China e Irã estão entre países que utilizaram IA para espionagem, diz Anthropic

Anthropic bloqueia uso de IA em pesquisa de armas biológicas
A Anthropic anunciou nesta semana que encerrou várias operações de vigilância patrocinadas por Estados que utilizavam seus modelos de inteligência artificial (IA) e alertou que governos e atores alinhados a eles recorrem cada vez mais à IA para espionar minorias e dissidentes.
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Os incidentes tiveram origem na China, no Irã e na África Ocidental e foram detectados e interrompidos entre janeiro e julho, informou a empresa em um relatório sobre o uso indevido de seus modelos.
Essas campanhas de vigilância “visavam as mesmas comunidades da diáspora e dissidentes que esses regimes perseguem historicamente”, apontou o relatório.
Segundo a Anthropic, entre esses grupos estavam ativistas pró-democracia de Hong Kong, comunidades tibetanas e minorias e opositores do regime iraniano que vivem no exterior.
Em um dos casos, iranianos desenvolveram um método para identificar pessoas por meio de suas contas em redes sociais.
Anthropic
Reuters
Em outro, um contratado que trabalhava para as autoridades de segurança nacional do Mali utilizou o Claude “para projetar o software subjacente que permitiu a coleta de inteligência”.
A Anthropic também bloqueou tentativas de usuários de desenvolver armas, realizar pesquisas biológicas consideradas problemáticas e criar golpes românticos online.
A empresa, sediada em San Francisco, acusou ainda desenvolvedores chineses de utilizarem o Claude de forma enganosa para gerar respostas a consultas de usuários enquanto, simultaneamente, “destilavam” esses dados para aprimorar seus próprios modelos.
Destilação é um termo do setor que se refere a um processo no qual um modelo de IA é utilizado para treinar outro. Desenvolvedores chineses já foram acusados anteriormente de empregar essa técnica sem autorização.
Pesquisas biológicas suspeitas
Em relação às pesquisas ligadas a armas biológicas que a Anthropic detectou e bloqueou, a intenção dos envolvidos era menos clara, e a empresa não os identificou.
“As pessoas envolvidas nesses estudos de caso são cientistas. Não afirmamos que tivessem a intenção de causar danos. Identificá-las ou identificar seus laboratórios poderia expô-las a riscos”, afirmou o relatório.
Os estudos nesses casos estavam concentradas em trabalhos relacionados ao vírus chikungunya, transmitido por mosquitos; a uma cepa “altamente patogênica” de gripe aviária; a uma família de vírus que inclui a varíola e o mpox; além de venenos e outras toxinas.

PF conclui que houve fraude em compras de R$ 17,5 bilhões em carteiras do Master pelo BRB

Candidatos ao Senado do DF respondem sobre crise do BRB
A Polícia Federal (PF) concluiu que houve gestão fraudulenta de ex-dirigentes do Banco Regional de Brasília (BRB) em operações de compra que somaram R$ 17,5 bilhões em carteiras do banco Master — liquidado pelo Banco Central (BC).
A informação consta em laudo, cujo sigilo foi retirado na noite desta quinta-feira (10) pelo ministro André Mendonça, responsável pelas principais investigações relacionadas ao Banco Master que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF).
De acordo com o relatório da PF, o BRB dispunha de “sinais prudenciais, financeiros e reputacionais relevantes sobre o Banco Master, formalmente incorporados ao seu ambiente informacional, mas não demonstrou sua consideração no processo decisório”.
“Conclui-se, portanto, que o acervo permite caracterizar, sob a perspectiva técnico-pericial, a prática de gestão fraudulenta no processo de aquisição de carteiras do Banco Master, materializada pela manipulação da sequência de governança, pela formalização retrospectiva de controles, pela burla material ao regime de alçadas e pela continuidade objetiva das operações apesar de alertas prudenciais e fragilidades concretamente identificadas”, infoma a PF, no relatório.
Embora a PF tenha analisado operações que somam R$ 47,8 bilhões, os peritos concentraram a conclusão sobre gestão fraudulenta em 25 aquisições de carteiras aprovadas pela diretoria colegiada do BRB, que totalizaram R$ 17,5 bilhões.
Foto de 18 de novembro de 2025 mostra a fachada do prédio do Banco de Brasília (BRB)
Mateus Bonom/Reuters
‘Irregularidades’
Falha na análise do Master: A PF concluiu que o BRB não comprovou ter realizado uma “due diligence” (investigação detalhada e minuciosa) estruturada sobre o Banco Master, apesar de alertas internos e externos sobre riscos de liquidez, capital e modelo de negócios.
Pagamentos antes dos pareceres: Os peritos identificaram 22 operações que somaram R$ 7,63 bilhões em que pareceres técnicos foram emitidos apenas depois dos pagamentos, invertendo o rito normal de controle interno.
Fracionamento de operações: Segundo a PF, as operações foram sucessivamente mantidas no limite de R$ 750 milhões para evitar análise agregada pelo conselho de administração.
Concentração de risco no Master: A perícia concluiu que o BRB concentrou parcela relevante de sua exposição em uma única contraparte, o Banco Master, elevando o risco institucional das operações.
Alertas de liquidez: Relatórios internos apontavam riscos de liquidez, capitalização e desenquadramentos prudenciais decorrentes das compras de carteiras, mas as aquisições continuaram sendo aprovadas
Problemas apontados: Grupo criado pelo próprio BRB identificou fragilidades relacionadas a lastro, documentação, averbações, repasses financeiros e cadeia de originação dos créditos adquiridos.
Alertas: Mesmo depois da formalização dos alertas internos e dos relatórios do Grupo de Trabalho, a diretoria colegiada manteve a estratégia de aquisição de carteiras do Master.
Responsabilização
A Polícia Federal apontou a participação de seis ex-integrantes da diretoria colegiada nas aprovações das carteiras do Master.
Segundo os peritos, os dirigentes presentes nas reuniões ficaram vinculados documentalmente às decisões aprovadas por unanimidade.
O laudo afirma que eles participaram de deliberações sobre continuidade das operações, novas aquisições, flexibilização de alertas de risco e complementação posterior de documentos. São eles, junto ao cargo que ocupavam no banco:
Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa – Presidente
Cristiane Maria Lima Bukowitz – Diretora Executiva de Gestão de Pessoas
Dario Oswaldo Garcia Junior – Diretor Executivo de Finanças e Controladoria
Luana de Andrade Ribeiro – Diretora Executiva de Controle e Riscos
Diogo Ilário de Araújo Oliveira – Diretor Executivo de Atacado e Governo
José Maria Correa Dias Junior – Diretor Executivo de Tecnologia
O diretor jurídico Jacques Mauricio Ferreira Veloso de Melo não foi vinculado às aprovações porque, segundo as atas analisadas, não tinha direito a voto ou estava ausente nas deliberações.

Banco Master e BRB: PF aponta pagamentos antecipados, compras fracionadas e falhas nos controles

Entrada do BRB, Banco de Brasília, em 18 de novembro de 2025.
Reuters/Mateus Bonomi
A relação entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) ganhou novos contornos nesta semana, após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantar o sigilo das principais investigações sobre o caso.
Nos documentos, a Polícia Federal (PF) apresenta novos elementos que sustentam a linha de investigação segundo a qual grande parte dos créditos comprados pelo BRB do Banco Master estaria ligada a operações irregulares. Os investigadores também apontam que as negociações continuaram mesmo diante de sinais de fraudes e inconsistências nas carteiras.
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Na prática, o laudo aponta que o BRB pagava por carteiras de crédito antes mesmo da conclusão das análises técnicas obrigatórias que deveriam avaliar a qualidade desses ativos.
Segundo os peritos, a diretoria do banco continuou aprovando novas operações mesmo após alertas internos sobre problemas de documentação, liquidez e inconsistências identificadas nas carteiras negociadas.
Entenda a cronologia dos fatos e como se desenrolou a relação entre Master e BRB:
BRB já havia recebido alertas sobre riscos no Master
BRB pagou antes de analisar o que havia nas carteiras
Compras foram divididas para ficar no limite da diretoria
Documentos, repasses e cobranças sob suspeita
PF aponta um padrão de ‘gestão fraudulenta’
Agora no g1
BRB já havia recebido alertas sobre riscos no Master
Quando o BRB começou a ampliar a compra de carteiras de crédito do Banco Master, já existiam sinais de alerta sobre a situação da instituição.
As primeiras advertências não apontavam necessariamente para uma situação de insolvência, mas indicavam que o crescimento acelerado, a estrutura financeira e o modelo de negócios do Master deveriam ser examinados com atenção.
🔎 Em outubro de 2023, a Fitch Ratings, agência especializada em avaliar a capacidade de empresas e governos de pagar suas dívidas, melhorou a nota atribuída ao Banco Master. Apesar disso, ela destacou a volatilidade dos resultados, a complexidade do modelo de negócios e a exposição a ativos de baixa liquidez.
Ainda assim, as compras de carteiras do Master pelo BRB começaram a ganhar escala em 17 de julho de 2024. Naquele dia, a diretoria do BRB autorizou o banco a gastar até R$ 750 milhões na aquisição desses créditos. A decisão abriu uma série de novas compras, que cresceriam nos meses seguintes.
Nesse mesmo período, a própria área técnica do BRB passou a registrar sinais que exigiam atenção.
Pareceres de setembro e dezembro de 2024 apontaram que os ativos do Master haviam crescido 83,5% em apenas 12 meses, chegando a R$ 50,9 bilhões. A carteira de crédito avançou 81,6%, para R$ 21 bilhões, enquanto a reserva destinada a cobrir possíveis calotes aumentou 82,9%.
🚨 Os técnicos também classificaram como “muito baixo” o Índice de Basileia do Master, indicador que mostra a capacidade de um banco de absorver riscos e eventuais perdas. Além disso, destacaram que o caixa correspondia a menos de 10% dos depósitos e que o Master dependia fortemente de plataformas de investimento para captar dinheiro.
Outro relatório, produzido pela RISKBank/Eleven em novembro de 2024, apontou que o volume de crédito do Master equivalia a 7,4 vezes seu patrimônio líquido. O documento também chamou a atenção para o caixa reduzido e para a estratégia comercial agressiva do banco.
Segundo a perícia da PF, embora essas informações estivessem disponíveis dentro do BRB, não foram encontrados documentos que comprovassem uma avaliação ampla, independente e organizada dos riscos de concentrar tantos negócios no Banco Master.
“A resposta é afirmativa quanto à existência e à circulação das informações de risco, mas negativa quanto à sua adequada conversão em diligência e em condicionamento efetivo das operações”, afirmaram os peritos.
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BRB pagou antes de analisar o que havia nas carteiras
Além dos riscos que já haviam sido identificados no Banco Master, a Polícia Federal apontou outro problema na relação entre as duas instituições: o BRB liberou dinheiro para comprar carteiras de crédito antes que suas áreas técnicas terminassem de examiná-las.
O procedimento esperado seria o contrário. Antes de efetuar o pagamento, as equipes responsáveis por analisar riscos, preços, documentos e impactos financeiros deveriam verificar o conteúdo das carteiras e avaliar se a compra era segura e vantajosa para o BRB.
🔎 Essas análises permitiriam conferir se os créditos existiam e estavam devidamente documentados, avaliar o risco de calote, verificar se o preço cobrado era adequado, exigir garantias ou até recomendar que a compra não fosse realizada.
Segundo a perícia, porém, essa lógica foi invertida em parte das operações com o Banco Master: o BRB desembolsava os recursos primeiro e concluía apenas depois as análises que deveriam embasar a decisão de compra.
A PF examinou 84 compras de carteiras de crédito destinadas a pessoas físicas, que somaram R$ 17,58 bilhões. Em 22 dessas operações, no valor total de R$ 7,63 bilhões, pelo menos uma das avaliações técnicas obrigatórias só foi concluída depois do pagamento.
👉 Isso significa que mais de uma em cada quatro compras foi paga antes do término de todas as análises. Em valores, essas operações representaram 43,41% dos R$ 17,58 bilhões desembolsados pelo BRB nas compras examinadas.
As avaliações concluídas com atraso tratavam de pontos essenciais para decidir se o negócio deveria ou não ser realizado, como:
a existência dos créditos e a qualidade das carteiras;
a possibilidade de os empréstimos não serem pagos;
a adequação do preço cobrado;
o impacto da compra sobre o dinheiro disponível no caixa do BRB;
a necessidade de exigir garantias do vendedor;
a existência e a regularidade dos contratos;
a forma correta de registrar as operações nas contas do banco e calcular os impostos envolvidos.
Para os peritos, uma análise concluída depois do pagamento perde sua principal função. Quando o dinheiro já saiu, não é mais possível impedir o negócio, reduzir seu valor, renegociar o preço ou exigir garantias antes da compra.
“A assinatura posterior não supre a ausência de controle tempestivo: transforma instrumento de prevenção e suporte à decisão em manifestação predominantemente ex post”, afirma o laudo.
Outros casos em que o BRB pagou antes das aprovações e análises necessárias:
O pagamento, em novembro de 2024, de R$ 209,32 milhões por uma operação com o Master um dia antes de a diretoria autorizar o negócio;
Outro pagamento de R$ 473,49 milhões, feito em janeiro de 2025. As áreas de Contabilidade e Risco só concluíram suas análises 11 e 14 dias depois do pagamento, respectivamente.
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Compras foram divididas para ficar no limite da diretoria
Segundo a PF, o BRB dividiu as compras de carteiras do Banco Master em operações menores. Dessa forma, cada negócio permanecia dentro do valor que a diretoria do banco podia autorizar sem consultar o Conselho de Administração.
A Diretoria Colegiada podia decidir sozinha sobre operações de até R$ 750 milhões. Acima desse valor, a compra deveria ser analisada pelo conselho, órgão responsável por decisões de maior impacto para o banco.
O laudo mostra que a diretoria autorizou 25 operações que, juntas, somaram R$ 17,5 bilhões. Dessas, 21 foram fixadas exatamente no limite de R$ 750 milhões.
Em janeiro de 2025, por exemplo, o BRB autorizou quatro compras de R$ 750 milhões, num total de R$ 3 bilhões. Algumas dessas decisões foram tomadas com apenas dois dias de intervalo.
Para os peritos, a repetição do mesmo valor, o curto espaço de tempo entre as compras e o fato de todas envolverem o Banco Master indicam que os negócios faziam parte de uma estratégia única.
Analisadas separadamente, as operações permaneciam dentro do limite da diretoria. Consideradas em conjunto, deveriam ter sido submetidas ao Conselho de Administração.
A PF também analisou as atas das reuniões da Diretoria Colegiada para identificar quem estava presente, quem tinha direito a voto e como cada operação foi aprovada.
Segundo a perícia, as decisões examinadas foram tomadas por unanimidade entre os diretores presentes que podiam votar. As atas não registram votos contrários nem abstenções.
Entre os dirigentes citados pela PF como participantes das decisões estavam:
Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa, presidente do BRB;
Cristiane Maria Lima Bukowitz, diretora-executiva de Gestão de Pessoas, que também respondeu temporariamente pela Presidência e pela Diretoria de Operações;
Dario Oswaldo Garcia Junior, diretor-executivo de Finanças e Controladoria;
Luana de Andrade Ribeiro, diretora-executiva de Controle e Riscos;
Diogo Ilário de Araújo Oliveira, diretor-executivo de Atacado e Governo;
José Maria Correa Dias Junior, diretor-executivo de Tecnologia.
O nome do diretor jurídico Jacques Mauricio Ferreira Veloso de Melo também consta nas atas das reuniões. Ele estava presente, mas não tinha direito a voto. Por isso, a perícia afirma que os documentos analisados não permitem vinculá-lo às decisões que autorizaram as compras.
“A segmentação manteve cada ato dentro da alçada formal da Diretoria, mas suprimiu do CONSAD [Conselho de Administração] a apreciação integrada de uma estratégia contínua, concentrada e equivalente a 23,3 alçadas individuais da DICOL [Diretoria Colegiada]. A forma documental preservou aparência de regularidade; a substância econômica revelava decisão agregada de materialidade muito superior.”
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Documentos, repasses e cobranças sob suspeita
Em fevereiro de 2025, o BRB criou um grupo de trabalho para verificar as carteiras de crédito compradas do Banco Master.
O primeiro relatório, concluído em abril do ano passado, apontou problemas que dificultavam confirmar se os empréstimos existiam, estavam devidamente documentados e poderiam ser cobrados.
Entre os achados estavam:
dados fictícios e controles feitos manualmente em planilhas;
falta de acesso aos documentos que formalizavam os empréstimos;
ausência de comprovação de que as parcelas seriam descontadas na folha de pagamento dos clientes;
contratos gerados e assinados pelo próprio Master, sem a assinatura dos clientes, na amostra analisada;
divergências financeiras que chegavam a R$ 1,39 bilhão em valores brutos.
Mesmo depois desse relatório, a diretoria do BRB autorizou mais R$ 2 bilhões em compras de carteiras ao longo de abril.
Ainda naquele mês, técnicos do BRB fizeram uma inspeção no Banco Master e identificaram R$ 15,5 milhões em parcelas já pagas por clientes, mas ainda não repassadas ao banco público.
Segundo o parecer do grupo de trabalho do BRB, o Master reconheceu parte da diferença e transferiu R$ 14,37 milhões durante a visita.
O documento final, concluído em 19 de maio, mostrou que as pendências eram ainda maiores.
Havia R$ 265,9 milhões em repasses devidos pelo Master e mais de 1 milhão de parcelas vencidas e ainda em aberto, que somavam R$ 316,5 milhões. Os técnicos também relataram falta de documentos e dificuldades para comprovar a origem dos créditos e o caminho percorrido por eles até chegarem ao BRB.
As descobertas, porém, não interromperam os negócios. Segundo o laudo da PF, o BRB pagou mais R$ 5,23 bilhões ao Master depois que os relatórios internos já haviam apontado problemas nas carteiras.
Os pagamentos também continuaram apesar da piora da situação financeira do próprio BRB. Depois do primeiro alerta formal de que o banco estava com menos dinheiro disponível no curto prazo do que o limite considerado seguro, foram desembolsados outros R$ 7,42 bilhões.
A perícia cita nominalmente Luana de Andrade Ribeiro, então diretora-executiva de Controle e Riscos, por ter assinado os comunicados formais sobre a piora do indicador de liquidez e participado de decisões posteriores sobre novas compras.
Segundo o laudo, Luana votou favoravelmente em operações aprovadas depois desses alertas, inclusive em decisões tomadas durante a flexibilização temporária dos limites de risco do BRB.
Com as novas compras, o BRB ficou cada vez mais dependente do Master.
Em junho de 2025, 90,31% das carteiras adquiridas pelo banco público estavam concentradas no Master. Dos R$ 21,91 bilhões mantidos nessas operações, R$ 19,78 bilhões estavam ligados à instituição.
Em termos simples, de cada R$ 10 mantidos pelo BRB nessas carteiras, cerca de R$ 9 estavam concentrados no Master.
A liberação de recursos com documentos ainda pendentes continuou aparecendo nas comunicações internas.
Em 22 de agosto de 2025, duas operações que somavam R$ 45,9 milhões avançaram mesmo sem a assinatura do termo da transação e antes da conclusão da análise da área de Risco.
Uma mensagem enviada às 17h56 informava que a operação já havia sido registrada na B3, mas que o termo ainda aguardava assinatura. Quatro minutos depois, Dario Oswaldo Garcia Junior, então diretor-executivo de Finanças e Controladoria, respondeu: “Pode seguir com a liquidação”.
Segundo a perícia, Dario chefiava a área que apresentava as propostas de compra à diretoria e era o destinatário institucional dos relatórios produzidos pelo grupo de trabalho. O parecer da área de Risco sobre essa operação só foi concluído seis dias depois.
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PF aponta um padrão de ‘gestão fraudulenta’
Para a Polícia Federal, os episódios descritos no laudo não representam falhas isoladas. Ao analisar as operações em conjunto, os peritos concluíram que os mesmos problemas se repetiram em diferentes etapas da relação entre o BRB e o Banco Master.
A análise abrangeu R$ 47,78 bilhões em operações entre as duas instituições. Desse total, R$ 31,74 bilhões correspondiam a negócios em que o Master vendia carteiras de crédito ao BRB.
A perícia identificou uma sequência de práticas que se repetiram ao longo das operações:
pagamentos feitos antes da conclusão das análises técnicas;
pareceres finalizados depois que o dinheiro já havia sido liberado;
compras divididas em valores menores para permanecer dentro do limite de decisão da diretoria;
falta de uma avaliação ampla e independente sobre os riscos de negociar com o Master;
concentração excessiva das compras em uma única instituição;
continuidade dos pagamentos mesmo depois de alertas financeiros e de problemas encontrados nas carteiras.
Na avaliação dos peritos, as compras continuaram enquanto etapas criadas para analisar os riscos, autorizar as operações e controlar a saída de dinheiro eram contornadas ou concluídas somente depois dos pagamentos.
A repetição dessa prática levou a perícia a afirmar que havia elementos técnicos e documentais suficientes para caracterizar “gestão fraudulenta” no processo de compra das carteiras do Master.
🔎 Segundo a PF, a conclusão não se baseia apenas no risco ou no possível prejuízo das operações, mas em mecanismos que teriam sido usados repetidamente para reduzir a eficácia dos controles internos do BRB.
“A utilização reiterada da forma para encobrir ou neutralizar a substância decisória […] configura, sob a perspectiva técnico-pericial, padrão compatível com gestão fraudulenta, e não apenas com gestão temerária”, afirma o laudo.
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Infográfico – Entenda a polêmica dos CDBs do Banco Master
Arte/g1

Greve do Banco do Brasil termina na maior parte do país após aprovação de acordo

Funcionários do Banco do Brasil e da Caixa entram em greve por tempo indeterminado em SE.
Arquivo pessoal
Os funcionários do Banco do Brasil aprovaram, na tarde desta sexta-feira (11), a proposta de Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) negociada com o banco.
A decisão foi tomada pela maioria das bases sindicais do país e deve encerrar a greve na maior parte das regiões. A paralisação, porém, continuará em locais que rejeitaram a proposta.
Segundo a Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (CEBB), a proposta foi aprovada em importantes bases sindicais, como Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Pernambuco, Porto Alegre, Mato Grosso, Florianópolis, Alagoas, ABC Paulista, Rondônia, Sergipe e Campinas. Cerca de 18 entidades rejeitaram o acordo.
O resultado altera o cenário registrado no início da greve. Na quinta-feira (10), quando os funcionários iniciaram a paralisação por tempo indeterminado, o movimento estava concentrado justamente nas bases que haviam rejeitado a proposta apresentada pelo banco.
Entre elas estavam Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Pernambuco e Florianópolis. Menos de 24 horas depois, essas regiões realizaram novas assembleias e aprovaram o acordo.
⚠️ Apesar da aprovação pela maioria das bases, a greve não chega ao fim em todo o país. Isso ocorre porque cada sindicato tem autonomia para decidir se aceita ou rejeita a proposta. As decisões são tomadas individualmente por cada base sindical, que realiza assembleias para definir os próximos passos do movimento.
Agora no g1
Na prática, os sindicatos que aprovaram a proposta vão assinar o ACT e encerrar a paralisação. Já aqueles que rejeitaram o acordo permanecem em greve e defendem a retomada das negociações.
Entre os locais que devem continuar mobilizados estão Angra dos Reis e bases da Bahia.
A representação dos trabalhadores informou que ainda não havia o resultado consolidado de todas as 18 entidades que rejeitaram a proposta, mas a expectativa é de que a maioria permaneça em greve enquanto avalia os próximos passos do movimento.
A tendência, segundo representantes da categoria, é que essas bases realizem novas assembleias nos próximos dias. Algumas defendem a reabertura das negociações com o banco. Outras estudam formas de pressionar por mudanças na proposta.
O que levou à greve
A greve dos funcionários do Banco do Brasil começou nesta quinta-feira (10), por tempo indeterminado, depois que parte das bases sindicais rejeitou a proposta apresentada pelo banco para a renovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT).
A paralisação do BB, desde o início, foi diferente da greve da Caixa Econômica Federal. No Banco do Brasil, o movimento não foi nacional: a greve ficou restrita às bases sindicais que não haviam aprovado o acordo.
Isso aconteceu porque a negociação dos bancários envolve dois níveis. A Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), que estabelece regras gerais para a categoria, foi negociada pela Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) e assinada na quarta-feira (9). Já os funcionários do Banco do Brasil também negociam cláusulas específicas com o próprio banco, por meio do ACT.
A nova CCT vale para a categoria bancária em todo o país e reúne cerca de 414 mil bancários de 171 bancos.
O acordo foi assinado por 245 entidades sindicais e prevê reposição integral da inflação medida pelo INPC, além de aumento real de 0,6% nos próximos dois anos. O reajuste também vale para verbas como vale-alimentação, vale-refeição, PLR e auxílios.
Além dos reajustes, a convenção inclui medidas relacionadas à saúde mental, combate ao assédio, direito à desconexão fora do horário de trabalho e regras de transparência e limites para o monitoramento digital dos funcionários.
No caso do Banco do Brasil, porém, ainda era necessário que as bases sindicais avaliassem a proposta específica negociada com o banco. Na primeira rodada de assembleias, 39 bases aprovaram o acordo, enquanto outras 60 entidades rejeitaram a proposta.
Foi justamente nas bases que não haviam aprovado o acordo que a greve começou na quinta-feira.
Com a retomada das negociações e a realização de novas assembleias nesta sexta-feira (11), o cenário mudou. A proposta foi aprovada pela maioria das bases.
Com a aprovação, essas bases devem assinar o ACT e encerrar a paralisação. Já os sindicatos que mantiveram a rejeição continuam em greve.
Entre os avanços previstos no acordo estão o crédito da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) em até 72 horas após a assinatura do ACT por todas as bases, um reconhecimento financeiro de R$ 3 mil para o público definido na Campanha de Adimplência 2026 e avanços no Plano de Carreira e Remuneração (PCR).
A proposta também prevê a ampliação da licença-paternidade para 35 dias, melhorias para pessoas com deficiência, ações afirmativas e outras cláusulas sociais.
Outro ponto é o abono da paralisação realizada em 20 de agosto.
Segundo Fernanda Lopes, coordenadora da Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (CEBB), o resultado foi fruto de um ciclo de negociação marcado por participação e mobilização dos trabalhadores.
Bancários do Banco do Brasil e da Caixa entram em greve por tempo indeterminado na Paraíba
Renan Mesquisa/CBN
E a Caixa?
A situação da Caixa Econômica Federal é diferente da do Banco do Brasil.
Enquanto a greve do BB é parcial e está concentrada nas bases que rejeitaram o acordo, os funcionários da Caixa entraram em greve nacional por tempo indeterminado nesta quinta-feira (10).
A paralisação ocorreu depois que os trabalhadores rejeitaram a proposta de renovação do ACT apresentada pelo banco.
A negociação da Caixa trata de questões específicas dos empregados da instituição. A entidade que representa os trabalhadores nas negociações é a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), por meio da Comissão Executiva dos Empregados (CEE).
Segundo a Contraf-CUT, a proposta apresentada pela Caixa foi rejeitada por mais de 90% das bases sindicais em assembleias realizadas pelo país.
Um dos principais pontos de discordância é o Saúde Caixa, além de outras reivindicações apresentadas pelos trabalhadores desde junho.
A Caixa afirmou que mantém o diálogo aberto com as entidades representativas dos empregados e que retomou as negociações com o objetivo de chegar a um entendimento.
O banco também informou que, caso os trabalhadores não aprovem os termos dentro do prazo, poderá retirar a proposta e ingressar com um dissídio coletivo, levando a renovação do ACT para a Justiça.
O encerramento das negociações está previsto para esta sexta-feira.

IA da dona do ChatGPT fez outro ataque hacker antes de empresa revelar incidente 'sem precedentes', dizem pesquisadores

O logotipo da OpenAI é visto em um telefone celular em frente a uma tela de computador que exibe a tela inicial do ChatGPT
AP/Michael Dwyer, Arquivo
Agentes de inteligência artificial da OpenAI, dona do ChatGPT, fizeram outro ataque hacker dois meses antes de a empresa revelar uma invasão à plataforma de IA Hugging Face, informou nesta sexta-feira (11) um grupo de pesquisadores.
Segundo eles, a invasão descoberta agora aconteceu em maio e teve como alvo o serviço RubyGems, usado para compartilhar códigos da linguagem de programação Ruby, também conhecido como pacotes.
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
“Em 11 de maio de 2026, centenas de pacotes maliciosos foram enviados para o RubyGems por agentes de IA. Acreditamos que eles foram criados por agentes internos da OpenAI”, disseram os pesquisadores.
A OpenAI confirmou o ataque ao Wall Street Journal, mas disse que seus agentes usaram o RubyGems para acessar a internet “a fim de realizar tarefas inofensivas e obter informações públicas”.
Agora no g1
IA pode decidir atacar empresas? Entenda como foi a invasão por modelos da OpenAI
“Continuaremos investigando como parte de nossa análise mais ampla da atividade dos agentes durante o treinamento e a avaliação”, disse a OpenAI ao jornal.
A OpenAI só informou o primeiro caso do tipo em julho, quando afirmou que dois de seus modelos invadiram os sistemas da plataforma de inteligência artificial Hugging Face.
Na ocasião, a empresa disse que a invasão tinha sido feita por meio dos modelos GPT-5.6 Sol e outro que ainda não tinha sido lançado e que eles conseguiram acessar dados e credenciais internas.
O incidente aconteceu durante testes em que a OpenAI faz seus modelos buscarem falhas em outros sistemas para melhorarem as capacidades de cibersegurança. Eles estavam em ambiente controlado, mas conseguiram escapar das barreiras e acessar sistemas reais da Hugging Face.
No início de setembro, a dona do ChatGPT anunciou o GPT-6 Astra, modelo de inteligência artificial que promete mais cautela para cumprir instruções de usuários. Foi é o primeiro lançamento da empresa após a revelação do ataque à Hugging Face.
A empresa afirmou que o GPT-6 Astra é o seu modelo mais alinhado às ordens e mais preparado para executar tarefas de forma cuidadosa e respeito aos limites estabelecidos. Segundo a companhia, ele ajuda usuários a delegar tarefas sem abrir mão da supervisão.
O sistema também conta com uma espécie de “desligamento automático”, que permite interromper as tarefas ao detectar comportamento potencialmente não autorizado.

Como o Banco Master usou empresa de R$ 100 para simular R$ 7,15 bilhões em consignados, segundo a PF

Fachin dá 24 horas para Mendonça liberar sigilo de documentos do caso Master
Uma empresa criada com apenas R$ 100 de capital social, sem funcionários, sem movimentação bancária efetiva e sem estrutura operacional compatível com bilhões de reais em créditos foi usada pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro, para simular a origem de R$ 7,155 bilhões em empréstimos consignados, segundo a Polícia Federal.
A Tirreno aparecia nos documentos como responsável por originar e ceder as carteiras de crédito ao Master. Mas, segundo a perícia da PF, o dinheiro das cessões não foi efetivamente transferido para a empresa.
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Os valores eram registrados internamente pelo próprio banco, enquanto mais de 1 milhão de contratos eram lançados no sistema do Master para formar uma carteira de crédito atribuída à Tirreno.
A investigação identificou ainda padrões incomuns nesses contratos, empregadores com inconsistências cadastrais e a produção, dentro da própria estrutura do Master, de documentos em escala para dar suporte às operações.
Os créditos eram posteriormente revendidos ao Banco de Brasília (BRB), que inicialmente comprou as carteiras sem a devida checagem e, só mais tarde, passou a exigir documentos para comprovar a existência das operações.
Linha do tempo do esquema entre Master, Tirreno e BRB
De R$ 100 para R$ 30 milhões: capital cresceu no papel
A Tirreno começou como SX 016 Empreendimentos e Participações S.A., criada em 1º de outubro de 2024 com R$ 100 de capital social.
Apenas R$ 10 haviam sido efetivamente colocados na empresa: R$ 5 por cada um dos sócios fundadores, Daniel Moreira Bezerra e Katia Caroline Cunha Silva. Os outros R$ 90 ficaram previstos para pagamento posterior.
Em dezembro de 2024, a empresa mudou de nome e passou a se chamar Tirreno Consultoria Promotora de Crédito e Participações S.A. Também mudou de atividade e passou a atuar formalmente com consultoria de vendas e promoção de crédito.
Na mesma ocasião, foi aprovado um aumento de capital que elevaria o valor declarado da empresa de R$ 100 para R$ 30 milhões.
O valor seria colocado na empresa por Henrique S. S. Peretto em até 12 meses. Segundo a perícia da PF, porém, não foram encontradas evidências ou documentos de que os R$ 30 milhões tenham sido pagos.
O descompasso entre a estrutura formal da empresa e os contratos bilionários aparece também nas datas.
Até 15 de abril de 2025, quando as alterações societárias foram registradas na Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), a empresa ainda aparecia publicamente como SX 016, com apenas R$ 10 de capital efetivamente integralizado e voltada formalmente para participação em outras sociedades.
Mesmo assim, antes do registro dessas mudanças, a empresa já havia assinado contratos com o Banco Master que somavam quase R$ 6 bilhões.
André Felipe de Oliveira Seixas Maia assinou os 28 contratos de cessão de crédito em nome da empresa, embora seu nome só tenha passado a constar formalmente como diretor na Junta Comercial depois.
Ao todo, os 28 contratos, assinados entre 24 de dezembro de 2024 e 14 de maio de 2025, somavam R$ 7,155 bilhões. A perícia aponta ainda que as assinaturas foram reconhecidas em cartório de uma só vez, nos dias 13 e 14 de maio de 2025.
Em um lote de 26 contratos, referente a operações realizadas entre dezembro de 2024 e abril de 2025 e que somavam R$ 6,34 bilhões, o reconhecimento das firmas ocorreu somente em 13 e 14 de maio.
A PF classificou o achado como uma formalização cartorária tardia e apontou a necessidade de validação da cadeia documental.
A empresa não tinha estrutura para movimentar bilhões
A sede declarada da Tirreno ficava na Avenida Paulista, em São Paulo. Quando policiais foram ao endereço durante uma operação de busca e apreensão, encontraram apenas um espaço de coworking. A administração informou que a Tirreno nunca teve contrato ou vínculo com o local.
A investigação também não encontrou funcionários registrados, pagamentos de aluguel ou despesas operacionais.
Segundo a PF, a empresa não tinha registros de recolhimento de contribuições previdenciárias, não emitia nem recebia notas fiscais, não recolhia impostos federais e não mantinha os livros contábeis obrigatórios.
A quebra do sigilo fiscal, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, reforçou o cenário. Segundo o laudo, o cruzamento de dados da Receita Federal não identificou declarações de impostos, recolhimentos trabalhistas ou registros nos livros contábeis obrigatórios.
Quando o Banco Master pediu informações cadastrais da Tirreno, em 22 de maio de 2025, os campos de faturamento, patrimônio líquido, clientes, fornecedores e referências bancárias estavam zerados ou em branco.
Isso ocorreu depois de todas as 28 cessões bilionárias já terem sido formalizadas.
A primeira conta corrente registrada em nome da Tirreno no sistema financeiro foi aberta somente em 23 de maio de 2025, no próprio Banco Master, depois das cessões. Segundo a investigação, a conta permaneceu sem saldo e sem movimentação.
Como o dinheiro era registrado sem sair do Master
A relação entre o Banco Master e a Tirreno começou formalmente em 5 de dezembro de 2024, com um “Contrato de Parceria e Outras Avenças”. Pelo acordo, a Tirreno deveria originar e ceder ao Master carteiras de crédito consignado.
Os contratos de cessão previam que o Master pagaria pelos créditos por TED ou DOC para uma conta da Tirreno. Mas, segundo a perícia, os R$ 7,155 bilhões não foram efetivamente transferidos para a empresa.
Como a Tirreno sequer tinha uma conta bancária quando as principais operações foram realizadas, os valores eram registrados dentro do próprio Master, na Conta Interna Gerencial, sob a rubrica “VENDA DE ATIVOS”.
Segundo a PF, esses lançamentos eram registros gerenciais internos e não comprovavam que a Tirreno havia recebido os valores. Assim, o dinheiro não saía efetivamente da esfera de controle do Master.
O contrato previa ainda que os valores das operações fossem depositados em uma Conta Reserva do próprio Master e aplicados integralmente em CDBs do banco, que serviriam como garantia. Segundo a perícia, porém, nenhum CDB foi emitido e nenhuma garantia foi constituída.
Mais de 1 milhão de contratos foram lançados no sistema
Para dar suporte à carteira atribuída à Tirreno, foram registrados 1 milhão de contratos no Sistema Função 13, utilizado pelo Master para administrar os empréstimos consignados.
Os contratos estavam ligados a 347.904 CPFs e representavam uma carteira bruta futura de R$ 30,08 bilhões, considerando parcelas e juros que ainda venceriam.
Em outubro de 2025, os créditos atribuídos à Tirreno correspondiam a 64% de todos os recebíveis de crédito consignado administrados pelo Master no sistema.
Os registros apresentavam diferenças expressivas em relação aos demais contratos do banco.
Nenhum dos contratos da Tirreno tinha arquivo PDF anexado ao sistema, enquanto 98% dos demais possuíam essa documentação. Além disso, 74% dos contratos da Tirreno não tinham código de compensação bancária, contra 1% dos demais.
Os valores dos empréstimos também se repetiam de maneira incomum. Entre os 1.023.055 contratos ativos da Tirreno, havia apenas 629 valores diferentes de principal. Em média, cerca de 1.626 contratos repetiam exatamente o mesmo valor, até os centavos.
Um dos exemplos era o valor de R$ 30.266,73, que aparecia 41.301 vezes. Nos demais contratos analisados, o maior número de repetições de um único valor era 368.
A concentração também aparecia nos juros: a carteira da Tirreno tinha 1.252 valores diferentes, enquanto os demais contratos do banco tinham 913.554.
Em outro lote, referente a uma cessão de 2 de maio de 2025, 46.478 contratos tinham apenas nove preços de aquisição diferentes. Um deles, de R$ 9.864,64, aparecia 10.178 vezes.
Para a perícia, esse padrão era muito diferente do observado nos demais contratos consignados e indicava artificialidade na distribuição dos valores da carteira Tirreno.
Os supostos empregadores tinham inconsistências
Os 1.023.296 contratos estavam associados no sistema a apenas três códigos de empregador: Gov Bahia 2, Gov Bahia 3 e Convênios Diversos.
O código Gov Bahia 3 estava associado ao CNPJ 13.323.274/0001-63, correspondente à Secretaria da Administração da Bahia.
Já Gov Bahia 2 e Convênios Diversos utilizavam o CNPJ 74.755.772/0001-70. Segundo a PF, o número não existia na base oficial da Receita Federal.
Documentos eram produzidos dentro do próprio Master
Segundo a investigação, a Tirreno não tinha equipe ou tecnologia própria para originar os empréstimos. Dados de CPFs eram extraídos de bases internas do Master e usados para preparar arquivos destinados à produção dos documentos.
Programadores desenvolveram uma ferramenta chamada API Formalização PDF, em C#. Segundo a PF, o programa permitia retirar a segunda página, correspondente à assinatura, de PDFs de clientes reais e juntá-la a novas Cédulas de Crédito Bancário (CCBs).
Também eram produzidas procurações em lote. O gerente Allan da Silva Machado utilizava a ferramenta Mala Direta, do Microsoft Word, alimentada por planilhas, para gerar os documentos.
Depois, operadores organizavam os arquivos em pastas e realizavam assinaturas digitais em lote, com certificados corporativos e a ferramenta idtrust. A PF encontrou ainda registros de trabalho de madrugada e aos fins de semana relacionados à estruturação da operação.
Ou seja, documentos eram produzidos dentro da própria estrutura do Master e em escala, sem depender de uma operação convencional em que cada empréstimo fosse individualmente originado e documentado pela Tirreno.
Créditos eram revendidos ao BRB
Os créditos registrados no sistema eram revendidos ao Banco de Brasília (BRB), muitas vezes no primeiro dia útil seguinte.
Quando o BRB e a auditoria externa Deloitte passaram a exigir documentos que comprovassem a existência e o lastro dos créditos, como CCBs, procurações e termos de consentimento, a PF identificou a produção de documentos falsos para responder às cobranças.
A investigação encontrou a pasta “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”, com kits formados por CCB, procuração e termo.
Em 23 de junho de 2025, André Seixas Maia, pela Tirreno, enviou ao BRB um link do OneDrive com 1.785 desses kits.
Em uma conversa relacionada às cobranças da auditoria e presente no relatório da PF, o diretor Alberto Félix de Oliveira Neto orientou o funcionário Fabrizio Alencar a atribuir uma irregularidade encontrada nos contratos a um suposto erro operacional na seleção das amostras.
Alertas de risco foram baixados
A operação também passou pelos mecanismos internos de prevenção a fraudes do Master.
Ferramentas como E-Guardian, Neoway, Serasa e World Check classificaram a Tirreno como de alto risco para lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, em razão da movimentação bilionária registrada na conta interna gerencial e considerada incompatível com o perfil da empresa.
Segundo informação prestada à PF pelo superintendente executivo de Compliance do banco, porém, a análise da Tirreno não foi conduzida pelo Compliance interno. O trabalho foi entregue exclusivamente ao escritório externo Monteiro Rusu, contratado diretamente pela Diretoria e pela Tesouraria.
O escritório funcionava em uma sala reservada, de acesso restrito, no 10º andar do Banco Master, e tratava diretamente com a alta administração, sem participação, ciência, interação ou intervenção do Compliance interno.
Em 4 de julho de 2025, o Comitê Operacional de PLD/FTP decidiu pela baixa dos alertas de irregularidade e pela não comunicação ao COAF. Segundo a PF, participaram da decisão executivos como Alberto Félix de Oliveira Neto, Luiz Antônio Bull e Fábio de Souza Castanheira.
A justificativa incluía uma declaração verbal do próprio Alberto Félix de que as operações eram legítimas.
Daniel Vorcaro
Jornal Nacional/ Reprodução

Caso Master: relatório da PF expõe 'fábrica de documentos' para validar crédito vendido ao BRB

Camarotti: Queda de sigilo de documentos do caso Master eleva tensão para terça-feira
A Polícia Federal encontrou, em um HD obtido durante a Operação Compliance Zero, uma apresentação de PowerPoint que detalha uma espécie de “fábrica de documentos” criada por funcionários do Banco Master.
O esquema usava dados reais de clientes do programa de crédito CredCesta para forjar contratos e simular a cessão de R$ 7,15 bilhões em dívidas ao Banco de Brasília (BRB).
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Os créditos falsificados eram atribuídos à Tirreno Consultoria, uma empresa de fachada sem funcionários ou capacidade operacional, usada para mascarar a falta de lastro das operações.
Entre dezembro de 2024 e maio de 2025, Master e Tirreno firmaram 28 instrumentos de cessão de crédito consignado. A perícia da PF constatou que não houve liquidação financeira real nem transferência dos valores para contas de livre movimentação da Tirreno.
A empresa só abriu uma conta corrente posteriormente, mas ela permaneceu inativa. Os valores bilionários ficaram restritos a lançamentos escriturais internos em uma conta gerencial reservada do próprio Banco Master.
Esses papéis foram então repassados ao BRB, que aceitou os créditos mesmo diante das irregularidades.
O arquivo do HD encontrado descreve um fluxo que começava com a extração de dados de clientes e contratos dos sistemas do banco, passava pelo processamento dessas informações em softwares desenvolvidos especificamente para a tarefa e terminava na produção em escala de documentos financeiros.
Entre os documentos citados estão Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), Termos de Consentimento e Procurações. A apresentação também registra a retirada de datas e páginas de documentos, inclusive páginas de assinatura, além da solicitação de comprovantes de transferências financeiras sem informações que permitissem rastrear a operação.
Como funcionava a produção dos documentos
Um dos procedimentos identificados era a compilação de dados de clientes — como os vindos do CredCesta — por funcionários que tinham acesso aos sistemas da instituição.
Com os dados em mãos, funcionários do Master faziam uma “geração industrial de documentos financeiros”. O relatório descreve diferentes processos de produção: havia sistemas para criar CCBs e Termos de Consentimento e outro fluxo para gerar Procurações por meio de mala direta.
Também foram identificadas alterações em documentos. A apresentação registra a remoção de datas de Termos de Consentimento, a extração de páginas específicas e a separação de páginas de assinatura.
Em outro procedimento descrito, funcionários solicitavam comprovantes de transferências financeiras sem informações de rastreabilidade. Segundo a apresentação, o conjunto dessas atividades envolvia funcionários de diferentes áreas em uma “operação coordenada”.
Por que esses documentos eram importantes
As CCBs são documentos usados para formalizar uma dívida ou obrigação de pagamento. Já Termos de Consentimento e Procurações podem registrar autorizações e permitir que pessoas ou empresas atuem em nome de outras.
No caso investigado pela PF, esses documentos serviam para dar uma suposta legitimidade às carteiras de créditos que o Banco Master transferiu ao BRB.
Em uma cessão de crédito, uma instituição passa para outra o direito de receber determinadas dívidas. Para que esses créditos pudessem ser apresentados como válidos, era necessário haver documentos capazes de demonstrar a existência das operações e dos respectivos direitos de recebimento.
É nesse ponto que a estrutura descrita na apresentação se conecta à operação investigada. O material mostra um fluxo organizado para extrair informações, transformá-las em documentos e reunir registros que davam suporte às operações envolvendo a carteira transferida ao BRB.
PF encontrou apresentação em HD do Banco Master
A apresentação chegou às mãos da PF depois que a corporação obteve um HD corporativo do Banco Master.
A primeira fase da Operação Compliance Zero ocorreu em novembro de 2025. Durante as buscas realizadas na instituição, a PF não conseguiu copiar todo o volume de dados armazenado nos equipamentos. Por isso, posteriormente, solicitou o acervo ao liquidante do banco.
O HD foi entregue à corporação em 27 de novembro de 2025 e passou por perícia. Os peritos fizeram uma cópia dos dados para análise, preservando o dispositivo original.
Foi nesse processamento que apareceu o arquivo “Revisão – processos e documentos.pptx”, armazenado no SharePoint do Banco Master.
Dentro do arquivo, a apresentação tinha o título “Investigações internas – Banco Master”. O documento possuía 26,7 MB e 30 slides, sendo um deles oculto.
Os registros técnicos indicam que o arquivo foi criado em 23 de outubro de 2025, às 12h09, e modificado pela última vez no dia seguinte, às 17h45.
Documento passou a integrar investigação da PF
Depois de localizado, o conteúdo da apresentação foi incorporado à análise da Polícia Federal.
As informações constam da Informação de Polícia Judiciária de Análise (IPJ-A nº 1390980/2026), concluída em 23 de março de 2026.
A apresentação ajuda a reconstruir, a partir dos registros encontrados no banco, o caminho percorrido pelas informações: dados de clientes e contratos eram extraídos dos sistemas, processados por ferramentas específicas e utilizados na produção de documentos relacionados às operações de crédito.
Banco Master.
Reprodução/TV Globo

Medicamentos raros, reavaliação do impacto: veja como ficam as compras internacionais sem a taxa das blusinhas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou nesta quinta-feira (10) o fim da chamada “taxa das blusinhas”, imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50.
A medida está em vigor desde maio e se torna permanente com regras para a proteção do setor produtivo brasileiro.
De acordo com o texto atual, as compras internacionais feitas por brasileiros para serem entregues no Brasil terão:
isenção de imposto de importação para itens de até US$ 50; e
imposto federal de 30% para compras de até US$ 3.000.
Agora no g1
Não haverá mudança no ICMS, imposto estadual sobre produtos e serviços. Esse tributo é uma prerrogativa dos governos estaduais e sua isenção depende da decisão de cada governador.
O Congresso Nacional incluiu medidas para evitar fraudes nas compras internacionais. Entre elas, as plataformas digitais de venda devem fazer monitoramento contra compras fracionadas para evitar ultrapassar o limite de US$ 50, além de formas de ocultar o remetente real.
A lei, no entanto, não especifica quantas compras até o limite de US$ 50 ou dentro de qual período — se no mesmo dia, ou semana, por exemplo — poderão ser consideradas um indicativo de fraude. O monitoramento será realizado com a ajuda da Receita Federal.
Um dos motivos indicados pelos parlamentares para incluir medidas antifraude seria a compra, por parte de brasileiros, de itens com valor mais baixo no exterior para revenda no Brasil.
Comércio, consumo das famílias, varejo
Celso Tavares/G1
Compras feitas no exterior
As novas regras não alteram as compras realizadas por pessoas em viagem no exterior e que retornam ao Brasil com os itens.
Para compras feitas em viagens internacionais, o limite de isenção é de:
US$ 1.000 para entrada aérea ou marítima, desde que respeitem as regras de bagagem da Receita Federal; e
US$ 500 para entrada no país por outras vias de transporte.
Além disso, os viajantes contam ainda com uma cota adicional de isenção em itens de até US$ 1.000 em compras em lojas free shop ou duty free do primeiro aeroporto de desembarque no Brasil.
Medicamentos raros
Outra isenção especificada pela nova lei é a de medicamentos para o tratamento de doenças raras. Para a compra desses medicamentos, o imposto de importação será zerado.
Para que essa isenção entre em vigor, os medicamentos precisam estar classificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como não tendo um medicamento nacional similar.
O governo federal deverá estabelecer uma data dentro de 180 dias para que a isenção seja colocada em prática.
Entre as regras para os medicamentos, o governo poderá estabelecer limites para a importação assim como a frequência da compra, para que não se crie uma forma de revender os medicamentos no país.
Avaliação de impacto
O fim da taxa das blusinhas foi alvo de críticas do setor produtivo brasileiro. Como forma de mitigação, o Congresso incluiu uma avaliação dos impactos econômicos da isenção para os setores produtivos brasileiros.
A primeira avaliação será após três meses, ou seja, em dezembro de 2026. Depois, a cada seis meses. A ideia é que, ao identificar um impacto econômico, o Ministér Fazenda estude uma forma de mitigação para o setor produtivo brasileiro. Será observado o impacto no emprego e na renda e os efeitos na arrecadação federal, além da competitividade da indústria e do comércio varejista.
Além da avaliação por parte da Fazenda, o Congresso vai reavaliar o imposto a cada ano, a partir de dados que o Ministério da Fazenda disponibilizar até 30 de abril.
A avaliação será feita obrigatoriamente para os seguintes setores:
Têxteis e vestuário;
Calçados;
Acessórios;
Brinquedos; e
Cosméticos.