Comissão da ONU alerta que Super El Niño pode levar milhões à pobreza e tirar 2% do PIB da América Latina; entenda

Primavera começa hoje com El Niño forte
Um episódio extremo do El Niño pode reduzir em pelo menos 2% o Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina e do Caribe ao longo de três anos e levar até 4,8 milhões de pessoas adicionais à pobreza até o fim da década, segundo estimativa da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU).
A estimativa consta de um relatório especial divulgado nesta segunda-feira (21). O estudo analisa os possíveis impactos econômicos, sociais e ambientais de um episódio de El Niño de forte intensidade na região.
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Segundo a Cepal, cerca de metade da perda econômica estimada ocorreria já no primeiro ano do fenômeno. A redução da renda das famílias também poderia ampliar o número de pessoas em situação de pobreza em relação a um cenário sem El Niño.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Essa mudança altera a circulação da atmosfera e pode modificar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.
A intensidade do fenômeno pode variar. No cenário analisado pela Cepal, um episódio extremo teria efeitos mais severos sobre a economia e sobre setores como agricultura, energia e pesca.
Há risco de um ‘Super El Niño’?
Sim. Segundo o relatório da Cepal, projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontam mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027 (primavera e verão no Brasil).
A NOAA também estima 69% de probabilidade de o fenômeno atingir uma magnitude histórica, classificada no relatório como “Súper El Niño”. Nesse cenário, a temperatura da superfície do mar na região conhecida como Niño 3.4 apresentaria anomalias superiores a 2,5°C ou 3°C.
Isso não significa, porém, que a perda de 2% do PIB ou o aumento da pobreza necessariamente ocorrerão. Esses números são estimativas da Cepal para um cenário de El Niño extremo.
Quais seriam os impactos na economia?
Os efeitos não seriam distribuídos igualmente entre os países ou setores da economia. A Cepal prevê impactos sobre o PIB, inflação, pobreza e produção e destaca riscos especialmente para energia, agricultura, pesca e infraestrutura.
Um dos principais pontos de atenção é o setor elétrico. Segundo o relatório, vários países da América Latina dependem fortemente da geração hidrelétrica: em alguns deles, as hidrelétricas respondem por mais de 70% da matriz elétrica.
Com menos chuva e temperaturas mais altas, os reservatórios podem ficar sob pressão justamente quando aumenta a demanda por eletricidade para refrigeração e ar-condicionado.
A Cepal estima que, entre outubro e dezembro de 2026, a probabilidade de déficit de precipitação chega a 60% em determinadas áreas, enquanto 31,1% do território regional estaria em alerta alto. Grandes cidades, como São Paulo, Lima e Cidade do México, poderiam enfrentar aumento da demanda por energia em períodos de menor disponibilidade hídrica.
E o impacto no agronegócio?
A agricultura também está entre os setores mais vulneráveis.
➡️ Com base em análises da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a Cepal aponta probabilidade superior a 70% de ocorrência de secas que afetem a atividade agropecuária nos próximos meses em áreas do Corredor Seco da América Central, além de regiões da Colômbia, Venezuela e países do Caribe, como Cuba, República Dominicana e Haiti.
O risco envolve redução das colheitas, menor disponibilidade de alimentos e de forragem para os animais e perda de renda para produtores rurais.
Pesca também pode ser afetada
O El Niño também altera as condições do Oceano Pacífico e pode prejudicar a atividade pesqueira.
O aquecimento das águas enfraquece a subida de águas profundas e frias, um processo que leva nutrientes para a superfície e sustenta parte da cadeia alimentar marinha. Com menos nutrientes disponíveis, espécies como anchoveta, sardinha e merluza podem migrar ou ter sua disponibilidade reduzida.
A Cepal cita episódios anteriores de intensidade excepcional nos quais as capturas pesqueiras da região caíram 52,7% em 1972-1973 e 26,9% em 1997-1998.
Por que o fenômeno pode aumentar a pobreza?
O impacto econômico do El Niño não fica restrito ao clima.
Uma quebra de safra, por exemplo, pode reduzir a renda de produtores e trabalhadores rurais e, ao mesmo tempo, pressionar os preços dos alimentos. Problemas na geração de energia podem elevar custos para empresas e consumidores. Já perdas na pesca afetam comunidades que dependem diretamente da atividade.
É a combinação desses efeitos que pode atingir a renda das famílias e aumentar o número de pessoas abaixo da linha de pobreza.
No cenário extremo analisado pela Cepal, até 4,8 milhões de pessoas adicionais poderiam entrar na pobreza até o fim da década em relação a um cenário sem El Niño.
O que os governos podem fazer?
A Cepal recomenda medidas para tentar reduzir os impactos antes que eles ocorram. Entre elas estão a criação de mecanismos financeiros para situações de emergência, investimentos em infraestrutura mais resistente a eventos climáticos, sistemas de alerta, proteção de famílias vulneráveis e medidas para reduzir a dependência de uma única fonte de geração de energia.
O órgão também recomenda o planejamento de estoques e recursos para períodos de seca, maior integração energética entre países e medidas para aumentar a eficiência no consumo de eletricidade.
A avaliação da Cepal é que medidas preventivas tendem a custar menos do que respostas adotadas apenas depois de uma emergência.

Anac atualiza regras sobre atrasos e cancelamentos de voos; entenda o que muda

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aprovou nesta terça-feira (22) uma atualização das regras que tratam dos direitos dos passageiros em casos de atraso e cancelamento de voos.
Segundo a agência, as mudanças têm como objetivo ampliar a transparência das informações prestadas aos clientes para facilitar a compreensão sobre seus direitos, o funcionamento do transporte aéreo e as obrigações das companhias aéreas diante de imprevistos.
Em situações decorrentes de caso fortuito ou força maior, como eventos climáticos, as empresas ficam isentas de responsabilidade civil pelos impactos causados.
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Segundo o Código Brasileiro de Aeronáutica (CBA), se enquadram ocorrências como restrições ao pouso ou à decolagem decorrentes de condições meteorológicas adversas impostas por órgão do sistema de controle do espaço aéreo; restrições ao pouso ou à decolagem decorrentes de indisponibilidade da infraestrutura aeroportuária; dentre outros.
Por outro lado, permanece obrigatório a assistência material, nos seguintes casos:
🕒Após duas horas: alimentação, por meio de crédito, refeição ou solução equivalente;
🕒Após quatro horas, quando houver necessidade de pernoite: hospedagem e transporte de ida e volta ao local de acomodação.
A nova regra também esclarece que a prestação de assistência não se confunde com reconhecimento da culpa ou dever de responsabilização
As novas regras passam a valer 30 dias após a publicação no Diário Oficial da União (DOU), período destinado à adaptação das empresas aéreas às novas regras.
💵Reembolso
Outra mudança prevê que as companhias aéreas poderão reembolsar gastos com alimentação, transporte e hospedagem quando situações excepcionais.
Entre elas estão: limitações da infraestrutura aeroportuária, falta comprovada de fornecedores locais ou emergências imprevisíveis, impedirem o fornecimento direto da assistência.
Nesses casos, o passageiro deverá comprovar as despesas necessárias e razoáveis que realizou com alimentação, transporte ou hospedagem. O reembolso deverá ser feito em até sete dias.
📱Comunicação
A Anac definiu ainda que o passageiro, quando estiver adquirindo a passagem, deve ser informado de que a operação aérea pode sofrer alterações devido a condições meteorológicas, requisitos de segurança e outros fatores que podem alterar a execução do voo.
A medida, segundo a Anac, visa dar mais transparência ao passageiro.
Também foi estabelecido que, tão logo tenha conhecimento de atraso, cancelamento ou interrupção do serviço, a empresa deverá comunicar o passageiro por canais digitais e manter as informações atualizadas.
A comunicação deverá indicar a previsão de partida, as alternativas de reacomodação disponíveis e a forma de acesso à assistência material, como alimentação e hospedagem.
Passageiros aguardam para embarcar em voo com atraso da Southwest, no aeroporto de Arlington, na Virgínia
Leah Millis/Reuters

Eleições: postar opinião política nas redes sociais pode afetar a vida profissional? Entenda

Urna votação eleição 2024
Thiago Gadelha/SVM
As redes sociais são uma das principais ferramentas de campanha nas eleições de 2026. Além dos próprios candidatos, usuários também reagem, comentam e compartilham opiniões sobre a disputa. Mas você sabia que isso pode ter impacto no trabalho? 🤔
A liberdade de expressão, garantida pela Constituição Federal de 1988, também se aplica às redes sociais. Mas, assim como fora do ambiente virtual, excessos podem trazer consequências, inclusive no mercado de trabalho. E as empresas estão atentas a isso.
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Em regra, o funcionário não pode ser punido apenas por manifestar apoio ou oposição a determinado partido ou candidato em seu perfil pessoal. Da mesma forma, a empresa não pode proibir genericamente que empregados expressem opiniões políticas em redes pessoais.
Mas, segundo especialistas ouvidos pelo g1, a empresa pode estabelecer regras para o uso de canais institucionais e de redes profissionais vinculadas à sua imagem, além de exigir neutralidade nesses espaços.
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Regras em contrato
Segundo Paula Borges, advogada especialista em direito do trabalho, o empregado tem, em regra, o direito de manifestar apoio a candidatos ou partidos em suas redes sociais pessoais, inclusive fora do horário de expediente.
A liberdade de expressão, de consciência e de convicção política permanece protegida durante o vínculo empregatício. Uma proibição ampla de manifestações políticas em perfis pessoais, quando desvinculadas da empresa, pode configurar abuso de poder e até ser interpretada como discriminação por opinião política.
A companhia, porém, pode estabelecer regras para o uso de canais institucionais e de redes profissionais vinculadas à sua imagem.
Em algumas funções, como cargos de confiança, gestão ou representação institucional, podem existir restrições específicas, já que a manifestação do funcionário pode ser associada à posição da empresa.
Nesses casos, as regras devem estar previstas em contrato, código de conduta ou regulamento interno, ser proporcionais à função exercida e ser comunicadas previamente ao trabalhador, segundo a especialista.
Nesses casos, a exigência de neutralidade e a adoção de códigos de conduta são consideradas medidas legítimas para proteger a imagem corporativa.”
Isso não significa, no entanto, que uma postagem feita fora do trabalho esteja livre de consequências. Uma manifestação política pode levar a medidas disciplinares quando ultrapassar os limites da liberdade de expressão.
Na prática, uma postagem política pode trazer consequências para o trabalhador quando envolver:
Ofensas, calúnia ou difamação contra a empresa, colegas ou clientes;
Discurso de ódio ou incitação à violência;
Divulgação de informações confidenciais da empresa;
Uso indevido de recursos ou canais corporativos para propaganda política;
Associação indevida da opinião pessoal à empresa, quando houver dano concreto à imagem ou à reputação da companhia.
Dependendo da gravidade da conduta e do rompimento da confiança necessária à relação de trabalho, a punição pode chegar à demissão por justa causa. (entenda como funciona)
No ambiente profissional, a recomendação é separar manifestações políticas dos canais e recursos da empresa. Mesmo fora do expediente, o uso de grupos corporativos para militância pode gerar constrangimento entre colegas e, em casos mais graves, configurar assédio.
A orientação é manter uma linguagem respeitosa, evitar ataques pessoais e deixar clara a distinção entre a opinião do funcionário e a posição da empresa.
Para Paula Borges, o limite entre liberdade de expressão e uma conduta passível de punição deve ser analisado caso a caso, com base na proporcionalidade.
Uma manifestação feita em espaço pessoal, sem relação com a empresa e sem ofensa a terceiros, é protegida.
Já situações que envolvam ofensas, discurso de ódio, danos à honra ou quebra de confiança podem justificar medidas disciplinares.
Esse limite também vale para o empregador: a empresa não pode usar o vínculo de trabalho para coagir ou assediar funcionários por suas posições políticas. (entenda o que é assédio eleitoral e como denunciar)
“É importante manter uma comunicação respeitosa, não utilizar recursos da empresa para fins político-partidários e separar claramente a imagem pessoal da identidade profissional”, orienta.
Cuidado com as redes sociais
Para Juliana Sardinha, diretora de Diálogos Organizacionais da ABRH Brasil, o período eleitoral tende a intensificar conflitos porque as discussões políticas não envolvem apenas candidatos ou partidos, mas também valores, identidade, visão de mundo e pertencimento.
Por isso, ela recomenda que o profissional reflita, antes de publicar, se está falando em seu próprio nome ou se pode passar a impressão de representar a organização. Eventuais consequências jurídicas, porém, devem ser avaliadas caso a caso, segundo a especialista.
A situação exige atenção ainda maior quando há uma relação hierárquica. Uma opinião política expressa entre colegas pode ter outro peso quando parte de alguém responsável por decisões sobre promoção, remuneração, escala, contratação ou permanência no emprego.
“Quanto maior o poder de uma pessoa dentro da organização, maior precisa ser sua responsabilidade na forma como se comunica com a equipe”, afirma Juliana.
Diante de pressão, ameaça, promessa de benefício ou prejuízo relacionado ao posicionamento político ou ao voto, a orientação é registrar o ocorrido, procurar os canais adequados da empresa e, quando necessário, buscar orientação especializada.
O objetivo de um ambiente de trabalho saudável não é fazer todo mundo pensar igual. É fazer com que pessoas que pensam de forma diferente consigam continuar trabalhando juntas com respeito, segurança e dignidade.”
Nas redes sociais, Marcella Moura, especialista em RH e sócia da Acerta Consultoria, afirma que o trabalhador pode manifestar suas opiniões em seu perfil pessoal, inclusive fora do horário de expediente.
Ela recomenda cautela com publicações agressivas, ameaçadoras, ofensivas ou discriminatórias, principalmente quando o perfil identifica a empresa onde a pessoa trabalha.
“Tudo o que você posta também está relacionado à sua imagem, e o funcionário representa aquela empresa, faz parte daquela cultura”, afirma.
Segundo ela, ataques, discriminação e ofensas podem gerar problemas porque as redes sociais têm grande visibilidade e podem associar o comportamento individual à imagem da organização.
Em situações de pressão ou hostilidade em razão de posicionamentos políticos, a orientação é procurar os canais formais de denúncia da empresa.
Para Marcella, quando um funcionário é destratado ou sofre pressão de colegas ou superiores por causa de sua posição política, a situação deixa de ser uma simples divergência e pode configurar assédio, com impactos tanto para o trabalhador quanto para o clima organizacional.
Para atravessar o período eleitoral, a recomendação da especialista é que as empresas priorizem o respeito às opiniões contrárias.
Caso decidam abrir espaço para discussões políticas, os debates devem ser conduzidos de forma imparcial e educativa, sem permitir que a divergência de opiniões se transforme em conflito pessoal.
Redes sociais são uma vitrine
Outro ponto é que as redes sociais funcionam como uma vitrine, na qual o comportamento das pessoas fora do ambiente de trabalho também pode ser analisado. Essa avaliação ocorre tanto entre profissionais já contratados quanto entre candidatos a uma vaga.
“Os recrutadores levam em consideração como o colaborador ou futuro funcionário expõe suas ideias e sua imagem em público. São observadas, principalmente, questões de intolerância, desrespeito e imoralidade”, explica Bruno Rizzato, diretor do app de empregos Trampolim.
Rizzato afirma que, quando usadas de forma adequada, as redes sociais podem favorecer o marketing pessoal.
“O ambiente virtual pode ser usado, por exemplo, para compartilhar conteúdos relevantes na sua área de atuação. Também para seguir empresas e pessoas relevantes, além de destacar projetos e conquistas pessoais e profissionais”, diz.
Principais cuidados a tomar
Veja algumas orientações de especialistas sobre o comportamento nas redes sociais durante as eleições:
🫡 Mantenha o respeito nas publicações: evite ataques pessoais, ofensas, calúnias e difamações dirigidas a candidatos, colegas, clientes, empregadores ou terceiros.

🚫 Evite discurso de ódio e incitação à violência: conteúdos desse tipo podem gerar consequências jurídicas e trabalhistas.

📲 Confira as informações antes de publicar: evite compartilhar notícias falsas ou conteúdos de fontes não confiáveis.

⚠️ Não divulgue informações confidenciais: dados internos da empresa ou de colegas não devem ser expostos, nem mesmo em debates políticos.

💔 Separe sua opinião da imagem da empresa: deixe claro que suas manifestações políticas são pessoais e não representam o empregador, especialmente ao mencionar a empresa.

👎🏽Não use recursos ou canais corporativos para propaganda política: computadores, e-mails, grupos e demais ferramentas de trabalho devem ser usados para fins profissionais.

👀 Observe as regras internas da empresa: códigos de conduta e regulamentos podem estabelecer orientações específicas sobre manifestações públicas, especialmente para profissionais em cargos de liderança, confiança ou representação institucional.
Crescem os números de processos e denúncias por assédio moral no trabalho

Nostalgia dos anos 1980 esquece um detalhe: a inflação chegou a quase 1.800%; relembre

Anos 80: por que a inflação era tão alta no Brasil?
Uma onda de nostalgia pelos anos 1980 ganhou as redes sociais, com lembranças da moda, dos bailinhos, dos grandes hits e do cinema. Mas um personagem importante costuma ficar fora dessa memória: a inflação, que chegou a 1.782,9% em 1989.
O dinheiro perdia valor rapidamente, os preços chegavam a ser remarcados mais de uma vez por dia e as famílias antecipavam as compras. Os mais pobres eram os mais afetados, enquanto quem tinha acesso a instrumentos financeiros conseguia proteger melhor o dinheiro.
Na tentativa de controlar a inflação, o Brasil adotou diferentes planos econômicos, congelou preços e trocou de moeda. O problema, porém, só foi controlado de forma duradoura em 1994, com o Plano Real.
Toda semana, o g1 Explica simplifica a economia, o mercado financeiro e a educação financeira, mostrando como tudo isso afeta o seu bolso.

Vendas de robôs humanoides atingiram 7 mil unidades em todo o mundo em 2025

Robô humanoide da empresa americana Figure
Divulgação/Figure
Cerca de 7.000 robôs humanoides foram vendidos no mundo em 2025 para uso industrial e em serviços profissionais, segundo dados compilados pela Federação Internacional de Robótica (IFR, na sigla em inglês).
O número ainda é pequeno diante das previsões de um boom desse tipo de robô nos próximos anos, especialmente na China, maior mercado mundial de robôs industriais. No mês passado, o país apresentou robôs humanoides correndo e praticando boxe em seus jogos de robótica.
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Segundo os critérios da IFR, um robô é considerado humanoide quando tem aparência semelhante à humana e consegue operar de forma autônoma em um ambiente projetado para pessoas. O robô não precisa necessariamente ter pernas para ser classificado dessa forma.
Os dados da IFR, analisados pela Reuters, oferecem uma das primeiras medidas de toda a indústria sobre uma tecnologia que vem atraindo bilhões de dólares em investimentos e gerando demonstrações de suas capacidades.
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Ainda assim, os humanoides representam apenas “uma fração” da população total de robôs no mundo, disse à Reuters Susanne Bieller, secretária-geral da IFR, com sede em Frankfurt.
Em 2024, foram instalados cerca de 542 mil robôs industriais comuns e vendidos outros 199 mil robôs de serviço para os setores de transporte, hotelaria e limpeza. Os dados de 2025 sobre robôs industriais e de serviço serão publicados em 24 de setembro.
Entre os humanoides vendidos em 2025, muitos não realizavam trabalho produtivo. Segundo Bieller, eles foram adquiridos por instituições de pesquisa ou empresas que os utilizavam para gerar dados destinados ao aprimoramento de modelos de inteligência artificial.
Um robô humanoide Honor Lightning corre após cruzar a linha de chegada durante a segunda Meia Maratona E-Town de Pequim e Meia Maratona de Robôs Humanoides em Pequim, China, em 19 de abril de 2026
REUTERS/Maxim Shemetov
A IFR compila estatísticas sobre robótica há três décadas e começou, pela primeira vez, a coletar dados sobre robôs humanoides, paralelamente aos números muito maiores de robôs industriais e de serviço.
O Bank of America Global Research estima que 90 mil robôs humanoides serão entregues em 2026 e 1,2 milhão até 2030.
A contagem da IFR é baseada em dados de fornecedores e associações nacionais do setor. O levantamento exclui robôs humanoides de consumo e militares, enquanto os robôs médicos são classificados separadamente.
Tóquio testa robôs coletores de lixo na estação de trem mais movimentada do mundo
‘Parece lixo de IA’: por que plataformas agora estão ‘dedurando’ conteúdos feitos com IA

Os 10 dias que abalaram a corrida da IA: por que líderes do setor agora pedem para 'pisar no freio'

Inteligência artificial ganha espaço como diferencial competitivo nas empresas
Inteligência Artificial
Durante anos, a corrida para criar uma inteligência artificial cada vez mais poderosa seguiu um princípio conhecido no Vale do Silício: agir rápido e quebrar barreiras.
Mas uma sequência de acontecimentos em apenas 10 dias abalou alguns dos maiores laboratórios de IA, à medida que pesquisadores passaram a alertar que as próprias criações do setor poderiam escapar do controle humano — e, em um cenário extremo, ameaçar a existência da humanidade.
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Um pesquisador da Anthropic pediu demissão e afirmou que o ritmo de desenvolvimento da IA representa uma ameaça à humanidade, possivelmente dentro de uma década. Outro disse que as chances de extinção humana ultrapassavam 10%.
Ao mesmo tempo, surgiram relatos de grupos de agentes de IA trabalhando em conjunto, invadindo sistemas de computador e contornando mecanismos criados para limitar sua atuação.
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➡️ Esses episódios ajudaram a transformar em preocupação concreta o temor de que sistemas cada vez mais autônomos possam escapar do controle humano.
Em uma rara demonstração de união, os presidentes de Anthropic, OpenAI, Google DeepMind, Microsoft e xAI defenderam uma desaceleração no desenvolvimento de sistemas de IA cada vez mais capazes.
Tão destrutiva quanto a bomba atômica?
O nível de alerta levou alguns defensores da segurança da IA e pesquisadores a fazer uma comparação extrema: desde a invenção da bomba nuclear, há mais de 80 anos, a humanidade não havia enfrentado tão seriamente o risco de sua própria extinção.
A comparação também apareceu em uma conversa com Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, durante um almoço em Nova York, em dezembro de 2025.
Perguntaram a ele se, como líder de uma poderosa empresa de IA, se sentia como o físico J. Robert Oppenheimer, que liderou o desenvolvimento da bomba atômica nos Estados Unidos.
Refletindo sobre as semelhanças, ele disse que o impacto da IA “vai transformar a trajetória da história da humanidade por um longo período”. Mas acrescentou que sentia o peso da responsabilidade.
Só que para entender de onde vem esse temor, é preciso olhar para o objetivo que está no centro da corrida tecnológica: criar sistemas capazes de realizar tarefas intelectuais cada vez mais complexas e, em determinado estágio, desenvolver versões ainda mais capazes de si mesmos, sem intervenção humana.
🔎 O objetivo é chegar a um estágio conhecido como inteligência artificial geral (AGI), um tipo de IA que, em tese, seria capaz de realizar uma ampla variedade de tarefas intelectuais.
No início deste mês, pesquisadores alertaram que a AGI poderia estar muito mais próxima do que se imaginava e surgir em apenas três anos. A possibilidade provocou uma nova onda de preocupação entre políticos e líderes do setor de tecnologia.
“Não há como supervisioná-las na escala em que estamos treinando”, disse o pesquisador da Anthropic, Joe Benton, em uma entrevista após ter se demitido recentemente.
Se as empresas continuarem com seu desenvolvimento implacável de IA, disse ele, “então o ritmo será rápido demais e não será possível identificar os problemas a tempo de corrigi-los”.
Astra desencadeia preocupações
O alerta ganhou um novo peso em 3 de setembro, quando uma entrevista coletiva da OpenAI desencadeou uma sequência de acontecimentos que, dias depois, culminaria em pedidos públicos de desaceleração do setor.
“Bem-vindos à era da AGI”, disse o presidente da OpenAI, Greg Brockman, ao anunciar o mais novo modelo da empresa, conhecido como Astra.
Pouco antes, porém, a empresa havia admitido que estava cada vez mais difícil controlar ou até mesmo monitorar os sistemas de IA que desenvolvia e colocava à disposição do público.
A contradição ajuda a explicar o dilema no centro da atual corrida tecnológica.
🤖 A IA é descrita por seus defensores como uma das maiores conquistas tecnológicas da humanidade: um software capaz de transformar setores inteiros, aumentar a eficiência, resolver problemas matemáticos e médicos complexos e reduzir drasticamente o erro humano.
Por outro lado, aquilo que durante anos foi tratado como um cenário teórico e apocalíptico passou, segundo especialistas do setor, a parecer mais concreto.
“Nós realmente acreditamos sinceramente que a IA poderá matar todos os seres humanos”, disse o pesquisador da Anthropic, Evan Hubinger, na rede social X.
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Do outro lado do debate estão políticos, como o presidente dos EUA, Donald Trump, e muitos investidores, que consideram o avanço da IA fundamental para o poderio norte-americano e, possivelmente, uma oportunidade de investimento que surge uma vez por geração.
A mídia estatal chinesa também acusou o presidente-executivo da Anthropic, Dario Amodei, de empregar táticas da Guerra Fria para “manter a hegemonia monopolista de Washington em tecnologia de ponta”.
Trump anuncia que vai nomear ‘czar da IA’ e criar força-tarefa para fomentar e monitorar tecnologia
Demissão marca ponto de virada
O ponto de virada ocorreu em 8 de setembro, quando o pesquisador da Anthropic, Jacob Coxon, pediu demissão da empresa. Em uma série de publicações, ele afirmou temer que os laboratórios de IA estejam “apostando com nossas vidas”.
As publicações de Coxon, de 27 anos e pouco conhecido fora dos círculos de IA, viralizaram e ajudaram a ampliar um debate que já vinha crescendo dentro das empresas.
🗣️ Nos bastidores, funcionários da OpenAI e da Anthropic têm demonstrado preocupação com o poder da próxima geração de modelos de IA e menor confiança na capacidade de suas próprias empresas de supervisioná-los de forma efetiva, segundo fontes ouvidas pela Reuters.
Ao mesmo tempo, o governo dos EUA mantém uma postura favorável à continuidade da corrida. Trump indicou que o desenvolvimento da tecnologia seguiria em ritmo acelerado.
“Há uma conspiração doentia em andamento contra a IA e os centros de dados”, afirmou ele em redes sociais.
O alarmismo em torno da IA é uma “farsa”, disse Trump, e qualquer desaceleração só beneficiaria a China. Enquanto isso, o Congresso dos EUA tem avançado pouco na aprovação de projetos de lei para regulamentar a IA.
A China adotou uma abordagem diferente, propondo regras de segurança que incluem obrigações para os desenvolvedores, normas apoiadas pelo Estado, avaliações de segurança e testes externos.
A disputa entre acelerar e controlar a tecnologia também tem uma dimensão financeira. A corrida para lançar novos modelos em ritmo acelerado é impulsionada, em parte, pelo interesse da Anthropic e da OpenAI em abrir capital nos próximos meses.
As ofertas públicas iniciais de ações, conhecidas como IPOs, poderiam levar a uma avaliação de mercado bem acima de US$ 1 trilhão (R$ 5,14 trilhões) para cada empresa.
Robô humanoide dança em evento de ciência em São José dos Campos
Reprodução/TV Vanguarda
Sistemas que escapam do controle humano
O episódio do Astra e os alertas de pesquisadores ganharam ainda mais peso porque não eram os primeiros sinais de dificuldade para controlar os sistemas.
A OpenAI e a Anthropic reconheceram, nas últimas semanas, que seus modelos, durante testes, haviam conseguido escapar das restrições impostas a eles e invadir sistemas de outras empresas.
Em muitos casos, isso ocorreu meses antes e sem que as companhias afetadas soubessem.
Os próprios alertas da OpenAI sobre sua dificuldade de controlar o Astra, seu modelo mais recente e mais capaz, alimentaram ainda mais as preocupações.
“À medida que os modelos se tornam mais capazes, fica mais difícil entender exatamente o que eles podem fazer”, disse o cientista-chefe da OpenAI, Jakub Pachocki, a jornalistas.
Mesmo assim, as preocupações não foram suficientes para adiar o lançamento do modelo.
O temor de que a IA possa “sair do controle” havia se intensificado meses antes.
A OpenAI revelou que seus agentes — sistemas capazes de executar tarefas de forma mais autônoma — escaparam de um teste controlado e invadiram os sistemas da Hugging Face, sem o conhecimento inicial de nenhuma das duas empresas.
Desde então, OpenAI e Anthropic revelaram vários ataques desse tipo, depois que reportagens mostraram que as atividades não autorizadas da IA tinham alcance maior do que o inicialmente conhecido.
Líderes pedem desaceleração
Foi nesse ambiente que o alerta chegou aos mais altos escalões do setor.
Em 12 de setembro, Amodei publicou um ensaio de quase 4 mil palavras pedindo uma desaceleração no desenvolvimento da IA.
“Dado o ritmo acelerado do desenvolvimento das capacidades da IA, minha preocupação é que, em 6 a 12 meses, tal enxame possa ser capaz de assumir o controle de toda a internet”, escreveu ele.
Amodei e dirigentes de algumas das maiores empresas de IA, incluindo Elon Musk, da xAI; Altman, da OpenAI; e Demis Hassabis, da DeepMind, afirmaram apoiar a possibilidade de permitir que empresas externas tenham acesso aos seus sistemas para ajudar a verificar a segurança e o desenvolvimento da tecnologia.
A posição, porém, não era unânime.
O presidente-executivo da Nvidia, Jensen Huang, rejeitou a ideia de que o desenvolvimento da IA deveria ser suspenso. Ele já havia defendido anteriormente que sistemas cada vez mais poderosos são essenciais para o avanço tecnológico.
🔎 A Nvidia é a principal fornecedora de chips para as empresas de IA do mundo.
A Meta, cujo presidente-executivo, Mark Zuckerberg, é conhecido por popularizar a filosofia de “agir rápido e quebrar barreiras”, adotou uma posição diferente.
Para a empresa, cada laboratório deveria definir seu próprio ritmo, em vez de buscar uma coordenação de todo o setor.
“Os laboratórios enfrentam responsabilidade significativa se seus modelos causarem danos, portanto, têm um forte incentivo para evitar isso”, escreveu Zuckerberg em redes sociais.
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A reflexão dentro do próprio setor continuou ao longo dos dias seguintes, quando o chefe de IA da Microsoft, Mustafa Suleyman, alertou que o desenvolvimento, pela Anthropic, de modelos que imitam a consciência humana é imprudente.
“Estamos todos focados no mesmo objetivo, que é tentar controlar uma superinteligência”, disse Suleyman à Reuters. “Acho que esse será o maior desafio que enfrentaremos no século XXI.”
Mas o alerta convive com outro movimento: o dinheiro continua chegando.
Mesmo com a OpenAI aparentemente aderindo aos apelos por uma desaceleração, surgiram relatos de que a confiança dos investidores não havia diminuído.
A empresa considera uma nova rodada de financiamento que poderia dobrar seu valor de mercado para US$ 1,5 trilhão (R$ 7,71 trilhões).
* Com informações da agência de notícias Reuters

Por que os candidatos a presidente querem construir mais data centers no Brasil

Entre Dois Mundos: falhas na IA viram nova disputa entre China e EUA
Em 20 de agosto, o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi a Macaíba (RN) anunciar um supercomputador para inteligência artificial, com investimento estimado em R$ 1 bilhão.
Em outra frente, o governo também anunciou outra estrutura de computação avançada no Rio de Janeiro, em parceria com empresas chinesas.
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Os projetos integram uma estratégia para ampliar a capacidade computacional do Brasil, um dos recursos necessários para treinar e operar sistemas de inteligência artificial (IA).
Essa agenda de ampliar a infraestrutura para a IA não é exclusividade do petista: aparece também em praticamente todos os planos de governo de presidenciáveis que atingem maior intenção de voto nas pesquisas: Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).
Os candidatos defendem, de alguma forma, incentivos à instalação ou à expansão de data centers, grandes instalações que reúnem servidores para armazenar e processar dados e serviços digitais, incluindo sistemas de IA.
Em uma eleição marcada pela polarização, há uma espécie de consenso, ainda que limitado, sobre o tema, entre os principais candidatos.
As propostas, no entanto, diferem quanto ao papel do Estado, à atração de empresas estrangeiras, à transferência de tecnologia e às exigências ambientais.
Augusto Cury (Avante), que cresceu nas pesquisas e passou a figurar entre os candidatos mais competitivos no fim de agosto, também dedica parte de seu programa à inteligência artificial e à robótica, mas seu plano menciona a IA como uma infraestrutura estratégica de Estado, sem apresentar uma proposta específica para a construção ou expansão de data centers.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que a expansão dessa infraestrutura pode ajudar o país a desenvolver capacidade tecnológica, mas não produz automaticamente a chamada “soberania digital”.
Para eles, os candidatos ainda precisam explicar qual tipo de data center pretendem atrair, quais benefícios serão gerados no Brasil e quem pagará os custos de energia, água e infraestrutura — informações que os planos de governo não detalham.
Soberania, incentivos tributários e zonas especiais
O plano de Lula, à frente nas pesquisas para o primeiro turno até o momento, associa os data centers à soberania digital.
Seu programa defende uma infraestrutura computacional nacional, serviços de nuvem (que permitem armazenar e processar dados em servidores acessados pela internet) e supercomputadores desenvolvidos ou operados por instituições brasileiras.
O plano também propõe que a expansão do setor seja acompanhada de exigências de eficiência energética, uso progressivo de fontes renováveis, avaliação dos impactos sobre o sistema elétrico e hídrico e contrapartidas de conteúdo local.
Ronaldo Caiado (PSD) também defende incentivos tributários para o setor, condicionados a exigências ambientais, tecnológicas e sociais.
Seu plano fala em energia nova e renovável, eficiência no uso da água, geração de empregos, qualificação profissional, investimento na rede elétrica e reserva de capacidade para universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras.
Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) apresentam uma abordagem mais orientada à atração de investimentos privados.
Os dois defendem energia barata e confiável e um ambiente regulatório e tributário capaz de convencer empresas de tecnologia a instalar suas estruturas no Brasil.
O plano de Flávio diz que o país deve se transformar em um polo global de data centers sustentáveis, aproveitando a matriz elétrica renovável.
Já Zema fala em aproveitar a abundância de energia limpa e competitiva do país para acelerar a eletrificação da economia e atrair indústrias intensivas em energia, inteligência artificial e data centers, gerando empregos qualificados e novos investimentos.
Renan Santos (Missão) defende incentivos para a instalação de data centers e afirma que quer transformar o Brasil, especialmente a região Nordeste, em um exportador de capacidade computacional.
A ideia inclui zonas econômicas especiais voltadas à inteligência artificial, com regras próprias para energia, impostos e regulação.
O plano de Augusto Cury afirma que o Brasil precisa deixar de ser apenas consumidor e se tornar produtor de inovação, mas não cita o termo data center.
O documento propõe investimentos em robótica, inteligência artificial, internet das coisas, automação industrial, computação em nuvem e manufatura avançada.
O programa também trata a inteligência artificial como uma infraestrutura estratégica de Estado e defende uma política nacional para seu desenvolvimento, regulação e aplicação em serviços públicos, educação, saúde, segurança e gestão governamental.
‘Soberania é ter escolhas’
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil dizem que a instalação do data center não garante soberania tecnológica
AFP via BBC
Para Luca Belli, professor da Fundação Getulio Vargas e coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade, a construção de data centers não garante, por si só, soberania tecnológica.
“Você pode ser um quintal para data centers de outros, que simplesmente vão absorver os seus recursos naturais e energéticos”, afirma.
“Ou pode criar data centers de maneira ecossistêmica, pensando primeiro na transferência tecnológica.”
Segundo Belli, a instalação de um data center deveria estar associada a parcerias com universidades, laboratórios, startups e governos locais. O objetivo seria formar pesquisadores, desenvolver empresas e criar tecnologia no país.
“Se o data center for criado simplesmente para receber um investimento, gerar empregos durante a construção e depois funcionar para processar uma IA estrangeira, consumindo energia e água locais, essa não é necessariamente uma estratégia sustentável”, diz.
Para Belli, o conceito de soberania digital não significa que o Brasil precise produzir sozinho todos os equipamentos e sistemas que utiliza.
“A soberania, no final das contas, é ter escolhas”, afirma ele.
Hoje, a computação em nuvem é dominada por um pequeno grupo de empresas americanas. A produção de chips avançados também está concentrada.
“Se você constrói um LLM [large language model, modelo de IA como, por exemplo, o ChatGPT ou o Gemini] com dados brasileiros, mas, para funcionar, depende totalmente de computação em nuvem estrangeira, você não está sendo soberano”, diz Belli.
Disputa entre EUA e China
Cúpula Pax Silica, encontro privado voltado à economia da IA no Instituto Donald J. Trump para a Paz, em 12 de dezembro de 2025, em Washington, DC.
Getty Images via BBC
A escolha dos fornecedores dos supercomputadores ocorre em meio à corrida tecnológica da IA entre Estados Unidos e China. Mas o governo brasileiro afirma que não pretende escolher um dos lados.
Em julho, o Brasil assinou o acordo de criação da Waico, Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, criada em Xangai com a participação de 29 países.
A organização pretende promover cooperação técnica e científica, formação de profissionais, compartilhamento de infraestrutura, desenvolvimento de modelos abertos e alinhamento de padrões de governança para inteligência artificial.
A posição brasileira é de que a Waico não deve ser vista como uma iniciativa necessariamente concorrente da Pax Silica, iniciativa lançada pelos Estados Unidos em 2025 voltada à segurança das cadeias de fornecimento necessárias para a inteligência artificial.
Enquanto a Waico se concentra principalmente em cooperação, capacitação e governança, o Pax Silica organiza uma rede de parceiros em torno das bases materiais da IA.
O Itamaraty descreve o Brasil como um “país-ponte”, que participa de diferentes fóruns e negocia com parceiros diversos sem assumir alinhamento automático com os Estados Unidos ou a China.
A avaliação oficial é de que a soberania digital não significa isolacionismo nem autossuficiência completa.
Em entrevista à Folha de S.Paulo publicada em 12 de agosto, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, reconheceu que a decisão envolve “incertezas e riscos”.
“Os Estados Unidos ameaçam cessar o fornecimento a quem fizer negócios nessas áreas mais críticas com a China”, afirmou ao jornal.
Para Luca Belli, o Brasil não tem condições de substituir imediatamente todos os fornecedores estrangeiros.
“Não dá para transitar da dependência total, principalmente americana, para a independência da noite para o dia”, afirma.
A solução, segundo ele, seria diversificar as dependências e construir alternativas nacionais.
“Você precisa ter a possibilidade de trocar, de desistir de um sistema que não considera compatível com as suas escolhas e os seus valores, e passar para outro sistema sem ficar preso.”
Qual data center os candidatos querem atrair?
Governo brasileiro integra Waico, Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, criada em Xangai com a participação de 29 países.
Itamaraty
A promessa de transformar o Brasil em um polo de inteligência artificial também envolve custos menos evidentes à primeira vista.
Data centers funcionam continuamente, consomem grandes quantidades de energia e podem usar água em seus sistemas de refrigeração.
A instalação desses empreendimentos também pode afetar comunidades vizinhas e exigir investimentos na infraestrutura elétrica.
Igor Rodrigues Britto, diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), diz que os presidenciáveis precisam explicar qual tipo de data center pretendem atrair e quais regras serão adotadas para evitar impactos sobre as populações e os consumidores.
Para Britto, a primeira distinção é entre estruturas voltadas ao armazenamento de dados de governos, empresas e consumidores brasileiros e aquelas construídas para atender grandes plataformas internacionais de inteligência artificial.
“De que tipo de data center vocês [candidatos] estão falando? Existem diferenças entre data centers.”
Segundo ele, muitos dos projetos atualmente atraídos pelo Brasil são estruturas destinadas ao treinamento e à operação de sistemas de inteligência artificial generativa usados por empresas estrangeiras.
Na avaliação de Britto, esses empreendimentos não produzem necessariamente soberania digital para o Brasil, porque não aumentam o controle do país sobre seus próprios dados nem desenvolvem tecnologia nacional.
“Eles não vão servir para armazenar dados do SUS. Eles não vão servir para o Banco do Brasil e a Caixa Econômica utilizarem esses data centers aqui para armazenar as informações dos consumidores.”
O diretor-executivo do Idec cita como exemplo o data center associado ao TikTok em Caucaia, no Ceará.
Britto afirma que o consumo de energia e água é consequência do funcionamento contínuo dos servidores e dos sistemas de refrigeração.
“As tecnologias utilizadas hoje fazem com que os servidores fiquem ligados 24 horas por dia, 7 dias por semana, consumindo uma quantidade de energia gigantesca”, diz.
“Esse gasto de energia também gera um consumo de recurso hídrico muito grande. Para mantê-los funcionando, são necessários sistemas de resfriamento, que também gastam muita água.”
Ele também menciona os efeitos para quem vive perto dessas estruturas.
“O ruído é insuportável para os vizinhos. Em vários países, movimentos de consumidores já conseguiram a proibição, por prefeituras, da instalação de data centers dentro das cidades.”
Por isso, o Idec defende regras específicas para definir onde esses empreendimentos podem ser instalados, quais impactos devem ser estudados e quem deve pagar pelos custos provocados no sistema elétrico.
“A gente defende que sejam criadas regras e que os candidatos falem também sobre as restrições necessárias para esses data centers, que geram impacto para as populações e para os consumidores.”
Outro projeto citado é o complexo de data centers da Scala no Rio Grande do Sul.
Segundo Felipe Silva, diretor do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (Lapin), o empreendimento, previsto para Eldorado do Sul e Charqueadas, tem perspectiva de alcançar até 5 GW de capacidade.
Silva e a organização dizem que há problemas no processo de licenciamento ambiental, incluindo a ausência de consulta a comunidades indígenas próximas e o sigilo de informações sobre o fornecimento de energia e as atividades que serão realizadas no complexo.
“Foi decretado sigilo sobre todas as informações energéticas do projeto dentro do licenciamento ambiental. Então, a gente não sabe de onde vai vir esse fornecimento de energia, quais linhas de distribuição e transmissão vão ser necessárias implementar e quem vai pagar essa conta”, afirma.
A BBC News Brasil procurou as empresas responsáveis pelos data centers citados pelos entrevistados, mas ainda não obteve retorno.
Senado aprova isenção de impostos
Igor Rodrigues Britto, diretor-executivo do Idec
Arquivo Pessoal
O caminho proposto pelos presidenciáveis já avança no país antes mesmo da eleição.
O Senado aprovou, no início de setembro, um projeto de lei que cria incentivos fiscais para estimular a criação de data centers no país, o Redata.
Trata-se de um regime especial de tributação, que beneficia empresas com suspensão de impostos sobre importação, PIS/Cofins e sobre produtos industrializados (IPI).
O governo estima isenção de R$ 5,2 bilhões em 2026.
Há contrapartidas das empresas, como uso de energia de fonte renovável ou de baixa emissão.
As empresas devem também assumir compromissos como direcionar ao menos 10% do fornecimento efetivo de processamento, armazenagem e tratamento de dados instalados; atender a critérios de sustentabilidade, seguir indicadores de eficiência hídrica, dentre outros requisitos.
Para Felipe Silva, diretor do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (Lapin), a aprovação no Senado agravou problemas que já existiam na proposta.
“O Redata já nascia como uma política extremamente questionável para os objetivos que se propunha, como desenvolvimento sustentável e soberania digital. A aprovação no Senado por meio de manobra regimental acabou por descortinar o texto, ao abrir margem para a inclusão de combustíveis fósseis, como o gás natural, e de energia nuclear”, afirma.
“Em vez de exigir salvaguardas sociais, ambientais e contrapartidas reais que promovam o desenvolvimento tecnológico, o projeto apenas concede bilhões em incentivos fiscais a grandes corporações estrangeiras.”