Cerveja, DeepSeek e robôs: conheça o bar que virou ponto de encontro da turma da IA na China

Clientes conversam no AGI Bar, estabelecimento temático de inteligência artificial no bairro de alta tecnologia de Zhongguancun, em Pequim, China.
REUTERS/Tingshu Wang
Inteligência artificial e álcool têm três semelhanças, segundo Song De, dono de um bar em Pequim: alucinações, bolhas e destilação. Com o entusiasmo em torno da inteligência artificial crescendo na China, Song espera que seu estabelecimento também possa aproveitar essa onda.
Ele inaugurou o AGI Bar no ano passado, em Zhongguancun, polo de tecnologia do distrito de Haidian, na capital chinesa.
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O nome faz referência ao conceito de inteligência artificial geral, em que sistemas seriam capazes de realizar tarefas com um nível de inteligência semelhante ou superior ao dos humanos.
O bar se tornou um ponto de encontro de desenvolvedores, investidores e estudantes de IA em Pequim.
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“Você verá pessoas sentadas ao redor de uma mesa, vindas de diferentes laboratórios, empresas concorrentes e universidades, todas conversando sobre as tendências do setor aqui mesmo”, disse Song, um desenvolvedor independente de IA na casa dos 30 anos que administra o bar nas horas vagas.
Localizado na Inno Way, rua conhecida por concentrar startups em Zhongguancun, o estabelecimento fica a poucos passos das universidades Tsinghua e Pequim, que formam alguns dos principais talentos em IA da China.
O bar também fica próximo dos escritórios de grandes empresas de tecnologia chinesas e ocidentais, como DeepSeek e Microsoft.
O local já recebeu festas de laboratórios chineses de IA, como a Z.ai, e realiza regularmente seminários para desenvolvedores, encontros sobre inteligência artificial de código aberto e eventos ligados à pesquisa universitária.
Clientes conversam no AGI Bar, estabelecimento temático de inteligência artificial no bairro de alta tecnologia de Zhongguancun, em Pequim, China.
REUTERS/Tingshu Wang
“Esta é uma localização muito singular e vantajosa”, disse Song. “Haidian sempre foi o coração da pesquisa científica na China. Empresas de internet estão concentradas aqui, e o ambiente tecnológico, os investimentos do setor e as incubadoras de capital de risco proporcionam um enorme impulso para o segmento.”
Dentro do bar, as paredes são cobertas por logotipos, figuras coloridas e produtos de algumas das principais empresas chinesas de inteligência artificial.
Um enorme gongo de bronze ocupa lugar de destaque na entrada. Ele foi tocado pela Z.ai quando a empresa abriu seu capital na Bolsa de Valores de Hong Kong, em janeiro.
O estabelecimento se tornou um símbolo do esforço da China para usar a inteligência artificial como motor de transformação da economia e de expansão da indústria de alta tecnologia.
A tecnologia já começa a provocar mudanças no mercado de trabalho e se espalha por diferentes áreas, da adoção de ferramentas de IA por aposentados à inclusão de programação nos currículos de escolas de ensino fundamental.
Tokens da DeepSeek para clientes
A bebida exclusiva do bar, também chamada AGI, é um copo de chope que custa 9,9 yuans (US$ 1,50). Pelo Wi-Fi do estabelecimento, os clientes também podem acessar um agente de inteligência artificial que oferece uso gratuito e ilimitado de tokens da DeepSeek para programação.
O sistema funciona em dois computadores Nvidia DGX Spark expostos no local. “Dizemos que a IA é um serviço público essencial do futuro, como água, eletricidade e internet. A IA deveria ser como o Wi-Fi”, disse Song, que considera o avanço da tecnologia mais importante do que a Revolução Industrial.
O nome chinês registrado do bar significa “destilação do conhecimento”, em um trocadilho entre a produção de bebidas alcoólicas e a chamada destilação de modelos de IA.
“Primeiramente, é um termo técnico de IA para a transferência de conhecimento de modelos grandes para modelos pequenos, mas, entre humanos em um bar, isso também é uma forma de destilação de conhecimento”, disse Song.
Bar terá robôs humanoides em breve
Embora o bar ainda tenha funcionários, Song já usa um agente de inteligência artificial para automatizar boa parte do controle de estoque, das reservas, dos serviços públicos e do sistema de membros.
Ele também planeja incorporar robôs humanoides à operação do bar em breve.
Clientes conversam no AGI Bar, estabelecimento temático de inteligência artificial no bairro de alta tecnologia de Zhongguancun, em Pequim, China.
REUTERS/Tingshu Wang

Como será o supercomputador brasileiro de IA com investimento de R$ 1 bilhão

Lula discursa durante anúncio de supercomputador no RN
O Brasil deverá ter um novo supercomputador em operação a partir de 2027. O projeto anunciado na última quinta-feira (20) faz parte de um plano voltado à inteligência artificial e prevê um investimento de R$ 1,06 bilhão.
A máquina será comprada por meio de edital e ficará instalada no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba (RN). Entre outras funções, servirá para criar e treinar modelos de IA.
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O governo apresentou ainda um projeto para instalar outro supercomputador no Rio de Janeiro, além de planos para criar um serviço brasileiro de armazenamento em nuvem e ampliar a fabricação local de chips. (saiba mais abaixo)
As iniciativas fazem parte do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado em 2024 e com previsão de R$ 23 bilhões em investimentos na área até 2028.
Data center da Meta em Indiana, nos Estados Unidos
Divulgação/Meta
Segundo o governo, a instalação de novos supercomputadores deve ampliar a capacidade de processamento de dados do país e estimular avanços em áreas como agricultura, indústria, saúde e prevenção de desastres climáticos.
A estrutura será voltada a empresas, universidades, instituições de pesquisa e órgãos públicos. A expectativa é que ajude a reduzir a dependência de empresas estrangeiras de processamento de dados.
Supercomputador do Rio Grande do Norte
O supercomputador que será instalado no Rio Grande do Norte terá capacidade de 7.200 petaflops.
🔎 Flop é a unidade usada para medir quantas operações matemáticas simples um computador consegue realizar por segundo.
A capacidade anunciada indica que o futuro equipamento será capaz de fazer, em um segundo, a mesma quantidade de cálculos que os 8 bilhões de habitantes da Terra levariam juntos cerca de 29 anos para completar.
Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a máquina estará entre as dez mais potentes do mundo para processamento de inteligência artificial.
Ela será instalada no parque científico e tecnológico localizado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Segundo o governo, o estado foi escolhido por conta do potencial energético e da oportunidade de descentralizar a infraestrutura de alta tecnologia do país.
Supercomputador do Rio de Janeiro
O segundo supercomputador será instalado no Rio de Janeiro, por meio de uma parceria entre a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e as empresas chinesas de tecnologia Huawei e iFlyTek.
A estrutura deverá iniciar as operações em julho de 2027 e receber um investimento de R$ 1,276 bilhão durante cinco anos, de acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Ainda segundo a pasta, o equipamento será usado para criar um modelo brasileiro de linguagem semelhante aos usados por serviços como ChatGPT, em uma tentativa de permitir a criação de soluções de IA mais adequadas para o país.
Nuvem Brasileira
O governo também anunciou o início da estruturação da Nuvem Brasileira, um serviço de armazenamento e processamento de dados em nuvem controlado pelo país e voltado para diminuir a dependência de provedores estrangeiros.
A proposta é criar uma solução com padrões abertos e interoperáveis para não focar em apenas uma empresa ou tecnologia. Segundo o governo, ela será desenvolvida em parceria com setores público e privado.
A Nuvem Brasileira será estruturada a partir de um acordo do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos com o Serpro e o BNDES. O mercado poderá opinar sobre a capacidade nacional de implementar a solução e sobre o modelo a ser seguido.
Supercomputador Santos Dumont, em Petrópolis (RJ)
Santos Dumont / Divulgação LNCC
Produção nacional de chips
Outra frente é uma iniciativa para ampliar a capacidade brasileira de produzir chips de inteligência artificial. Segundo o governo, trata-se de uma estratégia de longo prazo, com horizonte de 10 a 15 anos.
Para reduzir a dependência de tecnologias controladas por poucas empresas ou países, a iniciativa será baseada na arquitetura RISC-V, que define regras básicas para o funcionamento dos chips.
Por ser de código aberto, a RISC-V permite que empresas e instituições desenvolvam chips sem depender de uma tecnologia controlada por uma única companhia. A iniciativa será conduzida em cooperação com o ecossistema de inovação de Barcelona, na Espanha.
Brasil terá órgão para avaliar IAs
O governo federal anunciou ainda o plano de criar o Centro Nacional de Transparência Algorítmica e IA Confiável, um organismo voltado a monitorar o funcionamento dos sistemas de inteligência artificial e identificar eventuais riscos.
O órgão será estruturado pelo Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e terá apenas funções técnicas. Não poderá, por exemplo, aplicar penalidades a empresas de IA.
Entre os objetivos do novo centro de IA estão o desenvolvimento de pesquisas, metodologias e ferramentas voltadas à transparência, à segurança e à redução de vieses em sistemas de inteligência artificial.
ChatGPT, DeepSeek, Claude, Mistral AI, Gemini, Copilot e Poe
Solen Feyissa/Unsplash

As 10 empresas em que os jovens mais sonham em trabalhar; veja ranking e o que eles valorizam

Pesquisa do CIEE e Instituto Locomotiva revela que jovens priorizam crescimento profissional ao escolher empresas para trabalhar
g1
Para os jovens brasileiros, o emprego dos sonhos vai além do salário. A oportunidade de crescer na carreira é o principal critério na escolha de uma empresa, e grandes marcas estão entre os lugares em que essa geração mais deseja trabalhar.
É o que aponta um levantamento do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), realizado em parceria com o Instituto Locomotiva. O estudo ouviu 8.881 jovens de 14 a 24 anos de todas as regiões do país.
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Na categoria “Meu Match Perfeito”, os primeiros colocados aparecem em situação de empate técnico. O ranking indica que a preferência da nova geração se concentra em grandes marcas e empresas já consolidadas no mercado.
1º lugar (empate técnico)
Google
Banco do Brasil
Itaú
Petrobras
2º lugar (empate técnico)
Coca-Cola
Bradesco
Caixa Econômica Federal
Sicoob
Microsoft
Mercado Livre
Como se identifica o adoecimento mental no trabalho
A preferência por grandes empresas está alinhada a outro resultado da pesquisa: na hora de escolher onde trabalhar, os jovens valorizam mais as oportunidades de crescimento profissional do que a remuneração. Salário e benefícios aparecem em segundo lugar entre os critérios mais mencionados.
Os principais fatores citados foram:
54%: oportunidade de crescimento profissional;
43%: boa remuneração e benefícios;
31%: ambiente de trabalho agradável;
24%: empresa tradicional ou renomada;
20%: flexibilidade de trabalho;
20%: localização próxima de casa;
19%: estabilidade e segurança no emprego;
18%: identificação com valores e cultura organizacional;
18%: admiração pela marca ou pelos produtos.
O resultado mostra que o salário continua sendo importante, mas, sozinho, não é suficiente para definir onde os jovens desejam trabalhar. A possibilidade de aprender, se desenvolver e crescer profissionalmente surge como uma prioridade ainda maior.
Essa expectativa também aparece quando os entrevistados falam sobre o que esperam das empresas. Segundo a pesquisa, 98% consideram importante trabalhar em organizações que incentivem o crescimento profissional. O mesmo percentual afirma que é importante que os profissionais mais jovens sejam reconhecidos e valorizados.
A identificação com a empresa também influencia essa escolha. Cerca de sete em cada 10 jovens afirmam que não trabalhariam em organizações cujos valores e princípios sejam diferentes dos seus. O dado reforça a importância de aspectos como propósito, responsabilidade social e ambiente de trabalho na relação com o empregador.
Segundo a pesquisa, 98% consideram muito importante trabalhar em empresas que valorizem a saúde mental dos funcionários. A expectativa, portanto, envolve não apenas crescimento profissional, mas também qualidade de vida e boas condições de trabalho.
Ao mesmo tempo, o porte da empresa continua associado à segurança. Segundo a pesquisa, 90% dos entrevistados acreditam que trabalhar em uma grande companhia oferece mais estabilidade.
Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE). Espírito Santo
Divulgação/CIEE
Quem mais contratou jovens em 2026
A pesquisa também revela outro aspecto da relação dos jovens com o mercado de trabalho: quais empresas mais abriram oportunidades para esse público no primeiro trimestre de 2026.
Os dados foram obtidos junto ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e incluem contratações pelo regime da CLT, vagas de aprendizagem e oportunidades de estágio.
Na contratação pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o Mercado Livre ficou na primeira posição do ranking nacional.
Ranking de contratação CLT
Mercado Livre
AEC Centro de Contatos S/A
Almaviva
Vulcabras
Atento Brasil S/A
Teleperformance CRM S.A
Concentrix Brasil
Hospital Israelita Albert Einstein
Grendene S.A
Lar Cooperativa Agroindustrial
Na modalidade de aprendizagem, a liderança ficou com a Sendas Distribuidora S/A, responsável pelo Assaí Atacadista.
Ranking nacional de contratação de aprendizes
Sendas Distribuidora S/A (Assaí Atacadista)
Arcos Dourados (McDonald’s)
AEC Centro de Contatos S/A
Seara Alimentos Ltda
MBRF S.A
Supermercados BH Comércio de Alimentos S/A
Correios
Raia Drogasil S/A
Vale S.A
SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina)
Já no estágio, o setor público aparece com força. Tribunais de Justiça e órgãos governamentais ocupam boa parte das primeiras posições.
Ranking nacional de contratação de estagiários
Tribunal de Justiça de São Paulo
Tribunal de Justiça de Minas Gerais
Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS)
Itaú Unibanco
Prefeitura do Recife
Tribunal de Justiça do Paraná
Prefeitura de Curitiba
Defensoria Pública do Estado de São Paulo
Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná

Petrobras e Pemex fazem acordo para explorar petróleo, mas especialistas veem risco de ‘letra morta’

Petrobras e Pemex vão cooperar na exploração e produção de hidrocarbonetos e no refino e comercialização de biocombustíveis.
Imago
Duas das maiores petrolíferas estatais da América Latina surpreenderam com o anúncio de uma aliança: a Petrobras e a mexicana Pemex assinaram um memorando de entendimento, inicialmente válido por dois anos, para cooperar na exploração e produção de hidrocarbonetos.
Elas também negociaram um segundo acordo, com foco no refino e na comercialização de biocombustíveis como o etanol.
A notícia foi acompanhada por gestos de grande repercussão, como uma videochamada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua homóloga mexicana, Claudia Sheinbaum, na qual ambos endossaram a cooperação.
Especialistas consultados pela DW concordam que o potencial técnico é real, mas alertam que as questões políticas pesam mais do que a engenharia na aliança bilateral.
Complementaridade técnica, com nuances
No papel, as empresas se complementam: a Petrobras domina a exploração em águas profundas, enquanto a Pemex sofre com deficiências tecnológicas, mesmo conhecendo o terreno mexicano. “Claro que, em teoria, há complementaridade. A Petrobras é atualmente uma grande detentora de tecnologia para exploração em águas profundas.
“O Brasil é exportador de diesel e gasolina”, explica Adriano Pires, consultor brasileiro de energia e doutor em Economia Industrial pela Universidade Sorbonne Paris Norte.
Gonzalo Monroy, CEO da consultoria GMEC e especialista em petróleo e energia, concorda com Pires. “O Brasil tem vasta experiência em perfuração em depósitos de sal, o que permitiu a exploração na Bacia de Santos; no México, também existe potencial sob os depósitos de sal no Golfo”.
Ele, porém, alerta para as letras miúdas: “há uma palavra no memorando que me deixa pouco otimista: afirma que o acordo não é vinculativo; nem a Pemex nem a Petrobras são obrigadas a investir nada”. Na indústria do petróleo, sem muito dinheiro, nada funciona.
Campo de petróleo de Cantarell, no México.
Pemex/Notimex/Newscom World/IMAGO
A longo prazo, um bom negócio
Para Elio Ohep, consultor independente e editor do site Energies.net, a parceria pode ser um bom negócio, mas apenas a longo prazo.
“A Petrobras tem vasta experiência em águas profundas e recursos financeiros consideráveis; a Pemex aprenderá com isso, e o México colherá os frutos”, comenta o especialista venezuelano.
Ele adverte, no entanto, que “obviamente, este é um projeto de longo prazo: cinco, dez, 15 anos”.
Monroy destaca que, no México, após a contrarreforma do petróleo promovida pelo antecessor e mentor de Sheinbaum, Andrés Manuel López Obrador, não existem mecanismos legais e comerciais atrativos para que essa aliança se concretize.
“As estruturas atualmente previstas em lei, um contrato de prestação de serviços ou uma joint venture, não oferecem à Petrobras a rentabilidade necessária para investir no México”, enfatizou.
Ohep também analisa com cautela o entusiasmo com que o acordo foi apresentado: “Sheinbaum o apresenta como algo concluído, e isso não é verdade. Não há nada de concreto, apenas um memorando de entendimento preliminar válido por dois anos.”
Etanol, uma questão secundária
O segundo acordo entre as duas petrolíferas inclui biocombustíveis, mas Pires e Monroy o separam do núcleo energético do pacto. “O etanol é produzido no Brasil pelo setor privado, não pela Petrobras. Ele é misturado à gasolina por distribuidores”, observa Pires, que é fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Ele foi indicado em 2022 pelo governo brasileiro para chefiar a Petrobras, mas recusou a oferta.
Monroy acrescenta ainda a pressão externa. “O México vem sendo pressionado para abrir seu mercado e comprar mais misturas de etanol; há pressão dos EUA, que produzem etanol à base de milho, e também do Brasil, que o extrai da cana-de-açúcar.”
Petrobrás anunciou recentemente a descoberta de petróleo na foz do Amazonas.
Divulgação/Foresea
Pressão externa e calendário eleitoral
Segundo especialistas, o anúncio é motivado mais por cálculos políticos domésticos do que por um plano industrial. Sheinbaum está sob a sombra da renegociação do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) e da pressão de Washington sobre o mercado energético mexicano.
No Brasil, a descoberta de petróleo na foz do Amazonas, anunciada com a presença de Lula, ocorreu, segundo Pires, devido ao calendário eleitoral. “Esse evento aconteceu porque o Brasil está em ano eleitoral. Se não fosse esse o caso, não teria havido nenhum evento”, afirma.
Para o especialista, são necessários pelo menos mais quatro anos de análise para determinar se esse depósito amazônico é comercialmente viável.
Petrobras quer perfurar mais 3 poços no Amapá: estatal enfrenta oposição do MPF
Ohep enxerga uma condição para a sobrevivência da aliança entre as petrolíferas: “Esse acordo só continuará se Lula for reeleito”, opina.
Como ambas as empresas são estatais, quando o governo muda, o curso dos acontecimentos também pode mudar, concorda Pires.
Lições deixadas por acordos anteriores
Os três especialistas consultados pela DW moderam suas expectativas com ceticismo histórico. Sem rodeios, Ohep resume que “a maioria dos memorandos de entendimento acaba sendo letra morta”.
Pires menciona o precedente que mais o preocupa: a parceria entre a Petrobras e a PDVSA da Venezuela durante os governos de Lula e Hugo Chávez, que resultou na refinaria de Recife, “a mais cara do mundo”, manchada pelo escândalo de corrupção Lava Jato.
Ele enfatiza que esse projeto foi realizado sem nenhum investimento de capital venezuelano ou benefício para a Petrobras.
“Tenho receio desse tipo de acordo que reúne dois governos de esquerda e duas empresas estatais”, alerta Pires. “Não vou dizer que vai acabar mal, mas diria que tem todos os ingredientes para ser um desastre”.

Guerra no Irã faz países do Golfo acelerarem planos para driblar Estreito de Ormuz

Irã diz que Estreito de Ormuz só será reaberto com saída dos EUA
A guerra no Irã está obrigando os grandes produtores de petróleo do Golfo Pérsico a reformular a forma como exportam o produto e reduzir a dependência do Estreito de Ormuz, principal rota de saída da região.
Segundo o jornal “The New York Times”, países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque estão acelerando projetos de oleodutos, terminais e áreas de armazenamento que permitam transportar petróleo sem passar pelo estreito.
Os investimentos devem custar bilhões de dólares e levar anos para serem concluídos, mas governos e empresas consideram as novas estruturas necessárias diante do aumento dos riscos na região. Mesmo que um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã seja alcançado, os países produtores avaliam que depender de uma única rota de exportação se tornou um risco grande demais.
A mudança também pode, ao longo do tempo, reduzir a influência do Irã sobre o comércio de petróleo na região, já que os países vizinhos estarão menos dependentes de uma passagem marítima que pode ser afetada por conflitos.
Trump já afirmou que os EUA irão controlar o Estreito de Ormuz e bloquear o acesso aos portos iranianos
REUTERS
“Não acho que nenhum país do mundo queira voltar a depender tanto desse ponto de passagem”, disse Ben Cahill, analista de energia da Universidade do Texas em Austin, ao NYT.
Segundo ele, os produtores passaram a priorizar mais a segurança de suas estruturas, mesmo que isso implique custos maiores e operações menos eficientes.
Exportações pelo estreito despencam
Antes de Estados Unidos e Israel iniciarem ataques militares contra o Irã, em 28 de fevereiro, cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto por dia passavam pelo Estreito de Ormuz. A passagem marítima liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e é uma das principais rotas utilizadas para levar o petróleo produzido na região aos mercados internacionais.
A guerra, porém, alterou esse fluxo. Bloqueios impostos por Estados Unidos e Irã, minas marítimas, ataques com mísseis e o forte aumento no preço dos seguros para navios praticamente interromperam o funcionamento normal da rota.
O NYT explica que na semana passada, as exportações de petróleo bruto pelo estreito haviam caído para cerca de 3,7 milhões de barris por dia, segundo a Kpler, empresa que monitora o transporte marítimo.
Ainda assim, isso não significa que apenas esse volume esteja deixando o Golfo. Parte do petróleo continua sendo transportada por navios que adotam medidas para dificultar seu rastreamento. Outra parcela sai por rotas alternativas que já existiam, principalmente oleodutos que não dependem do Estreito de Ormuz.
Grande parte dos navios que ainda atravessam a região enfrenta riscos adicionais. Alguns navegam em meio a ataques de drones iranianos; outros desligam seus sistemas de localização para dificultar que sejam identificados. Pelo menos 17 trabalhadores marítimos morreram na região.
Emirados ampliam rota alternativa
Em Fujairah, cidade portuária dos Emirados Árabes Unidos voltada para o Golfo de Omã, equipes trabalham 24 horas por dia na construção de um segundo oleoduto, paralelo a uma estrutura já existente.
O sistema transporta petróleo dos campos terrestres de Abu Dhabi até a costa, permitindo que o produto seja embarcado sem passar pelo Estreito de Ormuz.
O novo projeto pretende dobrar a capacidade dessa rota alternativa para 3,6 milhões de barris por dia. Com isso, quase todo o petróleo produzido em terra em Abu Dhabi poderá chegar aos navios que fazem o transporte internacional sem precisar atravessar o estreito.
A estatal de energia dos Emirados, Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC), também anunciou nesta semana que pretende investir US$ 8,2 bilhões (R$ 42,5 bilhões) na expansão de seus negócios de gás natural.
A empresa avalia ainda construir uma instalação para exportar gás natural liquefeito, uma forma de gás natural resfriada a temperaturas muito baixas para facilitar seu transporte em navios, na costa leste dos Emirados.
A localização permitiria evitar o Estreito de Ormuz, segundo Peter van Driel, diretor financeiro da ADNOC.
Arábia Saudita amplia oleoduto até o Mar Vermelho
Na Arábia Saudita, a estatal Saudi Aramco está acelerando uma expansão de bilhões de dólares do Oleoduto Leste-Oeste, uma estrutura criada justamente para oferecer ao país uma alternativa ao transporte marítimo pelo Golfo, registrou o NYT.
Construído durante a guerra entre Irã e Iraque, na década de 1980, o oleoduto percorre 1.201 quilômetros pela Península Arábica até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho.
O presidente da Aramco, Yasir O. Al-Rumayyan, chamou a estrutura neste ano de “linha de vida” econômica do país. Desde que os ataques militares de Estados Unidos e Israel fizeram o Irã interromper, na prática, o funcionamento do Estreito de Ormuz, o oleoduto conseguiu redirecionar cerca de 7 milhões de barris de petróleo por dia.
Agora, autoridades sauditas trabalham para acrescentar mais 1 milhão a 2 milhões de barris por dia à capacidade da estrutura. O país também avalia construir um segundo oleoduto, menor e paralelo ao atual, para transportar produtos derivados de petróleo, como combustíveis.
“Em relação à exportação do nosso petróleo bruto, estamos trabalhando ativamente para aumentar nossas opções neste momento”, disse Amin Nasser, presidente-executivo da Saudi Aramco, na semana passada.
Outros países também buscam alternativas
A incerteza em torno do Estreito de Ormuz levou outros produtores do Golfo a acelerar projetos semelhantes.
O Kuwait negocia com a Arábia Saudita e outros países árabes a construção de um oleoduto que ligaria seus campos de petróleo a portos no Mar Vermelho ou em Omã.
Iraque e Jordânia retomaram planos que estavam parados havia anos para construir um oleoduto com capacidade de transportar até 1 milhão de barris por dia até o porto de Aqaba, no Mar Vermelho, segundo informações da televisão estatal jordaniana.
O Iraque também está acelerando os planos para reconstruir um oleoduto danificado que permitiria transportar petróleo dos campos de Kirkuk até a costa mediterrânea da Síria.
Mas as novas rotas também criam novos riscos.
Ao redirecionar parte do transporte de petróleo para o Mar Vermelho, por exemplo, a Arábia Saudita passa a depender mais de uma região onde o grupo rebelde houthi, do Iêmen, tem atacado embarcações. Na terça-feira (11), 6 pessoas morreram quando os houthis atingiram um navio no Mar Vermelho.
Petróleo armazenado longe do Golfo
Os países produtores também estão adotando outra estratégia: aumentar seus estoques de petróleo em outros países.
Além dos novos oleodutos, nações do Golfo estão ampliando a capacidade de armazenamento em locais como Coreia do Sul, Japão e Índia, a milhares de quilômetros da região.
A estratégia funciona como uma espécie de seguro: se o Estreito de Ormuz for fechado, parte do petróleo já estará armazenada do outro lado da passagem e poderá ser vendida aos compradores sem depender imediatamente de uma nova travessia pelo estreito.
“Todo mundo está tentando aumentar sua capacidade de armazenamento”, disse Nasser, da Aramco, ao NYT. “A segurança energética está se tornando uma prioridade agora.”
Apesar dos investimentos, analistas afirmam que os países do Golfo não conseguirão abandonar completamente o Estreito de Ormuz.
“Eles definitivamente precisam do Estreito de Ormuz porque ele oferece muitas vantagens e a infraestrutura já está instalada”, disse Carole Nakhle, presidente-executiva da consultoria Crystol Energy.
Para ela, porém, a crise mostrou que depender exclusivamente da passagem foi um erro. “Foi tolice colocar toda a confiança em Ormuz”, afirmou.