'Guerra' por ingressos para turnê do BTS vira pesadelo para fãs que caíram em golpes online

‘Guerra’ por ingressos para turnê do BTS vira pesadelo para fãs que caíram em golpes online
Big Hit Music
Quando a jovem indonésia Vevee entrou no Ticketmaster em 9 de junho, ela acreditava que sua espera de anos para ver o grupo BTS estava finalmente chegando ao fim.
Como milhões de fãs em todo o mundo, a jovem de 26 anos achava que estava pronta para a batalha que é conseguir ingressos online. Ela até tirou o dia de folga do trabalho.
A extensa turnê global do grupo faria uma parada em sua cidade — a capital da Indonésia, Jacarta — e, como fã de longa data, ela não conseguia imaginar perder isso.
Sentada diante do computador, com os olhos fixos no número da fila que definiria seu destino, Vevee esperou por horas. Quando chegou sua vez, recebeu a notícia de que os ingressos tinham se esgotado.
Mas houve um novo processo de venda. E ela tentou de novo, mas — de novo — sua sorte não mudou. “Parecia impossível porque a demanda era simplesmente absurda”, diz à BBC.
Determinada a garantir seu lugar, Vevee encontrou uma conta revendendo ingressos no X e gastou US$ 1,2 mil em quatro assentos VIP. Isso equivale a cerca de dois meses do seu salário.
Mas logo depois pararam de responder. “Assim que enviei o dinheiro, sumiram. É horrível. Estou muito triste e de coração partido”, diz a jovem de 26 anos.
J-Hope, do BTS, entrou na ‘trend’ do 6-7, ao ritmo da musiquinha viral em português
Fãs desesperados no Sudeste Asiático, onde o BTS fará 15 dos 88 shows, perderam mais de US$ 100 mil enquanto golpistas se aproveitam da enorme demanda por ingressos.
Tem sido um mês de altos e baixos para os fãs da banda, que se autodenominam Army (“Exército”).
Felizes em ver o BTS de volta aos palcos após a pandemia e um hiato de três anos, mas frustrados com a competição extremamente acirrada pelos ingressos, eles se tornaram alvos fáceis para golpistas.
Na Tailândia, parlamentares estão analisando uma petição feita por 126 fãs que foram enganados – eles querem ajuda para entrar em uma “fila de espera”.
Golpistas também se infiltram em grupos de fãs online, prometendo acesso exclusivo ou preços mais baixos.
Assim que o dinheiro é transferido, eles desaparecem. Alguns chegam a oferecer “procurações” — geralmente usadas para transferir decisões legais a outra pessoa — para convencer as vítimas de que os ingressos são autênticos.
Essas são táticas conhecidas o suficiente para que as autoridades tenham emitido vários alertas. Mesmo assim, os fãs continuam sendo enganados.
Vevee no show de 2019 do BTS em Bangkok
Arquivo pessoal
Golpistas fingem urgência
A turnê, que começou em abril e vai até 2027, passará por 34 cidades. O BTS e sua gravadora Hybe poderão faturar quase US$ 2 bilhões com o retorno, vindos de shows, produtos, licenciamento, vendas de álbuns e receitas de streaming, disseram analistas à agência Reuters.
Em toda a Ásia, o número de pessoas disputando ingressos superou em 15 vezes a quantidade disponível, segundo a BBC.
Novas datas continuam sendo adicionadas devido à impressionante demanda. Na semana passada, Jacarta e Bulacan, nas Filipinas, confirmaram um terceiro show cada.
Quando a nova data foi anunciada, Vevee decidiu “brigar por esses ingressos novamente”, mas por meios oficiais, ao contrário da última vez, quando o pânico falou mais alto, explica ela.
“Eu estava prestes a entrar em uma reunião de trabalho e estava com muito medo de que outra pessoa conseguisse os ingressos. Só queria transferir o dinheiro rapidamente para garantir”, diz.
“Se eu tivesse parado um momento para me acalmar, talvez tivesse percebido os sinais de alerta.”
Fãs do BTS colaram cartazes com os títulos de suas músicas favoritas antes do primeiro show de retorno em março na Coreia do Sul
Getty Images
Em Singapura, a polícia recebeu pelo menos 62 denúncias envolvendo ingressos para shows do BTS desde 1º de junho, com prejuízos de mais de 68 mil dólares de Singapura (cerca de R$ 270 mil).
A empresa de comércio eletrônico Carousell suspendeu a revenda de ingressos em sua plataforma, e a proibição ficará em vigor até 22 de dezembro, data do último show do BTS em Singapura.
Na semana passada, a polícia da Malásia disse ter recebido 28 denúncias de pessoas que afirmam ter sido enganadas ao tentar garantir ingressos. As autoridades estão tentando rastrear “contas laranja” envolvidas nas transações, segundo informaram.
Nos primeiros anos, os shows do BTS aconteciam principalmente na Coreia do Sul, Japão e nos EUA. À medida que a banda foi ficando mais famosa pelo mundo, a agenda de shows se expandiu para mais regiões da Ásia, Europa, Oriente Médio e América Latina.
Mas a atual Arirang World Tour é a primeira vez que o grupo realiza vários shows em cinco países do Sudeste Asiático — Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia.
Os ingressos na região custam entre US$ 100 e US$ 300. O pacote mais caro inclui acesso à passagem de som antes do show, assentos premium e produtos do BTS.
Para fãs como Vevee — que acompanharam o grupo em seus altos, baixos e depois em sua ascensão meteórica — assistir à nova turnê é algo especial.
Juraluk Kunaruk (primeiro da direita) no Parlamento tailandês
Supplied by Juraluk Kunaruk
Vevee diz que tinha 14 anos quando descobriu o BTS, cerca de um ano após a estreia do grupo em 2013. Ela gostava da música, mas também dos sete integrantes — RM, Jin, Suga, J-Hope, V, Jimin e Jungkook — que descreve como “muito genuínos”.
Em 2019, ela voou sozinha para Bangkok para assistir ao BTS em sua última turnê mundial. Ela conta que foi sua primeira viagem sozinha e que não conhecia ninguém no show, mas recebeu “muita ajuda” de outros fãs. “Foi realmente uma experiência inesquecível e maravilhosa.”
Sete anos depois, quando soube que o BTS iria a Jacarta, começou a economizar. “Eu me preparei muito para conseguir esses ingressos, mas, sinceramente, não sou só eu. Todo army se prepara intensamente para isso.”
Ela diz que alguns fãs alugaram computadores em cibercafés por uma semana inteira porque não podiam correr o risco de não conseguir um lugar no dia das vendas. Eles acreditam que as altas velocidades de conexão dos computadores poderiam aumentar suas chances.
“Na Indonésia, não estamos apenas lutando pela guerra dos ingressos”, diz Vevee. “Lutamos para garantir o melhor cibercafé e até para alugar celulares de última geração. É uma guerra em todas as frentes.”
E quando perdem, ficam desanimados.
“Agora que a parada nas Filipinas finalmente foi confirmada, depois do que parece uma eternidade, dói saber que pessoas que esperaram quase uma década podem não ter a chance de vê-los”, escreveu um fã filipino no Threads.
“Alguns de nós não estão apenas tentando ir a um show. Estamos tentando finalmente ver as sete pessoas que apoiamos há anos.”
Também há fãs que não querem depender apenas da sorte.
Na semana passada, Juraluk Kunaruk apresentou uma queixa no Parlamento da Tailândia em nome de 126 vítimas, cada uma das quais transferiu centenas de dólares para o mesmo usuário do X dias antes da venda de ingressos.
O usuário havia prometido ajudar a conseguir bons lugares. Mas no dia em que as vendas começaram, a conta no X desapareceu.
“Eu vinha acompanhando essa conta há bastante tempo. Eles tinham muitas avaliações e seguidores, então pareciam confiáveis. Os preços também eram razoáveis”, diz Juraluk, que perdeu 25 mil baht (US$ 760 ou R$ 3,9 mil) ao pagar pelo que achava serem pacotes VIP.
Nas últimas duas semanas, a jovem de 23 anos passou horas viajando de sua cidade natal até Bangkok para se reunir com parlamentares.
“Os deputados prometeram que vão tentar recuperar nosso dinheiro. Então ainda tenho esperança”, diz.
Ela também não desistiu do show: “Ainda quero ir porque não sei quando terei outra oportunidade de vê-los”.
Isso não é surpreendente, já que golpes afetaram shows extremamente populares no passado, incluindo a Eras Tour, de Taylor Swift. Alguns fãs pediram à produtora Live Nation e a seus parceiros de venda de ingressos que se esforcem mais para prevenir contra golpes.
A Ticketmaster, subsidiária da Live Nation responsável pela venda de ingressos da turnê do BTS em muitos países, diz que já “reforçou a luta contra cambistas e bots com nova tecnologia de IA e regras mais rigorosas”.
Por exemplo, os ingressos serão verificados com base nos endereços de e-mail dos participantes, enquanto fãs com ingressos revendidos podem ser impedidos de entrar no dia do show.
Os fãs devem “comprar ingressos apenas por meio de fontes oficiais”, disse uma porta-voz da Ticketmaster à BBC. “O site do artista sempre poderá orientar os fãs no caminho correto.”
Mas fãs decepcionados parecem incapazes de resistir ao que parece ser uma última chance de conseguir ingressos.
Cookie, uma fã nas Filipinas, recorreu a uma pessoa que vendia ingressos depois de não conseguir comprá-los em duas ocasiões. Ela achava que tinha sido cuidadosa.
“Adicionei ela no Facebook, verifiquei a conta, o que estudou, de onde era”, diz a atendente de suporte ao cliente de 30 anos.
“Assim como outras vítimas ouvidas pela BBC, Cookie não teve mais resposta após o pagamento: a golpista a bloqueou no Facebook, e ela nunca recebeu os ingressos.”
Cookie diz sentir vergonha por ter caído em golpe
Supplied
“Eu me sinto envergonhada. Nem contei à minha família ou aos meus amigos mais próximos o que aconteceu”, diz Cookie.
“Não quero ser julgada ou ouvir ‘você é burra’. Foi um ato desesperado, porque eu realmente queria estar lá.”
Vevee tentou novamente sabendo que seria “uma batalha difícil”, porque o show mais recente em Jacarta acontece no aniversário de um dos integrantes, V.
Ela falhou na primeira tentativa na pré-venda na sexta-feira. “Parece que simplesmente todo mundo está tentando esse último show.”
Sem ingressos e em lágrimas, ela traçou uma estratégia para a venda geral do dia seguinte.
Ela e seus amigos se dividiram por Jacarta e “cada um tentou comprar ingressos de locais diferentes, usando diferentes conexões de internet e contas”.
E desta vez funcionou. Ela conseguiu os ingressos.

Vai trazer comida do exterior? Veja o que pode entrar no Brasil e o que exige autorização

Vai trazer comida do exterior? Veja quando e como pedir autorização após mudança de regra
Todo mundo gosta de trazer lembrancinhas quando volta de viagem, mas sabia que nem todo alimento pode entrar no Brasil?
Desde o dia 4 de fevereiro, novas regras do Ministério da Agricultura passaram a definir quais alimentos podem entrar no país na bagagem de viajantes e quais exigem autorização. O ovo, por exemplo, não estava na lista de proibições de 2025, mas passa a integrá-la este ano.
A regra vale mesmo quando o produto está na embalagem original, rotulada e lacrada.
O Ministério explica que os itens proibidos podem trazer pragas e doenças para o país, com risco para plantações, animais e até para a saúde humana.
A carne de porco, por exemplo, só entra no Brasil com autorização porque pode trazer a peste suína africana. A doença é causada por um vírus, é fatal para os porcos e não tem vacina nem tratamento.
Hoje, essa doença não existe no Brasil, mas está presente em mais de 50 países da África, Europa, Ásia e das Américas. A Espanha, por exemplo, tem casos confirmados. O país é o terceiro maior produtor de carne de porco do mundo.
Veja quais alimentos não podem estar na sua bagagem
Arte g1
Além destes produtos, o Ministério avisa que podem haver bloqueios relacionados a produtos oriundos de países específicos, com incidência de doenças. Por exemplo, em casos da gripe aviária, da peste suína africana e a dermatose nodular contagiosa.
A instituição pontua também que não somente os vegetais frescos, mas parte deles que possam conter doenças podem ser confiscados. É o caso de folhas secas para chá, em que o processo de secagem não é conhecido.
Fiscalização realizada pelo Ministério da Agricultura
Divulgação
Como obter a autorização?
Para entrar no país com esses alimentos, é preciso fazer um registro na Declaração Eletrônica e Bens do Viajante (e-DBV).
Depois, é necessário ir até a unidade do Vigiagro, no controle aduaneiro, para finalizar o processo.
Além disso, quando o Ministério da Agricultura entender que é o caso de um controle mais rigoroso, pode ser solicitada adicionalmente uma Autorização Prévia de Importação.
Nessa categoria, é preciso informar:
a descrição dos bens agropecuários que serão importados, incluindo a quantidade, a forma de acondicionamento e o país de origem e de procedência;
o modal de transporte, podendo ser aéreo, marítimo, fluvial, lacustre (por lago), rodoviário e ferroviário;
a via de transporte autorizada, especificada como bagagem acompanhada;
o local de ingresso no território nacional;
a identificação do viajante que transportará os bens agropecuários, contendo nome completo, CPF e número do passaporte;
o prazo de validade da autorização de importação.
Neste caso, a autorização deverá ser encaminhada eletronicamente pelo Serviço Técnico emissor às Unidades do Vigiagro nos locais de ingresso.
Se um produto irregular é apreendido, ele deve ser destruído.
Segundo o Ministério, dois procedimentos são feitos para a destruição: a autoclavagem (o produto é submetido a temperatura de 133° C e pressão de 3 bar por 20 minutos) e a incineração. Os procedimentos são responsabilidade do administrador do aeroporto.
A norma que regula o tema prevê outras medidas, mas não detalha quais. O g1 questionou o Ministério da Agricultura, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
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Produtos autorizados
Mesmo quando não há exigência de documentação, o produto deve estar na embalagem original, com rótulo, lacre e sem sinais de violação.
Alguns exemplos são:
extratos ou concentrados de carnes e pescados, de todas as espécies, exceto suínos.
carnes (exceto suína) e pescados defumados, dessecados, salgados ou desidratados;
derivados de suínos enlatados;
gelatinas;
leite pasteurizado ou esterilizado, incluindo o creme de leite;
doce de leite;
leite em pó ou soro;
manteiga, manteiga clarificada (ghee) e pasta de espalhar de produtos provenientes do leite;
iogurtes, quefir, coalhadas e outras bebidas láctea fermentadas;
hidrolisado de proteína do leite e lactose;
queijos e requeijão, excluindo os produtos lácteos feitos com leite de bovinos e bubalinos dos países com notificação de dermatose nodular contagiosa (caso da Argélia, Camboja, França, Itália, Tunísia, Espanha);
bolos, biscoitos, bolachas, petit fours, tortas doces e salgadas, waffles, doces em massa folhadas, pastéis de confeitaria, doces e quitutes;
amêndoas torradas e salgadas;
bebidas destiladas e fermentadas;
vinagres;
sucos;
óleos vegetais;
geleias, conservas;
demais produtos industrialmente esterilizados, pasteurizados, fermentados, sulfitados, liofilizados, cozidos, carbonizados, parboilizados, moídos, polidos, tostados ou secos ao forno.
Presunto Ibérico: carne de porco só entra no Brasil com autorização, exceto se for enlatada
Foto de Hawksbill.24
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Especialistas veem MEI com custo elevado e recomendam reduzir benefício; governo quer ampliar limite e contratações

Feira paraibana de empreendedores criativos em João Pessoa
Teeteto/Thiago Nozi
O microempreendedor individual (MEI) apresenta um custo elevado aos cofres públicos, gerando um rombo que pode chegar na casa de centenas de bilhões de reais em décadas, e por isso deve ter as regras atuais revistas — no sentido de reduzir os benefícios existentes para manter a “sustentabilidade” da Previdência Social.
A recomendação foi feita pelo especialista em Previdência Social Rogério Nagamine em estudo publicado no último mês pelo Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), uma organização sem fins lucrativos, independente e apartidária.
Ela vai no mesmo sentido de relatório publicado ainda em 2022 pelo Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP), um colegiado interministerial coordenado pelo antigo Ministério da Economia. O órgão segue atuante até hoje no governo Lula, sob coordenação do Ministério do Planejamento – as recomendações nem sempre são levadas adiante. (veja mais abaixo)
O tema está em evidência após o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmar na última semana que o governo vai enviar um projeto de lei ao Legislativo na direção contrária, para ampliar o benefício existente.
A ideia é corrigir o limite de enquadramento para valor próximo a R$ 130 mil até 2028. Durigan já tinha dito que o governo concorda também com a contratação de mais um funcionário por MEI.
➡️O alto custo do MEI é um dos fatores que pressionam o endividamento do setor público que, pelo conceito do Fundo Monetário Internacional (FMI), já supera 90% do PIB — bem acima do de nações emergentes, ficando maior, também, do que a média das nações da Zona do Euro.
Ministro da Fazenda diz que governo vai propor aumento do limite do MEI
O que é o MEI
Criado no final de 2008, o microempreendedor individual está inserido no Simples Nacional e se baseia em um regime simples para formalizar quem trabalha por conta própria, como autônomos e pequenos negócios. Atualmente, há cerca de 16,6 milhões de MEIs ativos no país.
🔎O MEI contribui para a Previdência, mas está isento dos demais impostos e contribuições federais, como IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. Também seguirá isento dos futuros impostos sobre o consumo da reforma tributária, como a CBS federal e o IBS dos estados e municípios.
A contribuição gera direito a benefícios de aposentadoria por idade, aposentadoria por invalidez ou incapacidade permanente, pensão por morte, auxílio-doença (incapacidade temporária) e salário-maternidade. Mesmo com contribuição reduzida, o programa tem registrado, desde seu início, elevada taxa de inadimplência.
O MEI deve fazer a declaração Anual do Simples Nacional (DASN-SIMEI)
Divulgação/Sebrae
No início do programa, em 2008, a alíquota cobrada era de 11% para a previdência social, valor que caiu para 5% em 2011. Também houve, naquele momento, definição de que essa alíquota simbólica de 5% passasse a ser o piso previdenciário para o segurado facultativo de baixa renda.
🔎Pelas regras atuais, os microempreendedores podem contratar até um empregado, e devem ter um faturamento anual de até R$ 81 mil. O projeto de lei 108, de 2021, que já foi aprovado pelo Senado e está em análise agora na Câmara, propõe o aumento do limite do MEI de R$ 81 mil para até R$ 130 mil por ano, permitindo, além das demais faixas do Simples Nacional, também, a contratação de mais um funcionário.
As alterações nas regras fazem parte das negociações do governo com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para aprovação de mudanças na escala 6×1.
Impacto nas contas públicas
De acordo com o especialista em Previdência Social, Rogério Nagamine, apesar da boa intenção na criação do MEI, que é aumentar a formalização na economia, há indícios que o programa tem acentuado o desequilíbrio financeiro do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) — “já sobrecarregado pelo rápido e intenso envelhecimento populacional”.
“Há também indícios que o programa está gerando não necessariamente formalização de trabalhadores, mas migração de segurados de planos mais equilibrados do ponto de vista atuarial, como empregados com carteira, para esquemas mais desequilibrados, como MEI. Há necessidade de revisão estrutural urgente do programa”, avalia Nagamine, no estudo.
Economista Rogério Nagamine
Reprodução/TV Globo
Com as regras atuais, ele estimou que o MEI deve gerar um déficit atuarial – ou seja, o rombo projetado no longo prazo da Previdência Social – de cerca de R$ 711 bilhões em sete décadas. Se o limite de faturamento for ampliado para R$ 130 mil ano, o rombo aumentará em cerca de R$ 60 bilhões neste período, sem considerar ganho real do salário mínimo.
Diante desses números, o economista Rogério Nagamine recomenda:
Limitar o acesso ao MEI a trabalhadores de baixa renda, definindo-se critério específico para caracterizar “baixa renda”;
Elevar a alíquota do MEI para 11% do salário mínimo (como era até 2011), o que geraria um aumento da arrecadação estimado em R$ 7 bilhões no ano de 2025;
Introduzir contribuição patronal previdenciária para empresas ou pessoas jurídicas que contratam o MEI como forma de desincentivar a (pseudo) pejotização com intuito de evasão previdenciária;
Reforma da previdência que diminua o déficit atuarial do MEI pelo lado da despesa, por exemplo, igualando ou, pelo menos, diminuindo, a diferença de idade de aposentadoria urbana entre homens e mulheres.
Já o relatório do CMAP de 2022, no último ano de governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, também trazia análises semelhantes.
O Conselho concluiu, em 2022, que o MEI possui importância fundamental na formalização de microempreendedores e na inclusão social, mas acrescentava que o desenho atual, com contribuição previdenciária de 5%, “além de não se mostrar custo-efetivo em relação ao desenho inicial, introduziu também um risco à sustentabilidade do sistema previdenciário devido aos elevados subsídios embutidos”.
No documento, o governo estimava um déficit acumulado de:
R$ 186,8 bilhões em 20 anos;
R$ 437 bilhões em 30 anos;
R$ 728,8 bilhões em 40 anos; e
R$ 1,07 trilhão em 75 anos.
“Por fim, observa-se que resultado atuarial estimado para o MEI totaliza um déficit de R$ 435,7 bilhões”, diz o relatório. A projeção, oficial, foi feita pela Secretaria de Previdência, do então Ministério do Trabalho e Previdência.
Estimativa de déficit atuarial do MEI
Reprodução de estudo do CMAP
O documento do CMAP recomendava:
Realizar estudos para avaliar a aderência entre a atual alíquota (de 5%) de contribuição do MEI e o seu valor original (alíquota de contribuição de 11%), de forma a corrigir distorções entre as alíquotas em relação ao Plano Simplificado de Previdência Social (PSPS) e melhorar a sustentabilidade do sistema.
Propor alterações legais e normativas que introduzam a obrigação do envio de informações (via eSocial) sobre todos os trabalhadores autônomos trabalhando por empreitada (situação permitida a todo MEI) ou prestando serviços por meio de cessão ou locação de mão-de-obra ao estabelecimento (situação excepcional permitida a um grupo restrito de serviços).
O que diz o Ministério da Fazenda
O g1 entrou em contato com o Ministério da Fazenda e questionou:
se a ampliação do limite do MEI não vai no sentido contrário de reequilibrar as contas públicas;
qual o impacto da proposta na perda de arrecadação;
se o projeto tem a ver com o calendário eleitoral; e
se o governo não considera que seria importante, em algum momento, revisar o benefício existente para o MEI.
O Ministério da Fazenda, porém, não respondeu aos questionamentos. Informou apenas que o “assunto relacionado à possível faixa de ampliação do MEI ainda está em análise, pois os estudos técnicos estão em curso”.
O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, já afirmou a jornalistas que o MEI não pode ser utilizado para fraudes trabalhistas e que o micrompreendedor não pode ter características de trabalhadores com carteira assinada.
Ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, diz que MEI não pode ser usado “como fraude trabalhista”
Divulgação/MTE
Para o ministro, há situações em que isso aconteceria – ele cita como exemplo o caso de um hospital que fizesse uma licitação para terceirização de alguma atividade e a empresa terceirizada contratasse MEIs como funcionários formais. Segundo o ministro, isso poderia “arrebentar” recursos como com a Previdência, o FGTS e o Sistema S.
Marinho disse esperar que o Supremo Tribunal Federal (STF), que julga ação sobre pejotização na economia, não permita que isso aconteça.
“Não podemos é utilizar o MEI como uma fraude trabalhista, precisa ser empreendedor. Não é o enfermeiro, não é o gari. Isso é fraude trabalhista, não é o gerente. O conceito de debate do que é PJ e não precisa ficar claro, o Supremo tem a responsabilidade de não cometer a irresponsabilidade de permitir contratar PJ como empreendedor. Tem que caracterizar o que é empreendedor”, disse Marinho a jornalistas.

Os 4 processos judiciais nos EUA que podem mudar a forma como as redes sociais operam

As redes sociais estão sob intenso escrutínio jurídico
Getty images via BBC
Quando as redes sociais começaram a dominar a internet há 20 anos, foram amplamente aclamadas como uma tecnologia revolucionária que conectaria pessoas de diferentes origens e tornaria a informação mais acessível.
Hoje, empresas como a Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, o Google, proprietário do YouTube, e o Snapchat, juntamente com redes relativamente mais recentes como o TikTok, o Discord e a plataforma de jogos sociais Roblox, enfrentam milhares de processos nos EUA sob a alegação de que, em vez disso, estão prejudicando seus usuários, principalmente as crianças.
Em conjunto, o resultado dos processos, seja por meio de acordos extrajudiciais ou veredictos de júri contra as empresas, pode mudar para sempre a forma como as plataformas sociais operam.
“Isso criou um cenário que não só observadores jurídicos estão acompanhando, mas também reguladores e legisladores”, disse Eric Talley, advogado e professor da Faculdade de Direito de Columbia.
Talley observa que a forma como essa crescente onda de processos contra as plataformas está influenciando a percepção pública mais ampla provavelmente afetará as eleições políticas nos próximos anos, impactando leis e regulamentos novos e revisados.
Muitos dos casos estão tramitando em tribunais da Califórnia, onde estão sediadas as principais plataformas de mídia social. Conhecido como o “efeito Califórnia”, as mudanças legais e políticas implementadas no Estado tendem a levar a mudanças em todo o país.
“Não há mais como negar que existe um problema com a segurança infantil nas plataformas”, disse Alexis Shore Ingber, especialista em direito da comunicação e professora da Universidade de Syracuse. “Estamos vendo um ponto de inflexão. Esses casos são significativos.”
Este ano, a Meta e o YouTube sofreram uma derrota sem precedentes em um caso movido por uma jovem que alegou ter sido viciada em mídias sociais na infância, o que contribuiu para seus problemas de saúde mental e emocional. As empresas foram condenadas por um júri a pagar a ela um total de US$ 6 milhões (R$ 31 milhões) em indenização. Ambos os escritórios de advocacia disseram discordar do veredicto e pretendem recorrer.
A Meta também perdeu um caso maior no Novo México, movido pelo procurador-geral daquele Estado, que acusou a empresa de enganar o público ao afirmar que suas plataformas eram seguras para crianças, apesar dos problemas conhecidos de exploração sexual de jovens nelas. A Meta afirmou que também planeja recorrer dessa decisão.
Durante os anos em que esses casos foram apresentados e resolvidos, a Meta lançou mudanças em suas plataformas com o objetivo de torná-las mais seguras para jovens usuários.
Mas alterações mais amplas nas plataformas — em como elas são projetadas, funcionam e até mesmo são acessadas — provavelmente levarão anos e passarão por várias decisões judiciais desfavoráveis.
Entre este ano e o próximo, a Meta e as outras principais plataformas de mídia social enfrentarão mais julgamentos, nos quais os júris poderão considerar uma série de alegações de jovens usuários, seus pais, distritos escolares e procuradores estaduais, que alegam uma série de efeitos nocivos na forma como as plataformas de mídia social são projetadas e operam.
Até mesmo um bilionário está preparado para levar a Meta a julgamento por hospedar anúncios que enganam pessoas e roubam seu dinheiro.
Então, quais casos realmente importam? A BBC analisou dezenas de casos nos EUA para encontrar os poucos processos contra empresas de mídia social e jogos sociais que estão a caminho de julgamento no próximo ano ou mais e que podem ter um impacto significativo nos negócios e operações das plataformas.
De acordo com Adam J. Schwartz, um advogado que também fundou uma ferramenta online de revisão de documentos, os seguintes processos “são os casos emblemáticos que definirão o tom e o teor para moldar a lei no futuro”.
Escolas x plataformas
Um dos processos contra empresas de redes sociais envolve mais de 1.000 escolas na Califórnia
Getty images via BBC
Um extenso litígio multidistrital (MDL, como é conhecido esse tipo de processo nos EUA) na Califórnia inclui alegações de mais de 1.000 distritos escolares no país.
De forma geral, as escolas acusam o Instagram, o YouTube, o Snapchat e o TikTok de serem intencionalmente projetados para serem viciantes, o que supostamente prejudicou crianças mental e emocionalmente por meio do uso excessivo das plataformas.
As escolas alegam que lidar com os efeitos nocivos das mídias sociais lhes custou dinheiro e recursos, e que as plataformas devem ser consideradas um “incômodo público” e responsabilizadas por afetar o bem-estar das crianças.
Embora um julgamento com júri para algumas das alegações dos distritos escolares esteja marcado para começar em fevereiro — depois que as plataformas recentemente fizeram um acordo com um distrito escolar que seria o primeiro a ser julgado —, todos os casos podem levar mais alguns anos para serem resolvidos completamente.
Caso os resultados dos tribunais sejam desfavoráveis ​​às plataformas, tudo, desde a forma como as plataformas exibem o engajamento do usuário até quem elas permitem nas plataformas, pode mudar.
Um porta-voz do YouTube disse: “As alegações nessas queixas simplesmente não são verdadeiras.” Uma porta-voz do Snapchat disse: “Discordamos fundamentalmente das alegações — não temos como alvo escolas.”
A Meta se recusou a comentar e o TikTok não respondeu a um pedido de comentário.
Na terça-feira (23/06), o YouTube chegou a um acordo com um jovem de 15 anos no Estado da Flórida, que tinha movido um processo semelhante contra a plataforma.
“Essa questão foi resolvida amigavelmente, e nosso foco continua voltado para o desenvolvimento de produtos adequados para cada faixa etária e controles parentais que cumpram essa promessa”, declarou o porta-voz do Google, José Castañeda, em comunicado à BBC.
Povo do Estado da Califórnia x Meta
Advogados da Califórnia e do Colorado lideraram um grupo de 29 Estados ao entrar com uma ação judicial em 2023 contra a Meta e o Instagram. O julgamento está marcado para agosto.
Os Estados estão acusando a Meta de violações da Lei de Proteção da Privacidade Online das Crianças (COPPA), uma lei federal.
A lei, promulgada em 2000, foi criada para proteger crianças menores de 13 anos de serem alvo de empresas que operam online.
A Meta já forneceu mais de 2 milhões de documentos ligados a esse caso, de acordo com os registros do tribunal.
Os Estados querem que a Meta melhore seus mecanismos de controle para impedir que menores de 13 anos usem suas plataformas e remova os dados que coletou anteriormente de usuários menores de idade, além de uma série de outras mudanças.
A Meta usa esses dados para práticas como segmentação de anúncios e treinamento de seus modelos e ferramentas de inteligência artificial (IA).
Um porta-voz da empresa se recusou a comentar o caso.
Menor de idade não identificado x Roblox e Discord
Roblox e Discord enfrentam um processo judicial relacionado ao design e marketing de suas plataformas
AFP/Getty images/BBC
Este processo contra a Roblox e o Discord foi movido por um menino de 13 anos em um tribunal estadual em San Mateo, Califórnia. O menino alega que foi aliciado por um predador sexual por meio de ambas as plataformas. Posteriormente, o homem envolvido foi preso por seus crimes contra mais de duas dúzias de crianças.
O processo argumenta que ambas as plataformas foram projetadas com falhas e se envolveram em marketing enganoso sobre a segurança para usuários jovens e, portanto, devem ser responsabilizadas pelos danos sofridos pelo jovem cuja identidade não foi divulgada.
A Roblox, que é uma plataforma focada em jogos com muitos recursos de mídia social, e o Discord tentaram levar o caso para arbitragem, que é um processo legal privado fora do sistema judicial. O tribunal recusou, mas o caso está atualmente suspenso aguardando o recurso das empresas contra essa decisão.
Caso a Roblox e o Discord percam seus recursos, o caso poderá ir a julgamento ainda este ano.
Um veredicto judicial contra as plataformas pode trazer mudanças na restrição de idade e na capacidade de estranhos interagirem com usuários jovens por meio de mensagens e salas de bate-papo da plataforma.
Uma porta-voz do Discord se recusou a comentar. Um representante da Roblox não respondeu ao pedido de comentário.
Forrest x Meta
Nem todos os casos contra plataformas de redes sociais que vão a julgamento têm a ver com danos contra crianças.
Andrew Forrest, um bilionário australiano, processou a Meta na Califórnia em 2022 pelo suposto fracasso da empresa em combater anúncios fraudulentos que enganam os australianos em investimentos falsos que supostamente proliferaram no Facebook usando seu nome e imagem.
Com alegações que incluem uso indevido de sua imagem e enriquecimento ilícito — porque a Meta ganha dinheiro com anúncios em sua plataforma —, independentemente do objetivo ou resultado, o processo de Forrest pode ser um dos mais significativos.
Ele está pedindo ao tribunal que determine que a Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações não pode ser usada como defesa pela Meta no caso. Meta está argumentando que está protegida das reivindicações de Forrest pela Seção 230.
Promulgada em 1996, a Seção 230, como é normalmente chamada, essencialmente dá imunidade legal às plataformas para qualquer coisa que ocorra nelas.
Se o tribunal finalmente ficar do lado de Forrest, poderá derrubar décadas de defesas das plataformas online.
Um porta-voz da Meta não quis comentar o caso.

O que a crise de 1929 pode nos ensinar sobre os perigos que a economia enfrenta hoje?

Mensageiros de corretoras se aglomeram em torno de um jornal após a primeira quebra da bolsa de valores de Wall Street, em 24 de outubro de 1929
Getty Images via BBC
Para muitos economistas, os indicadores atualmente registrados pela Bolsa de Valores de Nova York — e já há algum tempo — são desconcertantes.
Apesar de vários anos de conflito na Ucrânia e no Oriente Médio, com o fechamento repentino do estreito de Ormuz, que causou caos no mercado global de energia, o mercado de ações continua em alta.
Em fevereiro, o índice Dow Jones — que representa a média do valor das 30 maiores empresas americanas — ultrapassou sua máxima histórica de 50 mil pontos e agora em junho já havia ultrapassado os 52 mil.
No final de maio, o índice S&P 500 conseguiu manter uma alta sustentada no preço de suas ações por nove dias consecutivos — algo raro em Wall Street — e, graças à explosão da inteligência artificial, o índice Nasdaq continua a atingir recordes históricos.
Embora esse aumento possa, teoricamente, ser um bom sinal para a economia americana, alguns começam a traçar paralelos com os anos que antecederam a maior crise financeira da história: a quebra da Bolsa de Valores de 1929.
O podcast da BBC More or Less conversou com Andrew Ross Sorkin, autor de 1929: Por dentro da maior crise da história de Wall Street – e como ela abalou o mundo (Companhia das Letras) e Too Big to Fail (Grande demais para quebrar, em tradução livre) para analisar as semelhanças e diferenças entre a situação atual e o período anterior à quebra de 1929.
Sorkin ressalta como pessoas estavam se endividando para investir antes do crash de 1929
Getty Images via BBC
BBC – Para aqueles de nós familiarizados com a história das finanças, nenhuma data é mais significativa do que 1929. Mas para aqueles que, felizmente, se esqueceram: o que foi a Grande Quebra da Bolsa de Valores de Wall Street?
Andrew Ross Sorkin – A Grande Quebra da Bolsa de Valores de 1929 é considerada a primeira e mais severa quebra da bolsa de valores dos EUA.
A década de 1920 foi uma época de grande prosperidade e dinamismo.
Surgiram os automóveis, o rádio e todo aquele entusiasmo pelas novas tecnologias que iriam mudar o mundo.
Além disso, foi a primeira vez que pessoas comuns puderam investir na bolsa de valores. Elas observaram o mercado subir constantemente. E, em outubro de 1929, ele quebrou; e quebrou com uma força tremenda.
BBC – Eu queria ter uma ideia da magnitude dessa quebra. Ela é chamada de “Grande Quebra”. É correto dizer que foi a maior crise financeira da história? Existe alguma maneira de quantificá-la?
Sorkin – Acredito que, se analisarmos não apenas o ano de 1929, mas o período entre 1929 e 1933, observaremos uma queda de aproximadamente 90% no valor total do mercado.
Vale ressaltar que, curiosamente, em 1929 — apesar de todos nos lembrarmos daquele ano como uma grande quebra —, a bolsa de valores fechou com uma queda de apenas 17%.
Mas…
Entre outubro e novembro de 1929, o mercado caiu quase 50%.
Portanto, se alguém fechasse os olhos e simplesmente comparasse o início com o fim do ano, poderia pensar que nada havia acontecido; além daquela extraordinária queda de 50% que ocorreu em um momento em que pessoas comuns estavam investindo na bolsa de valores pela primeira vez, muitas vezes assumindo níveis consideráveis de dívida, em alguns casos com uma relação dívida/patrimônio líquido de 10 para 1.
BBC – Esse aspecto merece ser explorado mais a fundo. Então, se eu tiver US$ 100, pegar emprestado US$ 1 mil para comprar ações por esse valor e essas ações caírem para US$ 500, terei perdido cinco vezes mais dinheiro do que realmente possuía.
Sorkin – E você tem um grande problema. Isso explica o que considero o primeiro dominó em uma série de eventos que levam — como acabamos de mencionar — à queda de 90% até 1932 ou 1933.
E, aliás, em 1932, a taxa de desemprego também chegou a 25%.
A quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 teve um impacto imenso nas economias dos EUA e do mundo
Getty Images via BBC
BBC – Uma das suas funções, Andrew, é aparecer na televisão falando sobre finanças. E enquanto você fala, números aparecem na parte inferior da tela: se o mercado de ações está subindo ou caindo, o preço de ações individuais, o dólar, o petróleo bruto… Há uma disponibilidade de dados absolutamente onipresente.
É verdade que em 1929 já existia o teletipo, que imprimia os preços das ações, mas a situação era muito diferente.
O que era diferente, e a falta de dados naquela época tornou a situação melhor ou pior?
Sorkin – Eu diria que a falta de dados — e, mais importante, a falta de dados em tempo real — não era apenas um problema.
Na verdade, em alguns casos, pode ser descrito como o fator que desencadeou a crise.
Em alguns casos, estávamos literalmente com quatro, cinco ou seis horas de atraso.
Quando você vê aquelas famosas fotos em preto e branco de milhares de pessoas durante a Grande Depressão, reunidas em volta da Bolsa de Valores de Nova York — talvez você as tenha visto ao longo dos anos — você pode ter se perguntado: “O que eles estão fazendo? Por que todas essas pessoas estão na rua?”
Todas aquelas pessoas tinham ido a Wall Street para tentar descobrir, pessoalmente, o que havia acontecido com seu dinheiro.
Elas não sabiam quais eram os preços das ações. Porque se você estivesse em uma corretora — digamos, na Quinta Avenida, perto da Rua 40 — você poderia estar com três horas de atraso; e esqueça se você estivesse na Europa ou em um navio em algum lugar.
E, aliás, as pessoas negociavam de navios. Você poderia estar com até dois dias de atraso.
Então, uma das coisas que aconteceram foi que as pessoas perceberam o quão desincronizado estava o sistema de cotações das ações e disseram: “Vou vender tudo; não consigo nem participar disso.”
Em outubro de 1929, o terror tomou conta dos investidores na Bolsa de Valores de Nova York
Getty Images via BBC
BBC – Existe alguma maneira de saber o quão vulnerável você está numa crise? Quero dizer, da perspectiva de um historiador, você pode analisar índices e gráficos, mas existe alguma maneira de perceber isso no momento em que acontece?
Sorkin – Veja bem, o que eu sempre observo é a dívida.
Para mim, a alavancagem do sistema é o fósforo que acende o fogo. É por isso que o que eu sempre observo — seja no momento ou em retrospectiva — é o quanto de dívida existe no sistema em um determinado momento, porque é isso que geralmente desencadeia a crise e frequentemente contribui para inflar o múltiplo.
Então, essa é outra coisa que você pode analisar: qual é o múltiplo em um determinado momento. Você pode usar a relação preço/lucro (P/L) ou qualquer outra métrica para tentar entender como uma ação está sendo avaliada em comparação com outras.
BBC – E quando falamos de “múltiplo”, um exemplo clássico é simplesmente perguntar: quão cara está essa ação em relação aos lucros que a empresa gera? Se a empresa lucra US$ 1 por ano e a ação está cotada a US$ 10, o múltiplo é 10. Se a empresa lucra US$ 1 por ano por ação e a ação vale US$ 100, então o múltiplo é 100. Esforços têm sido feitos para traçar esses múltiplos preço/lucro (ou índices P/L) a longo prazo.
Sorkin – Se você observar os gráficos daquela época, verá que se parece com uma montanha; você consegue ver o pico. Olhando para trás, fica claro. Embora, se você estivesse lá na época, talvez não tivesse percebido que era o pico.
BBC – Bem, você sabe que subiu. O que você não sabe é se vai subir mais.
Sorkin – Exatamente. Você não sabe se está no topo da montanha ou se a montanha vai continuar crescendo… acima da linha das árvores, por assim dizer. Aliás, “montanhas” semelhantes podem ser vistas na década de 1970 e também no final da década de 1990.
‘As pessoas vieram a Wall Street para tentar descobrir pessoalmente o que tinha acontecido com o seu dinheiro’, explica Andrew Ross Sorkin.
Getty Images via BBC
BBC – Na verdade, gostaria de abordar esse tópico porque uma das razões pelas quais 1929 é tão interessante — é uma história fascinante como você a conta — é que também nos diz algo sobre o presente e outras crises. Se observarmos aquela “montanha”, como o pico atingido em 1929 se compara, digamos, com a década de 1970, a bolha da internet ou mesmo os dias atuais?
Sorkin – Bem, parece alto, mas comparado a esses outros picos, é um pico mais baixo, por assim dizer.
No entanto, se analisarmos a evolução naquele período, vemos como ele sobe constantemente. E então vemos a queda, como uma verdadeira montanha-russa… embora eu esteja misturando metáforas agora.
BBC – Em 1929, o gráfico atinge um pico muito íngreme, um pouco acima de 30. Ou seja, o preço das ações equivale a 30 vezes a média dos lucros dos dez anos anteriores. Depois, cai e nunca mais se aproxima desse valor. Mais tarde, no final da década de 1990 e início dos anos 2000 — durante o boom da internet —, sobe ainda mais, ultrapassando a marca de 40. Depois, cai novamente. Agora, ultrapassou a marca de 40 mais uma vez. Esta é apenas a segunda vez na história que atingiu um nível superior ao pico anterior à quebra de 1929. Podemos tirar alguma conclusão disso?
Sorkin – Sem dúvida. Podemos concluir que é provável que, em algum momento — embora não saibamos quando —, haverá outra quebra.
E essa é a grande questão existencial para todos nós.
Uma forte reavaliação dos preços das ações durante a década de 1970 levou à temida ‘estagflação’: alta inflação, baixo crescimento e desemprego em disparada.
Getty Images via BBC

Quanto custavam as coisas em 2002? Relembre os preços e como era a economia no ano do penta

Ronaldo final Copa 2002
Agência AP
Em 2002, o Brasil comemorou um dos momentos mais marcantes de sua história esportiva: a conquista do pentacampeonato mundial de futebol, com a vitória sobre a Alemanha e dois gols de Ronaldo na final da Copa do Mundo.
Mas, enquanto a seleção fazia a festa no Japão, os brasileiros conviviam com um cenário econômico desafiador.
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
Era um período de inflação elevada, dólar em disparada, juros altos e muitas incertezas por conta das eleições presidenciais que levariam Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Palácio do Planalto pela primeira vez.
Ainda assim, quem viveu aquela época provavelmente se lembra da sensação de entrar em uma padaria, abastecer o carro ou comprar um ingresso de cinema pagando valores que hoje parecem irreais.
Por isso, o g1 reuniu algumas curiosidades sobre 2002 para relembrar como era o Brasil no ano do penta e entender por que comparar preços do passado com os de hoje exige olhar também para a inflação e o contexto econômico.
Preços menores não significam poder de compra
À primeira vista, os valores cobrados há mais de duas décadas chamam a atenção.
O litro da gasolina, por exemplo, custava em média R$ 1,77. O etanol saía por cerca de R$ 0,94 e o diesel por R$ 1,07, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
O carro zero-quilômetro mais barato do país era o Fiat Uno Mille de três portas, vendido por R$ 13.577. (veja como era o mercado de carros em 2002)
Várias versões do Fiat Mille ficaram marcadas pelos preços baixos nos anos 1990 e começo dos anos 2000
Divulgação / Stellantis
Propaganda mostra o preço de um Peugeot 206 em 2002
Divulgação
Reportagem de janeiro de 2002 mostra o aumento nos preços da gaslina no país
Acervo/TV Globo
Outros itens do dia a dia também tinham preços bastante diferentes dos atuais:
Preço médio da cesta básica em 2002
Acervo/TV Globo
Aumento da tarifa na Grande São Paulo e ABC Paulista, em dezembro de 2002
Acervo/TV Globo
Exemplo do preço de um telefone sem fio em 2002
Divulgação
Valor do ingresso de cinema no Cine Bijou, primeira sala de cinema da cidade de São Paulo
Acerto/TV Globo
Propaganda mosra os preços dos celulares em 2002
Reprodução
Propaganda GM em 2002
Divulgação
Apesar dos números parecerem baixos hoje, o dinheiro também rendia menos para muitas famílias. Os salários tinham menor poder de compra em um ambiente de inflação acelerada e juros elevados.
A inflação mudou o valor do dinheiro
Panfleto de supermercado no início dos anos 2000
Reprodução/internet
É comum ouvir relatos nostálgicos sobre o custo de vida no início dos anos 2000. A comparação, no entanto, pode ser enganosa quando considera apenas o preço nominal dos produtos e ignora a renda e a inflação do período.
🔎 Valor nominal é o preço registrado no momento, sem ajustes, enquanto o valor real leva em conta a inflação e mostra o poder de compra desse dinheiro ao longo do tempo.
Para o economista e professor de finanças da Fundação Vanzolini Marcos Crivelaro a leitura correta depende do poder de compra, e não apenas dos valores exibidos na etiqueta.
O principal erro das comparações nostálgicas, segundo o especialista, é separar o preço do contexto de renda da época. Em 2002, o salário mínimo era de cerca de R$ 200. Hoje, é R$ 1.621,00 por mês.
“A inflação impacta o valor real do dinheiro fazendo com que ele perca valor ao longo do tempo, o que significa que uma mesma unidade monetária (como R$ 1,00) não consegue comprar em 2026 as mesmas coisas que comprava em 2002”, explica Crivelaro.
“No entanto, focar apenas no aumento dos preços é uma ‘ilusão’, pois o preço é apenas um número, enquanto o poder de compra conta a história completa.”
Na avaliação dele, a análise econômica deve responder não quanto um produto custava, mas quantos bens cabiam no salário. Quando a relação entre preços e renda é considerada, o cenário muda em relação à percepção comum do passado.
O economista destaca que até hábitos de consumo mudaram.
“Em 2002, reunindo os amigos para ver Brasil e Alemanha, você poderia consumir quase metade de um salário mínimo num churrasco. Hoje o churrasco custa mais caro, mas proporcionalmente pesa menos no orçamento doméstico. Você consegue até comer mais do que comia antes”, afirma.
Além da inflação, o início dos anos 2000 era marcado por um ambiente econômico mais difícil. O país tinha juros bastante elevados, crédito escasso, renda média menor e maior instabilidade cambial. (veja mais abaixo)
“Muitos produtos pareciam mais baratos, mas eram mais difíceis de comprar. O acesso ao consumo era mais restrito”, afirma.
Para Crivelaro, a comparação direta entre preços de épocas diferentes tende a distorcer a realidade ao ignorar fatores como renda e crédito. “A nostalgia não é um indicador econômico confiável”, afirma.
Panfleto de ofertas do supermercado Guanabara, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2002
Reprodução
Um ano de dólar alto e juros elevados
O ano do penta ficou marcado por um cenário econômico turbulento no Brasil. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 1,5% em relação ao ano anterior, enquanto a taxa de desemprego alcançava 11,7%, segundo a antiga Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE.
No cenário doméstico, a proximidade das eleições presidenciais assustou investidores e provocou forte volatilidade no mercado financeiro.
O dólar chegou perto de R$ 4 durante o período eleitoral, atingindo aproximadamente R$ 3,95 em outubro, e encerrou o ano cotado em torno de R$ 3,55. Lembrando que é necessário considerar a inflação: R$ 4 da época seria o equivalente a R$ 15 de hoje.
A desvalorização do real pressionou a inflação, que chegou a 12,53% no ano e reduziu o poder de compra da população.
Para conter esse movimento e estabilizar o câmbio, o Banco Central elevou a taxa Selic para cerca de 25% ao ano. Os juros elevados encareceram empréstimos e financiamentos, restringindo o consumo e os investimentos.
O país ainda sentia os efeitos da crise energética de 2001, que havia provocado racionamento de eletricidade, enquanto o cenário internacional era marcado por tensões no Oriente Médio e pelo risco de guerra no Iraque — fatores que impulsionavam o preço do petróleo e aumentavam a aversão global ao risco.
Com isso, investidores retiravam recursos de mercados emergentes, pressionando ainda mais o câmbio brasileiro. Apesar das dificuldades, a desvalorização do real favoreceu as exportações e permitiu ao país encerrar o ano com um expressivo superávit comercial.
Para Marcos Crivelaro, esse contexto ajuda a explicar por que a percepção de que “tudo era mais barato” pode ser enganosa.
“O Brasil de 2002 era muito diferente. O dólar estava pressionado, os juros eram altíssimos, o crédito era escasso e a renda média da população era menor. Muitos produtos pareciam baratos, mas também eram mais difíceis de comprar”, afirma.
Entre a festa do penta e as mudanças políticas
Enquanto milhões de brasileiros comemoravam o penta, o país vivia um período de incertezas econômicas e de transição política. Nas eleições daquele ano, Lula venceu José Serra (PSDB) e foi eleito presidente.
O governo que tomou posse em 2003 herdaria uma série de desafios, como controlar a alta dos preços, recuperar a confiança dos investidores, estimular a atividade econômica, administrar o aumento da dívida pública e a redução do fluxo de capitais estrangeiros.
Antes mesmo da eleição, porém, a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) precisou recorrer novamente ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para enfrentar a turbulência financeira.
Em agosto de 2002, o Brasil negociou um pacote de ajuda de US$ 30,4 bilhões — o maior já aprovado pela instituição até então — com o objetivo de reforçar as reservas internacionais e assegurar que o país pudesse cumprir seus compromissos financeiros.
Naquele momento, o Brasil tinha cerca de US$ 37,8 bilhões em reservas internacionais e uma dívida externa de aproximadamente US$ 165 bilhões.
O acordo com o FMI veio acompanhado de compromissos de manutenção da disciplina fiscal e do controle da inflação, além de restaurar a confiança dos mercados em meio à volatilidade do câmbio e às incertezas do período eleitoral.
* Com colaboração de Jeferson Alves Ferreira, Angela Celeste, Giulia Tartari/Acervo TV Globo

Figo não é fruta e nem planta carnívora: entenda como ele consegue digerir vespas

Figo não é fruta e nem planta carnívora: entenda como ele consegue digerir vespas
O figo não é uma fruta, como muita gente imagina. Na verdade, ele é uma flor invertida, que abriga um sistema capaz de digerir a vespa-do-figo.
Apesar disso, o figo não é considerado uma planta carnívora. Isso porque a digestão faz parte de um mecanismo de defesa, explica Paulo Minatel Gonella, professor do Departamento de Ciências Exatas e Biológicas da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)
Na natureza, o figo precisa ser polinizado para produzir sementes férteis. Como o pólen fica no interior da flor, apenas a vespa-do-figo consegue alcançá-lo, entrando por uma pequena abertura.
Já as plantas carnívoras, em geral, vivem em solos pobres em nutrientes. Portanto, elas vão capturar os insetos como uma fonte de complementação, principalmente de nitrogênio e fósforo, que são nutrientes fundamentais para que elas sobrevivam, explica Gonella.
🦟É possível comer um figo com vespa? O consumidor dificilmente irá encontrar o inseto na fruta que comprou no supermercado. Isso porque o produto comercializado se reproduz de uma forma diferente e não precisa mais da polinização.
Ao longo dos anos, os pesquisadores foram reproduzindo figos geneticamente com as características que mais agradavam ao consumidor. Como resultado, o alimento para consumo só possui flores internas femininas e não precisa de sementes férteis, explica o professor da UFSJ.
Além disso, os figos são ensacados durante seu desenvolvimento, evitando que as vespas entrem e que pássaros se alimentem com eles — na natureza, os pássaros são os responsáveis por espalhar as sementes.
Como as sementes não são férteis, para cultivar o figo, os agricultores o reproduzem por meio de clonagem e estaquia, uma técnica que usa estacas para multiplicação das espécies, promovendo o enraizamento de partes da planta no solo, podendo ser ramos, raízes ou folhas.
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