criminalmente.
A OpenAI contesta essa interpretação e afirma que o ChatGPT apenas forneceu informações disponíveis publicamente e não incentivou atividade ilegal.
Para André Glitz, mestre em Direito pela Columbia University e pesquisador na área de investigação criminal, o caso brasileiro passa por dois pontos: a validade das conversas como prova e o peso que elas podem ter para uma eventual acusação.
“É preciso saber em que contexto essas conversas aconteceram e o que o ChatGPT respondeu. Uma conversa precisa ter começo, meio e fim. Se você extrai apenas um pedaço dessas conversas, o sentido do que foi dito pode mudar completamente. A prova pode até ser válida, mas é importante ver o peso”, afirma.
Glitz destaca que essa análise é especialmente importante em conversas com ferramentas de inteligência artificial, que podem “alucinar”, produzir respostas equivocadas ou interpretar de maneira inadequada o contexto de uma pergunta.
Segundo ele, como a OpenAI é uma empresa americana, ter acesso a todas as conversas exigirá uma decisão judicial e mecanismos de cooperação jurídica internacional.
Por meio de nota, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que “em situações excepcionais que envolvam risco concreto e iminente à vida ou à integridade física de terceiros, empresas de tecnologia podem compartilhar informações com as autoridades brasileiras. Quando essas comunicações chegam ao Ciberlab, é realizada uma análise preliminar e, identificada a necessidade de atuação imediata, as informações são encaminhadas, com a maior brevidade possível, às autoridades policiais com atribuição sobre o caso para adoção das medidas cabíveis”.
Uma pessoa pode ser presa por cogitar um crime?
O caso no Espírito Santo lembra a premissa de Minority Report, filme de 2002 em que a polícia prende pessoas antes que elas cometam crimes, com base na previsão de que irão cometê-los. Não, por acaso, a comparação com a obra foi feita tanto pelo delegado quanto por Glitz durante as entrevistas.
Há, porém, uma diferença fundamental. A inteligência artificial não previu que o agricultor cometeria um crime. Ela identificou uma conversa como potencialmente perigosa, e a plataforma comunicou o alerta às autoridades.
A defesa do agricultor sustenta que o caso não passou da fase de cogitação. À BBC, o advogado Pedro Paulo Pessi afirmou que o pai da criança não teria tomado nenhuma medida concreta para executar os crimes mencionados nas conversas, muito menos a ameaçado.
“Ele não teve nenhuma atitude nesse sentido de execução, não preparou nada, não fez ameaças, apenas conversou com a IA e falou várias bobagens. A defesa entende que não houve crime”, declarou.
Glitz explica que essa discussão, no direito penal, passa pelo chamado iter criminis — o caminho percorrido até a prática de um crime — e é divido em três fases: cogitação, preparação e execução.
Na avaliação dele, o agricultor estaria, a princípio, apenas cogitando o crime nas conversas com o ChatGPT.
“A preparação envolve atos materiais, como comprar uma arma ou adquirir veneno. Já a execução começa quando esse plano passa efetivamente a ser colocado em prática”, explica.
Em regra, afirma o especialista, nem a cogitação nem os atos meramente preparatórios são puníveis. Há exceções, porém, quando um ato preparatório configura um crime autônomo. É o caso, por exemplo, da posse ilegal de arma de fogo: ainda que nenhum homicídio seja praticado, a pessoa pode responder pelo crime relacionado à arma.
Em Minority Report, tecnologia aliada à mente dos precogs (pessoas capazes de sonhar prevendo o futuro), era capaz de prever crimes, possibilitando que eles fossem antecipados
Getty Images/BBC
Glitz ressalta, contudo, que a distinção entre preparação e execução nem sempre é simples e que há discussões na doutrina e na jurisprudência sobre o momento em que se considera iniciado o ato de execução, especialmente em situações em que esperar pelo “último ato” poderia expor a vítima a um risco elevado.
Segundo ele, no caso do agricultor, essa distinção depende do que a investigação conseguir comprovar além das conversas.
“Será preciso analisar o caso concreto, o que as conversas anteriores indicavam, se existiam outros elementos, como materiais apreendidos, compra de substâncias ou outros atos que indiquem que ele avançava para uma execução. Isso será objeto de discussão jurídica.”
Um novo caminho para a polícia
O caso é inédito para a própria polícia.
Andrade, que atua na Delegacia de Crimes Cibernéticos desde 2018, afirma que já está acostumado a investigar crimes envolvendo ambientes digitais, como abuso e exploração sexual infantil online, ameaças no ambiente escolar e crimes praticados por meio de redes sociais.
Mas, até então, não havia recebido um alerta de uma ferramenta de inteligência artificial que pudesse levar à identificação de um possível crime.
“A gente descobriu que era o primeiro caso do Espírito Santo e o terceiro do país. E, nas palavras do próprio Ministério da Justiça, ‘de longe, o caso mais grave'”, afirmou.
Para ele, comunicação feita pela plataforma abre uma nova possibilidade para a investigação policial: identificar situações de risco antes que uma conduta criminosa seja efetivamente praticada.
“É mais um caminho para a polícia para tentar saber se pessoas pesquisaram crimes na inteligência artificial. Acredito que, pelo menos no caso que envolve violência ou grave ameaça, risco de integridade à vida, as plataformas vão fazer essa comunicação, o que já facilita muito o trabalho da polícia”, afirmou, ressaltando, porém, que isso não substitui o trabalho de investigação.
Para Luiz D’Urso, advogado especialista em direito digital, o episódio chama atenção justamente por mostrar uma nova forma de interação entre plataformas de inteligência artificial e autoridades policiais.
Segundo ele, sistemas automatizados podem identificar conteúdos potencialmente perigosos, mas a decisão de comunicar um caso às autoridades deve ser submetida a uma avaliação humana e feita com muita cautela.
“Não é possível permitirmos que a IA faça uma denúncia diretamente à autoridade policial para essa tomar providências, porque alguém precisa ver se aquele conteúdo é verdadeiro. Caso contrário, nós podemos ter uma avalanche de denúncias falsas chegando à polícia por alucinações, interpretações erradas”, destaca.
No caso do agricultor, D’Urso considera que havia elementos suficientes para justificar a preocupação da plataforma. Mas afirma que situações como essa também mostram a necessidade de uma legislação brasileira que consiga contemplar essas mudanças provocadas pela inteligência artificial.
Para Patricia Peck, professora da ESPM e especialista em Direito Digital, o episódio também mostra uma mudança no papel das ferramentas de inteligência artificial, que deixaram de ser apenas instrumentos de geração de conteúdo e passaram a funcionar como ambientes de interação capazes de identificar padrões associados a situações de risco.
“Quando uma conversa deixa de representar uma mera intenção abstrata e passa a indicar uma ameaça concreta, com vítima identificável, meios disponíveis e risco iminente, surge um dever ético e, em determinadas circunstâncias, jurídico de atuação”, afirma.
Segundo Peck, o critério deve ser proporcional ao risco: quanto maior a probabilidade de dano imediato a terceiros, maior a legitimidade para acionar mecanismos de segurança.
“A ética aplicada à IA não deve partir da lógica de ‘monitorar tudo’, mas sim da lógica de ‘intervir apenas quando o risco justificar’. O desafio é evitar tanto a omissão quanto o excesso de vigilância”, afirma.
*O nome do suspeito foi alterado para preservar a identidade da criança envolvida no caso.
Agora no g1

Conheça o abacaxi que dura mais tempo após a colheita

Abacaxi BRS Sol Bahia
Embrapa
O produtor Fábio Roberto, de Seringueiras (RO), plantou um pé de abacaxi e agora tem uma dúvida: qual é o momento certo de colher o fruto para comercialização?
Um dos principais sinais está na coloração da casca. A mudança de cor indica o avanço da maturação e ajuda o produtor a definir quando retirar o fruto da planta, levando em consideração também o tempo necessário para transporte e comercialização.
Além do ponto de colheita, outro desafio é fazer com que o abacaxi mantenha a qualidade por mais tempo depois de sair da lavoura.
Uma das alternativas desenvolvidas pela Embrapa é a BRS Sol Bahia, variedade mais nova que apresenta maior resistência após a colheita, inclusive quando o fruto já está mais amarelado.
A BRS Sol Bahia foi lançada inicialmente para cultivo no semiárido de Minas Gerais e da Bahia, mas já existem estudos para avaliar o desempenho da variedade em outras regiões do Brasil.
Onde encontrar mudas e orientações
Produtores interessados na BRS Sol Bahia devem procurar a Embrapa para obter informações sobre pontos de comercialização de mudas próximos à sua região.
A instituição também disponibiliza publicações técnicas com orientações sobre o plantio, manejo e colheita do abacaxi, que podem ajudar o produtor desde a implantação da lavoura até a comercialização dos frutos.
📱 Acesse aqui todas as informações
De onde vem a manga

Balde Cheio: programa da Embrapa ajuda pequenas propriedades a melhorar produção de leite

Imagem ilustrativa de um produtor enchendo um balde de leite.
Shutterstock
Pequenos produtores de leite de todo o país podem participar do Balde Cheio, programa da Embrapa que busca melhorar a eficiência e a rentabilidade da atividade leiteira por meio da capacitação de técnicos de extensão rural.
Na prática, as propriedades participantes se transformam em uma espécie de sala de aula a céu aberto. Nelas, técnicos e produtores acompanham a aplicação de mudanças pensadas de acordo com a realidade de cada fazenda.
A proposta é identificar o que pode ser aprimorado na propriedade e adotar técnicas que contribuam para tornar a produção de leite mais eficiente e rentável, considerando as condições e os recursos disponíveis em cada local.
A Embrapa disponibiliza gratuitamente uma publicação sobre o Balde Cheio, com informações sobre o funcionamento do programa e orientações para quem deseja participar.
📱Acesse aqui
Carimbo na carne: saiba o que significa e se ele oferece riscos

Banco Central decreta liquidação extrajudicial de duas empresas do grupo Simpala

Banco Central do Brasil (BC).
Adriano Machado/ Reuters
O Banco Central do Brasil (BC) decretou mais uma liquidação extrajudicial nesta sexta-feira (14). Dessa vez, as instituições afetadas foram a Simpala Lançadora e Administradora de Consórcios e a Simpala S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, ambas com sede em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul (RS).
A liquidação extrajudicial normalmente é adotada quando a instituição não tem condições de continuar operando e é encerrada, sob supervisão do BC, sem passar por um processo de recuperação tradicional.
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Segundo o Banco Central, a decisão foi tomada porque a situação financeira das empresas se deteriorou e porque foram identificadas infrações graves às regras que regulam suas atividades. O BC, no entanto, não deu mais detalhes sobre quais violações seriam essas.
Agora no g1
O órgão afirmou ainda que havia risco para credores sem garantias específicas, conhecidos no mercado como credores quirografários.
Apesar da intervenção, o BC destacou que as duas empresas têm participação pequena em seus respectivos mercados. A administradora de consórcios responde por cerca de 0,1% dos consorciados ativos do país, enquanto a financeira detinha 0,004% dos ativos do sistema financeiro nacional em junho deste ano.
No caso da financeira, os depósitos e investimentos cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) continuam protegidos dentro dos limites previstos pelo fundo.
Entenda o que é o FGC
O BC informou, ainda, que continuará a investigar quem foram as pessoas responsáveis pelos problemas que levaram à liquidação das empresas, apurando se houve descumprimento de leis ou normas regulatórias.
“O resultado das apurações poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes”, afirmou o BC em nota divulgada nesta sexta-feira (14).
Pela legislação, os bens dos controladores e ex-administradores das instituições ficam indisponíveis a partir da decretação da liquidação.
Quem é o Grupo Simpala?
Com um histórico de 50 anos de atuação, o Grupo Simpala tem pelo menos quatro empresas voltadas para serviços financeiros.
Além da Simpala Financeira e da Simpala Consórcios, que tiveram suas atividades encerradas pelo BC, o grupo ainda conta com a Simpala Promotora, voltada para intermediação de crédito, e a Simpala Seguros — que, segundo a empresa, tem R$ 1 bilhão em patrimônios segurados.

Processo de reciprocidade é político e decisão ficará para o próximo governo, pondera ministro

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcio Elias Rosa, vê um longo processo, que pode chegar a 9 meses, antes de o governo brasileiro definir tarifas de reciprocidade aos EUA pelo tarifaço imposto nas últimas semanas.
Na prática, a decisão ficará para o próximo governo e tem, agora, um sinal político.
O governo brasileiro informou nesta quinta-feira (13) que deu início ao processo para aplicar medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos por conta das tarifas impostas pelo governo norte-americano a produtos brasileiros.
➡️ A Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Lula (PT) em 2025, é um mecanismo que permite ao país aplicar a outra nação as mesmas medidas, restrições ou tarifas que sofreu por parte dela.
A sinalização dada pelo governo é de que o Brasil usa os canais diplomáticos e os organismos formais e multilaterais, enquanto o governo Trump tomas decisões unilaterais e baseadas no desejo do presidente.
Governo Brasileiro anuncia abertura do processo para adotar medidas de reciprocidade em resposta ao tarifaço americano
Ao blog, o ministro Marcio Elias Rosa disse na manhã desta sexta-feira (14)que há uma primeira fase de análise de 60 dias, mas o processo todo é longo e deve adentrar 2027.
“A lei não estabelece prazos peremptórios e a deliberação pode levar cerca de 9 meses. Mas a qualquer tempo, iniciado o processo, o Brasil pode tomar alguma medida em caráter de urgência”, afirma ele, deixando a porta aberta para decisões em resposta ao tarifaço.
O principal sinal enviado ao governo Trump é de que o Brasil quer avançar na negociação para redução das tarifas.
Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, durante o programa “Bom Dia, Ministro”, na EBC
Júlio César Silva/MDIC
O que é a Lei da Reciprocidade?
Na prática, se um governo estrangeiro impõe sanções ou barreiras unilaterais “injustas”, o Brasil usa a Lei de Reciprocidade para reagir na mesma moeda, adotando restrições equivalentes para reequilibrar as relações e proteger a economia.
A lei foi aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em abril do ano passado. Antes da lei, não havia um arcabouço que permitia ao governo retaliar outro país por medidas dessa natureza — somente recurso à Organização Mundial do Comércio (OMC).
Entre as contramedidas previstas estão a possibilidade da imposição de direito de natureza comercial incidente sobre importações de bens ou de serviços de país ou bloco econômico e a suspensão de concessões ou outras obrigações do Brasil em relação a direitos de propriedade intelectual firmados em acordos comerciais.