Selic: Copom reduz taxa básica de juros para 14% ao ano
O Banco Central observou nesta terça-feira (11) que a inflação para os consumidores desacelerou nos últimos meses, embora ainda permaneça acima da meta, e apontou que há pressão dos gastos públicos (estimulando a demanda) e de choques de oferta, como a alta do petróleo — decorrente da guerra no Oriente Médio.
As análises constam na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, realizada na semana passada, quando a taxa básica de juros da economia brasileira foi reduzida para 14% ao ano — no quarto corte seguido.
Em termos reais, porém, o juro brasileiro ainda é o maior do mundo, segundo levantamento da MoneYou.
“No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, informou o BC, a ata do Copom.
➡️Com isso, a autoridade monetária não indicou o que poderá fazer na próxima reunião do Copom, marcada para 15 e 16 de setembro, deixando a porta aberta para tomar a decisão somente nos dias do encontro — com base nos últimos indicadores da economia.
🔎A taxa básica de juros da economia é o principal instrumento do BC para tentar conter as pressões inflacionárias, que tem efeitos, principalmente, sobre a população mais pobre.
Inflação de junho é a menor para o mês em 3 anos, mas ainda está acima do teto da meta estabelecida pelo Banco Central
Jornal Nacional/ Reprodução
➡️O BC acrescentou que o cenário atual, caracterizado por significativo aumento da incerteza, com as expectativas de inflação para os próximos anos acima da meta (central de 3%) e “riscos elevados em torno do cenário base, demanda serenidade e cautela na condução da política monetária”.
“O Comitê seguirá incorporando novas informações e acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, informou o Banco Central.
Gastos públicos
O Banco Central informou, na ata da última reunião do Copom, que há evidências de que a política de juros altos, implementada nos últimos anos, apesar dos cortes recentes da taxa Selic, estejam surtindo efeito sobre a inflação — que tem mostrado desaceleração.
“Embora a política monetária [juros altos] esteja contribuindo de forma determinante para o processo de desinflação, a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo que a política monetária mantenha caráter restritivo [taxas ainda elevadas para padrões brasileiro e internacionais]”, informou o Copom.
➡️O BC apontou, também, que a chamada “política fiscal” (relativa aos gastos públicos) tem um impacto de curto prazo na inflação, “majoritariamente” por meio de estímulo à demanda agregada (pressionando a taxa de juros). Avaliou, ainda, que o aumento de gastos “tem potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a termo da curva de juros”.
“Uma política fiscal que atue de forma contracíclica [corte de gastos para conter a inflação] e contribua para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta. O Comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”, acrescentou.
Em entrevista ao g1 no começo de julho, o ministro da Fazenda, negou que decisões do governo federal sejam a principal causa dos juros elevados no país e afirmou que a equipe econômica fará um ajuste nas contas públicas nos próximos anos para cumprir as metas fiscais.
“Eu não estou procurando culpados. Porque assim, quem é menos culpado é o Ministério da Fazenda por conta da taxa de juros. (…) Nós temos que discutir qual a razão da taxa de juros estar nesse patamar. O debate fiscal, ele importa para a taxa de juros, mas não é a solução, porque essa é a resposta fácil”, disse o ministro da Fazenda, na ocasião.
Choques de oferta
O Banco Central avaliou, também, que a política de gastos públicos não é a única a pressionar a inflação corrente e as expectativas para os próximos anos. Segundo a instituição, choques de oferta, como o aumento do preço do petróleo decorrente da guerra no Oriente Médio, por exemplo, também têm impactado para cima os preços.
“Choques de oferta têm exercido influência relevante tanto sobre a trajetória recente da inflação quanto sobre sua trajetória prospectiva. O Copom avalia que que não deve reagir aos efeitos primários de choques dessa natureza, mas que é necessário monitorar com atenção eventuais efeitos de segunda ordem, e reagir com firmeza caso esses efeitos se materializem”, afirmou o BC.
Como as decisões são tomadas
Para definir os juros, a instituição atua com base no sistema de metas. Se as projeções de inflação estão em linha com as metas, é possível baixar os juros. Se estão acima, o Copom tende a manter ou subir a Selic.
Desde o início de 2025, com o início do sistema de meta contínua, o objetivo foi fixado em 3% e será considerado cumprido se a inflação oscilar entre 1,5% e 4,5%.
Com a inflação ficando seis meses seguidos acima da meta em junho, o BC teve de divulgar uma carta pública explicando os motivos.
Ao definir a taxa de juros, o BC olha para o futuro, ou seja, para as projeções de inflação, e não para a variação corrente dos preços, ou seja, dos últimos meses.
Isso ocorre porque as mudanças na taxa Selic demoram de seis a 18 meses para ter impacto pleno na economia.
Neste momento, por exemplo, a instituição já está mirando na meta considerando o primeiro trimestre de 2028.
Para 2026, 2027 e 2028, respectivamente, as estimativas de inflação do mercado financeiro estão em 5,02%, 4,22% e 3,80% – todas acima da meta central de inflação.
Outros recados
BC avaliou que o ambiente externo permanece “incerto” em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio e da incerteza sobre a política monetária em algumas economias avançadas (taxa de juros nos EUA, por exemplo). “Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities”, acrescentou.
A atividade econômica doméstica manteve trajetória de moderação, como busca o Banco Central. “Indicadores correntes apontam para desaceleração na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2026, disseminada entre os componentes de oferta e demanda do produto agregado”, informou.
O BC informou que segue acompanhando “detidamente” o mercado de trabalho. “O Comitê segue atento ao debate sobre as dimensões corrente e estrutural do mercado de trabalho, enfatizando a necessidade do aprofundamento dessa análise para a avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia”, concluiu.