A dez dias do fim do prazo, governo ainda não pagou 10% do valor mínimo de emendas previstas para o 1º semestre

A dez dias do fim do prazo estabelecido na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não pagou 10% do volume mínimo de emendas previstas para o primeiro semestre.
🔎 O calendário aprovado na LDO prevê o pagamento no primeiro semestre de 65% das emendas individuais e de bancada a fundos de saúde, de assistência social e de transferências especiais, que podem ser aplicadas em qualquer finalidade.
O governo ainda precisa repassar um terço do valor previsto para as emendas feitas por transferências especiais — as chamadas emendas PIX.
💰 Até 18 de junho, o governo federal pagou R$ 15,8 bilhões do total de R$ 17,3 bilhões previstos para essas ações. Desse total, o Executivo quitou R$ 12,3 bilhões em emendas de saúde e R$ 583,1 milhões de assistência social, o que representa o total para essas áreas.
Em relação às emendas de transferências especiais, conhecidas como emndas PIX, o governo pagou R$ 2,8 bilhões, o que corresponde a 63% dos recursos obrigatórios nessa modalidade. Até o fim do mês, no entanto, o Executivo ainda precisa quitar R$ 1,6 bilhão, 37% do total.
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Do valor pendente, R$ 109 milhões tiveram os planos de trabalhos rejeitados pelo governo, por algum vício na indicação, e R$ 530 milhões estão em processo de aprovação.
🔎 As emendas PIX foram criadas em 2019 e ficaram conhecidas assim pela dificuldade na fiscalização dos recursos, uma vez que os valores eram transferidos por parlamentares diretamente para estados ou municípios sem a necessidade de apresentação de projeto, convênio ou justificativa.
A modalidade chegou a ser bloqueada por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, em 2024.
Após um acordo entre os Três Poderes em fevereiro de 2025, o Congresso aprovou um projeto de lei complementar com a exigência de um plano de trabalho para as emendas PIX.
Pré-campanha eleitoral
Para Eduardo Grin, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o calendário de emendas cria um desequilíbrio nas eleições de 2026.
“O impacto é direto porque deputado que recebe mais emenda tem mais chance de reeleição. A gente vai consolidando, entre aspas, uma casta no Congresso, privilegiada. Isso torna a competição política desigual. Quem não tem os mesmos recursos têm menos chance de ganhar uma eleição, sobretudo postulantes novos que não têm cargos”, pontuou.
Ele argumenta também que o envio de verbas por parlamentares para seus redutos eleitorais, na prática, antecipa a campanha para esses políticos e que esse foi o objetivo do Congresso ao aprovar o calendário de pagamento de emendas.
“O deputado faz um acordo com o prefeito para dizer ‘foi o nosso deputado, a nossa deputada que trouxe recursos para a cidade’. Ou seja, eu tenho chance de ter exposição pública muito maior, eu tenho chance de ter o meu nome associado a uma conquista feita para a cidade”, afirmou.
“É claro que isso tem impacto nas eleições. Essa nova regra que os parlamentares aprovaram obrigando o governo a empenhar todas as emendas até junho, ela foi pensada, justamente, para ter esse efeito eleitoral”, concluiu.
Já para o gerente de pesquisa e advocacy da Transparência Internacional Brasil, Guilherme France, essa imposição das emendas ainda criou um novo problema nas contas públicas por trazer um desequilíbrio na execução, obrigando o governo a contigenciar contas como despesas com educação, para pagar as emendas.
“Quando você perde essa flexibilidade da execução gerando uma dificuldade também para manter as contas equilibradas e, no final das contas, o que a gente tem visto é que com o calendário para pagamento de emendas não existe flexibilidade no pagamento e outras áreas acabam sofrendo”, disse.
Além disso, France ainda aponta que por as emendas estarem aumentando cada vez mais e tomando mais espaço do orçamento do governo federal, elas têm mudado de características, deixando de ter um caráter de investimento e passando a ser custeio de atividades públicas, como o pagamento de salários.
“Na Saúde, a gente vê os recursos indo cada vez mais para custeio e não para investimento. O que inverte a lógica do gasto público de emendas, porque as emendas não são necessariamente contínuas. Então, não quer dizer que ano que vem vai ter a mesma emenda que teve esse ano, o que acaba gerando esse problema de gestão pública. A gente está investindo um ano sem saber se terá recursos no ano seguinte”, concluiu.
Estudo mostra baixa relevância e transparência das emendas parlamentares individuais
Jornal Nacional/ Reprodução
Total pago
Até a última quinta-feira, o governo pagou um total R$ 18,4 bilhões em emendas parlamentares. Desse montante, R$ 10,9 bilhões foram para indicações feitas por deputados federais. Outros R$ 4,2 bilhões foram para senadores e R$ 3,2 bilhões foram emendas definidas pelas bancadas estaduais.
Assim, o governo pagou R$ 2,6 bilhões a mais do que o definido como obrigatório para este 1º semestre de 2026. A maior parte desse montante foram para emendas destinadas ao custeio de serviços relacionados a Atenção Primária à Saúde, R$ 1,9 bilhão.
O restante foi pago para outras ações públicas, como fomento à cultura, promoção do turismo e o setor agropecuário.

Renda maior, emprego forte e dívida crescente: por que o consumo segue forte mesmo com juros altos?

Funcionários de boteco na Vila Madalena.
Marcelo Brandt/G1
A economia brasileira vive um fenômeno que desafia as previsões econômicas. A taxa básica de juros começou a cair depois de atingir o maior patamar em 20 anos, enquanto a população enfrentava níveis recordes de endividamento e inadimplência.
Economistas esperavam um freio da atividade econômica já no primeiro trimestre de 2026. O Produto Interno Bruto (PIB) mostrou, contudo, um avanço do consumo das famílias no período: alta de 1% em relação ao trimestre anterior e de 1,7% contra o mesmo período do ano passado.
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Segundo especialistas, o mercado de trabalho aquecido e o aumento da renda das famílias — tanto pelo emprego quanto por políticas públicas de transferência de renda — ajudam a explicar esse cenário.
A taxa de desemprego no trimestre encerrado em abril foi de 5,8%, menor patamar para o período na série histórica do Instituto Brasileirao de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo período, o rendimento real habitual dos trabalhadores foi de R$ 3.732, valor 5,3% maior do que um ano antes.
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“As pessoas precisam permanecer inseridas no mercado de trabalho para dar conta do consumo. Isso faz com que o mercado reaja aos efeitos adversos, como a taxa de juros, com certa sustentabilidade”, afirmou Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas domiciliares do IBGE.
Junto ao mercado de trabalho forte, o aumento real do salário mínimo, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o alívio de dívidas promovido pelo Desenrola 2.0 foram algumas políticas públicas que mantiveram o ganho de renda da população.
“Tivemos, ao longo dos anos, uma série de transferências de renda. Esse dinheiro vai direto para o consumo imediato, como alimentação, vestuário e serviços”, afirma André Sacconato, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
Segundo especialistas, esse perfil de consumo também reflete a crescente digitalização da economia. Parte do avanço do setor de serviços está ligada a áreas como tecnologia, internet e telefonia.
De acordo com Juliana Trece, coordenadora do núcleo de contas nacionais do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV), outros segmentos que impulsionam o consumo são bares, restaurantes e viagens.
“O curioso é que, mesmo com juros elevados, os bens duráveis — que normalmente crescem menos nesse cenário — seguem avançando, com destaque para o aumento do consumo de automóveis importados, especialmente híbridos e elétricos. Já entre os bens não duráveis, há maior consumo de itens essenciais”, diz.

Consumo em alta esbarra no avanço das dívidas
Ainda que a economia envie sinais positivos, especialistas alertam para o nível de endividamento das famílias. Os dados mais recentes do Banco Central (BC) mostram que o indicador chegou a 49,8% em março, alta de 0,8 ponto percentual em relação ao mesmo mês de 2025.
“A classe média está pressionada porque tem um consumo maior sustentado pelo crédito, que está cada vez mais caro”, afirma Sacconato, da FecomercioSP.
O levantamento do BC também mostra aumento importante da inadimplência em quase todas as modalidades de crédito para pessoas físicas. Nas linhas com recursos livres — aquelas em que taxas e condições são definidas pelos bancos — o calote chegou a 7,2%.
🔎 A inadimplência é especialmente grave porque representa o percentual das operações de crédito com atraso superior a 90 dias em relação ao saldo total. O resultado mais recente mostra aumento de 1,2 ponto percentual em relação a abril de 2025 (6%).
“A classe média não consegue consumir hoje como consumia anos atrás. O modelo econômico atual, baseado em transferências de renda, não é sustentável porque, no fim, aumenta o endividamento, a inadimplência e a necessidade de manter juros elevados por mais tempo”, diz Sacconato.
Renda recorde e desemprego baixo: por que o brasileiro segue endividado, mesmo ganhando mais?
Consumo deve seguir em alta?
Mesmo com a perspectiva de juros e inflação elevados nos próximos meses, especialistas avaliam que o consumo das famílias deve continuar crescendo neste ano.
Segundo Juliana Trece, a projeção do FGV Ibre é que o consumo das famílias encerre o ano com alta de 2,2%, acima do crescimento de 1,3% registrado no ano passado.
“A gente sabe que o BC deve ser cada vez mais cauteloso nos cortes de juros. O mercado de trabalho aquecido ainda deve contribuir e, como se trata de um ano eleitoral, é possível que haja novos estímulos por meio de programas de transferência de renda”, afirma a economista.

Suco de uva orgânico de São Roque ganha prêmio nacional após 6 anos de pesquisa

Suco de uva orgânico de São Roque ganha prêmio nacional após 6 anos de pesquisa
TV TEM/Reprodução
Um suco feito com uvas orgânicas em São Roque (SP) foi premiado como um dos melhores do Brasil. O produto conquistou a medalha de platina no concurso da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atingindo nota entre 90 e 95 pontos em uma escala até 100. A bebida disputou o título com quase 200 amostras de todo o país.
O resultado é fruto de um projeto que une o conhecimento do campo à pesquisa acadêmica. O experimento durou seis anos, com quatro safras colhidas que comprovaram a viabilidade de produzir uvas sem agrotóxicos na região.
O trabalho foi desenvolvido pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta Regional), em parceria com o Instituto Federal e o Sindicato da Indústria do Vinho de São Roque (Sindusvinho).
O cultivo é feito em uma área de 4 mil metros quadrados que reúne mais de 1,3 mil videiras. O espaço funciona como uma “sala de aula a céu aberto” para estudantes do curso de Enologia do Instituto Federal. No local, é aplicado o conceito agroecológico:
Linhas alternadas: o mato e as plantas espontâneas são mantidos em uma fileira sim e outra não;
Proteção natural: essa vegetação nativa serve de abrigo para insetos que combatem as pragas da videira, eliminando o uso de defensivos químicos;
Colheita manual: os cachos são retirados um a um, avaliando critérios de cor, textura e doçura.
Após a colheita, as uvas passam por um processo rigoroso de extração e envase para manter a pureza da fruta. De acordo com o presidente do Sindusvinho, Alex de Moraes, o segredo do sabor premiado está na mistura exata e equilibrada de duas variedades tradicionais de uva: a Bordô e a Isabel.
Veja a reportagem exibida no programa em 21/06/2026:
Suco de uva orgânico de São Roque ganha prêmio nacional após 6 anos de pesquisa
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Conservas, fiado e histórias: vendinhas resistem ao tempo e preservam tradição do interior de SP

Conservas, fiado e histórias: vendinhas resistem ao tempo e preservam tradição do interior de SP
Reprodução/TV TEM
Em meio às transformações do campo e aos avanços das grandes redes comerciais, antigas vendinhas do interior de São Paulo seguem resistindo ao tempo. Os estabelecimentos preservam memórias, fortalecem laços comunitários e mantêm viva uma tradição que marcou gerações.
Na Estrada 12, em Três Fronteiras (SP), próximo a Santa Fé do Sul, uma vendinha aberta há quatro décadas continua atraindo visitantes em busca de sabores e lembranças de um interior que parece ter parado no tempo.
Foi ali que o agricultor Antônio Scarabeli construiu a vida com a família. Segundo ele, a movimentação era intensa quando a região era ocupada principalmente por pequenos sitiantes e cafezais. “Tinha muita gente. Nós vendíamos de tudo. Depois foi acabando o café, entrando a cana e o povo foi indo embora”, relembra.
O filho, Dimar Aparecido Scarabeli, conta que o local chegou a funcionar como principal centro comercial da região. “A compra da semana, do mês, era tudo aqui. Chegamos a vender 100, 150 quilos de farinha e dezenas de fardos de açúcar por semana”, afirma.
Hoje, a função mudou. A vendinha deixou de ser um grande mercado rural, mas continua sendo ponto de encontro para moradores e turistas. Entre os produtos mais procurados estão conservas, queijos e doces artesanais produzidos por Nádia Maria Freitas Scarabeli.
Memória afetiva
Conservas, fiado e histórias: vendinhas resistem ao tempo e preservam tradição do interior de SP
Reprodução/TV TEM
Para muitos frequentadores, visitar uma vendinha é também revisitar a própria história. A cliente Mariene Maia frequenta o local desde a infância, quando acompanhava familiares que moravam na zona rural.
“Me faz sentir muita saudade daquele tempo que, infelizmente, não vai voltar. Mas estamos resgatando essas raízes e mantendo essa história viva”, diz Mariene.
Segundo o historiador Silvio Luiz Lofego, as vendinhas assumiram um papel importante na preservação da memória rural. “Elas representam espaços de resistência. Muitas comunidades rurais desapareceram ou perderam características ao longo das últimas décadas, mas as vendas permanecem como símbolos de convivência e identidade local”, explica.
Tradição que atravessa gerações
Conservas, fiado e histórias: vendinhas resistem ao tempo e preservam tradição do interior de SP
Reprodução/TV TEM
Em Nova Canaã Paulista (SP), a cerca de 30 quilômetros dali, outra vendinha mantém viva a tradição. Localizada no Bairro do Louro, ela existe há quase 70 anos.
Há 42 anos, o espaço é administrado por Paulo Francisco Araújo e pela esposa, Sônia Maria Andrade Araújo. “Aqui tinha de tudo, igual a um mercadinho. Muitas vendas fecharam, mas nós continuamos”, conta Paulo.
Além das mercadorias, o local preserva um costume cada vez mais raro: a venda fiado. “Já ajudei a tratar de bastante família. Criei meus filhos aqui e melhorei minha vida trabalhando na venda”, lembra.
O estabelecimento também guarda uma história de amor. Paulo e Sônia se conheceram ali há mais de meio século e seguem recebendo clientes que, com o tempo, se tornaram amigos. “A clientela virou família. Temos amigos de 50 anos aqui”, afirma Sônia.
Veja a reportagem exibida no programa em 21/06/2026:
Vendinhas viram atração turística na região de Rio Preto
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