Omoda 5: como o SUV desconhecido virou o 3º híbrido mais vendido do Brasil; veja o teste

Omoda 5: como o SUV desconhecido virou o 3º híbrido mais vendido do Brasil
Para os mais desatentos, ele ainda pode causar algum estranhamento à primeira vista. Mas quem acompanha o trânsito das grandes cidades talvez já tenha percebido: o Omoda 5 está aparecendo cada vez mais nas ruas.
Os números ajudam a explicar: o SUV híbrido ainda não completou um ano de mercado no Brasil — foi lançado em outubro de 2025 —, mas já ocupa o terceiro lugar no ranking dos híbridos zero km mais vendidos do país, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
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Na comparação com outro lançamento de preço semelhante, o Toyota Yaris Cross híbrido, o Omoda 5 registrou 57,26% mais emplacamentos no ano.
Até o Toyota Corolla Cross, um SUV de categoria superior e que carrega o nome de um dos modelos mais conhecidos da marca japonesa, vendeu menos que o Omoda 5 no período.
Veja o ranking dos híbridos mais vendidos entre janeiro e agosto de 2026:
BYD Song: 45.096 emplacamentos;
Haval H6: 32.248 emplacamentos;
Omoda 5: 15.080 emplacamentos;
Jaecoo 7: 11.772 emplacamentos;
BYD King: 11.248 emplacamentos;
Toyota Corolla Cross: 10.596 emplacamentos;
Toyota Yaris Cross: 9.589 emplacamentos;
Toyota Corolla: 9.156 emplacamentos;
Leapmotor C10: 3.620 emplacamentos;
GWM Tank 300: 3.471 emplacamentos.
O g1 passou uma semana com o Omoda 5 para entender como um modelo de uma marca ainda recente no Brasil conseguiu superar carros de gigantes tradicionais em vendas.
Porte maior e visual diferente
Omoda 5 por fora
Visualmente, o Omoda 5 é bem diferente do Yaris Cross híbrido, inclusive nas dimensões e no porte. As medidas são:
Comprimento: 13,7 centímetros maior, com 4,44 metros;
Largura: 5 centímetros maior, com 1,82 metro;
Altura: 7 centímetros menor, com 1,58 metro.
Outra pequena diferença está na altura em relação ao solo: são 14 centímetros no Omoda 5 e 18 centímetros no Yaris Cross híbrido.
Em relação às dimensões do Corolla Cross híbrido, o Omoda é mais próximo e está na mesma categoria:
Comprimento: 2 centímetros menor, com 4,44 metros;
Largura: 0,1 centímetro menor, com 1,82 metro;
Altura: 2 centímetros menor, com 1,58 metro.
Aqui, o Omoda 5 também é mais baixo: são dois centímetros a menos de espaço, quando comparado com o Corolla Cross.
A diferença parece pequena, mas, nas valetas encontradas durante o trajeto, os SUVs da Toyota passaram com mais conforto e sem raspar nos obstáculos mais profundos.
Isso não chega a ser um problema para o Omoda 5, já que bastou chegar na valeta em diagonal para evitar que o carro raspasse. Ainda assim, com cinco adultos a bordo e o porta-malas carregado de bagagem pesada, a situação tende a ser menos favorável para o modelo chinês.
Esteticamente, cada modelo tem seu apelo e deve agradar a públicos diferentes. O Omoda 5 traz linhas mais curvas e segue a proposta de visual mais “aerodinâmico” e moderno, comum aos carros chineses.
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Já o Yaris Cross híbrido mantém um visual mais quadrado, perceptível tanto na dianteira, com linhas mais retas e a grade quase vertical, quanto na traseira, que tem vidro menos inclinado e teto que permanece reto por mais tempo.
Outra diferença está na iluminação. Ela é eficiente nos dois modelos, mas, enquanto a Toyota concentra todos os elementos em um único conjunto, o Omoda 5 separa os faróis das luzes de rodagem diurna.
Por dentro, o Yaris Cross é bem mais simples
No Omoda 5, todas as áreas de contato para mãos e braços têm revestimento macio ao toque. Já o Yaris Cross ainda traz plástico rígido em alguns pontos, como no topo do console e em toda a área interna das portas traseiras.
O console central do Omoda 5 é mais elevado e oferece mais espaço para guardar objetos, além de um apoio de braço consideravelmente maior.
Ambos os carros contam com carregador de celular por indução. No Omoda 5, ele fica sob uma tampa, o que o deixa fora da vista de quem passa ao lado do veículo. Já no Yaris Cross, o carregador fica muito próximo do câmbio, e o espaço pode deixar celulares maiores mais apertados.
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A central multimídia do Yaris Cross é visivelmente menor. Já o Omoda 5 usa um artifício para parecer ainda maior: a moldura se integra ao painel de instrumentos. A fabricante diz que esse conjunto forma um “painel digital flutuante de 24,6 polegadas”.
Táticas de marketing à parte, a central multimídia do Omoda 5 oferece mais configurações do veículo, exibe imagens das câmeras em 360 graus com mais resolução e roda o sistema operacional com mais facilidade, mas esconde os comandos do ar-condicionado.
No Yaris Cross, os botões são físicos. Já o Omoda 5 tem comandos por voz para controlar o ar-condicionado, por exemplo. Fica a cargo do comprador escolher entre os botões ou os comandos de voz.
Ainda assim, o Omoda 5 transmite uma sensação de modernidade, impulsionada pelo visual minimalista, sem botões e com duas telas integradas em um painel bastante largo.
Em outras palavras: O Omoda 5 passa um ar mais moderno, enquanto o Yaris Cross tem visual mais antigo — o Corolla Cross ganha o mesmo comentário, vale dizer.
Omoda 5 tem mais áreas com toque macio
Rafael Peixoto/g1
No conforto para os ocupantes, há empate. Os dois carros oferecem espaço suficiente para acomodar adultos mais altos no banco traseiro. O assoalho não é muito elevado no centro da segunda fileira, que também conta com saídas de ar-condicionado e portas USB.
Em viagens mais longas, porém, o Yaris Cross leva vantagem no porta-malas. São 391 litros, ante 372 litros do Omoda 5. A diferença não é tão grande, mas o SUV da Toyota vai levar mais sacolas de mercado.
Omoda 5 quase dobra potência sem gastar mais
Ao volante, as diferenças são ainda mais evidentes. O destaque é o conjunto motriz: enquanto o Yaris Cross híbrido entrega 111 cv, o Omoda 5 chega a 224 cv, mais que o dobro.
No Omoda 5, o torque combinado é de 30,1 kgfm, mas a Toyota não divulga esse dado para o Yaris Cross. A marca informa apenas os números separados dos motores a combustão e elétrico, ambos inferiores aos informados separadamente para o SUV chinês:
Potência dos motores
arte/g1
Na prática, essa sopa de números torna o Omoda 5 muito mais esperto em qualquer situação. As arrancadas são bem mais ágeis. Até na comparação da aceleração oficial, com dados divulgados pelas próprias marcas, o SUV da Toyota leva quase cinco segundos a mais para chegar aos 100 km/h.
Em testes na estrada, as ultrapassagens foram feitas com muito mais segurança, com a sensação de que haveria tempo para voltar à faixa — quando a manobra é permitida em rodovias de mão dupla.
Quando o teste foi feito com três adultos a bordo, essa diferença na força do motor ficou ainda mais evidente. E o ponto aqui não é esportividade, mas segurança.
Outro ponto positivo do Omoda 5 está no consumo de combustível. Com mais que o dobro da potência, seria natural esperar um gasto consideravelmente maior, mas esse não foi o cenário encontrado.
Em média, no mesmo circuito urbano de 30 km por dia, com bastante trânsito e semáforos, os dois carros registraram consumo entre 18 km/l e 20 km/l de gasolina.
Dois fatores ajudam a explicar o consumo de combustível do Omoda 5:
Ele tem motor 1.5 turbo, enquanto o Yaris Cross usa um 1.5 aspirado, que tende a gastar mais combustível em funcionamento;
A bateria do Omoda 5 tem capacidade mais de duas vezes maior: são 1,83 kWh, ante 0,76 kWh no Corolla Cross. Com isso, ela pode contribuir muito mais para movimentar o veículo, ajudando a reduzir o consumo de combustível enquanto aumenta a potência do motor.
Ao volante, o Omoda 5 tem um acelerador mais leve e que responde com mais precisão às mudanças de pressão. Já o câmbio CVT do Yaris Cross híbrido oferece mais conforto na condução.
Como não tem engrenagens para a troca de marchas, a potência cresce sem solavancos. No Omoda 5, eles são bem contidos e estão longe do que entregavam os câmbios automáticos mais antigos, mas existem. No Yaris Cross, não.
Omoda 5
André Fogaça/g1
No acerto de suspensão, os dois carros vão bem. São macios para enfrentar os solavancos de buracos, valetas e lombadas, mas controlam bem os movimentos da cabine para evitar que ela balance além do necessário em acelerações e frenagens bruscas.
A dupla conta com sistemas de auxílio à condução, incluindo eficientes pilotos automáticos adaptativos que centralizam o carro na faixa. Ainda assim, há diferenças: o Omoda 5 é mais preciso e identifica com mais rapidez onde deve manter o veículo.
Por fim, os preços dos dois carros são bastante diferentes:
Toyota Yaris Cross híbrido: a partir de R$ 172.390;
Omoda 5: a partir de R$ 164.990 na tabela da marca, mas é fácil encontrá-lo em concessionárias por R$ 159.990.
Na hora da compra, o Toyota Yaris Cross custa R$ 12.400 a mais que o Omoda 5. O preço do SUV chinês também o coloca como opção para quem considera outros utilitários que sequer são híbridos, como:
Volkswagen Nivus Comfortline: R$ 158.290;
Volkswagen T-Cross Comfortline: R$ 173.790;
Volkswagen Taos: a partir de R$ 199.990;
Hyundai Creta Comfort: R$ 156.590;
Nissan Kicks: a partir de R$ 159.990;
Chevrolet Tracker LTZ: R$ 162.890;
Renault Boreal: a partir de R$ 179.990;
Jeep Compass: a partir de R$ 174.990.
Também entra nessa lista o único híbrido do grupo, o Jeep Renegade MHEV, por R$ 158.690. O sistema não oferece a mesma economia de combustível do Omoda 5.
Se o Toyota Corolla Cross híbrido estiver entre as opções do comprador, a diferença de preço fica ainda maior. O modelo tem porte mais próximo ao do Omoda 5, porta-malas maior, com 440 litros, e potência ligeiramente superior à do Yaris Cross, com 122 cv ante 111 cv. No entanto, parte de R$ 226.120, o que o torna R$ 66.130 mais caro que o Omoda 5.
No fim das contas, os pontos positivos do Omoda 5 pesam na decisão e superam até a força de uma das marcas mais tradicionais do mercado:
Ele é consideravelmente mais barato;
Tem mais que o dobro da potência sem elevar o consumo de combustível na mesma proporção;
Traz uma lista de equipamentos mais moderna;
Tem mais partes com toque macio, oferecendo mais conforto aos ocupantes.
Tem porte semelhante ao do Corolla Cross.
Por outro lado, o Omoda 5 perde em espaço de porta-malas e no custo de manutenção ao longo de cinco anos:
Revisões preventivas
arte/g1
Os dois empatam no acerto voltado ao gosto do brasileiro.
Ficha técnica
arte/g1
Omoda 5 tem concorrência forte da China no Brasil
Se diante de Yaris Cross e até Corolla Cross o Omoda 5 leva vantagem com facilidade, entre os concorrentes chineses o cenário é menos confortável. Mesmo com atributos para disputar as primeiras posições, ele encontra no Brasil rivais híbridos com preço, porte, tecnologia e acabamento semelhantes ou até mesmo superiores.
A lista inclui:
GAC GS4: a partir de R$ 189.990, com promoções que o levam a R$ 169.990. Tem visual futurista, acabamento com materiais macios em boa parte da cabine, potência superior, de 235 cv, e porta-malas consideravelmente maior, com 638 litros.
BYD Atto 2: a partir de R$ 149.990. Tem porte semelhante, sistema híbrido plug-in que permite rodar apenas no modo elétrico e amplia a economia de combustível, é flex e perde apenas em potência, com versões de 177 cv e 197 cv.
BYD Song Pro: a partir de R$ 189.990, com promoções que o levam a R$ 161.490. É híbrido plug-in, oferece maior economia de combustível, é flex e tem porta-malas maior, de 530 litros.
Geely EX5 EM-i: a partir de R$ 189.990, com promoções que o levam a R$ 174.790. Também conta com sistema híbrido plug-in para reduzir o consumo de combustível e oferece mais espaço no porta-malas.

Inflação cai, fábricas fecham: crise na indústria argentina elimina empregos e aumenta pressão sobre Milei

O presidente da Argentina, Javier Milei, cumprimenta a guarda presidencial montada durante a cerimônia de abertura da 138ª exposição anual da Sociedade Rural, em Buenos Aires.
Mariana Nedelcu / Reuters
O galpão está às escuras, as máquinas estão desligadas e caixas de mercadorias encalhadas se acumulam. A fábrica de sapatos Kioshi, que tinha 120 funcionários em 2023, conta hoje com apenas 14. O cenário virou símbolo da crise enfrentada por parte da indústria argentina e alimenta o debate sobre o modelo do presidente Javier Milei.
Enquanto o governo do presidente ultraliberal destaca a queda da inflação e a desregulamentação da economia, empresários alertam para a perda de empregos, a concorrência desleal e a retração do consumo.
“O mercado interno está morto, as pessoas não têm dinheiro para consumir, dificilmente vão comprar calçados”, diz Emmanuel Fernández, diretor da Kioshi, localizada em Esteban Echeverría, nos arredores de Buenos Aires.
A isto se soma uma “avalanche de importação”, acrescenta.
Agora no g1
Na semana passada, a União Industrial Argentina (UIA) pediu medidas diante da abertura econômica e da perda de aproximadamente 90 mil empregos na indústria desde agosto de 2023.
Em junho, a indústria argentina operava com cerca de 40% de capacidade ociosa. A produção manufatureira caiu 5% entre junho e julho, o maior recuo em 16 meses, segundo dados oficiais divulgados na terça-feira (8).
No mesmo dia em que o setor industrial apresentou a reivindicação, o presidente ultraliberal afirmou que sua política de austeridade e desregulamentação “não é negociável”.
Desde que Milei assumiu o cargo, em dezembro de 2023, cerca de 30 mil empresas fecharam as portas, segundo dados do setor.
O presidente afirma que os empregos perdidos em um setor serão criados em outros, capazes de competir internacionalmente.
Mas, para Emmanuel Fernández, o governo está “em uma bolha”, pois “tudo o que se vê é que as pessoas que ficam sem emprego vão trabalhar nos aplicativos”.
Da fábrica à Uber
Em Zárate, cidade industrial a 90 km de Buenos Aires, Miguel Márquez olha com tristeza para o portão da fábrica de produtos químicos Clariant, onde trabalhou por 20 anos, até o fechamento da unidade, em 2025.
O capim cresce entre as placas de cimento do estacionamento vazio. Já não se ouve o barulho das máquinas, apenas o canto dos pássaros.
Márquez conta que apenas dois dos 42 demitidos conseguiram um emprego formal. Os demais, como ele, hoje com 62 anos, sobrevivem de trabalhos informais, como dirigir para aplicativos.
A Clariant fabricava insumos para a indústria petroleira durante o auge da jazida de Vaca Muerta, mas decidiu passar a importar os produtos de sua fábrica no Brasil e encerrar a operação na Argentina.
“Como não têm nenhuma restrição, convém a eles trazer do Brasil”, explicou Márquez.
A economia argentina cresceu em 2025, impulsionada pelos hidrocarbonetos, pela mineração e pelo agronegócio. Mas a retração do comércio e da indústria afeta as grandes cidades, onde vive a maior parte da população.
Desde 2023, a Argentina perdeu mais de 240 mil empregos formais no setor privado.
Concorrência
Após a reivindicação da UIA, o ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou que seu papel é “defender os interesses de 48 milhões de argentinos, não de determinados empresários”.
“Me parece imoral e injusto que os argentinos tenham que pagar por bens de menor qualidades duas, quatro, dez vezes o seu valor”, destacou, em defesa da abertura.
Mas os empresários da indústria afirmam que o cenário é desfavorável.
“Ninguém quer não competir, mas também você tem que ter condições para competir”, disse à AFP Alejandro Mayer, vice-presidente da fábrica de circuitos Ernesto Mayer, na periferia norte de Buenos Aires, hoje com a metade de suas máquinas desligadas.
Mayer destaca que há um “atraso cambiário” que encarece os produtos locais em dólares. A isso se somam juros elevados sobre o crédito e uma carga tributária que, segundo ele, impede a competição com produtos de países como a China, embora a eficiência seja semelhante.
Milei reduziu a inflação, que estava em três dígitos quando assumiu a Presidência, para 33,8% na comparação interanual em julho, um dos principais resultados econômicos reivindicados por seu governo.
Mas “a economia não pode ser medida apenas pela evolução da inflação, temos que olhar para a atividade”, disse o presidente da UIA, Martín Rappallini.
Além da concorrência dos produtos importados, os empresários da indústria apontam a fragilidade do consumo.
A poucos quarteirões da Mayer, a fábrica de cordas para instrumentos Martin Blust, que emprega dez pessoas, fecha às sextas-feiras por falta de encomendas. “Não há inflação porque não há compras”, afirma sua sócia, Gloria Aparicio.
Segundo diversas pesquisas, emprego e salários superaram a inflação como principal preocupação dos argentinos, um sinal de alerta para Milei, que tentará a reeleição em 2027.
Na Kioshi, Fernández testemunha essa angústia. Seus funcionários pedem antecipações salariais para conseguir pagar o transporte até a fábrica.
Estão “frustrados e irritados”, diz. E isso “se percebe na vontade e também se nota na rua”.